LOGINO último sinal ecoou alto pelos corredores de Alto Valley, anunciando o fim das aulas. O pátio começou a se encher com o vai e vem apressado dos alunos. Maia caminhava ao lado de Lisa, tentando ignorar os olhares que ainda pairavam sobre ela desde o “show particular” no refeitório.
— Ei, Norenzi! — A voz rouca e provocante veio às suas costas. Ela se virou só para ver Dante Ferraz, encostado casualmente em uma moto preta como a noite, com o capacete pendurado no dedo indicador. — Quer uma carona? Lisa parou de andar tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. — O quê?! — sussurrou, arregalando os olhos como se tivesse acabado de ver um fantasma tatuado e sexy. Maia franziu o cenho, cruzando os braços. — Como você sabe meu sobrenome? Dante deu um meio sorriso, como se a resposta fosse óbvia. — Dei uma pesquisada. — Ué… Andou pesquisando sobre mim, Ferraz? Ele inclinou o rosto levemente, os olhos faiscando com sarcasmo. — Ferraz, hein? Pelo visto, você também. Ela revirou os olhos, virando o rosto com um sorrisinho no canto da boca. Tinha sido pega no pulo, mas não daria esse gostinho para ele. — Ainda assim, não vou subir nessa coisa barulhenta… ainda mais com você. Dante arqueou uma sobrancelha. — Marrentinha mesmo, hein? Isso está ficando divertido. Maia bufou e se virou para ir embora, puxando Lisa pelo braço. Mas, antes que se afastasse demais, ouviu a voz dele novamente, agora mais alta: — Boa caminhada, princesinha. Lisa, ainda boquiaberta, olhou para a amiga como se estivesse vivendo um delírio coletivo. — TÁ. Você tem noção do que acabou de acontecer? Dante Ferraz oferecendo carona? Para alguém? Isso nunca aconteceu em nenhum universo conhecido. — Relaxa, deve ser ego inflado dele querendo marcar território — respondeu Maia com um meio sorriso forçado, querendo parecer indiferente. Elas continuaram andando, seguindo a rua arborizada que levava ao bairro mais modesto da cidade. Já estavam quase na esquina quando Lisa parou abruptamente. — Olha isso… Maia seguiu o olhar da amiga — e lá estava Valentina. Linda, feita para matar, inclinando-se para sussurrar algo no ouvido de Dante. Um segundo depois, deu um beijo no rosto dele, com um sorrisinho vitorioso nos lábios. O ronco do motor foi suficiente para estourar a bolha de ilusão que Maia nem sabia que estava criando. — Viu? — murmurou, amarga. — Realmente, era só coisa da sua cabeça. ** A noite chegou rápido, como um cobertor pesado. Maia já estava em casa, jogada no sofá, com os cabelos ainda presos em um coque desleixado. A mãe, Sabrina, apareceu à porta da cozinha com uma xícara de chá nas mãos. — Primeiro dia de aula e já está com essa cara? — brincou, sentando-se ao lado da filha. Maia riu de leve, sem muito humor. — A escola é legal… As pessoas é que são meio surtadas. — Pessoas específicas? — Sabrina arqueou a sobrancelha, interessada. Maia apenas deu de ombros. — Nada com que eu não possa lidar. Mas, por dentro, o nome Dante Ferraz ecoava feito um problema esperando para acontecer. --------------------- O sol da manhã invadia suavemente a pequena cozinha dos Norenzi. Maia tomava um café apressado, calçando o tênis com uma das mãos e mordendo uma torrada com a outra. — Filha, o que você acha de fazermos uma noite das meninas hoje? — sugeriu Sabrina, enquanto colocava um suco na mesa. — Eu sei que estamos meio desconectadas ultimamente com essa nova rotina… Maia sorriu, surpresa com a proposta. — Sério? Gosto da ideia. Só eu e você? — Só nós duas. Que tal pizza, cobertor no sofá e um filme bem ruim? — Perfeito — respondeu Maia, pegando a mochila. — Combinado! Na escola, ela encontrou Lisa no portão. — Pronta para mais um dia nessa selva? — brincou a amiga. — Sempre — disse Maia, puxando-a pelo braço em direção à sala. A surpresa veio logo depois: o sorteio dos trabalhos em dupla havia sido feito… e, claro, o destino decidiu brincar. As duplas seriam sorteadas, e a sala inteira prendeu a respiração quando os nomes começaram a surgir na lousa. Maia leu o nome de Lisa emparelhado com o de um garoto do fundo. E então… viu o próprio nome ao lado de Dante Ferraz. Ao entrar na sala, avistou Dante já sentado. Valentina estava ao lado dele, com o braço do rapaz casualmente apoiado atrás dela na cadeira, quase como um gesto de posse. Valentina sorria como se tivesse ganhado algum tipo de troféu. Maia engoliu em seco e sentou-se o mais distante possível. A aula se arrastou, com Valentina tentando ser o centro das atenções. Dante mantinha o olhar preguiçoso, mas, sempre que podia, lançava olhares furtivos na direção