LOGINIsabela Andrade.
O cIsabelaasamento. O império. O nome Leoni. Tudo isso tinha de vir primeiro. Sempre. Voltei à mesa, abri o dossiê de Laura novamente e o empurrei para a gaveta com mais força do que o necessário. Depois disquei o número do meu pai. - Precisamos acelerar o anúncio do noivado - disse sem nenhum preâmbulo. - Quanto antes. Do outro lado da linha, a voz grave de Antônio Leoni soou claramente satisfeita. - Finalmente você está pensando como um verdadeiro herdeiro. Farei o quanto antes. Não respondi. Apenas desliguei. E, pela primeira vez na vida, a palavra "herdeiro" deixou um gosto amargo e metálico na boca. Eu não podia seguir meu instinto. Precisava manter o foco. Nada além disso. E se fosse preciso, eu cortaria o mal pela raiz. A tela do computador se acendeu às 13h00. Ajustou a gravata com um movimento preciso e ativou a câmera. Do outro lado da chamada internacional estavam três homens do consórcio europeu, rostos pálidos, expressões tensas e a incompetência vazando por cada palavra mal escolhida. A joint venture que deveria estar fechada há semanas continuava emperrada por falhas absurdas de comunicação e por números que simplesmente não batiam. - Senhor Leoni - começou o diretor francês, a voz trêmula mesmo através da conexão estável -, houve um equívoco no cálculo das royalties da refinaria secundária. Nós... - Não houve equívoco - corto, a voz baixa, fria e absolutamente controlada. - Houve descuido. E descuido custa milhões. O silêncio do outro lado foi imediato. Eu no mesmo instante ele engolir em seco. Os outros dois desviaram o olhar da câmera como se pudessem se esconder atrás da tela. Manteve a postura impecável. As mãos estavam entrelaçadas sobre a mesa, os ombros relaxados, o rosto uma máscara de indiferença calculada. Por dentro, a irritação pulsava quente, mas não permitia que vazasse. Nunca. Incompetência alheia não tinha o direito de abalar o centro de gravidade que construíra durante anos. - Expliquem - ordeno, sem elevar o tom. - De forma clara. Sem rodeios. Sem desculpas. O que se seguiu foi um festival de gagueiras, justificativas frágeis e tentativas patéticas de transferir a culpa para "diferenças culturais de interpretação". Ouvi cada palavra em silêncio absoluto, com meus olhos fixos na câmera como se pudesse atravessar o Atlântico e esmagar a mediocridade com o olhar. Quando o diretor alemão tentou suavizar a situação com um sorriso forçado, inclinou levemente a cabeça. - Se o próximo número que vocês me apresentarem não estiver correto até o final desta chamada - disse com calma glacial -, eu cancelo o contrato. E faço questão de que o mercado europeu inteiro saiba exatamente o motivo. O ar do outro lado pareceu rarear. As desculpas morreram na garganta dos três homens. De repente, os cálculos começaram a ser refeitos com pressa quase humilhante. Planilhas foram compartilhadas. Números corrigidos em tempo real. A incompetência se contorcia sob a pressão silenciosa que eu exercia sem precisar levantar a voz uma única vez. A reunião, que deveria ter durado quarenta minutos, se arrastou. Uma hora. Uma hora e vinte. Uma hora e quarenta. Não me mexe. Não demonstrei impaciência. Não permiti que a irritação se transformasse em explosão. Apenas permanece ali, centrado, impecável, como uma lâmina que não precisa gritar para cortar. Cada vez que alguém tentava se desviar do ponto, redirecionava a conversa com uma frase curta e letal. Cada tentativa de enrolação era sufocada com um olhar ou um "continue". Quando, finalmente, os números batem e os termos foram reassinados virtualmente, dei um aceno mínimo. - Isso é tudo. Não me façam perder tempo novamente. Desligei a chamada sem esperar respostas. O clique final da conexão ecoou no escritório silencioso. Só então soltei o ar que nem percebera estar prendendo. Os ombros, que tinham permanecido perfeitamente