LOGINAlguns anos depois.
— Gaby é minha namorada.
— Não sou, não!
— É sim.
Aos sete anos, Gabriela já havia aprendido que discutir com Beto podia ser uma tarefa cansativa. Dois anos mais velho, ele tinha a irritante mania de falar como se sempre soubesse mais do que ela.
Naquela tarde, os três brincavam perto de casa, como faziam quase todos os dias. Fred, praticamente da idade de Beto, assistia à discussão com um sorriso divertido.
Gabriela cruzou os braços e fez cara feia para Beto, que respondeu com a segurança de quem tinha certeza absoluta do que dizia.
— Minha mãe falou.
— Minha mãe falou que a gente vai casar. Não falou que eu sou sua namorada.
— Se vai casar comigo, é minha namorada.
Gaby pensou por alguns segundos. A lógica parecia boa, mas havia alguma coisa nela que não a convencia.
— Mas eu não quero namorar agora.
— Então namora depois.
Fred caiu na gargalhada.
— Vocês dois são muito doidos.
Beto lançou um olhar atravessado para o amigo.
— Você está rindo por quê?
— Porque ela não quer namorar você.
— Mas vai querer.
— Como você sabe?
— Porque ela é prometida para mim.
Dessa vez, Gaby não contestou.
Aquela palavra fazia parte de sua vida desde que conseguia se lembrar.
Prometida.
Às vezes era noiva. Outras vezes, futura esposa. Quando algum adulto queria deixar a história ainda mais bonita, ela e Beto eram chamados de predestinados.
Gaby não sabia exatamente o que significava ser predestinada. Sabia apenas que, quando sua mãe e madrinha Alice contavam a história, todos sorriam.
E ninguém deixava a promessa cair no esquecimento.
— Cadê seu noivo, Gaby?
— Beto, cuide da sua futura esposa.
— Vocês ainda vão dar muita alegria para essas duas famílias.
Gaby cresceu ouvindo aquilo.
Beto também.
Na infância, não parecia haver nada de errado. Eles eram amigos e estavam quase sempre juntos. Beto assumira naturalmente o papel de protetor: se Gaby caía, corria para ajudá-la; se alguém mexia com ela, aparecia para defendê-la; se atravessavam uma rua, segurava sua mão.
E havia Fred, sempre por perto. Vizinho, amigo, companheiro de aventuras e, muitas vezes, responsável pelas ideias que acabavam colocando os três em confusão.
— Eu ainda acho que ela não é sua namorada — insistiu Fred.
— E eu ainda acho que você não tem nada com isso.
— Tenho, sim. Ela também é minha amiga.
Beto passou o braço pelos ombros de Gaby.
— Mas vai casar comigo.
Ela empurrou o braço dele.
— Para de ser chato!
Fred riu novamente, e Beto saiu correndo atrás dele.
— Vem cá, seu palito!
— Quero ver pegar!
Gaby ficou olhando os dois se afastarem e balançou a cabeça.
— Meninos...
Mas logo correu atrás deles.
Durante anos, foi assim: os três juntos, enquanto as famílias conviviam, as crianças cresciam e a promessa crescia com elas.
Em uma cidade onde quase todo mundo conhecia quase todo mundo, a história também deixou de pertencer apenas às duas famílias. Os vizinhos sabiam, os amigos sabiam, na escola muita gente sabia.
Beto e Gaby eram o casal que um dia se casaria.
Mesmo antes de serem um casal.
***
Os anos mudaram algumas coisas.
Outras, não.
Gaby já não era mais a garotinha que corria atrás de Beto e Fred pelas ruas. E Beto percebeu isso antes que ela estivesse preparada para perceber.
— Por que você está me olhando desse jeito?
— Que jeito?
— Esse.
— Estou olhando normal.
— Não está.
Gaby tentou continuar andando, mas Beto segurou sua mão. Ela olhou para os dedos entrelaçados.
Aquilo não era novidade. Eles haviam andado de mãos dadas durante boa parte da infância.
O problema era que agora parecia diferente.
— Gaby...
— O quê?
Beto se aproximou, e ela sentiu o rosto esquentar.
— Você está vermelha.
— Não estou.
— Está.
— Beto!
Ele sorriu. Aquele sorriso a deixou ainda mais nervosa.
— Posso beijar você?
O coração dela disparou.
Por um instante, Gaby teve vontade de rir. Ou correr. Talvez as duas coisas.
Não porque nunca tivesse imaginado aquilo. Tinha imaginado muitas vezes. Afinal, desde pequena ouvia que Beto seria seu marido. A família, os vizinhos, até as brincadeiras repetidas durante a infância pareciam conduzi-la àquele momento.
