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Minaçu/Goiás — 1.989.
Glória passou a mão devagar sobre a barriga, como se o simples gesto fosse capaz de proteger a criança que carregava.
Alice percebeu. Percebia quase tudo quando se tratava da amiga.
— Você está fazendo isso de novo.
Glória ergueu os olhos.
— Isso o quê?
— Fingindo que não está com medo.
Um sorriso pequeno apareceu em seus lábios, mas desapareceu depressa.
— Talvez porque eu esteja tentando não pensar nisso.
Alice se aproximou e sentou-se ao lado dela no sofá. No chão da sala, Beto brincava com dois carrinhos, completamente alheio à conversa das duas mulheres. Tinha apenas dois anos e já parecia ter energia suficiente para ocupar a casa inteira.
— O médico disse que está tudo bem — Alice lembrou.
— Hoje.
— Glória...
— Hoje está tudo bem — repetiu ela, baixando os olhos para a barriga. — Da outra vez também esteve. Até deixar de estar.
Alice ficou em silêncio. Não havia frase bonita capaz de apagar o que a amiga vivera.
Duas vezes Glória havia engravidado. Duas vezes fizera planos. Duas vezes voltara para casa sem o filho que esperava.
Aquela terceira gravidez chegara acompanhada de uma felicidade que ela quase não se permitia sentir.
Alice segurou sua mão.
— Desta vez vai dar certo.
Glória soltou uma risada sem humor.
— Você sempre teve essa mania de decidir o futuro.
— E quase sempre acerto.
— Quase.
— Está bem. — Alice fingiu indignação. — Depois de tantos anos de amizade, você ainda duvida de mim?
Glória finalmente sorriu.
Aquilo, pelo menos, continuava igual. Desde meninas, elas haviam dividido segredos, sonhos, brigas, reconciliações e uma quantidade absurda de planos. Cresceram imaginando que fariam tudo juntas.
Até os casamentos aconteceram assim: duas amigas entrando na mesma igreja, no mesmo dia, para se casarem com dois homens que também eram grandes amigos. Na época, aquilo parecera a confirmação de que nada conseguiria separá-las.
Depois vieram os planos para os filhos. Alice engravidara primeiro, enquanto, para Glória, os meses de espera haviam se transformado em anos de frustração, médicos, esperança e perdas que nenhuma das duas previra quando sonhava com duas crianças correndo juntas pelas casas vizinhas.
Alice olhou para o menino no chão.
— Beto, meu amor, não bata o carrinho na parede.
Ele interrompeu o movimento por alguns segundos e olhou para a mãe.
— Não bati.
Alice arqueou uma sobrancelha.
— Ainda.
Glória riu. O menino voltou a brincar.
— Está vendo? — Alice falou. — Você precisa ter logo esse bebê. Meu filho está precisando de companhia.
— Ah, claro. Então toda essa sua preocupação comigo é porque você quer alguém para entreter o Beto.
— Finalmente descobriu.
Glória balançou a cabeça.
— Interesseira.
— Desde sempre.
O silêncio que veio depois foi confortável. Alice observou a amiga por alguns instantes.
— Você ainda não quis saber se é menino ou menina.
Glória negou com a cabeça.
— Não.
— Por quê?
Ela demorou a responder.
— Porque não quero me apegar mais do que já estou.
Alice sentiu o coração apertar.
— Você já está apegada.
Glória deixou escapar uma respiração profunda.
— Eu sei.
— E sabe que não vai sofrer menos só porque não escolheu o nome ou a cor do quarto.
— Também sei.
— Então?
Glória voltou a acariciar a barriga.
— Acho que estou esperando ter certeza de que vou conseguir trazer meu bebê para casa.
Alice apertou a mão dela.
— Você vai.
— Não pode saber.
— Posso acreditar.
Glória olhou para a amiga, e Alice sustentou seu olhar.
— Nós sempre planejamos ter nossos filhos juntas, lembra?
— Como esquecer?
— E nossos planos só estão um pouquinho atrasados.
— Dois anos não são “um pouquinho”.
— Para uma amizade que já dura quase uma vida inteira? São nada.
