FAZER LOGINSe existe uma coisa que aprendi durante a faculdade, é que os boatos viajam mais rápido que a internet.
Às vezes mais rápido que a luz. Foi exatamente por isso que eu soube do término de Gabriel e Beatriz antes mesmo de entrar na primeira aula daquela segunda-feira. — Você está sentada? Olhei para Sofia. Ela havia acabado de aparecer na sala. Com aquele olhar que sempre significava fofoca. — Estou literalmente sentada. — Ótimo. Ela largou a mochila na cadeira ao lado da minha. — Gabriel e Beatriz terminaram. Meu cérebro travou. Completamente. — O quê? — Eu sei. — O quê? — Essa foi exatamente minha reação. Pisquei algumas vezes. Tentando processar. Não fazia sentido. Nenhum. Eles pareciam perfeitos. Pareciam aquele tipo de casal que acabaria casando. Comprando uma casa. Tendo filhos lindos. E irritando o resto da humanidade para sempre. — Tem certeza? — O campus inteiro está falando disso. Meu coração fez uma coisa muito inconveniente naquele momento. Esperança. Aquela maldita esperança. Porque a primeira coisa que pensei não foi: "Que pena." Foi: "Ele está solteiro." E me odiei imediatamente por isso. Durante os dias seguintes, os rumores continuaram. Cada pessoa tinha uma versão diferente. Alguns diziam que Beatriz havia terminado. Outros diziam que Gabriel terminou. Alguns juravam que houve uma traição. Outros diziam que era apenas desgaste. Ninguém parecia saber a verdade. E eu não deveria me importar. Mas me importava. Muito. Mais do que deveria. Na sexta-feira, descobri por acaso que os rumores eram verdadeiros. Eu estava saindo da biblioteca quando vi Gabriel sozinho. Sentado num banco perto do lago artificial do campus. Sozinho. Pela primeira vez desde que o conheci. Sem amigos. Sem multidões. Sem aquele sorriso fácil. Parecia cansado. Distante. Triste. E aquilo me surpreendeu. Porque, de alguma forma, eu nunca tinha imaginado que Gabriel pudesse parecer vulnerável. Fiquei observando por alguns segundos. A distância. Sem intenção de me aproximar. Até que ele passou a mão pelos cabelos e soltou um suspiro tão pesado que consegui ouvir dali. Meu peito apertou. Eu deveria ir embora. Era o mais sensato. O mais lógico. O mais saudável. Mas minhas pernas claramente não tinham compromisso com a lógica. Antes que eu percebesse, já estava caminhando naquela direção. Quando cheguei perto, ele ergueu a cabeça. Pareceu surpreso ao me ver. — Helena. Meu coração ainda fazia questão de comemorar toda vez que ele lembrava meu nome. Patético. — Oi. — Oi. Silêncio. Muito silêncio. Talvez eu devesse ter preparado um discurso. Ou pelo menos uma frase inteligente. Mas não preparei. Então falei a primeira coisa que veio à cabeça. — Você parece triste. Excelente. Muito sutil. Muito elegante. Gabriel soltou uma pequena risada. — É tão óbvio assim? — Um pouco. Ele olhou para o lago novamente. — Então preciso melhorar minha atuação. Por alguns segundos ficamos em silêncio. Eu já estava quase inventando uma desculpa para ir embora quando ele falou. — Você já teve o coração partido? A pergunta me pegou desprevenida. Porque, ironicamente, eu estava no processo de partir o meu naquele exato momento. Por causa dele. — Não sei. Ele assentiu lentamente. Como se entendesse. Como se também não soubesse. — Eu achei que algumas coisas durariam para sempre. Aquela frase me atingiu de um jeito estranho. Porque parecia sincera. Crua. Sem a imagem perfeita que todos tinham dele. Apenas um cara sentado num banco. Machucado. Humano. — Às vezes as pessoas mudam — falei. — Ou talvez a gente descubra quem elas realmente são. Aquilo pareceu escapar dele. Como algo que não pretendia dizer. Observei seu perfil por alguns segundos. E pela primeira vez não vi o garoto popular. Nem o homem mais bonito da universidade. Vi alguém sofrendo. E isso me fez querer abraçá-lo. O que foi uma péssima ideia. Porque foi naquele momento que percebi uma verdade perigosa. Eu já estava apaixonada. De verdade. Não era mais uma queda. Não era mais uma fantasia. Não era mais uma simples admiração. Eu estava apaixonada por Gabriel Castellan. E apaixonada por alguém que nem sequer me via dessa forma. O problema? Eu ainda não fazia ideia do quanto essa paixão iria custar. Quando fui embora naquele dia, uma sensação estranha me acompanhou até o dormitório. Uma mistura de tristeza e esperança. Tristeza porque ele estava sofrendo. Esperança porque ele estava solteiro. E eu odiava essa esperança. Porque ela significava que uma parte de mim já estava imaginando possibilidades. Possibilidades que provavelmente nunca existiriam. Mas que meu coração insistia em criar mesmo assim. Como sempre. Como faria por muitos anos ainda.Saí da empresa mais tarde do que pretendia. O dia tinha sido longo. Reuniões, documentos, telefonemas. Tudo parecia exigir minha atenção ao mesmo tempo. Entrei no carro e afrouxei a gravata enquanto saía do estacionamento. Eu só queria chegar em casa. Mas, ao passar por uma das avenidas mais antigas da cidade, alguma coisa me fez diminuir a velocidade. A praça. Eu conhecia aquele lugar. Não sabia exatamente de onde. Mas conhecia. Talvez fosse apenas uma sensação. Passei os olhos pela calçada. E então a vi. Helena. Meu coração simplesmente parou. Ela estava sentada em um banco. Sorrindo. Ao lado de um homem. Um homem que eu não conhecia. Parei o carro alguns metros adiante. Não pensei. Apenas parei. Fiquei olhando através do para-brisa. Helena parecia diferente. Mais leve. Mais feliz. O homem disse alguma coisa. Ela riu. Depois ele segurou a mão dela. Meu peito apertou. Por algum motivo, aquilo doeu. Muito. Então ele s