Beto era seu.
Ela era dele.
Sempre fora assim.
Pelo menos era nisso que acreditava.
— Pode.
O primeiro beijo de Gaby foi tímido, desajeitado e breve. Quando se afastaram, Beto sorriu.
— Agora você é minha namorada.
Ela baixou os olhos, envergonhada.
— Você não me pediu.
— Precisa?
— Claro que precisa!
— Então tá.
Beto soltou a mão dela, deu um passo para trás e fez uma reverência exagerada.
— Gabriela Monteiro, prometida para mim desde antes de nascer, quer namorar comigo?
— Idiota!
Ele riu.
— Isso é um sim?
Gaby tentou esconder o sorriso.
— É.
Beto a abraçou.
E, naquele momento, tudo pareceu estar exatamente onde deveria.
O menino escolhido para ela desde o nascimento havia se tornado seu primeiro namorado, seu primeiro beijo, seu primeiro amor.
Talvez as mães estivessem certas.
Talvez algumas pessoas realmente nascessem destinadas umas às outras.
***
Fred soube do namoro antes mesmo que Beto contasse.
— Finalmente!
Gaby franziu a testa.
— Finalmente o quê?
— Agora pelo menos vocês são namorados de verdade. Eu já estava cansado de ouvir que vocês iam se casar.
Beto bateu no ombro dele.
— Invejoso.
— Inveja de você? Nunca.
— Está com inveja porque eu tenho namorada.
— Posso arrumar uma quando quiser.
— Então arruma.
Fred deu de ombros.
— Ainda não apareceu nenhuma que valha o trabalho.
Gaby riu.
— Convencido.
— Realista.
Beto puxou Gaby para perto.
— Pode procurar à vontade. Essa aqui já é minha.
— Eu não sou sua.
— É minha namorada.
— É diferente.
Fred observou os dois discutirem e abriu um sorriso.
— Vocês vão passar a vida inteira brigando por isso.
— Por quê? — Gaby perguntou.
— Porque o Beto acha que você veio ao mundo com o nome dele escrito na testa.
— E não veio? — Beto provocou.
Gaby lhe deu um tapa no braço, e os três riram.
Parecia apenas mais uma brincadeira.
Mas havia alguma verdade escondida nela.
Beto crescera ouvindo que Gaby lhe pertencia ao futuro.
E Gaby crescera acreditando que seu futuro pertencia a Beto.
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💬 NOTA DA AUTORA
Gaby e Beto cresceram acreditando que um dia se casariam. Agora, a promessa começa a parecer amor.
E você: acha essa história romântica ou perigosa? 👀
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Nos vemos no próximo capítulo!
Nelma de Paula
Beto afastou a garota depressa.— Gaby!Ela se virou.— Gaby, espera!Beto se levantou tão rápido que quase derrubou a garota, mas Gaby já começava a se afastar.Depois, a correr.— Gaby!As lágrimas já lhe impediam de enxergar direito. Ouviu passos atrás de si.— Espera! Eu posso explicar!Ela não queria explicação. Não queria ouvir a voz dele, muito menos olhar para ele.— Gaby!Outra voz se juntou à de Beto.Fred.Ela parou e se virou.Beto vinha alguns passos à frente. Fred estava logo atrás.E alguma coisa se encaixou dentro dela.Fred.Campinaçu.As noites em que os dois saíam juntos.Gaby olhou diretamente para ele.— Você sabia?Fred hesitou.Foi o bastante.Gaby voltou-se para Beto.— Gaby, olha para mim — ele pediu, aproximando-se. — Eu posso explicar.— Não encosta em mim!Beto parou.— Não é o que você está pensando.Gaby o encarou, incrédula, antes de olhar novamente para Fred.Seu namorado havia acabado de beijar outra garota. Seu amigo de infância sabia que aquilo acont
Na segunda-feira na escola, Jane encontrou Gaby radiante.— Você e Beto saíram no sábado?— Saímos.— Ficaram juntos até tarde?— Não. Depois ele foi encontrar os amigos.Jane fingiu desinteresse.— E você não se incomoda?— Com o quê?— Ele passar a semana fora e ainda sair com os amigos quando volta.Gaby riu.— Claro que não. Ele não tem que ficar grudado em mim o fim de semana inteiro.Jane estudou seu rosto.Gaby realmente não desconfiava.— Você está estranha.— Estou pensando.— Isso é perigoso.Jane riu.— Muito.— Gaby.A voz de Cida interrompeu a conversa.Ela se aproximava acompanhada de Flávia e lançou um olhar rápido para Jane antes de segurar Gaby pelo braço.— Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.— Agora?— Agora.Gaby riu da urgência da amiga.— Já volto.As duas começaram a se afastar, mas Flávia permaneceu por um instante.— Jane.— Flávia.— Você faz isso de propósito?Jane ergueu as sobrancelhas.— Faço o quê?— Joga uma coisa no ar e depois finge que não disse
