로그인Controle
Vitório Leoni não se distraía. Minha própria consciência gritava isso o tempo todo, me forçando a lembrar de como as coisas precisavam seguir. Era uma regra que eu mesmo criara e que cumprira sem falhas durante os últimos quinze anos. Mulheres existiam para satisfazer necessidades carnais que eu precisava suprir. Nada além disso. Nunca para ocupar espaço na minha cabeça. Nunca para fazer a mão formigar horas depois de um simples toque. Nunca para despertar o desejo absurdo de permanecer perto mais do que o necessário. Por isso sempre mantive distância de qualquer ilusão. A palavra amor simplesmente não existia no meu dicionário. Tesão. Sexo. Luxúria. Essa era a minha sintonia perfeita. Nada mais. E por isso sempre dava certo. Se algo ameaçasse mudar, eu fazia questão de mostrar, com frieza e precisão que aquilo jamais atrapalharia minha vida nem meus negócios. Hoje, no entanto, algo estava diferente. Algo inconsciente, quase visceral, tinha se instalado desde o esbarrão da manhã. Algo mínimo que eu deveria ter eliminado na hora. Então por que diabos eu não conseguia fazer isso? Fico com essa pergunta em minha mente, martelando por horas. Ocupando um espaço que não merecia. Ainda assim, às 12h40 daquela tarde, eu estava sentado na minha cadeira de couro preto olhando para a porta fechada do escritório como se ela fosse uma ameaça real. O dossiê de Laura Montanari estava aberto sobre a mesa. Ricardo o deixara ali menos de dez minutos depois do meu pedido. Eu precisava saber mais detalhes sobre aquela intrusa que se infiltrou dentro da minha cabeça. Eu já tinha lido duas vezes. Vinte e três anos. Solteira. Formada em Administração por uma universidade pública. Experiência anterior em três empresas de pequeno porte. Moradia na Zona Leste. Pais adotivos. Nenhuma rede de contatos relevantes. Nenhuma mancha no histórico. Notas altas. Referências impecáveis. Então por que aquilo me prendia tanto? No papel, ela era exatamente o que parecia: uma funcionária competente e invisível, como tantas outras que eu tinha na empresa. Na realidade, ela era um problema. Desde o instante em que ela cruzou meu caminho na entrada do prédio, algo que eu me recusava a admitir tinha se quebrado. Eu não sabia o que me dera. Por que não a mandara embora imediatamente, como já fizera com tantas outras que ousaram consumir mais do que dois segundos da minha atenção? Passei a mão pelo maxilar, irritado. Ainda sentia o formato da cintura dela na palma da mão. O calor. A forma como o corpo dela se encaixara contra o meu por aqueles três malditos segundos. Os olhos castanhos claros erguidos para mim, dilatados de surpresa e de algo muito mais perigoso que eu ainda não conseguia decifrar. Mas eu reconhecia o que despertara dentro de mim. Desejo. Imediato. Violento. Inaceitável. Fechei o dossiê com um estalo seco. Não. Aquilo não ia acontecer. Eu tinha um império para administrar. Tinha sócios que vigiavam cada movimento. Tinha um pai que já deixara claro, mais de uma vez, que o casamento com Isabela Andrade era inegociável. A aliança entre as duas famílias fortaleceria a Leoni Global Energy em um momento delicado de expansão internacional. Isabela era bela, educada, de sangue impecável e sabia exatamente o papel que deveria desempenhar. Tudo o que meu pai desejava para um membro da família Leoni. Laura Montanari não tinha lugar naquela equação. Apertei o interfone com mais força do que o necessário. - Ricardo. Mande a senhorita Montanari entrar. Agora. A porta se abriu menos de um minuto depois. Laura entrou com a postura ereta e o queixo levantado, mas eu notei o leve tremor nas mãos quando ela fechou a porta atrás de si. O cabelo escuro ainda preso no mesmo rabo de cavalo baixo. A blusa cinza simples. Os olhos castanhos que se recusavam a baixar o olhar por mais de dois segundos. Ela parou a dois metros da minha mesa. - O senhor mandou me chamar? A voz dela era firme. Surpreendentemente firme. Recostei-me na cadeira, entrelaçando os dedos sobre a mesa. Estudei-a em silêncio por tempo suficiente para fazê-la desviar o olhar por um instante. Depois voltei a prendê-lo, deliberadamente. - Você tem experiência com agendas internacionais? - Sim. Na