eretos durante toda a chamada, pesaram por um segundo. Olhei para o relógio no canto da tela. 15h48. A reunião tinha se estendido demais. Muito além do que a agenda permitia. Dois compromissos internos precisariam ser reagendados. A conversa com o jurídico sobre o anúncio do noivado teria que ser empurrada. E a revisão dos contratos que ele pretendia fazer antes do almoço... simplesmente evaporara. Passo a mão pelo maxilar, sentindo a tensão acumulada ali. O peso da desorganização bateu de forma seca e irritante. Odiava perder o controle da própria agenda. Odiava que a incompetência de outros homens tivesse roubado quase duas horas do dia que ele planejara com precisão cirúrgica. Ainda assim, nenhuma expressão de frustração em meu rosto. Apenas abriu o sistema, realocou os horários com movimentos frios e eficientes, e mandou as notificações necessárias. O império não esperava. E ele não se permitiria ser abalado por erros que não eram seus. Mas, no fundo do peito, um desconforto residual permaneceu. Não era só a agenda. Era a certeza incômoda de que, enquanto mantinha o mundo lá fora sob controle absoluto do outro lado da porta de madeira, uma mulher de olhos castanhos continuava sendo a única variável que ainda não conseguira dominar por completo. Depois, como sempre, engoliu o peso. Não tendo o que fazer e não admito distração voltou ao trabalho. Chamo o Ricardo para terminar de assinar os contratos e pedir que arquivei em sistema tudo que se foi feito nessa vídeo chamada. Não admito erro e se eles permanecem assim mas não vou facilitar para eles me fazer perder o meu tempo. Ricardo entrou. - Quero que você arquive tudo que foi feito na vídeo e próximo erro cometido por eles já quero ter tudo em mãos. - Ok, senhor Leoni. Vou providenciar agora mesmo.Fiquei olhando para a porta por longos segundos depois que Laura saiu.O contrato estava aberto na minha frente. As anotações dela eram precisas, inteligentes, cirúrgicas. Ela tinha encontrado exatamente as duas cláusulas que eu mesmo já marcaria. Competente. Rápida. Discreta.Perigosa.Passei a mão pelo rosto, sentindo a tensão acumulada no maxilar. O corpo ainda reagia à presença dela como se ela nunca tivesse saído da sala. O leve perfume de sabonete barato ainda pairava no ar do escritório, misturado ao cheiro de papel e café. Eu odiava o fato de conseguir distingui-lo tão facilmente. Odiava ainda mais o fato de que aquele cheiro simples me afetava mais do que qualquer fragrância cara que eu já tivesse sentido.Levantei-me e caminhei até a parede de vidro. A cidade se estendia lá embaixo, indiferente e distante. Eu precisava recuperar o controle. Rápido. Antes que a rachadura se transformasse em algo irreparável.Peguei o telefone e disquei o número da secretária do meu pai.- Que
Ele estava de pé perto da parede de vidro, de costas para a porta, falando com alguém que eu não conseguia ver. A voz dele chegou até mim, baixa e cortante:— O anúncio precisa ser feito o quanto antes. Não estou disposto a esperar mais dois meses.Baixei a cabeça rapidamente, fingindo me concentrar na tela.Anúncio.Eu não precisava ser gênia para imaginar do que se tratava. As revistas de fofoca corporativa já especulavam há meses sobre um possível noivado entre Vitório Leoni e a herdeira dos Andrade. Uma união de impérios. Sangue com sangue. Poder com poder.Exatamente o tipo de mulher que um homem como ele deveria ter ao lado.Apertei os lábios e digitei com mais força do que o necessário.Não era da minha conta. Não deveria me importar.Ainda assim, uma pontada estranha e indesejada se instalou no peito.Continuei o trabalho tentando esquecer tudo o que acabara de ouvir. Estava tão focada que só percebi o post-it colado no monitor minutos depois.A letra era firme, angular, mas
