INICIAR SESIÓNSuzi não era apenas uma herdeira; ela administrava com mão de ferro vários restaurantes sofisticados da família Grost, onde a música ao vivo era o coração da experiência. Sabendo que Alana estudava piano desde o berço e possuía técnica de nível profissional, o convite não era apenas um favor, mas uma estratégia de resgate emocional.
Alana entendeu o gesto. Ter as mãos ocupadas com as teclas pretas e brancas era melhor do que deixar a mente divagar pelo abismo do próprio casamento.
— Certo — aceitou ela, com a voz ainda contida.
— Então, trate de recuperar o sono perdido — recomendou Suzi, já pegando as chaves para sair. — Vá direto para a unidade do Distrito Leste esta tarde. Estou atolada de reuniões e não conseguirei te buscar, tudo bem?
— Vá tranquila. Cuide dos seus afazeres — Alana sorriu fracamente.
A amizade com Suzi vinha do jardim de infância. Mesmo quando a fortuna da família de Alana começou a minguar, Suzi permaneceu ao seu lado como uma rocha. Ali, ela não precisava de máscaras.
Assim que a porta se fechou, Alana respirou fundo e discou o número de Freitas, o assistente pessoal de Daniel.
— Senhora? A senhora está brincando, não é? — Freitas gaguejou do outro lado da linha, atônito com o pedido. — Por que não espera o presidente chegar em casa à noite para resolverem isso com calma?
— Quero marcar a data para a assinatura do divórcio — Alana foi sucinta, cortando as formalidades.
— O CEO está com a agenda lotada esta semana, senhora! — Freitas exclamou, tentando ganhar tempo. — Vou verificar a programação assim que chegar à empresa e retorno para você.
Freitas não ousaria tomar uma decisão dessas sozinho. Assim que desligou, reportou imediatamente a ligação a Daniel. Ao saber que a esposa estava realmente levando adiante a ameaça, o nariz de Alana ardeu e seus olhos se encheram de lágrimas. Ela inclinou a cabeça para trás, forçando o choro a recuar.
— Então, que seja na semana que vem — murmurou Alana para si mesma, apertando a barra da blusa com força e forçando um sorriso amargo.
No escritório da presidência, Daniel recebeu a notícia com um misto de fúria e deboche. Em vez de ver Alana voltar para casa arrependida, ele a viu agendando o próprio fim através de um subordinado. Percebendo a tensão no rosto do chefe, Freitas sugeriu cautelosamente:
— Posso inventar uma desculpa para adiar, senhor...
— Não precisa! — Os lábios de Daniel se curvaram em um sorriso zombeteiro e sarcástico. — Marque para daqui a uma semana!
Para ele, adiar o encontro pareceria que ele estava relutante em se separar. Daniel estava convicto: em três dias, a realidade da vida sem luxo bateria à porta e ela voltaria implorando perdão. O peito dele ardia de raiva, uma indignação que quase o fazia rir. "Você é tão ignorante, Alana", pensou ele.
Segundos depois, a mensagem de Freitas chegou ao celular dela: "Quarta-feira que vem, às nove horas, na entrada do Cartório."
Alana estava exausta, mas o sono era um privilégio que ela não conseguia alcançar. Ao ler a mensagem, a última réstia de esperança — aquela vozinha tola que dizia que Daniel poderia lutar por ela — se apagou por completo. Ela não tolerava traição, e Daniel claramente não tolerava ser questionado.
Ao cair da noite, Alana enterrou suas emoções sob uma camada de maquiagem leve e seguiu para o restaurante no Distrito Leste. Suzi já a esperava na entrada, com um olhar de culpa.
— Eu esqueci completamente que você está sem carro... — lamentou a amiga.
— Está tudo bem, Suzi. Eu me viro — respondeu Alana, com uma calma que não sentia.
Minutos depois, Alana ressurgiu vestindo um longo vestido bordô, uma peça sofisticada que destacava sua silhueta, embora a maquiagem não conseguisse esconder totalmente a palidez de seu rosto. Ela caminhou até o piano de cauda importado no centro do salão luxuoso. Após um suspiro profundo, suas mãos delicadas tocaram as teclas, e uma melodia suave começou a flutuar pelo ambiente, hipnotizando os clientes.
