LOGINAcordo sentindo a preocupação pesar, sufocar-me.
Arthur ainda dorme quando me levanto. Observo-o por alguns segundos, calmo, alheio ao peso que começa a instalar-se no meu peito. Não o acordo. Não quero justificar a minha saída. Se lhe disser que vou à cidade sozinha, tentará impedir-me. E eu preciso de respostas. Visto-me com simplicidade, o suficiente para não levantar suspeitas. Não peço ajuda a Lucy, para não a alarmar. Já faz muito tempo que não vou à cidade. Prefiro a calmaria dos meus campos, dos meus jardins floridos, sem comentários desnecessários nem olhares constrangedores. Antes de sair da casa do capataz, olho uma última vez para Arthur. O cocheiro deixa-me na praça principal, e eu ordeno que volte dentro de uma hora. Assim que desço da carruagem, sinto os olhares sobre mim. Primeiro, apenas observam. Depois, cochicham e, por fim, afastam-se. Caminho devagar, mantendo a postura erguida. Não darei a ninguém o prazer de me ver encolhida. Duas senhoras, que conversam animadamente junto à chapelaria, interrompem-se quando passo. Uma segura o braço da outra e murmura algo ao ouvido. Ambas me olham como se eu fosse uma curiosidade indecente. O meu coração b**e mais rápido. Continuo. Um grupo de homens à porta da taberna cala-se subitamente. Um deles solta um riso baixo. — É ela… — ouço claramente. Ela? Não me chamam Léonor, nem senhora, apenas ela. Tenho a sensação de que a cidade inteira sabe algo que eu desconheço. Tento convencer-me de que é imaginação. Decido entrar na confeitaria da rua principal. O sino acima da porta toca quando entro. O cheiro a açúcar e pão quente costuma trazer-me conforto. Mas, neste instante, até o aroma me deixa enjoada. A senhora atrás do balcão ergue o olhar e reconhece-me. A expressão muda imediatamente. Endireita-se. — Bom dia — cumprimento, mantendo a voz firme. — Gostaria de alguns pastéis de amêndoa, por favor. Ela hesita. O silêncio prolonga-se. — Lamento, minha senhora… mas… — começa, evitando olhar-me diretamente — hoje não podemos servi-la. Pisco os olhos, confusa. — Desculpe? — Recebemos ordens… Sinto o sangue gelar. — Ordens de quem? A mulher engole em seco. — Não me compete dizer. O meu orgulho luta contra a humilhação que começa a subir-me ao rosto. — Está a recusar-se a vender-me pão? — pergunto, incrédula. Nesse momento, duas jovens que estão sentadas a uma mesa levantam-se discretamente e saem, como se a minha presença contaminasse o espaço. A senhora do balcão baixa a voz. — É melhor que compreenda… há comentários a circular. A sua reputação… A palavra atinge-me como uma bofetada. Reputação. Saio da confeitaria sem dizer mais nada, mas começo a entender o que se passa. Sinto-me exposta, vulnerável, observada. A certeza forma-se dentro de mim como um nó apertado. Henry não gritou, não ameaçou, mas prometeu que não terminaria ali. E agora cumpre. Talvez até o meu tio esteja envolvido também. Respiro fundo. Ainda tenho um destino: encontrar um detetive. Caminho até à rua mais afastada do centro, onde os estabelecimentos são menos vistosos e as pessoas menos curiosas — ou pelo menos fingem melhor. O escritório fica no segundo andar de um prédio discreto, com uma placa pequena e quase apagada: Investigação e Assuntos Privados. Subo as escadas sentindo cada degrau como uma transgressão. Nunca imaginei que pisaria um lugar assim. Bato à porta. — Entre. — responde uma voz grave do outro lado. Aperto a maçaneta. Se a cidade inteira já me julga, então ao menos quero saber a verdade. Porque, neste momento, compreendo algo com uma clareza dolorosa: O preço da minha escolha não se paga apenas dentro de casa. Paga-se nas ruas, nos olhares e nas portas fechadas. E isto é apenas o começo. A porta range quando a empurro. O gabinete é mais pequeno do que imagino. O ar cheira a tabaco antigo e papel envelhecido. A luz entra por uma única janela alta, filtrada por cortinas pesadas de veludo escuro. Faixas douradas recortam o chão de madeira gasta. No centro, uma secretária robusta de carvalho escuro domina o espaço. Sobre ela repousam pilhas organizadas de documentos, um tinteiro de vidro, uma pena apoiada num suporte metálico e um relógio de bolso aberto. Atrás da secretária, uma estante ocupa a parede inteira. Pastas