de Maia — que fingia não notar, embora sua perna balançasse nervosamente sob a carteira. Assim que o sinal tocou, Maia saiu apressada. Estava quase fora da sala quando percebeu que havia esquecido o celular. Girou nos calcanhares, voltou rapidamente e — pá! — tropeçou direto contra o peito firme de Dante. — Opa, novata — disse ele, com um meio sorriso. Maia bufou e pegou o celular na carteira. — Você tem o talento de estar nos piores lugares, sabia? — Talvez seja você que vive cruzando o meu caminho Norenzi — respondeu ele, arqueando uma sobrancelha. Ela não respondeu. Apenas pegou seu celular com o rosto queimando, e foi em direção ao refeitório. Sentou-se ao lado de Lisa, tentando agir normalmente, mas seus olhos teimosos iam parar na mesa onde Valentina se exibia ao lado de Dante. Ele mantinha a pose — braço no encosto da cadeira, olhar indiferente —, mas, entre uma garfada e outra, seus olhos cruzavam com os dela. — Você está bem? — perguntou Lisa. — Totalmente. Só irritada. Com aquele Dante idiota. Ele é insuportável, narcisista, convencido… — E bonito — completou Lisa, rindo. — Mas sabe que você está falando tanto dele que parece… — Não. Nem pense nisso — interrompeu Maia, na defensiva. — Claro que não. Eu odeio ele. Lisa ergueu as sobrancelhas, como quem dizia: Sei… Na saída, Lisa ainda tentou convencê-la a sair para fazer alguma coisa. — Hoje não dá — disse Maia, sorrindo. — Prometi uma noite das meninas com minha mãe. Mas amanhã a gente combina. Em casa, o cheirinho de comida pronta já preenchia o ar. Sabrina estava na cozinha, cantarolando baixinho enquanto arrumava a mesa improvisada na sala com a pizza que havia pedido. — Oi, mãe! — Maia entrou, tirando os sapatos e deixando a mochila no canto. — Oi, meu amor! — respondeu Sabrina, animada. — Perfeito, chegou na hora exata. Pizza quentinha e filme ruim no ponto! Maia riu, largando-se no sofá com um suspiro aliviado. — Como foi o dia? Fez alguma amiga nova? — Sim! A Lisa. Ela é incrível. Alegre, direta… Acho que a gente vai se dar muito bem. Pensei até em trazê-la aqui hoje, mas… Sabrina se virou com uma expressão surpresa e curiosa. — E por que não trouxe? Ia adorar conhecer sua nova amiga. Maia se aproximou da mãe e a envolveu em um abraço apertado. — Porque… hoje eu queria só você. A gente quase não se vê direito, e eu estava com saudade. Às vezes, parece que tudo mudou tão rápido. Escola nova, cidade nova… Mas aqui, com você, tudo ainda faz sentido. Sabrina piscou algumas vezes, tentando disfarçar a emoção. — Filha, você não tem ideia do quanto isso significa para mim. Eu sei que não posso te dar tudo o que queria, mas prometo que amor e apoio nunca vão te faltar. — E é só disso que eu preciso. As duas sorriram, emocionadas, e se sentaram no sofá, com a pizza entre elas. Colocaram uma comédia romântica ruim só para rir juntas, como nos velhos tempos. Entre uma gargalhada e outra, Sabrina acariciava o cabelo da filha, e Maia sentia que, apesar de tudo estar diferente lá fora, aquele cantinho delas continuava igual: seguro, caloroso e feito de amor verdadeiro. Era só uma noite comum. Mas, para Maia, era exatamente o que o coração dela precisava.Os dias que se seguiram foram diferentes de tudo o que Maia e Dante haviam vivido até ali.Depois de tantas lágrimas, desentendimentos e verdades dolorosas, finalmente parecia que o mundo havia decidido dar uma trégua aos dois.Não significava que todas as feridas haviam desaparecido de uma hora para outra. Algumas ainda precisavam de tempo, de conversas sinceras e, principalmente, de atitudes. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eles estavam dispostos a enfrentar tudo juntos.Dante não perdeu mais nenhuma oportunidade de demonstrar o quanto Maia era importante para ele. As mensagens de bom-dia voltaram a fazer parte da rotina, assim como as ligações demoradas, as brincadeiras bobas e os encontros que sempre terminavam com a promessa de que logo estariam juntos novamente.Maia, por sua vez, aprendeu que não precisava carregar todos os problemas sozinha. Que amar alguém também significava confiar, permitir que essa pessoa conhecesse suas inseguranças e aceitar que nem sempre precisa
