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Quando a Eternidade se Torna Uma Mentira
Quando a Eternidade se Torna Uma Mentira
Author: Cocojam

Capítulo 1

Author: Cocojam
Um dia e uma noite inteiros. Foi o tempo que passei queimando sob o efeito da prata antes que a porta do porão finalmente se abrisse com um rangido.

O veneno havia penetrado até a medula. Cada respiração era como engolir vidro quebrado. A loba dentro de mim choramingava, fraca demais para reagir.

— Ancião Viktor.

Apoiei-me contra a parede, minha pele queimada pela prata ainda sangrando.

O líder do Conselho Vampírico estava parado na entrada, um sorriso satisfeito estampado no rosto pálido.

Ele esperou muito tempo por esse momento.

— Então, finalmente caiu em si?

— Sim.

Encarei seus olhos vermelhos e frios.

— Vou deixar Dorian.

Os olhos de Viktor se estreitaram.

— E quais são suas condições?

— Me envie para algum lugar onde ele nunca, jamais, possa me encontrar.

— Ah!

Ele soltou uma risada carregada de desprezo.

— Sua loba idiota. Se tivesse desistido antes, não teria precisado sofrer aqui dentro. A Lua de Sangue será em dez dias. Vou providenciar tudo.

Assenti e saí daquele inferno, o cheiro de prata corroída ainda impregnado em mim.

Um suave arrulho veio do grande salão.

Parei imediatamente. Meu coração travou.

Dorian segurava a filha de nove meses, Aria, cantarolando baixinho uma antiga canção de ninar dos vampiros.

Liliana estava aconchegada ao seu lado, uma das mãos repousando sobre o ventre levemente arredondado.

Ela carregava o segundo filho deles. O herdeiro que supostamente daria liberdade a Dorian.

Que família perfeita.

Meus olhos arderam com lágrimas não derramadas. Recusei-me a deixá-las cair.

Uma união entre nossas espécies nunca deveria existir. Principalmente entre uma lobisomem e um vampiro, cuja guerra atravessava séculos.

E eu fui a idiota que acreditou que poderia mudar isso.

A loba dentro de mim uivou, encolhendo-se de dor.

— Freya?

Liliana me viu primeiro, aproximando-se instantaneamente de Dorian em um gesto protetor.

Dorian ergueu o olhar. Aqueles olhos azuis profundos, que um dia queimaram por mim, agora estavam frios e carregados de suspeita.

Instintivamente, ele se moveu para proteger a bebê do meu olhar.

Depois de todo esse tempo, ele ainda não confiava em mim.

— Você saiu — ele disse, numa calma assustadora.

Não respondi. Apenas me virei para escapar daquela cena sufocante.

— Espere.

Ele entregou Aria a um servo próximo e caminhou até mim.

— Deixe-me ver seus ferimentos.

— Não se incomode.

— Freya.

Seu tom tornou-se firme.

— Venha aqui.

Quando ele tentou tocar minha manga manchada de sangue, recuei imediatamente.

As queimaduras de prata ainda estavam abertas, a pele enegrecida e apodrecendo.

Mas o buraco no meu coração doía mais do que qualquer ferida física.

— Não toque em mim.

A mão dele congelou no ar. Um lampejo de dor atravessou seus olhos, rapidamente substituído pelo cansaço.

— Eu não podia impedi-los — explicou, a voz rouca de exaustão. — Isso só os deixaria mais furiosos. Se eu tivesse interferido, teriam encontrado uma forma ainda mais cruel de executar você. Se você não tivesse tentado machucar uma criança inocente —

— Eu não fiz isso!

Eu o interrompi, enquanto as lágrimas finalmente escapavam.

Ele me encarou por um longo momento, os olhos cheios de decepção e dor — deixando claro que não acreditava em mim.

Nesse instante, Liliana se aproximou, segurando a bebê, o rosto tomado por uma falsa expressão de preocupação.

— Freya, quero me desculpar pelo que aconteceu ontem. Talvez eu tenha entendido algo errado.

Assenti entorpecida, mas meu olhar ficou preso em algo ao redor do pescoço dela.

Um requintado colar de pedra da lua, brilhando com uma suave luz azul nos corredores escuros do castelo.

Era a última relíquia da minha alcateia massacrada.

No dia em que Dorian e eu nos tornamos companheiros ligados por sangue, contei a ele o quanto aquele colar significava para mim.

Ele guardava as últimas memórias da alcateia Lua Crescente. Era meu único vínculo com o mundo que perdi.

— Onde conseguiu isso?

Fiquei encarando o colar, minha voz tremendo.

Liliana o tocou instintivamente antes de olhar para Dorian.

— Fui eu quem deu a ela.

Dorian respirou fundo, mantendo a voz artificialmente calma.

— Liliana tem estado muito sensível por causa da gravidez. Ela precisava de um presente para se sentir melhor.

Um presente para fazê-la se sentir melhor.

Usando a relíquia sagrada da minha alcateia. A âncora da minha vida.

— Isso é meu!

Avancei para arrancar o colar de volta.

Liliana soltou um grito agudo, tropeçando para trás como se eu a tivesse atingido.

— Ah!

Ela arfou, levando a mão à barriga.

— O bebê… estou tendo cólicas…

— Você enlouqueceu?!

A voz de Dorian saiu em um rosnado baixo, carregado de terror e raiva reprimida.

O olhar dele percorreu o rosto pálido de Liliana até a mão dela protegendo a barriga, e um cansaço sem fundo tomou seus olhos.

No segundo seguinte, ele me empurrou. Com força.

O impacto me lançou contra a parede de pedra. A ferida em minhas costas se abriu novamente, encharcando minhas roupas com sangue fresco. A dor foi tão intensa que perdi o ar.

Mas Dorian sequer olhou para mim.

Ele segurou Liliana enquanto ela fingia desmaiar, e os dois desapareceram em uma névoa negra.

A única coisa que restou no salão foi o eco de suas últimas palavras gentis para ela.

— Não se preocupe. Nosso herdeiro ficará bem.

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