INICIAR SESIÓNJá tentei fazer barulho suficiente para chamar atenção. Gritei até minha voz desaparecer. Bati nas barras até minhas mãos sangrarem. Nada… Ninguém veio. Exceto Thomas, na hora de sempre da alimentação. Ele simplesmente deixou a comida e foi embora, ignorando meus gritos.
O teto da gaiola é formado por barras cruzadas. Mesmo que eu conseguisse alcançá-lo — e mal consigo ficar de pé sem curvar a cabeça —, não há nada para empurrar ou puxar. O chão é de pedra maciça, sem alçapões, rachaduras ou qualquer ponto fraco. A única abertura é a porta, e a fechadura fica do lado de fora. Óbvio. Thomas mantém as chaves presas ao cinto, longe do meu alcance.
Olho para o pouco que existe dentro da minha prisão. O cobertor é fino e surrado. O balde que uso para as necessidades é esvaziado por mãos invisíveis enquanto durmo; sempre acordo e o encontro limpo. Mais uma humilhação em uma lista que parece não ter fim. A bandeja vazia permanece no canto.
A bandeja.
Meus olhos param nela. É de metal, mas fina. Um aço barato, duro. Não se compara às de prata ou bronze, que nos serviam na mansão Ashford. Olho atentamente e observo que as bordas são irregulares, mal feitas… Rastejo até ela, ignorando a tontura que acompanha qualquer movimento. Pego a bandeja e a examino com cuidado. As bordas ficaram afiadas onde o metal foi cortado e não recebeu acabamento.
Pequenas rebarbas.
Imperfeições.
Uma ideia começa a tomar forma. Pequena, talvez impossível. Mas, ainda assim... uma ideia. Se eu conseguisse dobrar o metal... Se o afiasse contra as barras da gaiola... Não seria uma faca. Nem chegaria perto disso. Mas seria alguma coisa. Algo afiado, capaz de ferir e que talvez me desse uma chance. Uma chance de quê, exatamente, eu ainda não sei. Mas fazer alguma coisa é melhor do que continuar esperando.
Pela primeira vez em dias, obrigo-me a ser paciente. Como o pedaço miserável de pão quando Thomas o traz. Bebo a água devagar, guardando um pouco para mais tarde.
Preciso de força.
Preciso aproveitar cada mínimo resto de energia. Quando Thomas finalmente vai embora — sem olhar para mim, como sempre —, começo a trabalhar.
Pego a bandeja e a dobro ao meio. O aço resiste no começo, mas acaba cedendo sob a pressão constante. Dobro outra vez. E mais uma. Criando camadas. Tornando-o mais espesso e resistente. Depois, começo a afiar a borda, esfregando o metal contra as barras da gaiola. Sem parar. Metal contra metal. O chiado é horrível, agudo o suficiente para fazer meus dentes rangerem. Mesmo assim, continuo, para a frente e para trás, sucessivamente. Depois passo a usar o chão de pedra para acelerar o processo.
Minhas mãos cansam rapidamente. Estou fraca demais. Mas, sempre que penso em parar, vejo o rosto do meu pai. Ouço sua voz ordenando a morte de Heitor, mesmo não tendo ouvido. Vejo minha aliança desaparecendo nas chamas…
E continuo.
As horas passam. Meus dedos criam bolhas e elas estouram. O sangue deixa o metal escorregadio. Limpo tudo no vestido. Ele já está destruído; mais um pouco de sangue não faz diferença. Quando minha mão direita já não aguenta mais, continuo com a esquerda. Quando as duas começam a tremer, descanso alguns minutos. Bebo um gole de água. Como as migalhas de pão que guardei, volto ao trabalho.
É lento, doloroso, repetitivo. Mas, pouco a pouco, começo a perceber o resultado. A borda fica mais fina e afiada. Quando passo a ponta do dedo com cuidado, sinto que ela já seria capaz de cortar. Não é muito. Está longe de ser uma arma de verdade, mas é alguma coisa.