Eu estava finalizando um dos contratos que precisavam ser redigidos, tão focada que o toque agudo do telefone me deu um susto real. O coração disparou antes mesmo de eu conseguir processar o som.Ainda estava me acostumando com o silêncio daquele andar. Mesmo com pessoas passando de um lado para o outro o tempo todo, quase não se ouvia um único passo. Parecia que todos tinham medo de produzir o menor ruído possível, só para não irritar o senhor Leoni. Qualquer barulho se transformava em algo estridente, quase ofensivo.Depois que ele me chamou em sua sala, eu tentei permanecer tranquila. Repeti mantras mentais para conseguir ser direta nas respostas, para não deixar a voz tremer, para não entregar o quanto ele me afetava.Fechei a porta do escritório do senhor Leoni com extremo cuidado, como se qualquer barulho mais alto pudesse me denunciar.As minhas pernas estavam trêmulas. Atravessei os poucos metros até a minha mesa e me sentei antes que os joelhos cedessem de vez. O coração ai
Isabela Andrade. O cIsabelaasamento. O império. O nome Leoni.Tudo isso tinha de vir primeiro. Sempre.Voltei à mesa, abri o dossiê de Laura novamente e o empurrei para a gaveta com mais força do que o necessário. Depois disquei o número do meu pai.- Precisamos acelerar o anúncio do noivado - disse sem nenhum preâmbulo. - Quanto antes.Do outro lado da linha, a voz grave de Antônio Leoni soou claramente satisfeita.- Finalmente você está pensando como um verdadeiro herdeiro. Farei o quanto antes.Não respondi. Apenas desliguei.E, pela primeira vez na vida, a palavra "herdeiro" deixou um gosto amargo e metálico na boca.Eu não podia seguir meu instinto. Precisava manter o foco. Nada além disso. E se fosse preciso, eu cortaria o mal pela raiz.A tela do computador se acendeu às 13h00.Ajustou a gravata com um movimento preciso e ativou a câmera. Do outro lado da chamada internacional estavam três homens do consórcio europeu, rostos pálidos, expressões tensas e a incompetência
ControleVitório Leoni não se distraía.Minha própria consciência gritava isso o tempo todo, me forçando a lembrar de como as coisas precisavam seguir. Era uma regra que eu mesmo criara e que cumprira sem falhas durante os últimos quinze anos. Mulheres existiam para satisfazer necessidades carnais que eu precisava suprir. Nada além disso. Nunca para ocupar espaço na minha cabeça. Nunca para fazer a mão formigar horas depois de um simples toque. Nunca para despertar o desejo absurdo de permanecer perto mais do que o necessário.Por isso sempre mantive distância de qualquer ilusão. A palavra amor simplesmente não existia no meu dicionário. Tesão. Sexo. Luxúria. Essa era a minha sintonia perfeita. Nada mais. E por isso sempre dava certo. Se algo ameaçasse mudar, eu fazia questão de mostrar, com frieza e precisão que aquilo jamais atrapalharia minha vida nem meus negócios.Hoje, no entanto, algo estava diferente. Algo inconsciente, quase visceral, tinha se instalado desde o esbarrão da
Ele passou por mim sem esperar resposta. O perfume ficou no ar, preso às minhas narinas como uma marca invisível. Permanece parada por alguns segundos, o coração ainda descompassado, os documentos amassados contra o peito. As pernas pareciam feitas de borracha. Mas não podia me dar o luxo de ficar parada então segui em direção aos elevadores...No vigésimo sétimo andar, um homem chamado Ricardo me recebeu com um sorriso que não chegava aos olhos. Ele me conduziu até uma mesa de vidro posicionada exatamente em frente a uma porta de madeira escura e pesada.- O senhor Leoni exige pontualidade, discrição e perfeição - informou sem rodeios. - Qualquer erro é motivo de demissão imediata. Boa sorte.Assenti, engolindo em seco. Já tô ha ideia da fama dele, e pelo visto não é apenas rumores.Me sentei. Liguei o computador. Tentei me concentrar nos e-mails que já estavam à minha espera.Mas a cada poucos minutos meus olhos se desviavam para a porta fechada. Não vou mentir depois que ele retor







