Se connecterNa segunda-feira na escola, Jane encontrou Gaby radiante.
— Você e Beto saíram no sábado?
— Saímos.
— Ficaram juntos até tarde?
— Não. Depois ele foi encontrar os amigos.
Jane fingiu desinteresse.
— E você não se incomoda?
— Com o quê?
— Ele passar a semana fora e ainda sair com os amigos quando volta.
Gaby riu.
— Claro que não. Ele não tem que ficar grudado em mim o fim de semana inteiro.
Jane estudou seu rosto.
Gaby realmente não desconfiava.
— Você está estranha.
— Estou pensando.
— Isso é perigoso.
Jane riu.
— Muito.
— Gaby.
A voz de Cida interrompeu a conversa.
Ela se aproximava acompanhada de Flávia e lançou um olhar rápido para Jane antes de segurar Gaby pelo braço.
— Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.
— Agora?
— Agora.
Gaby riu da urgência da amiga.
— Já volto.
As duas começaram a se afastar, mas Flávia permaneceu por um instante.
— Jane.
— Flávia.
— Você faz isso de propósito?
Jane ergueu as sobrancelhas.
— Faço o quê?
— J**a uma coisa no ar e depois finge que não disse nada.
Jane sorriu de leve.
— Não sei do que você está falando.
— Sabe, sim.
— Se a Gaby não se incomodou, por que você está se incomodando?
Flávia estreitou os olhos.
— Porque eu conheço a Gaby.
— Eu também.
— Não como eu.
— Flávia! — Gaby chamou alguns passos adiante.
Ela sustentou o olhar de Jane por mais um instante.
— Estou indo.
E alcançou as amigas.
Jane ficou para trás.
Naquele momento, ainda não sabia exatamente o que faria com a informação. Mas sabia que faria alguma coisa.
***
Na sexta seguinte, Beto e Gaby saíram juntos.
Por algumas horas, foram exatamente o casal que todos acreditavam que fossem. Riram, conversaram, fizeram planos. Beto falou sobre a faculdade; Gaby contou sobre a escola.
Em determinado momento, ela encostou a cabeça no ombro dele.
— Oito meses.
— O quê?
— Faltam oito meses.
Beto demorou a entender.
— Para seu aniversário?
Ela levantou a mão esquerda e mexeu os dedos.
— Para o nosso noivado.
— Ah.
Gaby se afastou.
— “Ah”?
— O quê?
— Essa é a sua reação?
Beto riu.
— Estou brincando.
— Sei.
Ele segurou a mão dela.
— Oito meses.
— Está nervoso?
— Eu? Nunca.
— Eu estou.
— Por quê?
— Porque vai ficar tudo mais real.
— Gaby, nossas mães decidiram nosso casamento antes de você nascer. Não sei como isso pode ficar mais real.
Ela riu.
— Bobo.
— Vai ser perfeito.
Gaby acreditou.
Não havia razão para não acreditar.
Quando voltaram, Beto a acompanhou até o portão. Sua própria casa ficava a poucos passos dali.
— E amanhã? — Gaby perguntou. — Vamos fazer alguma coisa?
— Não sei se vou poder sair.
— Por quê?
— Tenho umas coisas para fazer.
— De novo essas coisas misteriosas.
— Vida de universitário.
Gaby revirou os olhos.
— Sei.
Beto beijou sua testa.
— Confia em mim?
Gaby nem precisou pensar.
— Sempre.
Ele sorriu.
— Então pronto.
Gaby entrou em casa.
Beto esperou o portão se fechar e, em vez de seguir os poucos passos que o separavam de casa, pegou o celular.
***
Jane já tinha informação suficiente para confirmar o que suspeitava.
Beto não era o namorado perfeito.
Fred sabia de pelo menos parte das escapadas.
Gaby não sabia de quase nada.
E o mais interessante era que confiava cegamente nos dois.
Jane não precisava inventar uma traição.
Bastava fazer Gaby enxergar uma.
A oportunidade surgiu pouco tempo depois.
— Você vai sair hoje? — Jane perguntou.
— Acho que não. Beto disse que tinha umas coisas para fazer.
Jane disfarçou o sorriso. Sabia, por Luiz Gustavo, que os planos dele eram outros.
— Vamos dar uma volta então.
— Onde?
— Qualquer lugar. Estou ficando sufocada nesta cidade.
— Você vive reclamando de Minaçu.
— Porque vocês não sabem se divertir.
— “Vocês” quem?
— Todo mundo.
Gaby riu.
— Vou chamar Flávia e Cida.
— Não precisa.
— Por quê?
