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7 - Yari Ashford.

last update Fecha de publicación: 2026-08-27 00:40:38

Meu coração dispara em meu peito.

— Não! — grito, tomada por um desespero avassalador.

Sinto como se estivesse me quebrando por dentro, até não sobrar mais nada. Meu coração está destruído demais. Desabo no chão áspero da gaiola, com o corpo dobrado sobre si mesmo, soluçando tão violentamente que o ar se recusa a entrar. Cada vez que tento respirar, outro soluço vem como uma lâmina, cortando minha respiração pela metade. 

Não há ar suficiente neste lugar. 

Não há ar suficiente no mundo inteiro para preencher o vazio que está surgindo dentro do meu peito.

Ouço passos se aproximando. Ritmados. Implacáveis. Meu pai caminha até a gaiola novamente. Os sapatos de couro italiano, impecavelmente polidos, ecoam contra o chão de pedra úmida.

— Quinze dias. — A voz dele chega até mim como se viesse de algum lugar acima da minha cabeça. Distante, desconectada. Como se estivesse ditando o relatório  e não sentenciando a própria filha. — Você ficará aqui durante esse tempo. Pensando. Refletindo sobre suas escolhas e suas responsabilidades. Mas, quando sair, será exclusivamente para se casar com Nikolai Konstantin. Para se comportar com a dignidade esperada da filha do presidente de Karsóvia. Para cumprir seu dever para com sua família e nação.

Não respondo. 

Não consigo. 

Meu corpo inteiro é consumido pelo tremor do choro. Não existe espaço para palavras, apenas o gosto amargo do estômago revirado.

— Para ajudá-la a entender a seriedade da situação — ele continua, assumindo aquele tom professoral, frio e calculista. — Sua alimentação será... significativamente reduzida. O suficiente para mantê-la viva e saudável para o altar. Nada mais, nada além do mínimo necessário. Talvez a fome ajude a clarear suas prioridades. A focar sua mente no que realmente importa. — Permaneço sem dizer uma única palavra. Ele poderia falar que ordenou minha execução, e eu não seria capaz de mover um músculo. Não existe mais nada que ele possa tirar de mim que doa mais, que corte mais fundo ou que sangre mais do que aquilo que acabou de jogar naquela lareira. — Boa noite, olhos brilhantes.

O apelido é um tapa. Aquilo que um dia foi o jeito carinhoso como minha mãe me chamava, na boca dele soa como puro deboche. Apenas mais uma forma de lembrar quem tem o controle absoluto sobre mim. Ouço seus passos se afastando. Calmos e medidos. A pesada porta de madeira maciça se abre. O rangido das dobradiças ecoa pelo teto arqueado. Depois… Ela se fecha. O estrondo reverbera pelas paredes de pedra… A tranca gira. 

Um. 

Dois. 

Três. 

Quatro.

Os cliques metálicos são pesados, selando meu destino… então silêncio. Um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo crepitar indiferente do fogo e pelos meus próprios soluços.

Permaneço encolhida sobre o chão gelado, envolta pelos restos do vestido de noiva que, poucas horas atrás, era a coisa mais bonita que eu já tinha vestido. Agora… não passa de um amontoado de tecido rasgado, coberto de lama, poeira e sangue. Meus olhos permanecem presos às brasas da lareira. Foi ali que minha aliança deixou de existir. Foi ali que a última lembrança de Heitor virou cinzas. E eu choro. Choro até que as lágrimas sequem, até minha garganta arder. 

Até minhas pálpebras pesarem. 

Até não restar nada além de um vazio enorme e cinzento.

💞

Passam-se dias. Não… “passar” é uma palavra generosa demais. Ela sugere movimento. Fluxo. Progresso. Esses dias não passam, eles se arrastam. Como vermes sobre a pele. Cada segundo parece durar uma eternidade. Sem janelas, perco completamente a noção do tempo. Não sei quando amanhece ou quando anoitece. Existe apenas o fogo da lareira, que continua queimando sem parar, alimentado por mãos invisíveis. A luz dança pelas paredes, formando sombras distorcidas. O calor, porém, nunca chega até mim.

