ANMELDENCarmem saiu da casa de Rosalina no fim da tarde. Precisava dirigir. Precisava ficar sozinha. Precisava organizar pensamentos que pareciam não caber dentro dela. Parou o carro próximo a uma praça e permaneceu ali. A história que conhecia não havia sido desmentida. Isso talvez fosse o mais doloroso. A violência continuava sendo violência. Deodato continuava sendo o homem que destruíra a infância de Iolanda. Rosalina continuava sendo filha daquela violência. Mas agora existiam outras pessoas. Outras testemunhas. Outras tentativas. Outros silêncios. A família que Carmem acreditava conhecer parecia apenas uma parte de uma história muito maior. O celular vibrou.Rafael. Ela olhou para o nome. Não atendeu. Alguns segundos depois, chegou uma mensagem. Não precisa responder. Só quero saber se você está bem. Carmem fechou os olhos. Queria dizer sim. Como sempre. Digitou: Não estou. A resposta veio: Onde você está? Carmem enviou a localização.***Rafael chegou vinte minutos depois. Encontrou Ca
Ninguém tocou no envelope durante alguns segundos. Parecia absurdo que um pedaço de papel tão pequeno pudesse ocupar tanto espaço naquela cozinha. Carmem sentou-se novamente.— Mãe, o que a senhora sabe?Iolanda balançou a cabeça.— Não tudo.Augusto empurrou a pasta na direção delas.— Eu acho melhor vocês lerem.Rosalina pegou o envelope. As mãos tremiam. Carmem colocou a própria mão sobre a dela.— Quer que eu leia?Rosalina respirou fundo.— Não.Abriu. O papel estava frágil. A caligrafia antiga era irregular. Rosalina começou em silêncio. Poucas linhas depois, lágrimas encheram seus olhos.— O que está escrito? — perguntou Carmem.Rosalina tentou continuar. Não conseguiu. Entregou a carta. Carmem leu. Dona Amélia escrevia para Alzira. Não havia pedido de perdão. Havia desespero. Falava de Iolanda. Da gravidez. Do medo de Deodato ser preso. Da vergonha diante da sociedade. E de uma decisão que agora reconhecia como monstruosa. Carmem sentiu raiva. Mesmo depois de tantos anos. Mesm
Carmem passou a noite pensando na ligação de Rosalina. Não dormiu. Toda vez que fechava os olhos, via a mesma imagem. Deodato. O cachimbo. O cheiro de bebida. O som dos passos chegando em casa. A voz dizendo aos filhos que tinham o mesmo sangue e o mesmo cheiro. Durante anos, Carmem acreditara conhecer o pior daquela história. Talvez estivesse enganada. Às oito da manhã, ligou para Rosalina.— Onde está mamãe?— Aqui comigo.— E o homem?— Disse que volta hoje.— Não deixa ele entrar antes de eu chegar.— Carmem...— Estou falando sério.Rosalina suspirou.— Você está fazendo aquilo de novo.— O quê?— Tentando resolver tudo.Carmem fechou os olhos. Rafael havia dito quase a mesma coisa.— Eu só quero proteger vocês.— Eu sei. Mas mamãe não é mais aquela menina.A frase atravessou Carmem. Talvez nenhuma delas tivesse percebido o quanto continuavam tratando Iolanda como se uma parte sua tivesse permanecido presa naquele passado.— Estou indo.***A casa de Rosalina tinha cheiro de café
O amanhecer encontrou os dois no sofá. Carmem abriu os olhos primeiro. Rafael dormia. Ela ficou observando-o. Era estranho vê-lo ali. Dentro de sua casa. Desarmado. Tão distante da figura formal do tribunal. Levantou-se cuidadosamente. Preparou café. Quando Rafael apareceu na cozinha, o cabelo ligeiramente desarrumado, Carmem riu.— O quê?— Nada.— Está rindo de mim.— É estranho ver um juiz assim.— Assim como?— Humano.Rafael aproximou-se.— Não conte para ninguém.Ela entregou uma xícara.— Sua reputação está segura comigo.Ele beijou sua testa. O gesto foi tão natural que Carmem ficou imóvel. Rafael percebeu.— O que foi?— Nada.Mas não era nada. Beijos ela sabia administrar. Desejo também. Carinho era mais complicado. Carinho alcançava lugares aos quais a paixão, sozinha, não chegava.***Nos dias seguintes, a investigação avançou. Marcelo foi chamado para prestar depoimento. Negou qualquer envolvimento. Admitiu o relacionamento com Helena. Negou ameaças. Negou conhecer o home
Rafael chegou vinte e cinco minutos depois. Carmem abriu a porta. Ele percebeu imediatamente que ela havia chorado. Não comentou. Entrou. Ela fechou a porta. Por alguns segundos, apenas ficaram frente a frente. Então Carmem fez algo que surpreendeu os dois. Abraçou-o. Rafael demorou apenas um instante antes de envolver seu corpo. Não perguntou nada. Não disse que tudo ficaria bem. Apenas ficou. Carmem apoiou o rosto contra o peito dele. Ouviu seu coração. Sentiu o cheiro da camisa. E permitiu que, por alguns minutos, o próprio corpo deixasse de permanecer em estado de defesa.— Eu odeio sentir medo.Rafael passou a mão lentamente por seus cabelos.— Eu sei.— Não. Você não sabe.— Então me conta.Ela ergueu o rosto.— Quando eu era criança, o medo fazia parte da casa. A gente sabia quando Deodato chegava bêbado. Sabia pelo jeito de abrir o portão. Pelo barulho dos passos.A voz falhou.— Nós fingíamos dormir.Rafael sentiu o abraço apertar.— Eu prometi que, quando crescesse, nunca m
As imagens das câmeras trouxeram uma resposta. E uma pergunta ainda maior. Um homem havia se aproximado do carro de Carmem. Boné. Óculos. Rosto parcialmente escondido. Mas um detalhe permitiu que os investigadores avançassem. O veículo usado para deixar o local estava registrado em nome de uma empresa. A empresa pertencia a Marcelo. Quando Carmem recebeu a informação, sentiu o corpo gelar. Não era mais coincidência. Havia uma ligação. A polícia pediu novas medidas. Marcelo seria formalmente investigado. O caso ganhou uma dimensão que rapidamente chegou à imprensa. Naquela tarde, o nome de Carmem apareceu pela primeira vez em uma matéria.Perita aponta inconsistências que podem mudar o caso Helena Vasconcelos. Ela fechou a página. Não gostou. Para Carmem, exposição significava vulnerabilidade.Durante anos, Carmem aprendera a trabalhar nos bastidores. Seus pareceres carregavam seu nome, sua assinatura e sua responsabilidade, mas raramente seu rosto. Preferia assim. Não precisava ser co







