FAZER LOGINViktor entrou no escritório de Zayd como se tivesse acabado de engolir veneno.
A porta bateu com força. O terno amassado, a gravata torta, o cabelo bagunçado. O rosto estava vermelho de pura raiva contida. Zayd ergueu os olhos do monitor e imediatamente sentiu o estômago gelar. Conhecia demais aquela expressão. — Viktor o que está acontecendo? Viktor jogou a pasta preta sobre a mesa,os papéis se espalharam como uma sentença. — Acabou. A rede de hospitais,alguém comprou. Zayd se levantou devagar, a voz já baixa e perigosa. — Quem? — Jadson Kasley. O nome ecoou no escritório como um tiro. Zayd ficou em silêncio por dois segundos depois a raiva veio quente e violenta, subindo pelo peito até a garganta. — Aquele filho da puta… Viktor passou a mão pelo rosto, ainda mais irritado. — Eu investiguei Zayd. Fui atrás de tudo,aquele homem não precisava daquela rede. Ele já tem hospitais, clínicas, laboratórios. É conhecido por ter de tudo, ele comprou só porque quis,só para tirar de nós, ele fez isso em questão de horas Zayd, algumas horas caralho. A gente levou três meses de negociação, de noites sem dormir, de quase fechar e o desgraçado resolveu em uma noite. Zayd riu. Um som seco, sem nenhum humor. As mãos estavam cerradas com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos,ele queria matar,queria encontrar Jadson Kasley e esganar o homem com as próprias mãos. — Eu não entendo,a voz saiu rouca, carregada de ódio. — Porquê o homem mais rico e poderoso desse país mira nos meus negócios? A gente nunca se falou,nunca tivemos um único negócio juntos. Eu só ouvi falar dele,histórias,fama,medo e de repente ele decide destruir algo que eu construí durante meses? Por quê? Viktor ficou em silêncio por um momento depois falou, a mandíbula travada. — Sem falta foi o filho da puta do Bruno que fechou o negócio. O braço direito do Jadson,aquele cão de guarda dele. Ninguém move uma peça no Império Kasley sem passar por aquele demônio de sorriso falso. Zayd ergueu o olhar devagar. — Você conhece o Bruno? Viktor desviou o olhar,rápido demais. O gesto foi pequeno, quase imperceptível, mas Zayd viu. O amigo sempre olhava nos olhos quando falava a verdade. — Só ouvi falar dele respondeu Viktor, a voz um pouco rígida demais. — Todo mundo no meio já ouviu. O braço direito do Anjo Negro,o que limpa a sujeira,o que fecha os negócios sem piscar,o que destrói com sorriso no rosto. Zayd ficou observando o amigo por alguns segundos,tinha algo ali. Algo que Viktor não queria falar,mas a raiva ainda queimava forte demais para ele pressionar agora. Guardou a informação no fundo da mente e deixou para lá. — Investiga os dois ordenou a voz cortante. — Jadson Kasley e o cão de guarda dele. Quero saber tudo,cada movimento, cada empresa, cada debilidade,se o Anjo Negro decidiu mirar em mim eu quero saber porquê e quero saber antes que ele faça de novo. Viktor assentiu. — Vou cuidar disso. Zayd voltou a olhar a cidade pela janela, o maxilar travado,a raiva ainda latejando sob a pele. Três meses.Tres meses apagados em algumas horas por um homem que nem precisava daquilo. E agora, ................................................................................................................................. Zayd saiu do escritório sem dizer muita coisa. — Eu preciso espairecer foi a única frase que soltou para Viktor antes de entrar no elevador. O carro o levou direto para a mansão Robson,sempre que o peso ficava grande demais, era para lá que ele voltava. Não para o apartamento,para casa. Para o único lugar onde ainda conseguia respirar sem sentir o mundo inteiro pressionando os ombros. Assim que chegou, não falou com ninguém, simplesmente foi direto para a sala de treino no subsolo. A academia particular da mansão. Espelhos, pesos e o saco de boxe pesado que já conhecia a raiva dele de outras noites. Zayd não se aqueceu,não colocou luvas. Só enrolou as mãos de qualquer jeito e começou a bater. O primeiro soco ecoou alto,o segundo veio logo em seguida depois o terceiro, o quarto, o quinto. O pulmão já queimava, o suor escorria pela testa, mas ele não parou,cada impacto era uma tentativa de expulsar a imagem de Jadson Kasley comprando em horas o que ele construíu durante meses. A raiva queimava