Jane percebeu que responder rápido demais poderia despertar suspeita.
— Nada. Chama, se quiser.
Gaby a encarou.
— Você acabou de dizer que não precisava.
— Porque eu queria conversar com você.
— Sobre o quê?
Jane permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Sobre uma coisa que eu percebi.
— Que coisa?
— Esquece.
— Jane...
— Sério. Talvez eu esteja me metendo onde não devo.
A curiosidade de Gaby aumentou.
— Agora fala.
Jane deu de ombros.
— Depois. Quando estivermos sozinhas.
Gaby a observou por alguns segundos.
— Então vamos?
Jane sorriu.
— Vamos. Passo na sua casa mais tarde.
Já sabia onde queria levar Gaby.
Só precisava fazer com que o caminho até lá parecesse casual.
E, para isso, não precisaria inventar quase nada.
Beto cuidaria do resto.
***
À noite, Jane passou na casa de Gaby dirigindo o carro do pai.
— Vamos dar uma volta?
Gaby olhou para o carro.
— Para onde?
— Campinaçu.
— Campinaçu?
— Qual o problema? Não tem nada para fazer aqui. A gente vai, dá uma volta, conversa um pouco e volta.
Gaby hesitou.
— E não vai dar problema você dirigir até lá? Ainda nem tirou a carteira.
Jane deu de ombros.
— Estou tirando.
— O que não é a mesma coisa que ter.
— Gaby, eu sei dirigir.
— Não foi isso que eu perguntei.
Jane riu.
— Ninguém vai prender a gente no caminho para Campinaçu. Relaxa.
Gaby ainda pareceu pouco convencida, mas aquela não era a única razão para hesitar. Beto havia dito que tinha coisas para fazer naquela noite. Se estivesse livre, provavelmente estaria com ela.
— Vamos — Jane insistiu. — Você está com uma cara de quem precisa sair de casa.
Gaby acabou concordando.
Pouco depois, as duas deixavam Minaçu.
***
Jane dirigia com tranquilidade, mantendo a conversa leve durante os primeiros quilômetros. Falou da escola, reclamou de algumas pessoas da cidade e contou uma história sobre o irmão.
Esperou.
Não podia parecer ansiosa demais para chegar a lugar nenhum.
Foi somente depois de algum tempo que perguntou:
— Você e Beto brigaram?
Gaby virou o rosto para ela.
— Não.
— Tem certeza?
— Por que está perguntando?
Jane deu de ombros, sem tirar os olhos da estrada.
— Ele parece diferente.
— Diferente como?
— Esquece.
— Jane.
— Não quero me meter.
— Você já se meteu. Fala.
Jane permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Talvez seja impressão minha.
— Fala logo.
— Às vezes parece que ele gosta de ter você garantida.
Gaby franziu a testa.
— Como assim?
— Como se soubesse que pode fazer qualquer coisa porque, no fim, vocês vão se casar.
— Beto não pensa assim.
— Ótimo.
Jane continuou dirigindo.
Gaby olhou pela janela.
— Por que está falando isso?
— Porque eu jamais gostaria que alguém achasse que sou propriedade dele.
— Beto não acha que sou propriedade dele.
— Eu não disse que acha.
— Disse quase isso.
Jane recuou.
— Desculpa. Não devia ter falado.
— Tudo bem.
— Você confia nele.
Gaby respondeu sem hesitar:
— Confio.
— Então não tem problema nenhum.
Jane encerrou o assunto.
Ou fingiu encerrar.
O restante do caminho seguiu entre conversas banais e alguns momentos de silêncio.
Quando chegaram a Campinaçu, Jane dirigiu até a região da praça.
— Vamos parar um pouco? Tomar um sorvete, dar uma volta... — sugeriu. — Depois a gente volta.
Gaby olhou pela janela.
— Pode ser.
Jane encontrou uma vaga e estacionou. As duas desceram do carro e começaram a caminhar pela praça.
— Onde tem sorvete? — Gaby perguntou.
Jane olhou ao redor.
— Deve ter por aqui.
Havia bastante gente na praça. Grupos conversavam, alguns rapazes riam mais adiante.
— Vamos por ali — disse, apontando.
Gaby a acompanhou.
Jane observava o movimento ao redor com atenção.
Deram mais alguns passos.
Então Gaby diminuiu o ritmo.
Seu olhar havia parado em um grupo do outro lado da praça.
Jane percebeu.
Mas não disse nada.
Gaby estreitou os olhos.
Conhecia aquele jeito de sentar.
Aquele perfil.
Aquele sorriso.
Reconheceria Beto em qualquer lugar.