Dessa vez, não fugiria da conversa. Contaria toda a verdade, assumiria seus erros e faria o que fosse necessário para tentar consertar as coisas. Foi Sabrina quem abriu a porta. — Dante? — Bom dia, senhora Sabrina. A Maia está? A mulher observou o rapaz por alguns segundos. Conhecia aquela expressão. Havia sofrimento nos olhos dele, mas também uma determinação que não passava despercebida. — Está, sim. Pode entrar, querido. Dante agradeceu e entrou, encontrando Maia na sala. Assim que o viu, ela ficou imóvel por um instante, surpresa com a presença dele. Os dois se encararam, e toda a saudade que tentavam esconder pareceu ocupar o espaço entre eles. — Dante? O que você está fazendo aqui? — Preciso conversar com você. Sobre tudo. Maia hesitou, mas concordou com a cabeça. Sabrina, percebendo que os dois precisavam de privacidade, inventou uma desculpa para deixá-los sozinhos. Dante se aproximou do sofá, mas permaneceu em pé, sem saber exatamente como começar. — Eu descobri
Dante ficou imóvel, encarando a mãe como se estivesse esperando que ela desmentisse aquelas palavras. — Você fez o quê? A pergunta saiu baixa, quase num sussurro, mas a expressão em seu rosto deixou claro que ele estava longe de estar calmo. A mãe começou a chorar novamente. — Eu sei que errei, filho. Mas, por favor, me deixa explicar... — Explicar o quê, mãe? Que você se aliou à Valentina para destruir o meu relacionamento? — Não foi exatamente assim... — Então como foi? Porque, até onde eu entendi, você decidiu que a Maia não era boa o suficiente para mim e resolveu acabar com tudo antes mesmo de me dar a oportunidade de escolher! Dante se afastou, passando as mãos pelos cabelos. Era difícil acreditar que aquela mulher, que poucos minutos antes chorava por causa da traição do marido, também fosse responsável por parte do sofrimento que ele e Maia estavam enfrentando. A mãe respirou fundo, tentando encontrar as palavras. — Eu mandei as mensagens ameaçando a Maia para que el
Dante passou a noite inteira pensando em Maia.Por mais que tentasse se distrair, sua mente sempre encontrava um caminho de volta até ela. Lembrava-se de cada palavra trocada, de cada olhar magoado e de tudo o que havia acontecido nos últimos dias. Queria procurá-la, abraçá-la e pedir que os dois encontrassem uma maneira de resolver aquela situação, mas a mágoa ainda pesava em seu peito.Ele sentia falta dela. Mais do que gostaria de admitir.O problema era que, além de estar magoado, Dante também estava preocupado. As ameaças que Maia vinha recebendo não saíam de sua cabeça. Alguém estava tentando assustá-la, e ele precisava descobrir quem era e por quê.Quem poderia querer fazer tanto mal a ela?Virou-se na cama, pegou o celular e abriu a conversa dos dois. Ficou alguns segundos olhando para a tela, tentado a mandar uma mensagem, mas acabou desistindo. Não sabia se Maia queria falar com ele, e a possibilidade de ser recebido com o mesmo silêncio que vinha tentando suportar o fez des
Maia chegou à escola naquela manhã decidida a mudar as coisas.Depois da conversa com a mãe, compreendeu que não poderia continuar fugindo das pessoas que amava sob a desculpa de estar protegendo-as. Ainda tinha medo das consequências, mas estava cansada de carregar tudo sozinha.A primeira pessoa que precisava procurar era Lisa.Encontrou a amiga perto da sala de aula e esperou até que ela ficasse sozinha antes de se aproximar.— Lisa, a gente pode conversar?A amiga assentiu, e as duas caminharam até um lugar mais tranquilo.Maia entrelaçou os dedos, tentando organizar os pensamentos.— Eu queria te pedir desculpas. Sei que te magoei quando me afastei sem explicar nada, e você não merecia isso.Lisa permaneceu em silêncio, esperando que ela continuasse.— Eu estava com medo. Recebi aquelas mensagens anônimas e comecei a acreditar que, se mantivesse todo mundo longe, conseguiria impedir que as coisas piorassem. Achei que estava protegendo vocês, mas acabei tomando decisões por todo m
Na sala, a mãe de Maia entrou em casa cansada, deixando os próprios pertences de lado. Ao perceber a mochila e o celular da filha sobre a mesa, concluiu que ela já havia chegado.Preparava-se para chamá-la quando a tela do aparelho se acendeu.Uma notificação apareceu, fazendo-a hesitar.Ela não era o tipo de mãe que costumava invadir a privacidade da filha. Sempre acreditara que a confiança era construída com diálogo, não com controle. Ainda assim, havia dias em que percebia algo diferente em Maia.Os sorrisos estavam menores. As respostas, mais curtas. A tristeza, cada vez mais difícil de esconder.Preocupada, acabou pegando o celular e encontrou as mensagens anônimas que a filha vinha recebendo.Começou a ler uma após a outra, sentindo o coração apertar a cada palavra. As mensagens revelavam ameaças, pressões e o medo que alguém vinha colocando sobre os ombros de Maia.Quando terminou, permaneceu imóvel.Sua filha estava sofrendo havia tanto tempo, tentando proteger a mãe e as pess