FAZER LOGINLogo pela manhã, Liz despertou determinada a não deixar nada abalar sua paz. Organizou-se rapidamente e saiu de casa com tempo de sobra para cumprir a ordem do CEO — ou melhor, do "Satanás de terno", como apelidara Noah ironicamente em seus pensamentos. A cafeteria indicada por ele era uma das mais renomadas e movimentadas da região. Ao cruzar a porta do estabelecimento, Liz checou o relógio de pulso e percebeu que o horário das oito em ponto já estava arriscado. Contudo, não se deu ao trabalho de entrar em pânico; afinal, como uma executiva eficiente, estava apenas cumprindo uma exigência direta de seu chefe. Aproveitou a fila para pedir um expresso também para si e seguiu a passos firmes em direção ao arranha-céu da Miller Law Group.
Como previsto, o movimento do café e a subida até a cobertura resultaram em um atraso de dez minutos. Na recepção de seu andar, Liz pousou a bolsa sobre a mesa, pegou os dois copos térmicos e bateu à porta da presidência. — Entre — a voz grave ressoou lá de dentro. Assim que ela girou a maçaneta e pisou na sala, o ar pareceu carregar instantaneamente. O olhar de Noah cruzou com o dela e uma faísca inegável de atração e desejo surgiu entre os dois, revivendo por um segundo a intensidade daquela quarta-feira. Para disfarçar o impacto que a presença dela causava, Noah adotou imediatamente sua postura arrogante e fria. — Pontualidade não parece ser o seu forte, senhorita Fontes — provocou ele, ajustando o abotoamento do terno enquanto erguia uma das sobrancelhas. — Bom dia, senhor Miller — respondeu ela, mantendo a cabeça erguida e entregando o copo sobre a mesa. — O atraso deve-se puramente ao estabelecimento que o senhor escolheu. A cafeteria estava lotada esta manhã. Mas fiz questão de priorizar o seu pedido. Ela rebateu no mesmo tom sarcástico, ignorando qualquer tentativa dele de irritá-la. Nada tiraria seu foco ou sua concentração naquele dia, independentemente de quem estivesse sentado na cadeira da presidência. Percebendo a firmeza da postura de Liz, Noah deu um sorriso de canto, puramente provocativo. Inclinou-se ligeiramente sobre a escrivaninha, fixando os olhos nos dela. — É uma pena... Naquela noite no bar, lembro-me de que você não teve problema algum com horários. O comentário caiu como uma bomba silenciosa na sala. Liz sentiu o sangue subir quente para o rosto, e suas bochechas ficaram instantaneamente rosadas. Encurralada pela audácia dele em trazer aquele assunto à tona em pleno ambiente de trabalho, ela travou. A menção fez acender um clarão de memória e desejo em ambos — por um breve instante, a mente de Noah também voou para a lembrança da pele dela e para a vontade involuntária de repetir aquela noite. Satisfeito por tê-la deixado sem reação, Noah apontou para a cadeira à sua frente. — Sente-se, por favor. Precisamos alinhar a agenda do dia. Liz permaneceu muda, engolindo a seco enquanto tentava disfarçar a vergonha e a agitação no peito. Sentou-se de forma ereta, puxou seu próprio copo e tomou um gole do café, usando o gesto para ganhar tempo e ignorar a provocação. — O que temos para esta manhã, senhor Miller? — perguntou, a voz saindo surpreendentemente firme. Noah acomodou-se em sua cadeira e cruzou as mãos. O tom arrogante deu lugar a uma expressão genuinamente impressionada. — Em primeiro lugar, quero falar sobre o relatório que você deixou na minha mesa ontem — começou ele, encarando-a com atenção. — O trabalho ficou impecável. A divisão por prioridades, os detalhes técnicos e a clareza dos dados foram esplêndidos. Você demonstrou uma determinação e uma inteligência ímpares, Liz. Ele fez uma breve pausa, sustentando o olhar surpreso dela. — E por isso, devo-lhe um pedido de desculpas. As insinuações que fiz ontem sobre sua conduta e sua trajetória foram injustas. Você provou que está aqui por mérito próprio... Mas depois do que aconteceu entre nós, me pergunto se seremos capazes de manter tudo estritamente profissional, ou se algo inevitavelmente já mudou. A provocação veio tingida de uma sutileza diferente. Por trás da casca bruta e arrogante, a voz de Noah vacilou por um milissegundo, deixando escapar um vestígio involuntário de sentimento sincero. Liz sorriu, satisfeita pelo reconhecimento profissional, mas o complemento da frase a pegou desprevenida. Algo lá no fundo mexeu com os seus nervos, fazendo seu coração desacelerar o ritmo antes de disparar. Noah estendeu a mão para entregar a lista de executivos que precisavam ser contatados urgente. Quando Liz alcançou o papel, os dedos dos dois se tocaram. O contato foi breve, mas suficiente para que uma faísca percorresse a pele de ambos. Um arrepio involuntário subiu pela espinha de Liz, enquanto Noah contraía o maxilar, atingido por uma onda súbita de desejo. Rapidamente, os dois recolheram as mãos e tentaram recompor a postura. Noah fechou a cara imediatamente, buscando a máscara de impassibilidade