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Autor: Anny lago
last update Data de publicação: 2022-01-08 04:16:04

Sophie Montenegro.

Estaciono minha moto na vaga habitual, desligo o motor e desço, sentindo uma leve tensão nos ombros. Sigo em direção ao elevador, o silêncio do prédio contrastando com o turbilhão de pensamentos que ainda rondam minha mente.

Assim que sai do prédio de alojamento da universidade, e coincidentemente o mesmo onde Aaron mora. Há pouco menos de duas horas, eu sentia como se pudesse explodir a qualquer momento. A raiva me consumia por completo sinceramente eu estava me sentindo uma idiota por isso.

Peguei um táxi de volta até o posto, onde, sem pensar direito, deixei minha moto na pressa e na euforia daquele momento. E, honestamente, não vou mentir para mim mesma: dirigi pela cidade por quase uma hora antes de decidir que precisava voltar para casa. A raiva ainda me consome por dentro, e aquele beijo maldito não significou nada. No entanto, lá no fundo, uma sensação amarga me diz que fui uma tremenda idiota por tê-lo ajudado.

Ao entrar em meu apartamento, sou envolvida pela tranquilidade do ambiente. O aroma suave de lavanda se espalha pelo ar, trazendo uma sensação de calma que eu tanto busquei nas últimas horas. Respiro fundo, permitindo que o cheiro doce preencha meus pulmões e me acalme. Retiro meus tênis, os deixando na sapateira com um suspiro, e sigo para meu quarto. A sensação de estar de volta ao meu espaço pessoal, sem a tensão da noite anterior, é reconfortante, mas ainda assim sinto um vazio.

No quarto, pego uma muda de roupa limpa. Me livro das roupas de ontem, com as quais ainda me sinto estranha, e sigo para o banheiro. Um longo banho e uma refeição simples são tudo o que eu preciso agora, ou pelo menos é o que tento me convencer. Quando a água quente começa a escorrer sobre minha pele, a tensão vai se dissolvendo aos poucos, mas não consigo esquecer o que aconteceu.

~~•~~~

A tarde caiu rapidamente, e quando percebi, o sol já estava se pondo. Não conversei com ninguém durante o dia: Kiara, Rick, Zack, Stormy ou Tyler. Ignorei todas as mensagens, todas as ligações, qualquer coisa que pudesse me tirar do sério, mesmo que por um segundo.

Debruçada sobre a sacada do apartamento, observo o céu em tons alaranjados. Dou um trago no cigarro, prendo a fumaça por alguns instantes e a solto lentamente, observando-a se dissipar. O silêncio ao meu redor é quase reconfortante, até ouvir o som inconfundível da maçaneta sendo girada.

Não era como se eu já não esperasse por isso. Zack, Kiara ou Rick - nenhum deles mora comigo, mas, como dividimos o mesmo prédio, acabamos compartilhando mais do que apenas o endereço. Cada um tem a chave do apartamento do outro, uma precaução para casos de emergência. Como, por exemplo, a vez em que Rick caiu bêbado no banheiro e tivemos que arrombar a porta para socorrê-lo. Ele estava em uma chamada de vídeo com Alicia, uma conhecida nossa, que ligou desesperada para Kiara, que, por sua vez, chamou Zack. Foi uma confusão só.

Mas, honestamente, ninguém invade o espaço alheio tanto quanto Zack. Ele simplesmente chega entrando, como se a privacidade fosse um conceito opcional. A pior vez foi quando ele entrou no meu apartamento sem aviso, enquanto eu e um cara com quem eu estava saindo estávamos... bem vocês sabem, e digamos que o sofá havia se tornado o "local ideal" no momento. Zack entrou com uma sacola de compras, nos cumprimentou casualmente e foi direto para a cozinha, como se nada estivesse acontecendo. Brigamos feio depois disso, mas, como era de se esperar, ele não entende a palavra "limites".

- Quero ficar sozinha. - digo, sem desviar o olhar do horizonte, ao ouvir os passos se aproximando.

- Achei que te encontraria aqui. - Zack responde, se debruçando na varanda ao meu lado. - O que tá pegando?

- Nada. Só quero um tempo pra mim. - retruco, levando o cigarro de volta à boca.

- Toma. - ele diz, estendendo um envelope.

- O que é isso? - pergunto, ainda sem desviar o olhar, ignorando o papel em suas mãos.

- Chegou pra você essa manhã. - Zack responde com calma.

- E você não abriu? - minha curiosidade se mistura à surpresa.

- Não tava no meu nome. - ele dá de ombros. - O remetente é de fora da cidade... Helen Montenegro.

Meu corpo gela por um momento, o nome ecoando em minha mente como um alarme. Antes que eu possa pensar, pego o isqueiro no bolso e acendo a borda do envelope. O papel começa a queimar, e o jogo no cinzeiro da varanda, observando-o ser reduzido a cinzas.

- Dia difícil? - Zack pergunta, me analisando com aquele olhar que sempre parece saber mais do que deveria.

- Não quero falar sobre isso. - digo calmamente, apagando o cigarro e me preparando para entrar no apartamento.

Antes que eu possa dar o próximo passo, sinto braços me puxando. Zack me envolve em um abraço apertado, me surpreendendo. Apesar de tudo, há algo reconfortante em seu gesto, algo que me faz sentir que, por mais bagunçado que esteja o mundo, eu não estou completamente sozinha.

- Eu tô aqui. Você sabe disso, né? - ele diz, depositando um beijo suave em minha testa.

- Obrigada por tudo. - murmuro, esboçando um sorriso tímido, embora minha mente esteja a mil.

A carta de Helen, somada aos acontecimentos da noite passada, pesa ainda mais sobre mim. Faz cinco anos. Cinco malditos anos desde que saí daquela casa, expulsa por ela e pelo homem que chamava de pai. O que Helen quer agora, depois de tanto tempo? A verdade é que não quero descobrir. Não quero contato com ela, com ele ou com qualquer outra pessoa daquela família.

Não me entendam mal, mas algumas feridas não cicatrizam. Podem até me chamar de egoísta, mas aprendi a valorizar minha sanidade e meu bem-estar acima de tudo. Depois de cinco anos, não estou disposta a abrir mão disso novamente por pessoas que, no fundo, sei que só me fariam mal.

- Eu sei o que pode te animar, princesa. - Zack diz, ainda acariciando meus cabelos com aquela tranquilidade irritante.

- Hoje não tem corrida. - respondo, sem esconder minha apatia, enquanto olho para ele de soslaio.

- E desde quando você precisa de um convite formal para tentar se matar em duas rodas? - ele retruca com diversão, arrancando de mim um revirar de olhos.

- Desde que você me fez prometer ter mais cuidado. - digo com a voz carregada de falsa inocência, observando seus olhos se estreitarem.

- Ah, então passar na frente daquele trem algumas semanas atrás é o que você chama de "tomar cuidado"? - ele rebate, mantendo o mesmo tom provocador. - Mas, não, pequena. Não estou falando de se arriscar em duas rodas. Sabe o que precisamos? Um tempo entre amigos, como nos velhos tempos.

- Kiara e Rick estão trabalhando, e Alex está de plantão. - argumento com calma, já antecipando a teimosia dele.

- E desde quando isso nos impediu de alguma coisa? - Zack responde com um sorriso despreocupado, como se já tivesse a solução perfeita para tudo.

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