— Jane...
A amiga acompanhou a direção de seu olhar.
— O quê?
— Aquele não é o Beto?
Jane fingiu procurar.
— Onde?
— Ali.
Só então pareceu encontrá-lo.
— Acho que é.
O coração de Gaby acelerou.
— Ele disse que tinha coisas para fazer.
Jane permaneceu em silêncio.
Gaby deu alguns passos naquela direção.
— Talvez ele tenha mudado de ideia — Jane disse.
— Talvez.
Mas alguma coisa já começava a incomodá-la.
Não era apenas Beto estar ali.
Era ele não ter contado.
Gaby continuou olhando.
Foi então que viu uma garota se aproximar dele.
Beto sorriu para ela.
A menina disse alguma coisa, e ele respondeu.
Gaby sentiu o estômago apertar.
— Vamos embora — Jane sugeriu.
Mas Gaby não se moveu.
— Espera.
A garota ficou diante de Beto por alguns instantes. Depois, com uma intimidade impossível de ignorar, sentou-se no colo dele.
Beto não a afastou.
Gaby sentiu o rosto perder a cor.
— Gaby...
— Espera.
Ela precisava entender o que estava vendo.
Precisava que existisse alguma explicação.
Qualquer uma.
A garota passou um braço pelos ombros de Beto. Ele disse alguma coisa, e ela riu.
Então o beijou.
Beto correspondeu.
Gaby ficou imóvel.
O barulho da praça pareceu desaparecer.
As pessoas. As vozes. Jane ao seu lado.
Tudo.
Só conseguia enxergar Beto.
Seu Beto.
O menino que segurava sua mão desde a infância.
Seu primeiro beijo.
Seu namorado.
O homem com quem ficaria noiva dali a oito meses.
O homem para quem havia sido prometida antes mesmo de nascer.
O homem para quem ela se guardava.
Com outra garota sentada em seu colo.
Beijando-a.
Gaby deu um passo para trás.
Jane tocou seu braço.
— Gaby...
Ela se afastou do toque.
Foi então que Beto abriu os olhos.
E a viu.
Por um segundo, pareceu não compreender o que Gaby fazia ali.
Depois, seu rosto mudou.
💬 NOTA DA AUTORA E a confiança de Gaby acaba de encontrar a pior resposta possível. 😳 Ela viu. Beto viu que ela viu. E agora? Vocês acham que ainda existe alguma explicação capaz de salvar esse relacionamento? 👀 Se gostou do capítulo, deixe seu like/voto. ❤️ Nos vemos no próximo capítulo!
Beto afastou a garota depressa.— Gaby!Ela se virou.— Gaby, espera!Beto se levantou tão rápido que quase derrubou a garota, mas Gaby já começava a se afastar.Depois, a correr.— Gaby!As lágrimas já lhe impediam de enxergar direito. Ouviu passos atrás de si.— Espera! Eu posso explicar!Ela não queria explicação. Não queria ouvir a voz dele, muito menos olhar para ele.— Gaby!Outra voz se juntou à de Beto.Fred.Ela parou e se virou.Beto vinha alguns passos à frente. Fred estava logo atrás.E alguma coisa se encaixou dentro dela.Fred.Campinaçu.As noites em que os dois saíam juntos.Gaby olhou diretamente para ele.— Você sabia?Fred hesitou.Foi o bastante.Gaby voltou-se para Beto.— Gaby, olha para mim — ele pediu, aproximando-se. — Eu posso explicar.— Não encosta em mim!Beto parou.— Não é o que você está pensando.Gaby o encarou, incrédula, antes de olhar novamente para Fred.Seu namorado havia acabado de beijar outra garota. Seu amigo de infância sabia que aquilo acont
Na segunda-feira na escola, Jane encontrou Gaby radiante.— Você e Beto saíram no sábado?— Saímos.— Ficaram juntos até tarde?— Não. Depois ele foi encontrar os amigos.Jane fingiu desinteresse.— E você não se incomoda?— Com o quê?— Ele passar a semana fora e ainda sair com os amigos quando volta.Gaby riu.— Claro que não. Ele não tem que ficar grudado em mim o fim de semana inteiro.Jane estudou seu rosto.Gaby realmente não desconfiava.— Você está estranha.— Estou pensando.— Isso é perigoso.Jane riu.— Muito.— Gaby.A voz de Cida interrompeu a conversa.Ela se aproximava acompanhada de Flávia e lançou um olhar rápido para Jane antes de segurar Gaby pelo braço.— Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.— Agora?— Agora.Gaby riu da urgência da amiga.— Já volto.As duas começaram a se afastar, mas Flávia permaneceu por um instante.— Jane.— Flávia.— Você faz isso de propósito?Jane ergueu as sobrancelhas.— Faço o quê?— Joga uma coisa no ar e depois finge que não disse