para não demonstrar fraqueza. Liz endireitou a coluna e respirou fundo, recuperando a elegância executiva. — Agendarei a reunião para as nove em ponto, senhor Miller — disse ela, levantando-se. — Bom trabalho para o senhor. Noah apenas balançou a cabeça de forma seca e educada, virando-se de costas em direção à janela para encerrar o assunto. Liz deu meia-volta, pensando consigo mesma que, embora o Satanás de terno tivesse atacado novamente, a primeira batalha do dia fora dela. Na recepção, começou a verdadeira corrida contra o tempo. Liz pegou o telefone e passou a discar para a lista de executivos. Ao falar com um dos diretores mais antigos e conservadores da firma, o homem tentou dar uma "carteirada", questionando a autoridade de uma nova assistente para convocá-lo em cima da hora. Sem perder a calma ou descer do salto, Liz o colocou em seu devido lugar com extrema classe profissional, lembrando-o delicadamente das diretrizes da nova presidência e da relevância dos processos que estavam sob responsabilidade dele. O diretor engoliu o orgulho e confirmou presença. Antes das nove, Liz já tinha a lista de confirmações completa e um relatório de síntese estruturado com base nos e-mails internos. Caminhou até a sala de reuniões para organizar as pastas. Às nove em ponto, os executivos ocupavam a mesa. Noah conduziu o encontro com maestria, dando um verdadeiro show de liderança e firmeza. Contudo, em diversos momentos, ele buscava discretamente o olhar de Liz no canto da sala para validar dados estratégicos, demonstrando o quanto confiava na precisão dela. A troca de olhares entre os dois era constante — disfarçada e séria por fora, mas carregada de uma tensão silenciosa por dentro. Ele irritado por se ver refém daquela atração; ela tentando ignorar o magnetismo inegável que ele emanava ao comandar a mesa. Ao término da reunião, os diretores se despediram elogiando o alinhamento. Liz permaneceu no recinto organizando os documentos sobre a mesa de conferência. Quando todos saíram, ela caminhou até Noah. — Parabéns, senhor Miller — disse ela com um sorriso sincero. — A sua primeira reunião foi um sucesso absoluto. O senhor tem todas as ferramentas para consolidar o legado do seu pai. Noah a observou por um instante, o olhar amenizando. — Obrigado pela eficiência, Liz. Sem o seu relatório prévio, o ritmo teria sido outro. Liz ensaiou um suspiro de alívio, pronta para recolher suas coisas e ter um momento de paz no horário de almoço. Foi quando Noah a pegou totalmente desprevenida. — Não se afaste muito. Daqui a quarenta minutos temos um almoço de negócios com o Dr. Harrison, um dos clientes mais importantes e antigos do escritório. Você vem comigo. O chão de Liz pareceu balançar. A insegurança e o nervosismo a atingiram em cheio. Passar pelo teste da reunião de diretoria fora uma coisa, mas sair do prédio para sentar-se à mesa de um restaurante ao lado de Noah Miller era um patamar completamente diferente. — Senhor Miller, com todo o respeito... — hesitou ela, tentando manter a voz firme. — Não seria mais adequado convocar um dos diretores seniores para acompanhá-lo? Posso entrar em contato com a equipe agora mesmo. Não estou preparada para um compromisso externo dessa magnitude hoje. Noah deu um passo em sua direção, cruzando os braços e encarando-a com uma intensidade que a fez travar. — Você conhece cada detalhe do histórico desse cliente melhor do que qualquer diretor nesta casa, Liz. Além disso, não é um pedido. É uma convocação de trabalho. Esteja pronta no saguão em meia hora. Sem espaço para negações, Liz apenas assentiu, sentindo o estômago dar um nó. Ela sabia que tinha capacidade técnica para encarar qualquer cliente, mas não fazia ideia de como sobreviveria a um almoço inteiro resistindo à química avassaladora que existia entre ela e seu chefe.Dentro do banheiro da suíte, a água quente caía da cabeça aos pés de Liz, fumegante e acolhedora, lavando o cansaço e dissipando aos poucos o tremor frio de suas mãos. De olhos fechados sob o fluxo contínuo, a mente dela voou de volta para o seu apartamento em Nova York — para o instante exato em que viu aquele resultado positivo na solitude de sua rotina. Ali, o pavor do desconhecido deu o primeiro passo para se transformar em um amor avassalador. Deixar a água escorrer era como purificar os últimos vestígios da incerteza, moldando em seu peito uma coragem inabalável. Ela seria mãe. E o homem a poucos metros dali era o pai que ela sempre sonhou para o seu filho. Enquanto isso, na sala, Noah canalizava sua própria ansiedade em gestos minuciosamente calculados. O serviço de quarto havia acabado de entregar o pedido especial que fizera em tom confidencial. Com extremo cuidado, Noah arrumou a mesa de centro: posicionou o bule de porcelana fumegante com o chá preferido de Liz, organizou
