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Rotinas e Inquietações

Author: Lanuza Santos
last update publish date: 2026-09-10 11:08:10

Os dias que antecederam o casamento escorreram como areia entre os dedos. A vida seguia seu ritmo, e o acordo parecia cada vez mais real e inevitável.

No haras, Isabela mergulhou em seu trabalho e na companhia de sua melhor amiga, Marina, como se quisesse extrair cada gota de alegria antes da mudança. Marina era o completo oposto de Isabela: uma designer de interiores, pragmática, organizada e com um senso de humor afiado.

- Você vai morar em uma mansão com um homem de terno. Sabe o que isso significa? - disse Marina, sentada no feno enquanto Isabela escovava a crina de Eclipse. - Você vai ter closets. Closets inteiros, Isabela. Esquece essa sua bota de montaria velha, a sua vida agora será de saltos e festas. Estou com uma inveja que você não faz ideia!

Isabela riu, o som genuíno.

- Você pode ter todos os closets. Eu só quero o meu cavalo. E meu espaço. Rafael e eu combinamos que eu teria um quarto só para mim. Para evitar qualquer... mal-entendido.

Marina suspirou, a expressão séria.

- Isabela, não se engane. Um quarto separado não vai resolver o problema. Vocês vão estar morando na mesma casa, respirando o mesmo ar. Essa promessa de papel vai ser testada, e muito. Se prepare para o pior. Ou para o melhor.

Isabela não respondeu. Apenas suspirou, ciente de que precisaria se manter cautelosa e firme em seus princípios para sair minimamente machucada dessa história.

Enquanto isso, em seu escritório na Faria Lima, Rafael estava imerso em planilhas e reuniões. Sua única pausa era o breve resumo diário que seu secretário, o metódico e leal Lucas, lhe trazia. Lucas era mais que um funcionário; ele era a sombra de Rafael, a única pessoa que entendia a mente complexa de seu chefe.

- A reportagem sobre o noivado está pronta. - informou Lucas, entregando a ele uma pasta. - A data está marcada para daqui a um mês e meio. A cerimônia será no cartório, com um almoço para poucos convidados, como o senhor pediu. E a imprensa já tem a nota oficial sobre o ‘casamento discreto’.

Rafael assentiu, sem olhar para cima.

- Alguma novidade sobre o estábulo?

Lucas hesitou.

- Sim, senhor. A negociação com o condomínio foi concluída. O conselho autorizou a construção de uma pequena área para o cavalo dela. A obra começará na próxima semana.

Rafael finalmente levantou a cabeça, a frieza habitual nos olhos.

- E o quarto dela?

- Está sendo reformado. Sua avó, a senhora Albuquerque, insistiu em supervisionar tudo. Ela até contratou um decorador. Disse que o quarto precisava ser ‘acolhedor’ para a nova neta dela.

Rafael fechou os olhos, uma leve tensão na mandíbula. Sua avó, uma figura quase fantasma em sua vida, reaparecendo agora para ditar como ele deveria viver. O gesto era, ao mesmo tempo, uma tentativa de aproximação e uma invasão de seu espaço, uma forma de ela tentar recuperar o tempo perdido e de impor a sua vontade.

A noite, de volta à mansão silenciosa, ele caminhou até o quarto que seria de Isabela. A porta estava aberta. Dentro, a equipe de reforma trabalhava, tirando o excesso de formalidade e frieza. Paredes antes brancas ganhavam um tom de verde musgo, e uma prateleira de livros de medicina veterinária e equitação estava sendo instalada. A cama era grande, com uma colcha macia e aconchegante. Era um quarto que clamava por vida e, pela primeira vez em anos, Rafael sentiu o eco de uma presença que parecia capaz de quebrar o silêncio da sua casa.

Ele se perguntou como seria acordar todos os dias com a presença dela. Com o caos, a paixão e a vida que ela traria. A inquietação deu lugar a um sentimento desconhecido: uma mistura de medo e, para sua surpresa, uma curiosidade silenciosa. Ele sabia que sua armadura, construída por anos para protegê-lo de emoções, seria testada.

A promessa selada estava a um passo de se tornar realidade.

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