INICIAR SESIÓNA carruagem abranda junto ao portão dos fundos. Reconheço o rangido discreto da madeira, o som abafado dos cascos a parar, o silêncio calculado daquele acesso que sempre me serviu de refúgio. A porta abre-se e desço depressa, o casaco ainda apertado ao corpo, o capuz puxado para a frente.
A camareira espera-me, fiel como sempre. Aproxima-se sem dizer palavra, apenas com um olhar rápido à volta, garantindo que ninguém nos observa. — Pensei que a senhora já não vinha… — murmura, em tom baixo. — O baile prolongou-se — respondo secamente. Ela fecha o portão atrás de nós e seguimos pelo caminho lateral até à mansão. Entramos em silêncio, subimos as escadas como tantas outras vezes, guiadas apenas pela luz ténue dos candelabros. Ao abrir a porta do meu quarto, sinto o corpo prender-se. A governanta está à minha espera. Encontra-se de pé, junto à secretária, as mãos cruzadas à frente do corpo, o rosto rígido, iluminado pela luz de uma vela. O olhar pousa em mim como um julgamento antigo e pesado. — Espere lá fora — diz à camareira, sem sequer lhe dirigir o olhar. A camareira hesita, olha-me por um instante, mas acaba por obedecer. A porta fecha-se atrás de nós com um som seco. — Isto é inadmissível — começa a governanta, sem rodeios. — Absolutamente indigno de uma lady. Sair sozinha, a estas horas, desacompanhada, sem qualquer consideração pelo nome que carrega. Desaperto o casaco e pouso-o lentamente sobre a cadeira. Não digo nada. — Sabe muito bem o que poderia ter acontecido — continua. — Poderia ter sido vista, seguida, colocada em risco. Uma desgraça dessas não teria conserto. — Estou inteira — respondo friamente. — Como sempre. — Não se trata apenas do seu corpo — rebate ela. — Trata-se da sua reputação, do seu futuro, do que ainda resta do legado dos seus pais. Viro-me então para ela. — Não invoque os meus pais como arma — digo, num tom controlado, mas firme. Ela suspira, como quem carrega um peso antigo. — Eu cuidei de si desde a morte deles — diz. — Protegi-a quando ninguém mais o faria. O seu tio queria casá-la aos quinze anos, Léonor, quinze. Um acordo horrível, apressado, apenas para assegurar que a herança não lhe escapava das mãos. Sinto o estômago apertar-se. — Lembro-me dessa época… — murmuro. — Foi por isso que entrámos num acordo — prossegue. — Eu ficaria com a sua tutela até que amadurecesse, até que se casasse como convém. Para a proteger. Para preservar o que os seus pais lhe deixaram. Caminho lentamente até à janela, abro ligeiramente as cortinas, deixando entrar a luz pálida da lua. — Recebeu mais alguma carta dos meus tios? — pergunto, sem me virar. O silêncio instala-se por um segundo. Depois ouço o som de papel a ser movido. — Sim — responde ela. — Foi precisamente por isso que vim ao seu quarto… e não a encontrei. Estende-me um envelope. Pego nele e reconheço de imediato a caligrafia dura e formal. Abro a carta e começo a ler, em voz alta, como se cada palavra precisasse de ser dita: “Senhorita Léonor Alencourt, Recordamos-lhe que o acordo estabelecido após a morte de seus pais permanece em vigor. Caso não contraia matrimónio num prazo máximo de um ano, a totalidade da herança será transferida para o seu tio legal, conforme estipulado. Consideramos que tempo suficiente lhe foi concedido.” Baixo lentamente a carta. O quarto parece mais pequeno, mais apertado. — Isto é chantagem — digo, sentindo o sangue ferver. — Dona Léonor, por favor… — começa a governanta. — Não — corto de imediato. — Não agora. O tom da minha voz eleva-se, sem que eu o planeie. — Estou cansada de ser tratada como moeda de troca! Cansada de ultimatos, de prazos, de decisões tomadas sobre a minha vida como se eu não existisse! Ela abre a boca para responder, mas levanto a