MasukMinha mão treme de leve, mas eu estou nervosa, porque punir é ter a justiça feita por mim, por Heitor, minha mãe e por muitas outras pessoas com as quais ele tirou as vidas, apenas por capricho, onde o seu poder não manipulou ou alcançou.— É punido, sim, só que de outro jeito. O juiz não aplica uma pena, aplica o que a lei chama de medida de segurança. E o cumprimento dela não é numa penitenciária comum, é num hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, o que muita gente ainda chama, por hábito antigo, de manicômio judiciário. É um lugar fechado, com grades, com segurança; a senhora não deve imaginar um hospital comum de portas abertas. Mas é também um lugar com médicos, com acompanhamento, porque o juiz reconheceu que ali não mora só um criminoso. Mora também um homem cuja mente não funciona como a lei espera que a mente de alguém funcione antes de responder plenamente pelos próprios atos.Fico em silêncio, deixando as palavras assentarem, cada uma encontrando um lugar diferente
O interfone toca antes das nove, um som seco que atravessa a casa ainda quieta de domingo. Quando abro a porta, o doutor Markov está parado no degrau, uma garrafa de vinho presa contra o corpo pelo cotovelo, o outro braço ajeitando o sobretudo bege contra o vento. Ele ergue a garrafa de leve, como quem mostra a senha de uma entrada.— Nikolai pediu que eu viesse — ele diz, os olhos correndo rápido pelo corredor atrás de mim antes de voltarem para o meu rosto. — Disse que seria melhor a senhora ouvir de um médico do que ler em laudos.— Entre — digo, e me afasto da porta. — E pode me chamar de Yari.Ele entra devagar, limpando os sapatos no capacho, mesmo sem neve ou terra grudada neles. Sem a sala de visitas do tribunal, sem o agente parado na porta, sem o jaleco, ele encolhe. Vira só um homem carregando um casaco pesado demais para o corpo magro, o peso de um conhecimento que ninguém pediu, mas que ele traz do mesmo jeito. Entrega o casaco e o vinho para a Amy, que o recebe com as du
Eu não queria me casar.Lembro-me exatamente do dia em que minha avó anunciou o acordo, sentada à mesa de jantar com aquela calma que ela usa quando já decidiu algo e só está me avisando, não perguntando, os talheres organizados com uma precisão que só reforçava o quanto aquilo já estava resolvido antes de eu abrir a boca. Lembro da irritação subindo pela garganta, da vontade de bater a porta, de dizer que minha vida não era peça de tabuleiro para ser movida conforme a conveniência política de ninguém.Eu não conhecia a Yari.Conhecia apenas o nome — filha do presidente Ashford, herdeira de um sobrenome pesado, peça de um jogo que eu nunca pedi para jogar. Imaginei, antes de conhecê-la, alguém treinada para aquilo. Alguém que soubesse sorrir nos momentos certos, dizer as frases certas, representar o papel de esposa perfeita sem nunca deixar transparecer o que realmente sentia por baixo do verniz.Eu estava certo sobre o verniz, mas completamente errado sobre o motivo dele existir.Lev
Dois meses depois…A noite caiu devagar sobre o quarto, o céu lá fora passando por tons de laranja, depois roxo, depois um azul profundo que agora se reencosta contra a janela. Matteo dorme no berço co-sleeper , o peito subindo e descendo em ritmo perfeito, os punhos pequenos fechados ao lado do rosto como se ainda segurasse, mesmo dormindo, algum sonho importante demais para soltar. A luz do abajur é baixa, quente, suficiente para iluminar o rosto de Nikolai, sentado na poltrona ao lado da cama, ainda com o livro aberto no colo, que ele finge ler há meia hora, os olhos parados na mesma página desde que entramos no quarto.Eu não consigo dormir. As palavras estão dentro de mim há dias, fermentando, pedindo saída, crescendo a cada noite como uma maré que já não cabe mais atrás dos dentes. Preciso dizê-las em voz alta, senão vão me sufocar.Nikolai percebe meu movimento antes mesmo que eu diga qualquer coisa — sempre percebe. Fecha o livro devagar, marcando a página com o dedo por hábi
Suspiro.— A história não virou história dele — corrijo, paciente, como quem explica aritmética a um aluno lento. — A história continua nossa. Legado não pertence a quem dá sobrenome, mas a quem construiu o caminho. E quem construiu esse caminho, a Yari, o medo dela, a obediência dela, tudo que ela herdou, fui eu. — E-eu vi ela crescer. — Você viu através de mim, quando eu deixei. — Mas eu vi. Eu e-estava lá, Cassian. Quando ela caiu da bicicleta... e-eu que a levantei. Foi rápido porque v-você assumiu, mas fui e-eu. Quando ela chorou p-pela primeira vez ou quando ela a-aprendeu que o pai não olha para a gente o t-tempo inteiro. Eu senti cada coisa... Você n-nunca sentiu nada. Você... você só c-calcu... — Eu calculei. Exatamente. — E e-é por isso que ela é sua? — A voz dele quebra, mas não para. É novo, esse não parar. — Porque você c-calculou? Porque ela e-é consequência? Eu sou s-só o menino que a-amou ela de verdade e v-você... você é o que a fez ter medo de você. — Medo é pr
O silêncio aqui não é vazio, ele observa; aprendi isso rápido. O nome na porta diz Lucian Campbell, a tinta já descascando um pouco nas bordas da placa de metal. Ignoro. Esse nome morreu junto com o menino que era, muito antes de existir a farsa de Richard. O médico fala alguma coisa quando vem para a consulta semanal, perguntas de rotina, horários, dosagem de medicamentos. Termos em russo que não significam nada para mim, a voz dele arrastando as sílabas com o mesmo tédio de sempre enquanto examina as cicatrizes disformes e enrijecidas nos meus dois joelhos. Respondo quando é necessário, o mínimo para manter o jogo funcionando. Porque ainda é um jogo… Sempre é. Abaixo das rodas da cadeira, o gelo abaixo do concreto estala, um som seco e profundo que atravessa o chão da cela. O complexo de segurança máxima na Sibéria — a fortaleza no fim do mundo onde Nikolai Konstantin me jogou — foi projetado para moer a sanidade de qualquer homem. O vento uiva lá fora como uma fera presa, arran







