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O inverno do Norte havia finalmente cedido espaço para uma primavera tímida, mas o Palácio de Cristal permanecia aquecido por uma nova era de estabilidade. As rotas comerciais trilaterais funcionavam como engrenagens perfeitas, e a unificação dos reinos não era mais apenas um tratado em pergaminho, mas uma realidade vivida por cada lobo das matilhas.
O dia da coroação definitiva amanheceu com os céus de todo o continente limpos, como se a própria natureza celebrasse a unificação. O Palácio de Marfim, no Sul, foi o palco escolhido para o evento que mudaria a história de todas as alcateias. As escadarias externas estavam tomadas por milhares de lobos de todas as castas. No interior do Grande Salão, a atmosfera vibrava com o poder combinado de três impérios.
Dois anos haviam se passado desde a noite em que as cinzas de Amanda se dispersaram nos cânions do Sul e o Alfa Ethan assinou o Tratado Trilateral. Aquele período fora de intensa reconstrução. Eliz e Sloan haviam governado a partir do Palácio de Marfim, consolidando as leis e unificando as províncias periféricas sob a nova coroa imperial. Agora, com o Sul pacificado e próspero, chegara o momento de enfrentar o último fantasma do passado: o retorno ao Norte.
O pátio central do Palácio de Marfim estava tomado por uma multidão solene. Sob o céu que começava a ganhar os tons violáceos do crepúsculo, líderes, Alfas e nobres de todas as alcateias do continente espremiam-se nas galerias superiores e nas escadarias de pedra. No centro do espaço, erguia-se uma pira monumental, construída com madeira de carvalho e runas de contenção mística. Amarrada aos troncos, Amanda exibia em suas feições o colapso final de sua sanidade. Seus gritos de fúria e suas maldições, no entanto, eram engolidos pelo rufar ritmado dos tambores da guarda do Sul.
A luz dourada do fim da tarde entrava pelas frestas das janelas arqueadas, desenhando linhas de poeira brilhante no chão de mármore. Sloan abriu os olhos azuis devagar. Sua mente parecia flutuar em uma névoa espessa, mas o calor que emanava de seu próprio peito o fez tatear a lateral do corpo por puro instinto. O ferimento letal, onde a adaga de prata rúnica de Amanda havia perfurado sua carne, estava fechado. Havia apenas uma cicatriz rosada e lisa, sem qualquer vestígio do veneno corrosivo que deveria tê-lo matado.
O pânico que ameaçava sufocar Eliz durou apenas o tempo de um último suspiro quebrado de Sloan. Quando o corpo do Supremo do Norte pendeu, completamente inerte em seus braços, a loba imperial que habitava na mente da Rainha do Sul despertou com uma fúria que o Palácio de Marfim nunca havia testemunhado. O desespero transformou-se em poder puro.







