LOGINSua voz não tinha agressividade; tinha emoção.— Passei a vida acreditando que seria eu quem a levaria até o homem com quem ela se casasse. Pensei nisso quando ela nasceu. Pensei quando aprendeu a andar. Pensei quando Elena morreu. — A voz dele falhou discretamente. — E hoje fiquei sentado.Engoli em seco.— Ela olhou para você.Vittorio sorriu.— Eu sei.— Antes de olhar para mim.— Também sei. — Ele respirou fundo. — Foi suficiente.O silêncio se instalou. Então, Vittorio fez algo que eu não esperava: estendeu a mão. Olhei para ela, depois para ele.— Cuide dela.Não era uma ordem de Don para Don; era um pai. Apertei sua mão.— Vou cuidar.— Não porque o tratado exige.— Não.Ele me observou.— Então por que?A resposta deveria ser simples: porque agora era minha responsabilidade, porque era minha esposa, porque nossas famílias estavam unidas. Mas nenhuma saiu. Olhei através do vidro. Bianca ria com minha Nonna, e meu peito se aqueceu.— Porque é Bianca.Vittorio acompanhou meu olha
POV: Lorenzo De LucaEu tinha passado a vida inteira sendo observado. Aprendi cedo que um De Luca não atravessava um salão sem que alguém calculasse seus passos. Um aperto de mão podia virar notícia, um silêncio podia ser interpretado como ameaça, um sorriso para a pessoa errada podia valer mais do que um contrato. Nada daquilo era novidade. Ainda assim, naquela noite, os olhares me incomodavam, não porque estavam sobre mim, mas porque estavam sobre Bianca.Ela conversava com Isabella perto de uma das mesas, segurando uma taça que quase não tinha tocado. O vestido acompanhava seus movimentos, e a aliança em sua mão refletia a iluminação sempre que ela gesticulava. Minha aliança. Não, nossa. Baixei os olhos para minha própria mão; ainda parecia estranho. Passei o polegar sobre o metal. Casado. Eu estava casado.— Se continuar olhando assim, alguém vai achar que nunca viu uma aliança.Levantei os olhos e vi Alessandro ao meu lado.— Não tem nada para fazer?— Tenho.— Então faça.— Esto
Não pude deixar de rir. Ele olhou para minha boca. Foi rápido, mas eu vi. Meu riso desapareceu, e Lorenzo percebeu que eu tinha percebido. Desviou os olhos, e naquele pequeno constrangimento encontrei alguma coisa que me assustou mais do que qualquer declaração poderia assustar: esperança.A recepção começou pouco depois. As mesas tinham sido organizadas de maneira que as famílias Bellini e De Luca não ocupassem lados opostos — uma decisão proposital. Misturados, aliados, família. Ainda parecia estranho.Papai conversava com a Nonna de Lorenzo quando passamos por eles, e Lorenzo diminuiu o passo.— Isso é preocupante.— O quê?— Os dois conversando.— Talvez estejam planejando dominar a Itália.— Seu pai já tenta fazer isso sozinho.Parei imediatamente.— Nosso casamento tem menos de uma hora e você já está insultando minha família?— Estou elogiando a ambição dele.— Vou contar para ele.— Ele provavelmente concordaria.Papai olhou em nossa direção naquele momento, como se tivesse ou
POV: Bianca BelliniA mão de Lorenzo continuava segurando a minha. Foi a primeira coisa que percebi depois de dizer sim. Não os convidados, não o celebrante diante de nós, não as duas famílias reunidas para testemunhar o cumprimento de uma promessa feita décadas antes. A mão dele, firme, quente. Os dedos fechados ao redor dos meus como se Lorenzo tivesse esquecido que, depois das palavras, poderia simplesmente me soltar. Eu também não soltei.O celebrante continuou falando, mas precisei me concentrar para compreender as palavras. Meu coração batia rápido demais, e havia uma pressão estranha no peito que parecia crescer a cada segundo. Eu tinha me casado com Lorenzo De Luca. A constatação deveria ser simples; não era. Naquela manhã, acordei como Bianca Bellini, filha de um Don, herdeira de uma família que durante décadas esteve do outro lado de uma guerra que eu nunca comecei. Agora...Olhei discretamente para Lorenzo e ele percebeu.— O quê? — sussurrou.Balancei a cabeça.— Nada.Uma
O silêncio do outro lado durou alguns segundos. Quando ela respondeu, sua voz estava firme.— Porque não quero ser entregue a você, Lorenzo.Meu peito apertou.— Eu nunca pensei nisso dessa maneira.— Eu sei. Mas eu pensei. — Ela respirou fundo. — Passei muito tempo acreditando que hoje... seria apenas o dia em que eu cumpriria uma promessa feita por outras pessoas. Como se meu pai fosse me levar até você e completar a entrega que nossos avós decidiram décadas atrás.Não consegui dizer nada.— Eu não quero isso — continuou. — Quero que, quando eu caminhar até você, saiba que ninguém está me levando.Meu coração batia devagar e pesado.— Estou indo porque escolhi ir.Fechei os olhos. "Se eu convidasse você hoje e não existisse tratado." A pergunta que ela tinha feito no jardim voltou inteira. E minha resposta também: Sim.— Bianca...— Não precisa dizer nada.Mas eu precisava; só não sabia o quê.— Eu vou estar esperando — falei.Ela ficou em silêncio.— Eu sei.Duas palavras. Foi suf
POV: Lorenzo De LucaAcordei antes do despertador. Por alguns segundos, permaneci imóvel, encarando o teto do quarto, enquanto tentava entender o que tinha me arrancado do sono. Não ouvi passos no corredor, nenhuma ligação tinha chegado durante a madrugada e o telefone sobre a mesa permanecia silencioso. Então vi a hora: cinco e dezessete. E me lembrei. Eu me casaria naquele dia.Sentei na cama e passei as mãos pelo rosto. Esperava sentir o peso do tratado. Durante anos, quando pensava naquele casamento, imaginava exatamente aquela manhã: o dia em que uma promessa assinada antes de meu nascimento finalmente cobraria seu preço. Imaginava ressentimento, raiva, talvez a sensação de estar entrando voluntariamente em uma prisão construída por homens mortos. Não senti nada disso. O que senti foi ansiedade, e aquilo me incomodou muito mais.Me levantei e fui até a janela. Milão ainda despertava. Em algum lugar daquela cidade, Luca Bernardi continuava sendo observado, Elisa Moreau também, Kel