Naquela noite, Beto encontrou Fred mais quieto do que o normal.— Vai desistir?— De quê?— Da Jane.— Não tem nada para desistir.— Você gostou dela.Fred soltou o ar.— Gostei.Era a primeira vez que admitia aquilo sem tentar transformar em brincadeira.— Então pronto.— “Pronto” o quê?— Vai atrás.Fred balançou a cabeça.— Você viu como ela me tratou.— Jane trata todo mundo daquele jeito.— Com você, não.Beto franziu a testa.— O que eu tenho a ver com isso?— Nada. Só estou dizendo que ela não parece muito interessada em mim.— E vai desistir porque ela fez uma gracinha?— Não estou acostumado a correr atrás de quem olha para mim como se eu estivesse atrapalhando a paisagem.Beto riu.— Seu orgulho é enorme.— E muito bem cuidado.— Talvez ela esteja fazendo charme.Fred deu de ombros.— Talvez.— Quer que eu dê uma força?— Não.— Posso conversar com ela.— Beto...— O quê?— Se algum dia eu quiser alguma coisa com Jane, resolvo sozinho.Beto ergueu as mãos.— Está bem.Fred f
Alguns anos haviam se passado desde a chegada de Jane a Minaçu.Gaby agora tinha dezessete anos. Beto, dezenove.O casamento prometido desde a infância deixara de parecer uma história distante contada pelas famílias. Dentro de oito meses, quando Gaby completasse dezoito anos, os dois ficariam oficialmente noivos.Mas outra mudança já havia alterado a rotina do casal.Beto deixara Minaçu para cursar Ciências Contábeis em Uruaçu. Durante a semana, ficava fora. Às sextas-feiras, voltava para casa.Fred, praticamente da idade de Beto, também havia partido para estudar Agronomia em Brasília e, assim como o amigo, costumava retornar nos fins de semana.Para Gaby, aquelas sextas-feiras haviam se transformado em pequenos reencontros.Naquela, não foi diferente.Assim que ouviu o carro parar na casa ao lado, correu até a janela.Beto mal havia fechado a porta quando ela saiu.— Até que enfim!Ele abriu os braços.— Estava com saudade também.Gaby se jogou no abraço dele.— Você demorou.— A es
Em 2003, aos quatorze anos, Gaby continuava tão certa de seu futuro quanto estivera durante a infância.Ela e Beto já não eram apenas as duas crianças que todos diziam que um dia se casariam. Agora namoravam, e o que antes existia como uma promessa feita pelas mães começava a ganhar, para Gaby, o significado de uma escolha.Romântica, nunca enxergara aquele namoro como uma experiência passageira. Era apenas o começo de uma história cujo final acreditava conhecer.Um dia terminariam os estudos. Depois viriam faculdade, trabalho, casamento, filhos.Ela não sabia exatamente quando cada coisa aconteceria.Mas sabia com quem.Beto.Naquele mesmo ano, uma nova família chegou a Minaçu.Os Pacheco vieram do interior de São Paulo e se instalaram na cidade em meio ao crescimento econômico da região. Paulo Pacheco comprou uma casa grande, abriu uma pousada e matriculou os filhos na escola local.Luiz Gustavo logo encontrou seu espaço.A irmã também.Janecelly.Jane, como preferia ser chamada.No
Alguns anos depois.— Gaby é minha namorada.— Não sou, não!— É sim.Aos sete anos, Gabriela já havia aprendido que discutir com Beto podia ser uma tarefa cansativa. Dois anos mais velho, ele tinha a irritante mania de falar como se sempre soubesse mais do que ela.Naquela tarde, os três brincavam perto de casa, como faziam quase todos os dias. Fred, praticamente da idade de Beto, assistia à discussão com um sorriso divertido.Gabriela cruzou os braços e fez cara feia para Beto, que respondeu com a segurança de quem tinha certeza absoluta do que dizia.— Minha mãe falou.— Minha mãe falou que a gente vai casar. Não falou que eu sou sua namorada.— Se vai casar comigo, é minha namorada.Gaby pensou por alguns segundos. A lógica parecia boa, mas havia alguma coisa nela que não a convencia.— Mas eu não quero namorar agora.— Então namora depois.Fred caiu na gargalhada.— Vocês dois são muito doidos.Beto lançou um olhar atravessado para o amigo.— Você está rindo por quê?— Porque ela







