Inicio / Romance / O domador: A Indomavel / capitulo 3 : A Carta

Compartir

capitulo 3 : A Carta

Autor: Gali
last update Fecha de publicación: 2026-02-01 03:37:55

A carruagem abranda junto ao portão dos fundos. Reconheço o rangido discreto da madeira, o som abafado dos cascos a parar, o silêncio calculado daquele acesso que sempre me serviu de refúgio. A porta abre-se e desço depressa, o casaco ainda apertado ao corpo, o capuz puxado para a frente.

A camareira espera-me, fiel como sempre. Aproxima-se sem dizer palavra, apenas com um olhar rápido à volta, garantindo que ninguém nos observa.

— Pensei que a senhora já não vinha… — murmura, em tom baixo.

— O baile prolongou-se — respondo secamente.

Ela fecha o portão atrás de nós e seguimos pelo caminho lateral até à mansão. Entramos em silêncio, subimos as escadas como tantas outras vezes, guiadas apenas pela luz ténue dos candelabros.

Ao abrir a porta do meu quarto, sinto o corpo prender-se.

A governanta está à minha espera.

Encontra-se de pé, junto à secretária, as mãos cruzadas à frente do corpo, o rosto rígido, iluminado pela luz de uma vela. O olhar pousa em mim como um julgamento antigo e pesado.

— Espere lá fora — diz à camareira, sem sequer lhe dirigir o olhar.

A camareira hesita, olha-me por um instante, mas acaba por obedecer. A porta fecha-se atrás de nós com um som seco.

— Isto é inadmissível — começa a governanta, sem rodeios. — Absolutamente indigno de uma lady. Sair sozinha, a estas horas, desacompanhada, sem qualquer consideração pelo nome que carrega.

Desaperto o casaco e pouso-o lentamente sobre a cadeira. Não digo nada.

— Sabe muito bem o que poderia ter acontecido — continua. — Poderia ter sido vista, seguida, colocada em risco. Uma desgraça dessas não teria conserto.

— Estou inteira — respondo friamente. — Como sempre.

— Não se trata apenas do seu corpo — rebate ela. — Trata-se da sua reputação, do seu futuro, do que ainda resta do legado dos seus pais.

Viro-me então para ela.

— Não invoque os meus pais como arma — digo, num tom controlado, mas firme.

Ela suspira, como quem carrega um peso antigo.

— Eu cuidei de si desde a morte deles — diz. — Protegi-a quando ninguém mais o faria. O seu tio queria casá-la aos quinze anos, Léonor, quinze. Um acordo horrível, apressado, apenas para assegurar que a herança não lhe escapava das mãos.

Sinto o estômago apertar-se.

— Lembro-me dessa época… — murmuro.

— Foi por isso que entrámos num acordo — prossegue. — Eu ficaria com a sua tutela até que amadurecesse, até que se casasse como convém. Para a proteger. Para preservar o que os seus pais lhe deixaram.

Caminho lentamente até à janela, abro ligeiramente as cortinas, deixando entrar a luz pálida da lua.

— Recebeu mais alguma carta dos meus tios? — pergunto, sem me virar.

O silêncio instala-se por um segundo.

Depois ouço o som de papel a ser movido.

— Sim — responde ela. — Foi precisamente por isso que vim ao seu quarto… e não a encontrei.

Estende-me um envelope.

Pego nele e reconheço de imediato a caligrafia dura e formal. Abro a carta e começo a ler, em voz alta, como se cada palavra precisasse de ser dita:

“Senhorita Léonor Alencourt,

Recordamos-lhe que o acordo estabelecido após a morte de seus pais permanece em vigor. Caso não contraia matrimónio num prazo máximo de um ano, a totalidade da herança será transferida para o seu tio legal, conforme estipulado. Consideramos que tempo suficiente lhe foi concedido.”

Baixo lentamente a carta.

O quarto parece mais pequeno, mais apertado.

— Isto é chantagem — digo, sentindo o sangue ferver.

— Dona Léonor, por favor… — começa a governanta.

— Não — corto de imediato. — Não agora.

O tom da minha voz eleva-se, sem que eu o planeie.

— Estou cansada de ser tratada como moeda de troca! Cansada de ultimatos, de prazos, de decisões tomadas sobre a minha vida como se eu não existisse!

Ela abre a boca para responder, mas levanto a mão.