por dentro como ácido. —Desgraçado, ele repetia dando socos sem parar. — O que aconteceu filho? A voz de Marcelo soou atrás dele. Zayd não se virou,deu mais cinco socos violentos no saco antes de parar ofegante, as mãos latejando, o peito subindo e descendo com força. Marcelo estava na porta da academia, observando o saco que balançava violentamente, quase como se estivesse sangrando sob os golpes. — Porque está tão nervoso assim? O saco de boxe está quase sangrando com você batendo nele desse jeito. Zayd passou o antebraço suado pela testa e finalmente se virou. A voz saiu rouca. — Eu estava negociando uma rede de hospitais. Três meses. Três meses de reuniões, de noites sem dormir, de quase fechar o maior negócio que eu já construí sozinho e o maldito do Jadson Kasley passou a perna em mim. Adquiriu em algumas horas o que eu levei meses para conquistar. Marcelo franziu a testa, genuinamente surpreso. — Eu não sabia que você estava negociando uma rede de hospitais. — Eu queria fazer uma surpresa, respondeu Zayd a raiva ainda latejando na voz. — Queria chegar aqui e te contar depois de assinado. Queria ver a sua cara quando eu dissesse que a Robson controlava a maior rede privada do Sudeste,mas o filho da puta chegou primeiro. Marcelo ficou quieto.O nome Jadson Kasley pairando no ar fez algo mudar no rosto do velho,ele não disse nada por alguns segundos,apenas observou o filho suado, ofegante, com as mãos marcadas de vermelho depois se aproximou e pousou uma mão firme no ombro de Zayd. — Sinto muito filho,eu sei o quanto você se dedica e isso não foi justo. Zayd soltou uma risada amarga. — Eu não entendo. Nunca cruzei o caminho daquele homem pai,nunca tive um negócio com ele,nunca sequer falei com ele,só ouvi as histórias e de repente ele decide destruir algo que era meu? Por quê? Marcelo apertou o ombro dele com mais força, mas não respondeu. Não tinha resposta que pudesse dar. Zayd ficou mais alguns minutos ali, depois murmurou que precisava de um banho e saiu da academia,os passos dele ecoaram pelo corredor até desaparecerem. Marcelo ficou sozinho pensativo, depois pegou o celular do bolso e discou o número que agora já sabia de cor. A ligação foi atendida na segunda chamada. — Robson, a voz de Jadson saiu baixa, quase preguiçosa. Marcelo não desperdiçou tempo. — Por que você roubou o negócio do meu filho? Do outro lado da linha Jadson riu. Um som baixo, genuíno, quase divertido. — Eu estava entediado Robson,queria brincar um pouco. — Queria brincar?Você é um psicopata Jadson kasley, cuspiu Marcelo. Jadson riu de novo, desta vez mais alto. — Isso é um elogio vindo de você. — Meu filho não vai deixar barato, avisou Marcelo a voz mais baixa e perigosa. — Ele vai investigar você. Vai querer respostas. — Eu sei respondeu Jadson, ainda com o sorriso na voz. — E eu pretendo brincar um pouco mais com o meu futuro maridinho. Vai ser educativo. Marcelo apertou o celular com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Você é um canalha,um psicopata de merda. Depois desligou a chamada antes que Jadson pudesse responder e ficou parado no meio da academia vazia, olhando o saco de boxe que ainda balançava levemente. O jogo tinha começado e o próprio Marcelo tinha colocado o filho bem no centro do tabuleiro.Jadson desceu as escadas da mansão Kasley impecável. Terno preto, camisa aberta no primeiro botão, cabelo solto sobre os ombros. As mãos nos bolsos e cantarolando baixo quase sem melodia, mas o suficiente para qualquer um que o conhecesse sentir o perigo no ar. Bruno já estava na sala de jantar, sentado tomando café preto quando viu o sorriso no rosto do amigo, ergueu uma sobrancelha e largou a xícara. — Esse sorriso…murmurou. Esse sorriso é de quem fez merda. Jadson puxou a cadeira em frente e se sentou com a elegância de sempre. Pegou a xícara que a Ana já tinha deixado pronta. — O Marcelo ligou,disse que o filho está puto da vida e que vai nos investigar. Bruno ficou dois segundos em silêncio,depois explodiu numa gargalhada alta genuína jogando a cabeça para trás. — Eu sabia! Eu sabia que o menino não ia engolir calado. Três meses de trabalho apagados em algumas horas, o orgulho dele deve estar sangrando. Jadson bebeu um gole de café, o sorriso ainda no rosto.