Acordo com o estalo pesado da fechadura principal. A porta se abre. Um dos guardas entra. Thomas. Reconheço seu porte imediatamente e também reconheço a maneira como caminha. Ele trabalha para meu pai há anos, desde antes de eu deixar de ser uma criança. Sempre foi o funcionário exemplar. 

Educado. 

Silencioso. 

Era ele quem abria a porta do carro para mim e dizia: — Bom dia, senhorita Ashford.

Agora… Evita meus olhos. Mantém o rosto voltado para a parede enquanto se agacha e empurra uma bandeja de alumínio por uma abertura estreita na base das barras. O som do metal raspando na pedra me faz encolher. Na bandeja há apenas uma fatia de pão de forma. Fina, ressecada nas bordas e provavelmente amanhecida. E um copo plástico com um pouco de água. Fico olhando para aquilo durante um longo tempo. Meu estômago dói de fome. Uma dor constante, queimando por dentro. Mesmo assim, a simples visão daquela comida me provoca náusea.

— Thomas… — minha voz sai como um sussurro áspero, castigada pelos dias de choro e pela garganta seca. Quase não a reconheço. — Por favor… deixe-me sair. Você me conhece, sabe quem eu sou. Conhece nossa família há anos e entende que isso não está certo.

— Não posso, senhorita. — Ele murmura sem levantar os olhos. 

Continua olhando para um ponto qualquer acima da minha cabeça, como se me encarar fosse difícil demais.

— Por favor…

Rastejo pelo chão e estico o braço entre as barras, tento alcançar a barra da calça do uniforme dele. — Thomas… Olha para mim, isso é tortura! Eu não cometi crime nenhum para ser trancada como um animal.

— São ordens diretas do senhor Ashford. — A resposta sai automática, quase decorada. — Não posso desobedecer ao presidente.

— Ele não é só o presidente! — Minha voz racha sob o peso do desespero. — Ele é meu pai! Está me deixando passar fome, mantendo-me presa no escuro. Thomas… olhe para mim, olhe nos meus olhos e me diga que consegue dormir sabendo disso.

Por um instante… Ele vacila. A mandíbula se contrai, os olhos finalmente encontram os meus. 

Vejo a culpa. 

A vergonha. 

E a pena. 

Mas tudo desaparece quase no mesmo instante; ele desvia o rosto novamente.

— Sinto muito, senhorita. — A sua voz falha. — Eu sinto muito mesmo. Mas tenho família, tenho dois filhos. Se eu desobedecer ao presidente…

Ele não termina a frase. Não precisa. Conheço o poder do meu pai melhor do que ninguém. Se ele quiser destruir a vida de alguém… basta uma assinatura ou ordem. Thomas se afasta depressa, como se permanecer perto da gaiola fosse insuportável. A porta se fecha, as fechaduras giram. Quatro cliques e estou sozinha outra vez.

Olho para a bandeja. Meu pai não estava blefando. Pego a fatia de pão com os dedos trêmulos e ela está dura. Áspera. Mesmo assim, meu corpo fala mais alto que o orgulho. Dou uma mordida pequena, mastigo devagar… muito devagar. Transformo cada pedaço em uma pasta antes de engolir, preciso fazer durar. Quando o pão finalmente chega ao meu estômago vazio, uma onda de cãibras me faz dobrar o corpo. Ainda assim… Prefiro essa dor ao vazio da fome. Bebo a água em goles minúsculos, demorando alguns segundos antes de engolir cada um deles. Quando o copo fica vazio, passo a língua pelo fundo do plástico, tentando aproveitar as últimas gotas. Duas vezes por dia. Essa passa a ser a minha única forma de medir o tempo. 