Continuo trabalhando por horas; não faço ideia de quantas. O tempo deixou de existir aqui dentro. Quando finalmente paro, minhas mãos já não conseguem segurar mais nada. Observo o que consegui fazer. É uma lâmina improvisada, tosca, irregular. Mas afiada de um lado. Escondo-a cuidadosamente debaixo do cobertor, no canto mais escuro da gaiola. Depois me deito sobre ele, cobrindo completamente o esconderijo.
E espero.
Durmo em intervalos curtos e inquietos. Sempre alerta e ouvindo qualquer passo do lado de fora. Toda vez que acordo, levanto discretamente a ponta do cobertor. A lâmina continua ali.
Real.
Sólida.
Minha única chance.
Quando finalmente escuto a fechadura principal girar, meu coração dispara.
E se ele perceber?
E se notar a falta da bandeja?
E se mandar outra pessoa em seu lugar?
Fecho os olhos antes que a porta se abra, respiro fundo uma única vez; não existe outra oportunidade.
Quando Thomas aparece com a refeição, finjo estar dormindo. Permaneço encolhida sob o cobertor, respirando devagar, como se estivesse mergulhada em um sono profundo. Ouço a porta ranger. Depois, o som familiar da bandeja sendo empurrada pela abertura. Ele está prestes a ir embora.
É agora.
Meu corpo reage antes mesmo que eu pense. Movo-me mais rápido do que alguém faminta deveria conseguir. A adrenalina atravessa meu corpo como uma descarga. Passo o braço pela abertura e cravo a lâmina improvisada no dorso da mão de Thomas. Não afundo muito. Não quero machucá-lo gravemente.
Só preciso surpreendê-lo por um tempo.
Só preciso que doa.
Que funcione.
Thomas solta um grito de dor e puxa a mão de volta por puro reflexo. É exatamente o que eu esperava. Naquele breve segundo em que toda a atenção dele está voltada para a ferida, enfio o outro braço pela abertura e agarro o molho de chaves preso ao seu cinto. Por um instante, o fecho engata no mosquetão. Meu coração dispara. Então… o fecho cede. As chaves caem na minha mão.
— Senhorita, não! — Thomas percebe tarde demais.
Já estou me afastando da porta, segurando as chaves com força. Sua mão sangra, mas o corte é superficial. Ele endireita o corpo rapidamente, pega o rádio preso ao uniforme e o leva à boca.
— Código vermelho! — grita, sem esconder o desespero. — A senhorita Ashford está fugindo! Código vermelho!
Não tenho tempo. Esperava ganhar alguns minutos antes que percebessem, mas Thomas já chamou reforços. E, se existe uma coisa que aprendi vivendo ao lado do meu pai, é que sua equipe de segurança leva protocolos a sério.
Minhas mãos tremem enquanto seguro o molho de chaves. Thomas volta a se posicionar diante da gaiola. Ele enfia a mão boa pelo espaço estreito, tentando alcançar meu braço ou arrancar o metal dos meus dedos.
— Devolva isso agora, senhorita! Por favor! — A voz dele sai rouca, tomada pelo pavor. — O senhor Ashford não vai me perdoar... Eu tenho filhos me esperando em casa!
Dou um passo para trás. Seguro a lâmina improvisada com a mão esquerda e torno a passá-la pelo vão. Desta vez, atinjo o antebraço de Thomas. O corte é raso, mas suficiente para fazê-lo recuar por instinto com outro grito abafado. O sangue escorre pelo punho dele.
Aproveito esses segundos preciosos. Rasgo um pedaço da barra do meu vestido e o enrolo rapidamente ao redor da mão direita, criando uma proteção improvisada sobre o molho de chaves. Se ele tentar me puxar, não conseguirá arrancá-las da minha mão tão fácil. Em seguida, coloco-me contra a porta. Pressiono o ombro direito contra a grade fria. Meu peito quase encosta nas barras para bloquear ao máximo o vão. Estendo apenas a mão necessária pelo espaço para alcançar a fechadura do lado de fora.
Meus dedos tremem tanto que quase deixo tudo cair.
Primeira chave. Não entra. Ela escorrega, mas consigo segurar.