Viktor entrou no escritório de Zayd como se tivesse acabado de engolir veneno. A porta bateu com força. O terno amassado, a gravata torta, o cabelo bagunçado. O rosto estava vermelho de pura raiva contida. Zayd ergueu os olhos do monitor e imediatamente sentiu o estômago gelar. Conhecia demais aquela expressão. — Viktor o que está acontecendo? Viktor jogou a pasta preta sobre a mesa,os papéis se espalharam como uma sentença. — Acabou. A rede de hospitais,alguém comprou. Zayd se levantou devagar, a voz já baixa e perigosa. — Quem? — Jadson Kasley. O nome ecoou no escritório como um tiro. Zayd ficou em silêncio por dois segundos depois a raiva veio quente e violenta, subindo pelo peito até a garganta. — Aquele filho da puta… Viktor passou a mão pelo rosto, ainda mais irritado. — Eu investiguei Zayd. Fui atrás de tudo,aquele homem não precisava daquela rede. Ele já tem hospitais, clínicas, laboratórios. É conhecido por ter de tudo, ele comprou só porque quis,só
Bruno entrou no escritório de Jadson como uma tempestade controlada. A porta do último andar do Império Kasley bateu com força contra a parede de madeira escura, o som ecoando pelo espaço amplo e silencioso. O carpete grosso abafou os passos seguintes, mas a energia que ele trazia era impossível de ignorar. Camisa preta arregaçada nos antebraços, gravata frouxa, cabelo um pouco bagunçado de tanto passar a mão sinal claro de que a investigação tinha sido pessoal. Jadson estava sentado atrás da mesa imensa, as luzes da cidade entrando pelas janelas do chão ao teto atrás dele. O monitor à frente mostrava relatórios financeiros, mas ele ergueu o olhar no mesmo instante em que Bruno cruzou a porta,não precisou de cumprimentos. — Você tem cara de quem encontrou algo podre disse Jadson a voz baixa quase preguiçosa. Bruno não respondeu de imediato,caminhou até a mesa e jogou a pasta preta fina sobre a madeira com um estrondo seco. O impacto fez o copo de whisky de Jadson tremer l
Zayd Robson acordou com o sol filtrando pelas cortinas pesadas do apartamento,o quarto ainda cheirava a perfume dela e a sexo da noite anterior. Letícia estava enroscada nele a cabeça apoiada no peito, uma perna jogada sobre a coxa dele, o cabelo bagunçado espalhado pela pele. Zayd ficou alguns segundos só observando,o jeito que ela respirava devagar,o lábio inferior um pouco inchado de tanto beijar,a mão dela ainda descansava sobre o peito dele como se, mesmo dormindo não quisesse soltar. Ele sorriu de canto e puxou-a um pouco mais para perto. O apartamento no último andar do edifício mais alto da avenida era o refúgio dos dois, dele e de Viktor. Tinham escolhido morar ali porque ficava a poucos minutos do escritório, dos restaurantes, da vida. A única condição que Marcelo impôs era clara,pelo menos uma vez por semana os dois voltavam para a mansão Robson. Almoço de domingo,jantar no meio da semana,nada negociável. Letícia se mexeu murmurando contra o peito dele. — Hmm… b
O cheiro de sangue e suor encharcado misturava-se ao ar denso do porão subterrâneo da mansão Kasley. As luzes fluorescentes piscavam de forma irregular, projetando sombras longas nas paredes de concreto úmido. Jadson Kasley estava sentado numa cadeira de couro preto, pernas cruzadas, terno impecável preto, claro, o cotovelo apoiado no joelho e o queixo descansando nos dedos. Parecia um homem que acabara de sair de uma reunião de conselho, não alguém que estava prestes a decidir se outro ser humano continuaria respirando. À sua frente ajoelhado e amarrado a uma cadeira de ferro, estava Ricardo “Rico” Mendes, 34 anos, ex-contador de confiança do Anjo Negro. O rosto estava inchado, o lábio inferior partido e uma linha fina de sangue escorria do canto da boca até o queixo. As mãos tremiam tanto que as cordas rangiam — Você… você não precisa fazer isso senhor gaguejou Rico a voz embargada. — Eu… eu posso devolver o dinheiro. Tudo com juros,eu juro por Deus. Jadson ergueu apenas um