Glória sorriu outra vez.
— Você não desiste nunca, não é?
— Nunca.
Beto abandonou um dos carrinhos e se aproximou das duas. Encostou a mãozinha na perna de Glória e olhou para sua barriga.
— Bebê?
Glória se emocionou.
— É, meu amor. Tem um bebê aqui.
O menino franziu a testa, concentrado.
— Sai?
Alice riu.
— Vai sair. Mas ainda não.
Beto tocou a barriga com cuidado, e Glória cobriu a mãozinha dele com a sua.
Por alguns segundos, Alice apenas observou os dois. Uma ideia surgiu de forma tão simples que, mais tarde, ela talvez nem soubesse dizer quem a tivera primeiro.
— Imagina se for uma menina.
Glória olhou para ela.
— O quê?
Alice apontou para Beto.
— Uma menina.
— E daí?
— Já pensou?
Glória estreitou os olhos, desconfiada. Conhecia aquele brilho.
— Lá vem você.
— Nossas famílias ficariam unidas para sempre.
Glória soltou uma gargalhada.
— Alice!
— O quê?
— Você está falando sério?
— Talvez.
— Eles nem nasceram direito e você já está arranjando casamento?
Alice olhou para o filho, que continuava com a mão sobre a barriga de Glória.
— Não seria bonito?
— Seria loucura.
— Uma loucura bonita.
— Você é impossível.
— E você está sorrindo.
Glória tentou conter o sorriso, mas não conseguiu.
— Nem sabemos se é menina.
— Então fazemos assim.
Alice se ajeitou no sofá, agora inteiramente entregue à brincadeira.
— Se esse bebê for uma menina...
Glória esperou.
— ...um dia ela se casa com o Beto.
— Alice!
— Estou falando sério.
— Você acabou de admitir que é uma loucura.
— As melhores ideias quase sempre começam assim.
Glória olhou para Beto. O menino havia perdido o interesse na barriga e agora tentava subir no sofá entre as duas. Alice o ajudou, e ele imediatamente se acomodou perto de Glória.
— Olha isso — Alice insistiu. — Já gosta dela.
— Ele nem sabe que existe uma “ela”.
— Então você acha que é menina?
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
Glória riu.
Por alguns instantes, toda a ansiedade pareceu menor. A criança estava ali, viva e crescendo. Imaginar o futuro deixou de parecer uma afronta ao medo para se transformar, por alguns minutos, em esperança.
— Está bem — Glória disse.
Alice abriu um sorriso.
— Está bem o quê?
— Se for menina...
— Sim?
Glória apontou um dedo para a amiga.
— E se nascer saudável...
A brincadeira perdeu um pouco da leveza. Alice compreendeu o que aquela condição significava e segurou a mão de Glória novamente.
— Vai nascer.
Glória respirou fundo.
— Se for menina e nascer bem... um dia pode se casar com Beto.
Alice apertou os dedos dela.
— Pode, não. Vai.
— Não abuse.
— Promete?
Glória olhou primeiro para a amiga. Depois, para o menino sentado entre elas.
Beto brincava com os próprios dedos, sem a menor ideia de que seu nome acabara de ser colocado no futuro de uma criança que ainda não conhecia.
Glória sorriu.
— Prometo.
Alice estendeu a mão.
— Então está prometido.
Glória entrelaçou os dedos aos dela.
— Está prometido.
As duas riram da solenidade absurda que haviam dado à brincadeira e, embaladas pela esperança, continuaram imaginando o futuro. Falaram sobre batizado, sobre os filhos crescerem juntos e sobre uma amizade que passaria de uma geração para outra. Decidiram que seriam madrinhas dos filhos uma da outra, reforçando ainda mais o laço entre as famílias.
Naquele momento, nenhuma delas enxergava qualquer perigo naquilo.
Era apenas amor. Era esperança. Era a maneira que duas amigas encontravam de acreditar que tudo ficaria bem.
Meses depois, em julho de 1989, Gabriela Monteiro nasceu.
Menina. Pequena. Muito desejada.
E viva.
Quando Alice a viu pela primeira vez, Glória estava cansada, mas sorria como Alice não a via sorrir havia muito tempo.