mão. — Falaremos amanhã — digo firmemente. — Amanhã, com a cabeça fria. Esta conversa termina aqui. A governanta observa-me por longos segundos. Vejo ali preocupação, mas também uma rigidez que nunca aprendeu a largar. — Muito bem — responde por fim. — Amanhã. A camareira ajuda-me a despir o vestido com cuidado, soltando lentamente os botões, libertando-me do peso do tecido e das exigências do mundo que ele representa. As joias são retiradas uma a uma e pousadas sobre a cómoda, onde brilham ainda sob a luz trémula da vela. Por fim, ajuda-me a vestir a camisa de noite, simples, longa, feita de tecido leve, apropriada à compostura que sempre se esperou de mim, mesmo dentro da intimidade do meu próprio quarto. Quando fico sozinha, sento-me na beira da cama por um instante. O silêncio envolve-me, mas não me tranquiliza. Deito-me sem demora, apago a vela e fecho os olhos, tentando ordenar os pensamentos, mas eles regressam, insistentes. A conversa com a governanta, as palavras da carta, o prazo imposto, a sensação constante de estar encurralada por decisões que nunca foram verdadeiramente minhas. Antes de adormecer, dei por mim a pensar também em Henry Ashford, no seu ar petulante e excessivamente confiante, na forma como falava como se o mundo lhe devesse obediência, algo que me desagradou desde o primeiro instante, mas que eu não podia negar estar associado a um nome sólido, a um estatuto claro e a tudo aquilo que a sociedade ainda esperava de mim, deixando-me com a incómoda sensação de que, gostasse ou não, ele representava o tipo de futuro que me estavam a tentar impor.Saio do gabinete do detetive com a sensação de que o meu mundo pode desabar a qualquer momento.Assim que desço as escadas, sinto novamente os olhares. Não são discretos, são diretos, avaliadores, julgadores.Caminho com a postura erguida, mas por dentro estou a desmoronar.As palavras do detetive ecoam na minha mente.Arthur William Carter.William…O nome que conheci primeiro, o estranho que me encantou.Continuo a andar até ao ponto onde a carruagem me deixou. Cada passo parece aproximar-me cada vez mais da verdade.Sinto-me tola, impulsiva, ingénua.Casei-me sem perguntar quem ele era, deixei que o coração falasse mais alto do que a prudência.Como pude?Quando tiver todas as informações, falarei abertamente com o meu marido… será que ainda o devo chamar assim?Só lhe direi a verdade quando tiver provas concretas.Fecho os olhos por um instante.Peço a Deus que ele não esteja a enganar-me.Não suportaria a sua traição, não depois de tudo o que vivemos, de todos os momentos. De tud
Acordo sentindo a preocupação pesar, sufocar-me. Arthur ainda dorme quando me levanto. Observo-o por alguns segundos, calmo, alheio ao peso que começa a instalar-se no meu peito. Não o acordo. Não quero justificar a minha saída. Se lhe disser que vou à cidade sozinha, tentará impedir-me. E eu preciso de respostas. Visto-me com simplicidade, o suficiente para não levantar suspeitas. Não peço ajuda a Lucy, para não a alarmar. Já faz muito tempo que não vou à cidade. Prefiro a calmaria dos meus campos, os meus jardins floridos, sem comentários desnecessários nem olhares constrangedores. Antes de sair da casa do capataz, olho uma última vez para Arthur. O cocheiro deixa-me na praça principal, e eu ordeno que volte dentro de uma hora. Assim que desço da carruagem, sinto os olhares sobre mim. Primeiro, apenas observam. Depois, cochicham. Por fim, afastam-se. Murmúrios. E a sensação de mal-estar que provoco quando passo. Caminho devagar, mantendo a postura erguida. Não darei a nin