— Falaremos amanhã — digo firmemente. — Amanhã, com a cabeça fria. Esta conversa termina aqui.

A governanta observa-me por longos segundos. Vejo ali preocupação, mas também uma rigidez que nunca aprendeu a largar.

— Muito bem — responde por fim. — Amanhã.

A camareira ajuda-me a despir o vestido com cuidado, soltando lentamente os botões, libertando-me do peso do tecido e das exigências do mundo que ele representa. As joias são retiradas uma a uma e pousadas sobre a cómoda, onde brilham ainda sob a luz trémula da vela. Por fim, ajuda-me a vestir a camisa de noite, simples, longa, feita de tecido leve, apropriada à compostura que sempre se esperou de mim, mesmo dentro da intimidade do meu próprio quarto.

Quando fico sozinha, sento-me na beira da cama por um instante. O silêncio envolve-me, mas não me tranquiliza. Deito-me sem demora, apago a vela e fecho os olhos, tentando ordenar os pensamentos, mas eles regressam, insistentes. A conversa com a governanta, as palavras da carta, o prazo imposto, a sensação constante de estar encurralada por decisões que nunca foram verdadeiramente minhas.

Antes de adormecer, dei por mim a pensar também em Henry Ashford, no seu ar petulante e excessivamente confiante, na forma como falava como se o mundo lhe devesse obediência, algo que me desagradou desde o primeiro instante, mas que eu não podia negar estar associado a um nome sólido, a um estatuto claro e a tudo aquilo que a sociedade ainda esperava de mim, deixando-me com a incómoda sensação de que, gostasse ou não, ele representava o tipo de futuro que me estavam a tentar impor.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • O domador: A Indomavel   Capitulo 28: Um mar de mentiras

    Saio do gabinete do detetive com a sensação de que o meu mundo pode desabar a qualquer momento.Assim que desço as escadas, sinto novamente os olhares. Não são discretos, são diretos, avaliadores, julgadores.Caminho com a postura erguida, mas por dentro estou a desmoronar.As palavras do detetive ecoam na minha mente.Arthur William Carter.William…O nome que conheci primeiro, o estranho que me encantou.Continuo a andar até ao ponto onde a carruagem me deixou. Cada passo parece aproximar-me cada vez mais da verdade.Sinto-me tola, impulsiva, ingénua.Casei-me sem perguntar quem ele era, deixei que o coração falasse mais alto do que a prudência.Como pude?Quando tiver todas as informações, falarei abertamente com o meu marido… será que ainda o devo chamar assim?Só lhe direi a verdade quando tiver provas concretas.Fecho os olhos por um instante.Peço a Deus que ele não esteja a enganar-me.Não suportaria a sua traição, não depois de tudo o que vivemos, de todos os momentos. De tud

  • O domador: A Indomavel   Capitulo 27 : O detetive

    Acordo sentindo a preocupação pesar, sufocar-me. Arthur ainda dorme quando me levanto. Observo-o por alguns segundos, calmo, alheio ao peso que começa a instalar-se no meu peito. Não o acordo. Não quero justificar a minha saída. Se lhe disser que vou à cidade sozinha, tentará impedir-me. E eu preciso de respostas. Visto-me com simplicidade, o suficiente para não levantar suspeitas. Não peço ajuda a Lucy, para não a alarmar. Já faz muito tempo que não vou à cidade. Prefiro a calmaria dos meus campos, os meus jardins floridos, sem comentários desnecessários nem olhares constrangedores. Antes de sair da casa do capataz, olho uma última vez para Arthur. O cocheiro deixa-me na praça principal, e eu ordeno que volte dentro de uma hora. Assim que desço da carruagem, sinto os olhares sobre mim. Primeiro, apenas observam. Depois, cochicham. Por fim, afastam-se. Murmúrios. E a sensação de mal-estar que provoco quando passo. Caminho devagar, mantendo a postura erguida. Não darei a nin