O caminho de foi tomado por um silêncio denso, carregado de uma expectativa quase palpável. Noah segurava a mão de Liz com firmeza enquanto caminhavam pelas ruas cobertas de neve, mas a leveza que compartilhavam minutos atrás parecia ter evaporado.Nenhum dos dois disse uma única palavra durante todo o percurso ou ao atravessarem o suntuoso saguão do hotel em direção ao elevador.Dentro da cabeça de Noah, uma tempestade de dúvidas se instalava a cada segundo. Ele olhava de relance para o perfil sério e distante de Liz, tentando desesperadamente decifrar o que havia mudado de forma tão abrupta. Será que disse algo errado ao falar de família? Será que a assustei ou a pressionei demais no meio da rua? O peito dele se apertava na angústia sufocante de ter, sem querer, ultrapassado algum limite ou despertado um fantasma do passado na mulher que era a sua vida.Liz, por sua vez, sentia o coração martelar com violência contra as costelas a cada passo. Seus pensamentos giravam em um turbilhã
Após o brinde, a comitiva executiva começou a se despedir com profundo respeito:— Dr. Miller, Dra. Fontes, agradecemos imensamente pela flexibilidade em adiantar este encontro para o almoço. Sabíamos do ritmo intenso de vocês e estamos profundamente honrados pela disponibilidade. Teremos grandes anos de trabalho e uma parceria indestrutível pela frente. Bom retorno e excelentes férias!Apertos de mão cordiais foram trocados, e a comitiva finalmente deixou o espaço reservado.O silêncio suave e acolhedor voltou a pairar sobre o ambiente. Eles se retiraram da mesa privativa, caminhando para um canto mais reservado do salão, deixando apenas Liz e Noah totalmente a sós no restaurante.No segundo em que ficaram sozinhos, o ar congelado do profissionalismo se desfez por completo. A armadura corporativa ruiu. Noah deu um passo à frente, puxou Liz para seus braços e a envolveu em um abraço protetor, apertado e sutilmente desesperado. Ele depositou um beijo carinhoso na testa dela e afundou o
O restaurante do Baur au Lac ostentava uma elegância sóbria e imponente, acolhendo a luz fria e cristalina do meio-dia suíço por suas imensas janelas decoradas. Noah e Liz foram os primeiros a pisar na área privativa reservada para a grande reunião de expansão. Em pé ao lado da mesa posta com cristais reluzentes e pratas impecáveis, ajustaram os detalhes finais com a maestria de quem domina o próprio império. Os sobretudos pretos foram entregues à recepção, revelando o corte impecável da alfaiataria de ambos — uma presença magnética, sofisticada e avassaladora. Poucos minutos depois, a comitiva executiva internacional adentrou o espaço. Cumprimentos cordiais, apertos de mão firmes e elogios calorosos à pontualidade e ao prestígio incontestável do Miller Law Group preencheram o ar. — É uma honra recebê-los em Zurique com um cronograma tão eficiente — pontuou o diretor sênior da banca europeia, acomodando-se à mesa. — Dr. Miller, acompanhamos o ritmo da reestruturação do grupo nos últ
A separação temporária de corpos foi inevitável para que a realidade corporativa retomasse o seu espaço. Liz recolheu suas roupas e caminhou até o seu próprio quarto na suíte, enquanto Noah permaneceu no dele para se preparar. Ao sair do banho, com a toalha presa à cintura e as gotículas de água ainda escorrendo pelo tórax, Noah caminhou até a mala de viagem. Seus dedos tatearam o fundo do compartimento secreto até encontrarem a pequena caixa de veludo. Ele se sentou na borda da cama e a abriu devagar. Ali, sob a iluminação acolhedora do quarto, repousava o par de minúsculos sapatinhos brancos de bebê. Noah os tomou nas mãos com uma reverência quase sagrada, admirando o detalhe do tecido macio. A barreira de contenção e o distanciamento profissional que ele tanto lutara para erguer entre si e Liz haviam caído por terra para sempre. Será que agora era o momento de abrir o jogo?, questionava-se ele, o olhar fixo naquele símbolo do futuro de ambos. Sim... logo após a reunião será a ho
A luz prateada da manhã suíça invadia a sala, mas dentro do quarto de Noah o tempo parecia obedecer a uma física própria. Enquanto Liz permanecia na cama, o peito ainda subindo e descendo em um ritmo acelerado, Noah retornou ao quarto carregando uma bandeja artesanal de madeira nobre. A apresentação era um espetáculo à parte. Havia lâminas perfeitas de frutas frescas — morangos alpinos de um vermelho vívido, mirtilos colhidos na estação e lâminas delicadas de figo —, ao lado de um cesto com pães artesanais fumegantes que exalavam o aroma inconfundível de trigo recém-assado. Croissants folhados de manteiga dourada dividiam espaço com pequenos potes de cristal contendo geleias alpinas de frutas vermelhas e mel silvestre puro. Ao lado do bule de café aromático de porcelana fina, que soltava um vapor suave e acolhedor, repousava no centro um vaso delicado de vidro lapidado, sustentando uma única rosa vermelha e viçosa, cujas pétalas ainda guardavam minúsculas gotas de orvalho. Liz sen