última empresa eu gerenciava a agenda do diretor comercial, incluindo viagens para a Europa e Ásia. - E confidencialidade? - Absoluta. - Erros? Laura hesitou só uma fração de segundo. - Eu não costumo cometê-los, senhor Leoni. O canto da minha boca se contraiu. Quase um sorriso. Quase. - Todo mundo comete erros, senhorita Montanari. A diferença é o preço que se paga por eles nesta empresa. Levantei-me devagar. A cadeira fez um som baixo ao deslizar. Laura não recuou quando contornei a mesa e parei a menos de um metro dela. O perfume dela era leve, quase inexistente, sabonete barato e algo floral suave. Nada como as fragrâncias caras a que eu estava acostumado. Ainda assim, meu corpo reagiu. E eu odiei aquilo com cada fibra do meu ser. Inclinei a cabeça ligeiramente, baixando a voz até que ela soasse quase íntima e perigosa. - Eu exijo pontualidade. Exijo discrição. Exijo que você não tente se aproximar de mim além do estritamente profissional. Está claro? Laura ergueu o rosto. Os olhos dela encontraram os meus e se mantiveram ali, desafiadores apesar do leve tremor que eu ainda via no pescoço dela. - Perfeitamente claro, senhor Leoni. O silêncio que se seguiu foi denso demais para o tamanho da sala. Eu conseguia ver a pulsação acelerada sob a pele delicada do pescoço dela. Podia sentir o calor que subia daquele corpo. E o pior: podia sentir o meu próprio controle rachando de novo, exatamente como na entrada do prédio. Dei um passo para trás antes de cometer alguma estupidez irreversível. - Pode voltar para a sua mesa. E, senhorita Montanari... Ela já estava se virando quando falei. A voz saiu mais baixa, mais cortante. - Da próxima vez que se atrasar, mesmo que por dois minutos estará despedida. Sem segunda chance. Sem explicações. Laura parou. Assentiu uma única vez, o queixo ainda erguido. - Entendido, senhor Leoni. Ela saiu. A porta se fechou com um clique suave. Fiquei parado no meio do escritório, as mãos cerradas em punhos tão apertados que doíam. O sangue batia quente demais nas veias. Caminhei até a parede de vidro e olhei a cidade sem realmente enxergá-la. Aquela mulher era perigosa. Não porque fosse ambiciosa ou manipuladora. Pelo contrário. Era perigosa justamente porque não tentava ser nada além do que era. E porque, pela primeira vez em anos, eu tinha sentido a vontade real, visceral, de quebrar todas as minhas próprias regras só para descobrir o gosto da boca dela. Fechei os olhos com força.Fiquei olhando para a porta por longos segundos depois que Laura saiu.O contrato estava aberto na minha frente. As anotações dela eram precisas, inteligentes, cirúrgicas. Ela tinha encontrado exatamente as duas cláusulas que eu mesmo já marcaria. Competente. Rápida. Discreta.Perigosa.Passei a mão pelo rosto, sentindo a tensão acumulada no maxilar. O corpo ainda reagia à presença dela como se ela nunca tivesse saído da sala. O leve perfume de sabonete barato ainda pairava no ar do escritório, misturado ao cheiro de papel e café. Eu odiava o fato de conseguir distingui-lo tão facilmente. Odiava ainda mais o fato de que aquele cheiro simples me afetava mais do que qualquer fragrância cara que eu já tivesse sentido.Levantei-me e caminhei até a parede de vidro. A cidade se estendia lá embaixo, indiferente e distante. Eu precisava recuperar o controle. Rápido. Antes que a rachadura se transformasse em algo irreparável.Peguei o telefone e disquei o número da secretária do meu pai.- Que
Ele estava de pé perto da parede de vidro, de costas para a porta, falando com alguém que eu não conseguia ver. A voz dele chegou até mim, baixa e cortante:— O anúncio precisa ser feito o quanto antes. Não estou disposto a esperar mais dois meses.Baixei a cabeça rapidamente, fingindo me concentrar na tela.Anúncio.Eu não precisava ser gênia para imaginar do que se tratava. As revistas de fofoca corporativa já especulavam há meses sobre um possível noivado entre Vitório Leoni e a herdeira dos Andrade. Uma união de impérios. Sangue com sangue. Poder com poder.Exatamente o tipo de mulher que um homem como ele deveria ter ao lado.Apertei os lábios e digitei com mais força do que o necessário.Não era da minha conta. Não deveria me importar.Ainda assim, uma pontada estranha e indesejada se instalou no peito.Continuei o trabalho tentando esquecer tudo o que acabara de ouvir. Estava tão focada que só percebi o post-it colado no monitor minutos depois.A letra era firme, angular, mas