Naquela noite, Beto encontrou Fred mais quieto do que o normal.— Vai desistir?— De quê?— Da Jane.— Não tem nada para desistir.— Você gostou dela.Fred soltou o ar.— Gostei.Era a primeira vez que admitia aquilo sem tentar transformar em brincadeira.— Então pronto.— “Pronto” o quê?— Vai atrás.Fred balançou a cabeça.— Você viu como ela me tratou.— Jane trata todo mundo daquele jeito.— Com você, não.Beto franziu a testa.— O que eu tenho a ver com isso?— Nada. Só estou dizendo que ela não parece muito interessada em mim.— E vai desistir porque ela fez uma gracinha?— Não estou acostumado a correr atrás de quem olha para mim como se eu estivesse atrapalhando a paisagem.Beto riu.— Seu orgulho é enorme.— E muito bem cuidado.— Talvez ela esteja fazendo charme.Fred deu de ombros.— Talvez.— Quer que eu dê uma força?— Não.— Posso conversar com ela.— Beto...— O quê?— Se algum dia eu quiser alguma coisa com Jane, resolvo sozinho.Beto ergueu as mãos.— Está bem.Fred f
Alguns anos haviam se passado desde a chegada de Jane a Minaçu.Gaby agora tinha dezessete anos. Beto, dezenove.O casamento prometido desde a infância deixara de parecer uma história distante contada pelas famílias. Dentro de oito meses, quando Gaby completasse dezoito anos, os dois ficariam oficialmente noivos.Mas outra mudança já havia alterado a rotina do casal.Beto deixara Minaçu para cursar Ciências Contábeis em Uruaçu. Durante a semana, ficava fora. Às sextas-feiras, voltava para casa.Fred, praticamente da idade de Beto, também havia partido para estudar Agronomia em Brasília e, assim como o amigo, costumava retornar nos fins de semana.Para Gaby, aquelas sextas-feiras haviam se transformado em pequenos reencontros.Naquela, não foi diferente.Assim que ouviu o carro parar na casa ao lado, correu até a janela.Beto mal havia fechado a porta quando ela saiu.— Até que enfim!Ele abriu os braços.— Estava com saudade também.Gaby se jogou no abraço dele.— Você demorou.— A es
Em 2003, aos quatorze anos, Gaby continuava tão certa de seu futuro quanto estivera durante a infância.Ela e Beto já não eram apenas as duas crianças que todos diziam que um dia se casariam. Agora namoravam, e o que antes existia como uma promessa feita pelas mães começava a ganhar, para Gaby, o significado de uma escolha.Romântica, nunca enxergara aquele namoro como uma experiência passageira. Era apenas o começo de uma história cujo final acreditava conhecer.Um dia terminariam os estudos. Depois viriam faculdade, trabalho, casamento, filhos.Ela não sabia exatamente quando cada coisa aconteceria.Mas sabia com quem.Beto.Naquele mesmo ano, uma nova família chegou a Minaçu.Os Pacheco vieram do interior de São Paulo e se instalaram na cidade em meio ao crescimento econômico da região. Paulo Pacheco comprou uma casa grande, abriu uma pousada e matriculou os filhos na escola local.Luiz Gustavo logo encontrou seu espaço.A irmã também.Janecelly.Jane, como preferia ser chamada.No
Alguns anos depois.— Gaby é minha namorada.— Não sou, não!— É sim.Aos sete anos, Gabriela já havia aprendido que discutir com Beto podia ser uma tarefa cansativa. Dois anos mais velho, ele tinha a irritante mania de falar como se sempre soubesse mais do que ela.Naquela tarde, os três brincavam perto de casa, como faziam quase todos os dias. Fred, praticamente da idade de Beto, assistia à discussão com um sorriso divertido.Gabriela cruzou os braços e fez cara feia para Beto, que respondeu com a segurança de quem tinha certeza absoluta do que dizia.— Minha mãe falou.— Minha mãe falou que a gente vai casar. Não falou que eu sou sua namorada.— Se vai casar comigo, é minha namorada.Gaby pensou por alguns segundos. A lógica parecia boa, mas havia alguma coisa nela que não a convencia.— Mas eu não quero namorar agora.— Então namora depois.Fred caiu na gargalhada.— Vocês dois são muito doidos.Beto lançou um olhar atravessado para o amigo.— Você está rindo por quê?— Porque ela







