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Capítulo 8 — O homem que voltou

last update publish date: 2026-07-23 06:17:29

Helena voltou à Fazenda Villagran no fim da manhã e descobriu que o cansaço tinha uma crueldade particular: permitia que o corpo parasse, mas não obrigava a cabeça a fazer o mesmo.

Dormiu pouco.

Quando fechava os olhos, via a van atravessando a pista. Via Gabriel junto ao carro destruído, embora não tivesse presenciado o acidente. Via Teresa inconsciente numa cama de hospital.

A imaginação raramente respeitava o direito dos fatos de serem suficientes.

Às seis da manhã seguinte, Helena já estava vestida quando Rafael chegou.

Augusto encontrava-se na sala de leitura.

— Você não precisa ir tão cedo — disse ele.

— Teresa acordou durante a madrugada.

Augusto levantou os olhos dos documentos.

— Rafael avisou.

— Quero falar com ela, se os médicos permitirem.

— E Gabriel?

— Ainda está na delegacia.

A resposta saiu mais seca do que Helena pretendia.

Augusto percebeu.

— A equipe jurídica está com ele.

— Eu sei.

— Então por que parece que pretende atravessar a cidade correndo?

Helena pegou a bolsa.

— Porque é meu irmão.

Augusto assentiu.

Não argumentou.

Ela já estava na porta quando ele a chamou.

— Helena.

Virou-se.

— O quê?

— Se Teresa confirmar a falha nos freios, isso não encerra o problema.

— Eu sei.

— Gabriel conduziu um veículo sem verificar completamente a documentação.

— Eu também sei.

— Não estou culpando seu irmão.

— Parece.

Augusto apoiou as mãos nos braços da cadeira.

— Estou tentando impedir que você confunda uma boa notícia com o fim do risco.

Helena ficou imóvel.

Era uma maneira pouco gentil de dizer algo sensato.

— Tentarei não comemorar antes da hora.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Eu sei.

Ela saiu antes que a conversa descobrisse outra forma de se tornar uma disputa.

Rafael esperava junto ao carro.

— Dormiu?

— Pouco.

— Gabriel também.

— Falou com ele?

— Há meia hora.

Helena entrou.

— Como está?

— Assustado, irritado e convencido de que deveria conseguir resolver tudo sozinho.

Ela fechou a porta.

— Então está normal.

Rafael sorriu de leve.

A estrada até a cidade estava coberta por uma névoa baixa. Durante algum tempo, ouviram apenas o motor e o ruído dos pneus sobre o asfalto úmido.

— Encontraram Sérgio? — perguntou Helena.

— Não.

— Alguma imagem do depósito?

— A polícia solicitou as gravações.

— E a autorização assinada por Gabriel?

— Continua desaparecida.

Helena apertou a alça da bolsa.

— Alguém retirou aquele documento.

— É possível.

— Rafael.

— É possível — repetiu ele. — Mas ainda não podemos afirmar.

— Você deve ser insuportável num jantar.

— Sou pior em audiências.

Quando chegaram ao hospital, Sofia os aguardava na recepção.

Helena já a conhecia de vista dos corredores e dos contatos profissionais da região, mas nunca haviam conversado além de cumprimentos rápidos.

Sofia tinha os cabelos pretos, curtos e cacheados, uma bolsa médica presa ao ombro e uma maneira de observar as pessoas que parecia eliminar rapidamente qualquer tentativa de disfarce.

— Você é Helena de Alencar.

— Sou.

— Sofia Duarte.

Ela estendeu a mão.

— Enfermeira daqui?

— Faço plantões e também acompanho comunidades da região.

O olhar de Sofia caiu sobre o curativo de Helena.

— Isso ainda está inflamado?

Helena recolheu discretamente a mão.

— Está melhor.

— Não perguntei isso.

Rafael desviou o rosto.

Helena percebeu.

— Vocês se conhecem?

— Não — respondeu Sofia. — Mas enfermeiras desenvolvem o péssimo hábito de reconhecer pacientes teimosas.

— Eu não sou paciente.

Sofia sorriu.

— Já estou gostando de você.

Helena quase respondeu, mas a porta do corredor abriu-se atrás delas.

Um homem saiu carregando um capacete de obra numa das mãos.

Helena deixou de ouvir o restante da sala.

O tempo não costuma parar.

Essa era uma invenção útil de poetas e pessoas apaixonadas.

Na realidade, o tempo continuava avançando enquanto alguém permanecia imóvel, tentando compreender por que um rosto antigo ainda conseguia modificar o ritmo de sua respiração.

Henrique Duarte também parou.