  • O domador: A Indomavel   Capitulo 26: O preço da escolha

    O crepúsculo sempre foi o meu momento favorito do dia. A transição. O instante em que a luz é envolta na obscuridade da noite. Arthur está atrás de mim, deitado na relva, com os braços atrás da cabeça, a observar-me como se eu fosse parte da paisagem. — Estás silenciosa — diz ele, por fim. Sorrio, mas não me viro. — Só estou a apreciar o momento. Ele levanta-se, aproxima-se e envolve-me pela cintura, encostando o queixo ao meu ombro. — Quando ficas assim pensativa, parece que estás longe de mim. Fecho os olhos por um instante. Não quero mentir-lhe. Mas também não quero destruir o nosso matrimônio. — Não estou longe… — murmuro. — Só tenho medo que esta felicidade seja frágil. Ele roda-me suavemente para que eu fique frente a frente com ele. — Olha para mim, Léonor. Obedeço. — Nada do que vivemos é frágil. Eu escolhi-te. Tu escolheste-me. O resto… não me importa. O resto? Será que o nosso casamento irá suportar as expectativas, os olhares da sociedade e, sob

  • O domador: A Indomavel   Capitulo 25 : Lua de mel

    Os dias da nossa lua de mel passam num piscar de olhos.Sem horários, sem obrigações, sem olhares curiosos. Apenas nós dois e a liberdade de viver o nosso amor.Numa tarde quente, entro na biblioteca da mansão para procurar um livro. O cheiro a papel antigo e madeira polida envolve-me, trazendo uma sensação de calma.Passo os dedos pelas lombadas dos livros, distraída, até sentir duas mãos firmes pousarem na minha cintura.O meu coração dispara antes mesmo de me virar.— Arthur… — murmuro, sorrindo.— Ando à tua procura pela casa inteira — diz ele, aproximando-se do meu ouvido. — E encontro-te aqui… escondida entre livros.— Não estava escondida… só queria ler um pouco.Ele ri baixinho.— Prefiro escrever a nossa própria história.Arthur puxa-me suavemente para si. As minhas costas encostam-se a uma das estantes, e os seus lábios encontram os meus. O beijo começa lento, mas rapidamente se torna mais profundo, mais urgente.O silêncio da biblioteca torna o momento ainda mais intenso. C

  • O domador: A Indomavel   Capitulo 24 : Um mar de rosas

    Acordo e, de rompante, olho para ele, para ter a certeza de que é real, de que está ao meu lado. O seu rosto está sereno e lindo. Como não vi a sua beleza antes? Falo da beleza interior, do homem maravilhoso que Arthur é, da sua índole. Não podia ter escolhido melhor marido. Observo-o durante alguns minutos, até que Arthur começa a despertar pouco a pouco. — Bom dia, meu amor… — digo, num sorriso cheio de emoção. — Bom dia, minha esposa… — responde também em tom baixo. Aconchego-me ao seu corpo. — Dormiste bem? — pergunta o meu marido. — Dormi tão bem… — digo com um sorriso que, mesmo Arthur não podendo ver, ele sente na minha voz. — O que a minha esposa gostaria de fazer hoje? Estamos em lua de mel, quero satisfazer todos os seus caprichos — diz, beijando a minha cabeça. — Em primeiro lugar, quero… tomar um banho com o meu marido… — É uma boa ideia… Arthur pega-me no colo e leva-me até à banheira. De seguida, enche-a de água quente e começa a despir-me. O

  • O domador: A Indomavel   Capitulo 23 : O meu esposo Arthur

    Saímos da tenda ainda de mãos dadas, como se tivéssemos medo de que o mundo nos separe a qualquer momento.O jardim parece diferente.O sol atravessa as folhas húmidas, fazendo-as brilhar como pequenas joias. O cheiro a terra molhada sobe do chão e mistura-se com o perfume das flores. Tudo parece mais vivo, mais intenso… como se o mundo tivesse mudado juntamente connosco.Ou talvez sejamos nós que mudamos.Arthur olha para mim, ainda com aquele brilho nos olhos.— Então, minha esposa… — diz ele, num tom baixo, quase divertido. — Para onde vamos agora?A palavra esposa faz o meu coração acelerar. Ainda soa estranho… e ao mesmo tempo, encaixa-se perfeitamente.Sorrio.— Para casa.Ele levanta uma sobrancelha.— Para a mansão?Abano a cabeça devagar.— Não. Para a tua casa… para a casa do capataz.Quero ficar lá contigo. Sem criados, sem regras, sem olhares… só nós.Arthur fica em silêncio por um instante, como se queira ter a certeza de que ouviu bem.— Tens a certeza, Dona Léonor?Eu p

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status