numeradas, caixas etiquetadas, livros de capa grossa. Tudo meticulosamente ordenado. À esquerda, duas cadeiras simples aguardam visitantes. Fecho a porta atrás de mim. O homem levanta-se. Alto, postura firme, cabelos escuros com fios grisalhos nas têmporas. O olhar é atento, avaliador. — Faça o favor de se sentar. Aproximo-me devagar e sento-me. As mãos repousam no colo para esconder o leve tremor. Ele contorna a secretária e senta-se. Observa-me por alguns segundos antes de falar. — Confesso que estou surpreendido. Não é comum receber uma lady desacompanhada. Normalmente são os homens que procuram os meus serviços. Inclina ligeiramente a cabeça. — Em que posso ajudá-la, dona…? — Dona Léonor. Ele repete lentamente: — Da família Alencourt? O meu coração aperta. — Sim. Ele recosta-se na cadeira. — Não é um nome que se ouça por acaso. Respiro fundo. — Quero que descubra tudo o que puder sobre o Conde Henry Ashford e sobre Arthur, o meu esposo. Ele pega na pena e começa a escrever. — Conde Henry… — murmura. Quando digo “Arthur”, a pena abranda ligeiramente, mas continua a escrever. — O seu nome completo é Arthur William Carter. O meu coração dispara. William… Carter… No baile, ele apresentou-se apenas como William Carter. Nunca mencionou Arthur. Nunca me disse que William não era o primeiro nome. Arthur William Carter. Sinto um arrepio percorrer-me a espinha. Ele não mentiu, mas também não disse a verdade completa. — Presumo que conheceu o seu marido por outro nome? — pergunta o detetive, atento à mudança na minha expressão. Engulo em seco. No baile conheci William, É muita coincidencia que os dois tenham nomes iguais. E eu nunca questionei, não tive interesse em saber da sua vida antes de chegar à mansão. O detetive volta a olhar para o documento. — Não há irregularidades formais no registo — diz calmamente. — Está legalmente casada com Arthur William Carter. Legalmente. Mas quem é ele? Arthur… ou William? Porque escolheu apresentar-se pelo segundo nome naquela noite? Porquê ocultar o primeiro? A dúvida instala-se como uma sombra. Não é uma mentira direta, é algo pior. Levanto o olhar lentamente. — Quero que descubra tudo — digo, agora com mais firmeza. — Tudo o que houver sobre Arthur William Carter. O detetive fecha o documento com cuidado. — Nesse caso, Dona Léonor… prepare-se para não gostar do que pode encontrar. O meu peito aperta. Talvez ele tenha razão. Porque, pela primeira vez, começo a perceber que não me casei apenas com um homem, casei-me com um mistério. E algo dentro de mim sussurra que há uma parte da história que ele nunca quis que eu soubesse.Saio do gabinete do detetive com a sensação de que o meu mundo pode desabar a qualquer momento.Assim que desço as escadas, sinto novamente os olhares. Não são discretos, são diretos, avaliadores, julgadores.Caminho com a postura erguida, mas por dentro estou a desmoronar.As palavras do detetive ecoam na minha mente.Arthur William Carter.William…O nome que conheci primeiro, o estranho que me encantou.Continuo a andar até ao ponto onde a carruagem me deixou. Cada passo parece aproximar-me cada vez mais da verdade.Sinto-me tola, impulsiva, ingénua.Casei-me sem perguntar quem ele era, deixei que o coração falasse mais alto do que a prudência.Como pude?Quando tiver todas as informações, falarei abertamente com o meu marido… será que ainda o devo chamar assim?Só lhe direi a verdade quando tiver provas concretas.Fecho os olhos por um instante.Peço a Deus que ele não esteja a enganar-me.Não suportaria a sua traição, não depois de tudo o que vivemos, de todos os momentos. De tud
Acordo sentindo a preocupação pesar, sufocar-me. Arthur ainda dorme quando me levanto. Observo-o por alguns segundos, calmo, alheio ao peso que começa a instalar-se no meu peito. Não o acordo. Não quero justificar a minha saída. Se lhe disser que vou à cidade sozinha, tentará impedir-me. E eu preciso de respostas. Visto-me com simplicidade, o suficiente para não levantar suspeitas. Não peço ajuda a Lucy, para não a alarmar. Já faz muito tempo que não vou à cidade. Prefiro a calmaria dos meus campos, os meus jardins floridos, sem comentários desnecessários nem olhares constrangedores. Antes de sair da casa do capataz, olho uma última vez para Arthur. O cocheiro deixa-me na praça principal, e eu ordeno que volte dentro de uma hora. Assim que desço da carruagem, sinto os olhares sobre mim. Primeiro, apenas observam. Depois, cochicham. Por fim, afastam-se. Murmúrios. E a sensação de mal-estar que provoco quando passo. Caminho devagar, mantendo a postura erguida. Não darei a nin