Os cabelos castanho-escuros estavam mais curtos do que ela lembrava. O rosto perdera a juventude estreita dos dezessete anos e ganhara linhas mais firmes. Continuava alto, magro, com os mesmos olhos verdes que, muitos anos antes, tinham conseguido convencê-la de que distância era apenas um detalhe.

— Helena?

Ela sentiu Sofia olhar de um para o outro.

— Henrique.

Ele aproximou-se devagar.

— Eu não sabia que você estava aqui.

— Nem eu que você estava.

— Cheguei há algumas semanas.

— Para trabalhar?

Henrique ergueu o capacete.

— Reforma dos sistemas de irrigação de algumas propriedades da região.

Rafael acompanhava a conversa em silêncio.

Helena percebeu.

— Inclusive Villagran? — perguntou.

Henrique hesitou.

— Inclusive.

Naturalmente.

Nos últimos dias, tudo parecia adquirir alguma ligação com aquela fazenda.

— Você trabalha para Augusto.

— Para a empresa contratada pela fazenda.

— Há diferença?

— Espero que sim.

O sorriso surgiu antes que Helena pudesse impedir.

Henrique viu.

Por um instante, ambos pareceram recordar uma versão muito mais jovem de si mesmos.

Foi Sofia quem teve a misericórdia de interromper.

— Teresa está acordada.

Helena voltou imediatamente ao presente.

— Posso vê-la?

— Por poucos minutos. Ela ainda está muito fraca.

Rafael permaneceu no corredor enquanto Sofia acompanhava Helena até o quarto.

Teresa estava pálida, com pequenos ferimentos no rosto e aparelhos monitorando seus sinais. Parecia menor do que Helena imaginara ao ouvir Gabriel descrevê-la.

A mulher abriu os olhos.

— Você é a irmã.

Helena aproximou-se.

— Sou Helena.

— Gabriel fala muito.

Apesar de tudo, Helena sentiu vontade de rir.

— Essa característica está confirmada desde a infância.

Teresa respirou devagar.

— Ele ficou comigo.

— Eu sei.

— Não deixou que eu dormisse.

Helena sentiu os olhos arderem.

— Ele está se culpando.

— O pedal não respondeu.

Helena ficou imóvel.

— A senhora ouviu?

— Ele pisou... várias vezes.

Teresa fechou os olhos por alguns segundos.

Sofia observou o monitor antes de permitir que continuassem.

— Ele estava correndo? — perguntou Helena.

— Não.

— Parecia ter bebido?

Teresa abriu os olhos novamente.

— Não.

A resposta trouxe alívio.

Não absolvição.

Alívio.

— Obrigada.

— Diga a ele...

Teresa precisou respirar antes de completar:

— Diga que eu sei que ele tentou parar.

Helena segurou a grade da cama.

— Direi.

Sofia encerrou a visita pouco depois.

No corredor, Helena encostou-se à parede e fechou os olhos.

— Respira — disse Sofia.

— Estou respirando.

— Tecnicamente.

Helena abriu os olhos.

Sofia lhe ofereceu um copo de água.

— Seu irmão ganhou uma testemunha importante.

— Ainda falta provar que a van já estava com defeito.

— Uma coisa de cada vez.

— Não tenho tido muita sorte com essa estratégia.

— Então talvez esteja na hora de começar.

Henrique continuava no corredor.

Esperou Sofia se afastar antes de aproximar-se.

— Seu irmão vai ficar bem?

— Fisicamente, sim.

— E juridicamente?

— Ainda não sei.

Henrique assentiu.

— A empresa que está fazendo a obra usa fornecedores da mesma região do depósito onde essa van estava.

Helena ergueu os olhos.

— O que quer dizer?

— Talvez existam registros de manutenção, peças, notas de serviço. Posso perguntar.

— Você faria isso?

— Sim.

— Por quê?

Henrique pareceu surpreso.

— Preciso de um motivo?

— Depois de tantos anos, talvez.

A resposta ficou entre eles.

Henrique olhou para o chão.

— Eu deveria ter escrito.

Helena sentiu alguma coisa antiga mover-se.

— Poderia ter feito muitas coisas.

— Você também.

— Eu escrevi.

Ele levantou o rosto.

— O quê?

— Duas vezes.

Henrique ficou imóvel.

— Eu nunca recebi.

Helena riu sem humor.

— Claro.

— Estou falando sério.

— Faz anos.

— Isso não torna menos importante.

Ela olhou para ele.

Tinha dezessete anos outra vez por um segundo.

Detestou.

— Não quero discutir o passado num corredor de hospital.

— Nem eu.

— Ótimo.