Eu estava finalizando um dos contratos que precisavam ser redigidos, tão focada que o toque agudo do telefone me deu um susto real. O coração disparou antes mesmo de eu conseguir processar o som.Ainda estava me acostumando com o silêncio daquele andar. Mesmo com pessoas passando de um lado para o outro o tempo todo, quase não se ouvia um único passo. Parecia que todos tinham medo de produzir o menor ruído possível, só para não irritar o senhor Leoni. Qualquer barulho se transformava em algo estridente, quase ofensivo.Depois que ele me chamou em sua sala, eu tentei permanecer tranquila. Repeti mantras mentais para conseguir ser direta nas respostas, para não deixar a voz tremer, para não entregar o quanto ele me afetava.Fechei a porta do escritório do senhor Leoni com extremo cuidado, como se qualquer barulho mais alto pudesse me denunciar.As minhas pernas estavam trêmulas. Atravessei os poucos metros até a minha mesa e me sentei antes que os joelhos cedessem de vez. O coração ai
Isabela Andrade. O cIsabelaasamento. O império. O nome Leoni.Tudo isso tinha de vir primeiro. Sempre.Voltei à mesa, abri o dossiê de Laura novamente e o empurrei para a gaveta com mais força do que o necessário. Depois disquei o número do meu pai.- Precisamos acelerar o anúncio do noivado - disse sem nenhum preâmbulo. - Quanto antes.Do outro lado da linha, a voz grave de Antônio Leoni soou claramente satisfeita.- Finalmente você está pensando como um verdadeiro herdeiro. Farei o quanto antes.Não respondi. Apenas desliguei.E, pela primeira vez na vida, a palavra "herdeiro" deixou um gosto amargo e metálico na boca.Eu não podia seguir meu instinto. Precisava manter o foco. Nada além disso. E se fosse preciso, eu cortaria o mal pela raiz.A tela do computador se acendeu às 13h00.Ajustou a gravata com um movimento preciso e ativou a câmera. Do outro lado da chamada internacional estavam três homens do consórcio europeu, rostos pálidos, expressões tensas e a incompetência
ControleVitório Leoni não se distraía.Minha própria consciência gritava isso o tempo todo, me forçando a lembrar de como as coisas precisavam seguir. Era uma regra que eu mesmo criara e que cumprira sem falhas durante os últimos quinze anos. Mulheres existiam para satisfazer necessidades carnais que eu precisava suprir. Nada além disso. Nunca para ocupar espaço na minha cabeça. Nunca para fazer a mão formigar horas depois de um simples toque. Nunca para despertar o desejo absurdo de permanecer perto mais do que o necessário.Por isso sempre mantive distância de qualquer ilusão. A palavra amor simplesmente não existia no meu dicionário. Tesão. Sexo. Luxúria. Essa era a minha sintonia perfeita. Nada mais. E por isso sempre dava certo. Se algo ameaçasse mudar, eu fazia questão de mostrar, com frieza e precisão que aquilo jamais atrapalharia minha vida nem meus negócios.Hoje, no entanto, algo estava diferente. Algo inconsciente, quase visceral, tinha se instalado desde o esbarrão da
Ele passou por mim sem esperar resposta. O perfume ficou no ar, preso às minhas narinas como uma marca invisível. Permanece parada por alguns segundos, o coração ainda descompassado, os documentos amassados contra o peito. As pernas pareciam feitas de borracha. Mas não podia me dar o luxo de ficar parada então segui em direção aos elevadores...No vigésimo sétimo andar, um homem chamado Ricardo me recebeu com um sorriso que não chegava aos olhos. Ele me conduziu até uma mesa de vidro posicionada exatamente em frente a uma porta de madeira escura e pesada.- O senhor Leoni exige pontualidade, discrição e perfeição - informou sem rodeios. - Qualquer erro é motivo de demissão imediata. Boa sorte.Assenti, engolindo em seco. Já tô ha ideia da fama dele, e pelo visto não é apenas rumores.Me sentei. Liguei o computador. Tentei me concentrar nos e-mails que já estavam à minha espera.Mas a cada poucos minutos meus olhos se desviavam para a porta fechada. Não vou mentir depois que ele retor