O crepúsculo sempre foi o meu momento favorito do dia. A transição. O instante em que a luz é envolta na obscuridade da noite. Arthur está atrás de mim, deitado na relva, com os braços atrás da cabeça, a observar-me como se eu fosse parte da paisagem. — Estás silenciosa — diz ele, por fim. Sorrio, mas não me viro. — Só estou a apreciar o momento. Ele levanta-se, aproxima-se e envolve-me pela cintura, encostando o queixo ao meu ombro. — Quando ficas assim pensativa, parece que estás longe de mim. Fecho os olhos por um instante. Não quero mentir-lhe. Mas também não quero destruir o nosso matrimônio. — Não estou longe… — murmuro. — Só tenho medo que esta felicidade seja frágil. Ele roda-me suavemente para que eu fique frente a frente com ele. — Olha para mim, Léonor. Obedeço. — Nada do que vivemos é frágil. Eu escolhi-te. Tu escolheste-me. O resto… não me importa. O resto? Será que o nosso casamento irá suportar as expectativas, os olhares da sociedade e, sob
Os dias da nossa lua de mel passam num piscar de olhos.Sem horários, sem obrigações, sem olhares curiosos. Apenas nós dois e a liberdade de viver o nosso amor.Numa tarde quente, entro na biblioteca da mansão para procurar um livro. O cheiro a papel antigo e madeira polida envolve-me, trazendo uma sensação de calma.Passo os dedos pelas lombadas dos livros, distraída, até sentir duas mãos firmes pousarem na minha cintura.O meu coração dispara antes mesmo de me virar.— Arthur… — murmuro, sorrindo.— Ando à tua procura pela casa inteira — diz ele, aproximando-se do meu ouvido. — E encontro-te aqui… escondida entre livros.— Não estava escondida… só queria ler um pouco.Ele ri baixinho.— Prefiro escrever a nossa própria história.Arthur puxa-me suavemente para si. As minhas costas encostam-se a uma das estantes, e os seus lábios encontram os meus. O beijo começa lento, mas rapidamente se torna mais profundo, mais urgente.O silêncio da biblioteca torna o momento ainda mais intenso. C
Acordo e, de rompante, olho para ele, para ter a certeza de que é real, de que está ao meu lado. O seu rosto está sereno e lindo. Como não vi a sua beleza antes? Falo da beleza interior, do homem maravilhoso que Arthur é, da sua índole. Não podia ter escolhido melhor marido. Observo-o durante alguns minutos, até que Arthur começa a despertar pouco a pouco. — Bom dia, meu amor… — digo, num sorriso cheio de emoção. — Bom dia, minha esposa… — responde também em tom baixo. Aconchego-me ao seu corpo. — Dormiste bem? — pergunta o meu marido. — Dormi tão bem… — digo com um sorriso que, mesmo Arthur não podendo ver, ele sente na minha voz. — O que a minha esposa gostaria de fazer hoje? Estamos em lua de mel, quero satisfazer todos os seus caprichos — diz, beijando a minha cabeça. — Em primeiro lugar, quero… tomar um banho com o meu marido… — É uma boa ideia… Arthur pega-me no colo e leva-me até à banheira. De seguida, enche-a de água quente e começa a despir-me. O
Saímos da tenda ainda de mãos dadas, como se tivéssemos medo de que o mundo nos separe a qualquer momento.O jardim parece diferente.O sol atravessa as folhas húmidas, fazendo-as brilhar como pequenas joias. O cheiro a terra molhada sobe do chão e mistura-se com o perfume das flores. Tudo parece mais vivo, mais intenso… como se o mundo tivesse mudado juntamente connosco.Ou talvez sejamos nós que mudamos.Arthur olha para mim, ainda com aquele brilho nos olhos.— Então, minha esposa… — diz ele, num tom baixo, quase divertido. — Para onde vamos agora?A palavra esposa faz o meu coração acelerar. Ainda soa estranho… e ao mesmo tempo, encaixa-se perfeitamente.Sorrio.— Para casa.Ele levanta uma sobrancelha.— Para a mansão?Abano a cabeça devagar.— Não. Para a tua casa… para a casa do capataz.Quero ficar lá contigo. Sem criados, sem regras, sem olhares… só nós.Arthur fica em silêncio por um instante, como se queira ter a certeza de que ouviu bem.— Tens a certeza, Dona Léonor?Eu p