Thomas volta a avançar. Os dedos dele roçam meu ombro e tentam puxar o tecido enrolado na minha mão.
— Pare com isso! Você não vai conseguir sair!
Giro o cotovelo, usando-o como barreira. O braço dele b**e contra meu ombro e fica preso por um instante no espaço estreito da grade. Ele força, empurra, grunhe de esforço, mas a abertura é pequena demais e meu corpo impede que ele chegue à fechadura.
Segunda chave. Também não. Meu coração parece querer romper o peito.
Terceira. Nada.
Thomas puxa o braço de volta e b**e com violência na porta usando a mão boa. O impacto faz toda a estrutura estremecer.
Quarta chave. Também não serve. Por um instante, o desespero ameaça tomar conta de mim. E se nenhuma abrir? E se eu estiver perdendo tempo? Não. Não posso pensar nisso agora. Pego a próxima.
Quinta chave.
Ela entra.
Giro devagar.
Um clique metálico rompe o silêncio. O som mais bonito que já ouvi na vida.
Está aberta. Meu coração esquece de bater por um segundo. A porta cede alguns centímetros.
Thomas percebe imediatamente. Ele se j**a contra ela, usando o próprio peso para empurrá-la de volta. A porta b**e com violência no meu braço. A dor sobe até meu ombro, queimando cada músculo. Quase solto as chaves. Quase.
Mas empurro de volta. Com as pernas, com o ombro, com tudo o que ainda resta dentro de mim.
A abertura aumenta só um pouco. O suficiente. Passo o corpo de lado, tropeçando para fora da gaiola.
Por um segundo… estou livre.
Não paro. Corro imediatamente em direção à porta que Thomas deixou destrancada quando entrou. As chaves continuam apertadas contra minha mão, envoltas no retalho de pano. Ouço Thomas atrás de mim, seus dedos quase tocando minhas costas. Giro o corpo, abaixo-me e continuo correndo.
Então, o som toma os corredores de pedra. Passos. Muitos passos. Cada vez mais próximos.
Vozes ecoando: — Pela escadaria leste!
— Bloqueiem as saídas!
— Não a deixem escapar!
ALGUMAS HORAS ANTES.Ela entra pela porta da igreja e meu mundo simplesmente para.Não é dramático, nem é poético como nos filmes. É apenas... a verdade nua e crua. Tudo o que ocupava minha mente — as reuniões de negócios atrasadas que meu assistente mencionou três vezes hoje, o contrato urgente que preciso revisar antes de segunda-feira, a ligação que deveria ter feito ontem para o investidor japonês — desaparece completamente. Apaga-se como uma luz que deixa de existir.Vejo apenas ela.O vestido é branco, impecável, com uma cauda que se estende por metros intermináveis. Seu cabelo está penteado em ondas suaves e românticas, que caem graciosamente sobre os ombros. A maquiagem é perfeita, profissional, mas há algo em seus olhos que nem a melhor maquiagem consegue esconder.