— Mas gostaria de falar quando puder.

Helena apertou o copo de água.

— Talvez.

Henrique sorriu.

— Você continua usando “talvez” quando não quer admitir que está pensando.

— E você continua interpretando demais.

— Algumas coisas sobrevivem.

Rafael apareceu no fim do corredor.

— Helena, o delegado autorizou sua visita a Gabriel.

Ela entregou o copo a Henrique.

— Preciso ir.

— Eu sei.

Deu alguns passos.

— Helena.

Virou-se.

Henrique a observava.

— Sinto muito pelos seus pais.

A frase encontrou um lugar para o qual ela não estava preparada.

— Faz muito tempo.

— Tempo não muda parentesco.

Helena sustentou o olhar dele.

— Não.

Não mudava.

Também não mudava certas lembranças.

Apenas ensinava uma pessoa a guardá-las onde incomodassem menos.


Gabriel estava sentado numa sala da delegacia quando Helena entrou.

O hematoma junto à sobrancelha havia escurecido.

— Teresa acordou — disse ela.

Ele ficou de pé.

— E?

— Confirmou que os freios falharam.

Gabriel fechou os olhos.

O alívio atravessou seu rosto antes que a culpa retomasse o lugar.

— Ela está bem?

— Ainda está internada.

— Perguntou por mim?

— Pediu que eu dissesse que sabe que você tentou parar.

Gabriel abaixou a cabeça.

Helena segurou sua mão.

— Escute.

Ele olhou.

— Isso não apaga o erro de ter aceitado aquele trabalho sem verificar tudo.

— Eu sei.

— Mas também não permite que você carregue uma culpa que pertence a outra pessoa.

— E se ela morrer?

Helena demorou a responder.

— Então vamos lidar com isso quando acontecer.

— Você sempre fala como se houvesse um “depois”.

— Preciso acreditar que há.

A porta abriu.

Rafael entrou.

— A polícia recebeu autorização para periciar o sistema de freios ainda hoje.

— E o documento? — perguntou Gabriel.

— Nada.

— Sérgio?

— Nada.

Gabriel soltou o ar.

Helena olhou para Rafael.

— Henrique talvez consiga informações sobre fornecedores e manutenção.

O advogado parou.

Foi mínimo.

Mas Helena percebeu.

— Henrique Duarte? — perguntou.

— Você o conhece?

Rafael recuperou a expressão neutra.

— Sei quem é. Ele trabalha num projeto ligado à fazenda.

— Encontramos no hospital.

Rafael assentiu.

— Entendido.

A resposta era normal.

Normal demais.

Helena guardou a reação na memória.

Nos últimos dias, aprendera que o silêncio de Rafael costumava dizer alguma coisa antes que suas palavras decidissem o que esconder.


Quando voltou à Fazenda Villagran, já passava do meio-dia.

Augusto estava na varanda.

— Teresa?

— Acordada. Confirmou a falha nos freios.

— Isso é bom.

— É.

Helena subiu o primeiro degrau.

Augusto percebeu alguma coisa em seu rosto.

— Aconteceu mais alguma coisa?

— Encontrei alguém.

— Quem?

Ela não sabia por que hesitou.

— Henrique Duarte.

A mão de Augusto parou sobre o aro da cadeira.

Foi apenas por um instante.

— O engenheiro.

— Você o conhece.

— Trabalha num contrato ligado à fazenda.

— Ele pode conseguir informações sobre a manutenção da van.

— Rafael cuidará disso.

— Henrique se ofereceu.

Augusto desviou o olhar para os campos.

— Não precisamos de favores dele.

Helena sentiu a irritação surgir.

— “Nós”?

— A equipe jurídica.

— Henrique não está ajudando a equipe jurídica. Está ajudando Gabriel.

— Ainda assim, Rafael pode—

— Augusto.

Ele olhou para ela.

— Meu irmão precisa de qualquer informação útil. Não vou recusar ajuda porque o senhor não gosta de quem oferece.

— Eu não disse que não gosto dele.

— Não precisou.

Augusto apertou os dedos no aro.

— Faça como quiser.

— Pretendo.

Helena passou por ele.

Já estava dentro da casa quando percebeu que Augusto não perguntara quem Henrique era para ela.

Talvez não se importasse.

Talvez soubesse.

E, naquele momento, Helena ainda não tinha razões suficientes para decidir qual das duas possibilidades era mais inquietante.

Na varanda, Augusto permaneceu olhando para a estrada.

Henrique Duarte havia voltado.

E algumas pessoas tinham o péssimo hábito de reaparecer justamente quando a vida começava a construir maneiras de continuar sem elas.

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