O crepúsculo sempre foi o meu momento favorito do dia. A transição. O instante em que a luz é envolta na obscuridade da noite. Arthur está atrás de mim, deitado na relva, com os braços atrás da cabeça, a observar-me como se eu fosse parte da paisagem. — Estás silenciosa — diz ele, por fim. Sorrio, mas não me viro. — Só estou a apreciar o momento. Ele levanta-se, aproxima-se e envolve-me pela cintura, encostando o queixo ao meu ombro. — Quando ficas assim pensativa, parece que estás longe de mim. Fecho os olhos por um instante. Não quero mentir-lhe. Mas também não quero destruir o nosso matrimônio. — Não estou longe… — murmuro. — Só tenho medo que esta felicidade seja frágil. Ele roda-me suavemente para que eu fique frente a frente com ele. — Olha para mim, Léonor. Obedeço. — Nada do que vivemos é frágil. Eu escolhi-te. Tu escolheste-me. O resto… não me importa. O resto? Será que o nosso casamento irá suportar as expectativas, os olhares da sociedade e, sob
Os dias da nossa lua de mel passam num piscar de olhos.Sem horários, sem obrigações, sem olhares curiosos. Apenas nós dois e a liberdade de viver o nosso amor.Numa tarde quente, entro na biblioteca da mansão para procurar um livro. O cheiro a papel antigo e madeira polida envolve-me, trazendo uma sensação de calma.Passo os dedos pelas lombadas dos livros, distraída, até sentir duas mãos firmes pousarem na minha cintura.O meu coração dispara antes mesmo de me virar.— Arthur… — murmuro, sorrindo.— Ando à tua procura pela casa inteira — diz ele, aproximando-se do meu ouvido. — E encontro-te aqui… escondida entre livros.— Não estava escondida… só queria ler um pouco.Ele ri baixinho.— Prefiro escrever a nossa própria história.Arthur puxa-me suavemente para si. As minhas costas encostam-se a uma das estantes, e os seus lábios encontram os meus. O beijo começa lento, mas rapidamente se torna mais profundo, mais urgente.O silêncio da biblioteca torna o momento ainda mais intenso. C
Acordo e, de rompante, olho para ele, para ter a certeza de que é real, de que está ao meu lado. O seu rosto está sereno e lindo. Como não vi a sua beleza antes? Falo da beleza interior, do homem maravilhoso que Arthur é, da sua índole. Não podia ter escolhido melhor marido. Observo-o durante alguns minutos, até que Arthur começa a despertar pouco a pouco. — Bom dia, meu amor… — digo, num sorriso cheio de emoção. — Bom dia, minha esposa… — responde também em tom baixo. Aconchego-me ao seu corpo. — Dormiste bem? — pergunta o meu marido. — Dormi tão bem… — digo com um sorriso que, mesmo Arthur não podendo ver, ele sente na minha voz. — O que a minha esposa gostaria de fazer hoje? Estamos em lua de mel, quero satisfazer todos os seus caprichos — diz, beijando a minha cabeça. — Em primeiro lugar, quero… tomar um banho com o meu marido… — É uma boa ideia… Arthur pega-me no colo e leva-me até à banheira. De seguida, enche-a de água quente e começa a despir-me. O
Saímos da tenda ainda de mãos dadas, como se tivéssemos medo de que o mundo nos separe a qualquer momento.O jardim parece diferente.O sol atravessa as folhas húmidas, fazendo-as brilhar como pequenas joias. O cheiro a terra molhada sobe do chão e mistura-se com o perfume das flores. Tudo parece mais vivo, mais intenso… como se o mundo tivesse mudado juntamente connosco.Ou talvez sejamos nós que mudamos.Arthur olha para mim, ainda com aquele brilho nos olhos.— Então, minha esposa… — diz ele, num tom baixo, quase divertido. — Para onde vamos agora?A palavra esposa faz o meu coração acelerar. Ainda soa estranho… e ao mesmo tempo, encaixa-se perfeitamente.Sorrio.— Para casa.Ele levanta uma sobrancelha.— Para a mansão?Abano a cabeça devagar.— Não. Para a tua casa… para a casa do capataz.Quero ficar lá contigo. Sem criados, sem regras, sem olhares… só nós.Arthur fica em silêncio por um instante, como se queira ter a certeza de que ouviu bem.— Tens a certeza, Dona Léonor?Eu p