No camarote VIP do segundo andar, uma figura aristocrática inclinou-se para observar a origem do som. Cinco minutos depois, assim que a peça terminou, um garçom aproximou-se de Alana com um recado:
— Senhorita, um cavalheiro no camarote VIP solicita que a senhora suba para tocar uma canção de declaração de amor para a mesa dele.
Sem imaginar quem encontraria, Alana segurou a barra do vestido e subiu as escadas. Quando a porta da sala privativa se abriu, a luz âmbar do recinto revelou uma cena que fez seu sangue congelar.
À mesa, entre taças de vinho caro, estava Daniel. Ele vestia um terno preto impecável, exalando uma aura de poder e nobreza que sempre a intimidara. Ao lado dele, Mariela exibia uma elegância corporativa em um terno branco, com seus cabelos ondulados caindo perfeitamente sobre os ombros. À frente deles, um investidor estrangeiro de meia-idade acompanhava a reunião de negócios.
O coração de Alana estremeceu. Os olhos de Daniel se estreitaram imediatamente. Ele sempre soube que a esposa era bonita, mas raramente a via produzida daquela forma; nos últimos dois anos, ela era apenas a mulher de roupas casuais que o esperava em casa. Um brilho de espanto cruzou o olhar dele, seguido rapidamente por um sorriso irônico. Para Daniel, aquilo não era coincidência: ele estava convencido de que Alana conseguira sua localização através de Freitas e montara aquele "espetáculo" para chamar sua atenção.
— Sr. Daniel, o senhor a conhece? — perguntou o estrangeiro em inglês, notando o silêncio tenso e o olhar fixo do CEO sobre a pianista.
Daniel recostou-se na cadeira, girando a taça de vinho com uma lentidão torturante. Ele não desviou os olhos de Alana, mas sua resposta veio em um inglês perfeito e cruel, direcionado ao investidor:
"Conhecê-la? Digamos que ela é apenas alguém que não sabe a hora de parar de atuar. Mas já que ela está aqui para 'trabalhar', por que não deixamos que ela toque a música que você pediu? Afinal, ela é paga para isso."
Mariela soltou um riso discreto, observando Alana com uma mistura de pena e triunfo. Alana sentiu o peso do piano imaginário esmagando seus ombros. Ela tinha duas escolhas: dar as costas e confirmar a "histeria" que Daniel pregava, ou sentar-se e tocar a canção de amor para o homem que acabara de destruir seu coração.
Do outro lado da linha, a voz de Elida soou tensa:— Investiguei o histórico de Ramon e descobri que há mais alguém operando nos bastidores com ele. Me informaram que é uma mulher, mas eles estão mantendo a identidade em absoluto sigilo e ainda não conseguimos rastrear quem é. Tudo o que descobrimos até agora é que se trata de uma jovem de sobrenome Lin.O primeiro nome que cruzou a mente de Alana foi Mariela.Aquela garotinha de feições delicadas que costumava chamá-la docemente de "irmã mais velha" e "irmão mais velho".Independentemente de qualquer ligação com os conflitos passados envolvendo Luana, Alana mantinha uma intuição e uma impressão profundamente negativas sobre Mariela desde o dia em que a conheceu.Após breves encontros, a convicção de que aquela fachada de inocência escondia intenções calculistas só havia se fortalecido.— Entendi.Assim que encerrou a chamada, ela virou o rosto na direção de Daniel.Ela esteve a ponto de questioná-lo diretamente se aquele cerco tinha
— Não existem "ses" — retrucou Alana com um tom cortante e decisivo. — Nada se resolve com conjecturas. E quer saber? Se você realmente gosta desta reforma tanto assim, fique com ela. Não vou te processar por plágio, considerando o nosso passado como marido e mulher. Dito isso, ela virou as costas e caminhou em direção à saída, recusando-se sequer a colocar os pés dentro daquela casa que ela mesma havia idealizado anos atrás. Ela não estava disposta a continuar olhando para o passado. Daniel jamais imaginou que, em vez de gratidão ou surpresa, sua tentativa de recriar o lar ideal geraria uma rejeição tão gélida. Pelo menos um pingo de espanto ele esperava ver em seus olhos. Mas nada. Na imensidão daquela mansão vazia, os passos de ambos ecoavam de forma abafada. Perto da parede de vidro, o perfil elegante do homem exibia uma nítida expressão de frustração, a cabeça levemente baixa enquanto ele a seguia de perto. Como se o primeiro balde de água fria não tivesse sido sufic