— Eu falei que ela viria — Alice murmurou.
Glória olhou para a filha nos braços.
— Falou.
— E também falei outra coisa.
Glória ergueu os olhos imediatamente.
— Nem comece.
Alice sorriu.
Beto estava ao lado dela, pequeno demais para compreender por que os adultos pareciam tão fascinados por aquele bebê. Alice se abaixou e o aproximou do berço.
— Olha, filho.
Beto observou Gabriela.
A menina mexeu uma das mãos. Ele estendeu a sua e tocou os dedos minúsculos dela.
Glória levou a mão à boca, emocionada.
Alice olhou para a amiga. Nenhuma das duas precisou repetir toda a conversa daquele dia.
Bastou uma frase.
— Está prometido.
Glória sorriu.
— Está prometido.
E, antes mesmo que Gabriela pudesse aprender a falar, outras pessoas já haviam começado a escrever o futuro dela.
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Nota da autora
Prometida ao Homem Errado é uma releitura do meu romance Maldita Promessa.
Se você já conhece a história de Gaby, Beto, Fred e Jane, encontrará aqui a mesma trama em uma nova versão: reescrita, reestruturada para uma nova experiência de leitura e ampliada com novas cenas e desenvolvimentos.
Mais do que recontar essa história, esta versão representa também um novo momento da minha escrita.
Se você já leu Maldita Promessa, convido você a reencontrar esses personagens sob um novo olhar. E, se esta for sua primeira vez com eles, seja bem-vindo(a) à história.
Beto afastou a garota depressa.— Gaby!Ela se virou.— Gaby, espera!Beto se levantou tão rápido que quase derrubou a garota, mas Gaby já começava a se afastar.Depois, a correr.— Gaby!As lágrimas já lhe impediam de enxergar direito. Ouviu passos atrás de si.— Espera! Eu posso explicar!Ela não queria explicação. Não queria ouvir a voz dele, muito menos olhar para ele.— Gaby!Outra voz se juntou à de Beto.Fred.Ela parou e se virou.Beto vinha alguns passos à frente. Fred estava logo atrás.E alguma coisa se encaixou dentro dela.Fred.Campinaçu.As noites em que os dois saíam juntos.Gaby olhou diretamente para ele.— Você sabia?Fred hesitou.Foi o bastante.Gaby voltou-se para Beto.— Gaby, olha para mim — ele pediu, aproximando-se. — Eu posso explicar.— Não encosta em mim!Beto parou.— Não é o que você está pensando.Gaby o encarou, incrédula, antes de olhar novamente para Fred.Seu namorado havia acabado de beijar outra garota. Seu amigo de infância sabia que aquilo acont
Na segunda-feira na escola, Jane encontrou Gaby radiante.— Você e Beto saíram no sábado?— Saímos.— Ficaram juntos até tarde?— Não. Depois ele foi encontrar os amigos.Jane fingiu desinteresse.— E você não se incomoda?— Com o quê?— Ele passar a semana fora e ainda sair com os amigos quando volta.Gaby riu.— Claro que não. Ele não tem que ficar grudado em mim o fim de semana inteiro.Jane estudou seu rosto.Gaby realmente não desconfiava.— Você está estranha.— Estou pensando.— Isso é perigoso.Jane riu.— Muito.— Gaby.A voz de Cida interrompeu a conversa.Ela se aproximava acompanhada de Flávia e lançou um olhar rápido para Jane antes de segurar Gaby pelo braço.— Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.— Agora?— Agora.Gaby riu da urgência da amiga.— Já volto.As duas começaram a se afastar, mas Flávia permaneceu por um instante.— Jane.— Flávia.— Você faz isso de propósito?Jane ergueu as sobrancelhas.— Faço o quê?— Joga uma coisa no ar e depois finge que não disse
