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Capítulo 2

Author: Ferrari
Só quando meu corpo já estava completamente dormente por causa da dor foi que finalmente ouvi vozes vindas de cima.

— Precisamos instalar a tampa desse bueiro hoje. Já tinham nos avisado antes que isso era perigoso.

O feixe de uma lanterna iluminou o interior do poço, e a luz forte bateu diretamente no meu rosto.

— Tem alguém aí embaixo!

— Alguém caiu no bueiro! Rápido! Chamem uma ambulância!

O som de passos, o chiado dos rádios comunicadores e o burburinho da multidão ecoavam até o fundo do poço.

— Chamem a polícia primeiro!

— Iluminem aí embaixo! Ela ainda está respirando?

Sentindo um leve alívio, fechei os olhos e fingi estar inconsciente.

Foi então que, mais uma vez, as linhas de texto surgiram diante dos meus olhos.

[Isabella é mesmo muito cara de pau. Estava prestes a dar à luz e, ainda assim, teve um caso com o marido de outra mulher. Foi por isso que perdeu o bebê.]

[Ela tem medo de que o marido a mate se descobrir a verdade. É por isso que quer usar Kayla como bode expiatório.]

[Isabella subornou a enfermeira da sala de cirurgia para dar um falso testemunho. Ela quer Kayla morta.]

[Quando Kayla morrer, o aborto espontâneo será acobertado. A família Clark ainda oferecerá uma compensação extra a Isabella para confortá-la.]

Ao ver aquilo, não consegui evitar uma risada abafada. Ainda bem que confiei naqueles comentários flutuantes e dei a mim mesma uma chance de sobreviver.

Se entrar na sala de cirurgia significava perder qualquer possibilidade de reverter a situação, então e se eu simplesmente nunca entrasse nela?

"Isabella, quero ver como você vai me incriminar agora", pensei.

Esperei por algum tempo até que finalmente me resgatassem do poço de manutenção.

Quando a luz voltou a atingir meus olhos, franzi a testa e soltei um gemido de dor na hora. Abri os olhos só um pouquinho, mantendo o olhar desfocado. Sangue misturado com água barrenta escorria pelo canto da minha boca.

— Você consegue me ouvir? Está bem?

Respondi apenas com um fraco murmúrio, mantendo as sobrancelhas franzidas. Minhas pálpebras tremularam enquanto eu me esforçava para abrir os olhos.

As pessoas ao meu redor ergueram seus celulares.

— Ela está em péssimo estado! Está coberta de sangue!

Fui colocada sobre uma maca e levada diretamente para o pronto-socorro. No caminho, encontrei outros médicos e enfermeiros, além de pacientes que eu havia tratado anteriormente.

— Aquela não é a Dra. Robinson, da Obstetrícia e Ginecologia? Meu Deus! Não acredito que ela se machucou!

— Ouvi dizer que ela caiu no poço de manutenção. Que horror!

A equipe médica limpou meus ferimentos e deu alguns pontos. Também fiz radiografias e uma tomografia computadorizada.

No fim, levei três pontos na cabeça, sofri uma pequena fratura na perna direita, que precisou ser imobilizada com gesso, e a tomografia revelou uma concussão leve.

Quando todo o procedimento terminou, a notícia do que havia acontecido comigo já havia se espalhado por todo o pronto-socorro.

Por fim, dois policiais vieram até o meu quarto e se sentaram diante da minha cama, prontos para colher meu depoimento.

— Dra. Robinson, pode nos explicar como caiu no poço de manutenção?

Apoiei-me na cabeceira da cama. Embora minha voz estivesse fraca, ela saiu clara.

— Eu tinha acabado de terminar uma cirurgia e estava saindo do hospital quando recebi uma ligação da minha melhor amiga, Isabella White.

— Ela me disse que era uma emergência e que estava prestes a dar à luz. Queria que eu fizesse o parto. Eu estava com tanta pressa que nem olhei por onde estava andando. Foi assim que caí no poço.

Os policiais assentiram e abriram as imagens das câmeras de segurança da rua.

No vídeo, eu aparecia voltando sozinha para o hospital às pressas. Enquanto passava correndo pelo poço de manutenção, meu corpo cambaleou de repente, e eu caí diretamente dentro dele. Ninguém teve qualquer contato comigo antes ou depois.

— Parece que a senhora caiu no poço de manutenção por acidente. Podemos descartar a possibilidade de qualquer ação intencional.

O policial fechou seu bloco de anotações.

De repente, apoiei-me na lateral da cama e tentei me sentar.

— Minha melhor amiga ainda está esperando por mim na sala de cirurgia! Preciso ir até lá agora mesmo!

— Dra. Robinson, a senhora está gravemente ferida. Não pode ir a lugar nenhum.

— Ela é minha melhor amiga!

Meus olhos ficaram vermelhos.

— Eu preciso estar ao lado dela! Caso contrário, nunca vou me perdoar!

Os policiais não conseguiram me convencer a desistir. A enfermeira suspirou enquanto empurrava minha cadeira de rodas até a Sala de Cirurgia Três.

Havia uma multidão reunida do lado de fora da Sala de Cirurgia Três, e um homem alto se destacava entre todos. Era o marido de Isabella, Don Magnus Clark.

Os demais eram membros da família Clark. Devia haver pelo menos vinte ou trinta pessoas esperando do lado de fora da sala de cirurgia.

No instante em que a enfermeira empurrou minha cadeira para a frente, a porta da sala de cirurgia se abriu, e uma maca foi trazida para fora.

Assim que Magnus caminhou em sua direção, um choro agudo ecoou da maca.

— Me desculpe, querido! Eu fui tão inútil! Não consegui proteger o nosso bebê!

Era Isabella.

O corredor, antes movimentado, mergulhou instantaneamente em silêncio.

— O que aconteceu?

A voz de Magnus tremia.

Isabella continuou chorando.

— Eu confiei demais na Kayla. Achei que ela ajudaria a trazer nosso bebê ao mundo em segurança. Nunca imaginei... nunca imaginei que um erro dela custaria a vida do nosso bebê...

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