ANMELDENO romance nunca havia preparado Rafael para aquilo. Nem os livros. Nem os filmes. Nem qualquer fantasia que um dia tivesse alimentado sobre a paternidade. Alice chorava. Olivia chorava. Carmem estava sentada na cama com os cabelos presos de qualquer jeito, uma mancha de leite na camiseta e uma expressão de quem poderia cometer um crime.
— Sua filha está chorando.
Carmem voltou do jantar antes das dez. O colega da universidade era agradável. Inteligente. Divertido. Conversaram sobre trabalho, alunos, livros e os absurdos da vida acadêmica. Nada aconteceu entre eles. E esse era justamente o problema: Carmem percebeu que não desejava que acontecesse. Durante todo o jantar, Carmem pensou em Rafael. No beijo. Na maneira como ele havia parado quando percebeu que poderia ultrapassar um limite. Na expressão de ciúme que tentou esconder. E principalmente no homem que saíra de sua casa sem perguntar quando poderia voltar. Quando entrou no apartamento, encontrou Rosalina no sofá.— Cedo.— Estou cansada.Rosalina olhou para ela.— Mentira.Carmem deix
As meninas completaram quatro meses. Rosalina praticamente expulsou Carmem de casa.— Vá jantar.— Não quero.— Quer sim.— Estou cansada.— Exatamente.— E as meninas?— Têm uma tia.— Alice só dorme...— Carmem.Rosalina apontou para a porta.— Vá viver duas horas.Carmem ainda hesitou. Desde o nascimento das meninas, sua vida parecia medida em mamadas, fraldas, consultas e hor
Alice e Olivia estavam com quase três meses quando Carmem recebeu uma ligação de Teresa.— Precisamos conversar.A voz estava fraca.— Aconteceu alguma coisa?— Encontraram o homem que fugiu.Carmem sentiu o corpo gelar.— E?— Ele falou.***A investigação finalmente conseguira reconstruir parte da história. Helena havia descoberto documentos que ligavam Marcelo a pagamentos destinados a impedir que informações antigas viessem à tona. Mas havia algo ainda mais grave. Marcelo não estava
O romance nunca havia preparado Rafael para aquilo. Nem os livros. Nem os filmes. Nem qualquer fantasia que um dia tivesse alimentado sobre a paternidade. Alice chorava. Olivia chorava. Carmem estava sentada na cama com os cabelos presos de qualquer jeito, uma mancha de leite na camiseta e uma expressão de quem poderia cometer um crime.— Sua filha está chorando.Rafael, segurando Olivia, olhou para Alice.— Qual delas?— As duas são suas.— Quando choram, aparentemente são minhas.Carmem começou a rir. Depois chorou. Rafael congelou.— O que aconteceu?— N&a
Alice decidiu nascer primeiro. Olivia veio sete minutos depois. Até aquele momento chegar, porém, Carmem teve certeza de que não conseguiria. A bolsa rompeu numa madrugada. O quarto ainda estava escuro, cortado apenas pela luz azulada do relógio e pelos faróis que atravessavam a cortina. Minutos depois, tudo se tornou movimento: bolsa, documentos, telefone, respirações curtas e o elevador que parecia descer devagar demais. No hospital, o cheiro de antisséptico, as luzes brancas e o som ritmado dos monitores tornaram real aquilo que até então existira como expectativa. Dessa vez não havia dúvida. Rosalina a levou ao hospital porque Rafael estava em outra cidade para uma audiência.No caminho, Carmem segurava a barriga.— Liga para ele.Rosalina olhou.— Tem certeza?
Às três e dezessete da manhã, Carmem acordou com uma dor diferente. Abriu os olhos. Esperou. Passou.— Tudo bem.Sussurrou para si mesma. Virou de lado. Oito minutos depois, outra. Mais forte. Carmem sentou-se. Colocou a mão sobre a barriga.— Meninas, ainda não.Respirou. Talvez fosse normal, tentou convencer-se. A médica havia explicado contrações de treinamento. Levantou-se para beber água. Então sentiu outra. Mas alguma coisa dentro dela soube antes que a razão pudesse negar. Pegou o celular. Pensou em Rosalina. Na médica. No hospital. Depois seus dedos encontraram um nome. Rafael. Parou. A contração seguinte decidiu por ela. Ligou. Ele atendeu sonolento.— Carmem?— Acho que está acontecendo