Naquela noite, Beto encontrou Fred mais quieto do que o normal.— Vai desistir?— De quê?— Da Jane.— Não tem nada para desistir.— Você gostou dela.Fred soltou o ar.— Gostei.Era a primeira vez que admitia aquilo sem tentar transformar em brincadeira.— Então pronto.— “Pronto” o quê?— Vai atrás.Fred balançou a cabeça.— Você viu como ela me tratou.— Jane trata todo mundo daquele jeito.— Com você, não.Beto franziu a testa.— O que eu tenho a ver com isso?— Nada. Só estou dizendo que ela não parece muito interessada em mim.— E vai desistir porque ela fez uma gracinha?— Não estou acostumado a correr atrás de quem olha para mim como se eu estivesse atrapalhando a paisagem.Beto riu.— Seu orgulho é enorme.— E muito bem cuidado.— Talvez ela esteja fazendo charme.Fred deu de ombros.— Talvez.— Quer que eu dê uma força?— Não.— Posso conversar com ela.— Beto...— O quê?— Se algum dia eu quiser alguma coisa com Jane, resolvo sozinho.Beto ergueu as mãos.— Está bem.Fred f
Alguns anos haviam se passado desde a chegada de Jane a Minaçu.Gaby agora tinha dezessete anos. Beto, dezenove.O casamento prometido desde a infância deixara de parecer uma história distante contada pelas famílias. Dentro de oito meses, quando Gaby completasse dezoito anos, os dois ficariam oficialmente noivos.Mas outra mudança já havia alterado a rotina do casal.Beto deixara Minaçu para cursar Ciências Contábeis em Uruaçu. Durante a semana, ficava fora. Às sextas-feiras, voltava para casa.Fred, praticamente da idade de Beto, também havia partido para estudar Agronomia em Brasília e, assim como o amigo, costumava retornar nos fins de semana.Para Gaby, aquelas sextas-feiras haviam se transformado em pequenos reencontros.Naquela, não foi diferente.Assim que ouviu o carro parar na casa ao lado, correu até a janela.Beto mal havia fechado a porta quando ela saiu.— Até que enfim!Ele abriu os braços.— Estava com saudade também.Gaby se jogou no abraço dele.— Você demorou.— A es
Em 2003, aos quatorze anos, Gaby continuava tão certa de seu futuro quanto estivera durante a infância.Ela e Beto já não eram apenas as duas crianças que todos diziam que um dia se casariam. Agora namoravam, e o que antes existia como uma promessa feita pelas mães começava a ganhar, para Gaby, o significado de uma escolha.Romântica, nunca enxergara aquele namoro como uma experiência passageira. Era apenas o começo de uma história cujo final acreditava conhecer.Um dia terminariam os estudos. Depois viriam faculdade, trabalho, casamento, filhos.Ela não sabia exatamente quando cada coisa aconteceria.Mas sabia com quem.Beto.Naquele mesmo ano, uma nova família chegou a Minaçu.Os Pacheco vieram do interior de São Paulo e se instalaram na cidade em meio ao crescimento econômico da região. Paulo Pacheco comprou uma casa grande, abriu uma pousada e matriculou os filhos na escola local.Luiz Gustavo logo encontrou seu espaço.A irmã também.Janecelly.Jane, como preferia ser chamada.No
Alguns anos depois.— Gaby é minha namorada.— Não sou, não!— É sim.Aos sete anos, Gabriela já havia aprendido que discutir com Beto podia ser uma tarefa cansativa. Dois anos mais velho, ele tinha a irritante mania de falar como se sempre soubesse mais do que ela.Naquela tarde, os três brincavam perto de casa, como faziam quase todos os dias. Fred, praticamente da idade de Beto, assistia à discussão com um sorriso divertido.Gabriela cruzou os braços e fez cara feia para Beto, que respondeu com a segurança de quem tinha certeza absoluta do que dizia.— Minha mãe falou.— Minha mãe falou que a gente vai casar. Não falou que eu sou sua namorada.— Se vai casar comigo, é minha namorada.Gaby pensou por alguns segundos. A lógica parecia boa, mas havia alguma coisa nela que não a convencia.— Mas eu não quero namorar agora.— Então namora depois.Fred caiu na gargalhada.— Vocês dois são muito doidos.Beto lançou um olhar atravessado para o amigo.— Você está rindo por quê?— Porque ela