 💞

Thomas aparece no que imagino ser a manhã. Pão. Água. Às vezes, uma lasca de queijo ressecado ou uma maçã pequena e machucada, que como inteira, sem desperdiçar nada. Depois, no que acredito ser a noite, ele volta. A mesma bandeja. A mesma quantidade miserável de comida e nunca é suficiente. Meu corpo começa a enfraquecer. 

Sinto os músculos perderem força a cada dia. Começo a sonhar acordada com comida.

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Último capítulo

  • Prometida ao Bilionário Russo.   29 - Nikolai Konstantin.

    ALGUMAS HORAS ANTES.Ela entra pela porta da igreja e meu mundo simplesmente para.Não é dramático, nem é poético como nos filmes. É apenas... a verdade nua e crua. Tudo o que ocupava minha mente — as reuniões de negócios atrasadas que meu assistente mencionou três vezes hoje, o contrato urgente que preciso revisar antes de segunda-feira, a ligação que deveria ter feito ontem para o investidor japonês — desaparece completamente. Apaga-se como uma luz que deixa de existir.Vejo apenas ela.O vestido é branco, impecável, com uma cauda que se estende por metros intermináveis. Seu cabelo está penteado em ondas suaves e românticas, que caem graciosamente sobre os ombros. A maquiagem é perfeita, profissional, mas há algo em seus olhos que nem a melhor maquiagem consegue esconder.

  • Prometida ao Bilionário Russo.   28 - Yari Konstantin.

    O restante da recepção passa em um borrão nebuloso.Cortamos o bolo — cinco andares de decadência cobertos por fondant branco e flores de açúcar. Sorrimos para mais fotografias. Recebemos parabéns de pessoas cujos nomes já esqueci.E então, finalmente, somos liberados.Um carro nos leva para o apartamento do Nikolai. Não para a casa de Ekaterina, mas para um apartamento em um arranha-céu luxuoso, a alguns quarteirões dali. O apartamento que agora será onde irei morar com ele.Nossa casa…💞O elevador sobe quarenta andares em um silêncio pesado. Nikolai permanece ao meu lado, sem me tocar, respeitando algum espaço invisível entre nós.Quando as portas se abrem diretamente para o apartamento — elevador privativo, é claro —, ele entra primeiro e acende as luzes.É... deslumbrante.Janelas do chão ao teto revelam uma Manhattan que parece infinita. A decoração é moderna, mas acolhedora. Tudo em tons de cinza, branco e azul suave.— Bem-vinda — Nikolai diz, voltando-se para mim. — Bem-vind

  • Prometida ao Bilionário Russo.   27 - Yari Konstantin.

    A recepção acontece no Plaza Hotel.O Grand Ballroom foi transformado em algo saído diretamente de uma revista. Flores brancas em profusão — rosas, lírios e orquídeas. Velas em castiçais de cristal sobre cada mesa. Toalhas de linho branco impecáveis. Louças de porcelana fina, taças de cristal e talheres de prata.Tudo perfeito, luxuoso e absolutamente sufocante.Sentamos à mesa principal — apenas Nikolai, eu, Ekaterina e alguns outros membros mais velhos da família Konstantin, apresentados tão rapidamente que não consegui guardar nenhum nome. A comida é servida em pratos que parecem verdadeiras obras de arte. Cada garfada é uma produção. Cada mordida é observada.Como, por que esperam que eu me alimente. Sorrio porque é necessário, converso educadamente quando alguém me dirige a palavra. Respondo às perguntas sobre como nos conhecemos com mentiras que soam surpreendentemente convincentes até para mim.“Nos conhecemos por meio das famílias... Sim, foi amor à primeira vista quando final

  • Prometida ao Bilionário Russo.   26 - Yari Ashford.

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  • Prometida ao Bilionário Russo.   25 - Yari Ashford.

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  • Prometida ao Bilionário Russo.   24 - Yari Ashford.

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