O restante da recepção passa em um borrão nebuloso.Cortamos o bolo — cinco andares de decadência cobertos por fondant branco e flores de açúcar. Sorrimos para mais fotografias. Recebemos parabéns de pessoas cujos nomes já esqueci.E então, finalmente, somos liberados.Um carro nos leva para o apartamento do Nikolai. Não para a casa de Ekaterina, mas para um apartamento em um arranha-céu luxuoso, a alguns quarteirões dali. O apartamento que agora será onde irei morar com ele.Nossa casa…💞O elevador sobe quarenta andares em um silêncio pesado. Nikolai permanece ao meu lado, sem me tocar, respeitando algum espaço invisível entre nós.Quando as portas se abrem diretamente para o apartamento — elevador privativo, é claro —, ele entra primeiro e acende as luzes.É... deslumbrante.Janelas do chão ao teto revelam uma Manhattan que parece infinita. A decoração é moderna, mas acolhedora. Tudo em tons de cinza, branco e azul suave.— Bem-vinda — Nikolai diz, voltando-se para mim. — Bem-vind
A recepção acontece no Plaza Hotel.O Grand Ballroom foi transformado em algo saído diretamente de uma revista. Flores brancas em profusão — rosas, lírios e orquídeas. Velas em castiçais de cristal sobre cada mesa. Toalhas de linho branco impecáveis. Louças de porcelana fina, taças de cristal e talheres de prata.Tudo perfeito, luxuoso e absolutamente sufocante.Sentamos à mesa principal — apenas Nikolai, eu, Ekaterina e alguns outros membros mais velhos da família Konstantin, apresentados tão rapidamente que não consegui guardar nenhum nome. A comida é servida em pratos que parecem verdadeiras obras de arte. Cada garfada é uma produção. Cada mordida é observada.Como, por que esperam que eu me alimente. Sorrio porque é necessário, converso educadamente quando alguém me dirige a palavra. Respondo às perguntas sobre como nos conhecemos com mentiras que soam surpreendentemente convincentes até para mim.“Nos conhecemos por meio das famílias... Sim, foi amor à primeira vista quando final
Há vida de verdade aqui. Genuína, autêntica, verdadeiramente humana.Subimos uma escadaria larga e elegante. Segundo andar. Depois, terceiro. O quarto que me designam fica no terceiro andar, voltado para os fundos tranquilos da propriedade.É absolutamente, indiscutivelmente lindo. Uma cama com dossel de mogno escuro impecável, coberta por roupa de cama branca, meticulosamente bordada à mão. Cortinas de seda azul-clara que combinam perfeitamente com o delicado papel de parede. Móveis antigos, mas impecavelmente conservados. Um banheiro privativo espaçoso, revestido em mármore branco de veios cinzentos naturais, com uma banheira profunda que parece absolutamente divina. E janelas… Janelas grandes, generosas, que oferecem uma vista deslumbrante para um jardim privado surpreendentemente verde e exuberante para o meio do caos de Manhattan.Nenhuma corrente visível. Nenhuma tranca aparente na porta e nem mesmo grades nas janelas. A liberdade sem liberdade de verdade em sua própria forma, p
Saio finalmente, relutantemente, e me seco com uma toalha surpreendentemente macia. Aproximo-me do espelho grande, ainda embaçado pelo vapor denso, e limpo um círculo irregular com a mão trêmula.A mulher que me observa de volta é uma completa estranha.Tenho vinte e dois anos; meu aniversário foi há três meses, comemorado alegremente em Ibiza com Heitor e alguns colegas da faculdade, sob o sol mediterrâneo, uma memória que parece pertencer a outra pessoa, em outra vida completamente diferente. Mas a mulher no espelho poderia facilmente ter trinta, quarenta, talvez até mais. Meus olhos estão completamente vazios. Absolutamente vazios de qualquer emoção, de qualquer vida. Não há luz neles, nem há esperança. Apenas duas órbitas verdes e escuras, cavadas, em um rosto pálido como papel. Minha pele está translúcida, esticada desconfortavelmente sobre ossos proeminentes que desenham ângulos agudos. Meu rosto perdeu toda a redondeza suave e juvenil, substituída cruelmente por ângulos afiados
Meu rosto está magro demais, anguloso, com as maçãs do rosto proeminentes de uma forma que não tem nada de atraente. Meus lábios estão pálidos, rachados, sem cor. Olho para o espelho que há no quarto e suspiro. — Você emagreceu demais — meu pai comenta friamente, de forma quase clínica, como se estivesse apontando um erro gritante em um relatório trimestral, e volto minha atenção para ele. — Seus ossos estão visíveis sob a pele, não é minimamente atraente. É inaceitável. — Estava com muita dor para comer — respondo em voz baixa. Minha voz sai como um sussurro. — Ainda está doendo; na verdade, tudo dói.— Bem, você tem três dias — ele diz, como se três dias fossem tempo mais do que suficiente para desfazer semanas de trauma acumulado, desnutrição proposital e tortura. — Coma mais. Force-se, se for necessário. Não me importa se dói, se enjoa ou se você vomita depois, apenas coma. Durma mais, use os cremes caros que Bernardo deixou para as olheiras. Quando chegar à casa de Ekaterina Ko