— Nós não tornamos o casamento público na época porque queríamos evitar que a família de Alana usasse o prestígio da família de Daniel para tirar proveito de situações indevidas — explicou Daniel, percebendo que o assunto tocava em pontos delicados de sua imagem e tentando se justificar de imediato. — Além disso, não conhecíamos bem a personalidade um do outro no início, e eu receava que a união não durasse muito, o que acabaria gerando uma exposição negativa desnecessária para ambos.Seja lidando com negócios ou com os próprios sentimentos, ele sempre fora analítico, ponderado e focado em antecipar cenários.— Então qual é a sua desculpa agora? — retrucou Alana, com um sorriso irônico. — Você conhecia a reputação da minha família e mal sabia quem eu era de verdade... Por que decidiu me pedir em casamento logo após um único encontro?— Minha avó vivia me empurrando para encontros às cegas, e, considerando que eu precisava cumprir as expectativas de um herdeiro, decidi aceitar o noivad
Na verdade, o principal motivo pelo qual Alana evitava encontrar-se com Daniel era a forte presença de repórteres e equipes de imprensa monitorando seus passos.Se ela cedesse e se encontrasse com ele naquele momento, com certeza seria fotografada e explorada por abutres da mídia com segundas intenções. Além dos ataques relacionados ao drama familiar, especulações maliciosas sobre sua vida amorosa e seu passado viriam à tona.Caso isso acontecesse, tanto a família de Daniel quanto a de Eduardo seriam arrastadas para aquele lamaçal.— Diretora Alana, a senhora bebeu um pouco. Posso levá-la em segurança para casa — ofereceu-se o gerente, indicando a taça de vinho vazia à frente dela.Alana bloqueou a tela do celular, levantou-se e balançou a cabeça:— Não se preocupe. Moro relativamente perto, consigo um transporte com facilidade.Ninguém insistiu mais. O jantar encerrou-se por volta das vinte e uma e meia.Assim que o grupo saiu do restaurante, Alana deu alguns passos e parou, avistand
A expressão de Alana congelou gradualmente diante daquelas palavras.Ela simplesmente não sabia como responder à postura obstinada de Daniel, muito menos como lidar com a decisão repentina dele.Eu definitivamente não deveria ter tentado blefar ou desafiá-lo daquela forma... Só consegui complicar ainda mais as coisas, pensou ela, frustrada consigo mesma.— Não há necessidade disso — argumentou ela, tentando encerrar o assunto.— É totalmente necessário — retrucou Daniel, no mesmo instante, com um tom firme e inegociável.Não soava apenas como uma resposta, mas como uma exigência inflexível:— Você mesma me deu uma chance. Eu prometi que desistiria se não conseguisse reconquistá-la, mas em nenhum momento você tem o direito de simplesmente cancelar as regras de forma unilateral.Alana tentou resgatar a memória daquela conversa:— Eu nunca disse que não podia recusar você de vez.— Mas você recusou? — questionou Daniel de volta, arqueando a sobrancelha. — Quando me deu aquela oportunidad
Alana permaneceu em silêncio absoluto no banco do passageiro, observando e aguardando a resposta que Daniel daria às provocações de Helena.— O que nós temos ou deixamos de ter não é da sua conta, e muito menos da sua alçada — sibilou Daniel, cujo humor despencara de forma drástica apenas ao ouvir o nome daquela família.Para ele, a tolerância havia chegado ao limite; com exceção de Alana, ele sentia uma profunda repulsa por qualquer outra figura feminina ao seu redor. Incapaz de perder tempo distinguindo quem era honesto ou não, ele simplesmente decidira banir todas da sua esfera pessoal.— Alana, peço desculpas em nome da minha irmã, por favor! — Helena insistiu, debruçando-se sobre a moldura da janela do carro. — Não deixe que o Daniel me ignore desse jeito... Eu não tenho mais ninguém no mundo, e ele é muito importante para mim, como um irmão protetor!Nesse exato momento, Daniel virou o rosto para o interior do veículo e percebeu que Alana, que antes parecia adormecida, estava c