Eu não sabia exatamente por que tinha decidido fazer aquilo. Talvez porque estivesse de volta. Talvez porque, depois de tantos anos, precisasse descobrir se aqueles lugares ainda tinham o mesmo poder sobre mim. Ou talvez simplesmente porque queria mostrar a Lucas uma parte da minha história. — Tem certeza que quer ir? — ele perguntou enquanto caminhávamos pela calçada. Olhei para ele. — Tenho. — Então eu vou com você. Sorri. Era exatamente isso que eu precisava. Não que ele me dissesse para esquecer. Não que tentasse me proteger das lembranças. Apenas que estivesse comigo. O primeiro lugar foi uma pequena praça. Eu parei diante do portão. — Foi aqui. Lucas olhou ao redor. — Aqui o quê? — Nós brincávamos. Ele me olhou, confuso. — Nós? — Você, eu e mais algumas crianças. Ele sorriu. — Eu lembro. Entramos. A praça parecia menor do que eu lembrava. Muito menor. As árvores ainda estavam ali. O banco de madeira também. E o antigo parquinho. — Eu lembro desse e
Meu primeiro dia de volta para casa começou de um jeito que eu não esperava. Com café. Muito café. E minha mãe falando sem parar. — Você está comendo direito? — Estou. — Está dormindo? — Sim. — Trabalhando demais? — Às vezes. — E o Lucas? Olhei para ela. — Mãe... Ela riu. — O que foi? Só estou perguntando. Lucas, sentado do outro lado da mesa, segurou o riso. — Ela faz isso desde que eu conheço. Márcia apontou para ele. — Viu? Ele me entende. — Não dê confiança — falei. Os dois riram. Eu fiquei observando aquela cena. Minha mãe e Lucas conversando como se ele nunca tivesse passado anos longe. E aquilo me trouxe lembranças antigas. Antes de Lucas ir embora, ele praticamente fazia parte da nossa casa. Entrava sem bater. Almoçava conosco. Passava tardes inteiras comigo. Minha mãe sabia de todas as nossas brigas. E ele sabia exatamente onde ficavam os biscoitos. Talvez fosse por isso que vê-los juntos novamente parecesse tão natural. No começo da tarde, meu
O aeroporto estava cheio. Pessoas correndo de um lado para o outro, malas sendo arrastadas, anúncios de embarque ecoando pelos corredores. Eu segurava o passaporte em uma mão e a mão de Lucas na outra. E, apesar de estar acostumada com aeroportos, naquela manhã parecia que eu estava prestes a fazer a viagem mais importante da minha vida. — Está nervosa? — Lucas perguntou. Olhei para ele. — Um pouco. — Só um pouco? Suspirei. — Muito. Ele sorriu. — Quer desistir? — Não. — Então está tudo bem. Apertei sua mão. — É estranho. — O quê? — Voltar. Ele ficou em silêncio, esperando que eu continuasse. — Eu passei trinta anos naquela cidade. Olhei para o painel de embarque. — Minha infância. Minha adolescência. Faculdade. Meu casamento... Parei. — Tudo aconteceu lá. Lucas passou o polegar sobre minha mão. — E agora você vai voltar sendo outra pessoa. Olhei para ele. — Exatamente. Quando entramos no avião, sentei perto da janela. Lucas ficou ao meu lado. Assim que o
A passagem estava aberta sobre a mesa. Eu já tinha conferido umas cinco vezes. Data. Horário. Portão. Bagagem. Tudo certo. Mesmo assim, continuei olhando para ela. — Você sabe que ela não vai mudar de horário só porque você está olhando, não sabe? Levantei os olhos. Lucas estava encostado no batente da porta, segurando duas xícaras de café. — Eu sei. — Então por que está olhando para a passagem há dez minutos? — Porque estou nervosa. Ele entregou uma das xícaras para mim. — Você? — Eu. — Não acredito. Revirei os olhos. — Muito engraçado. Ele se sentou ao meu lado. — Nervosa com a viagem? — Com tudo. — Sua mãe? — Também. — Sofia? — Principalmente Sofia. Lucas riu. — Ela vai gostar de mim. — Ela já gosta. — Então qual é o problema? Olhei para ele. — Dessa vez é diferente. Ele entendeu imediatamente. — Porque agora sou seu namorado. Assenti. — Exatamente. A palavra ainda provocava uma sensação estranha. Namorado. Lucas. Meu namorado. Sorri sem pe
Na manhã seguinte, acordei antes de Lucas. Por alguns segundos, fiquei imóvel. O quarto estava silencioso. A luz suave do começo da manhã entrava pelas cortinas. Lucas dormia ao meu lado. E eu sorri. Não porque alguma coisa extraordinária tivesse acontecido. Mas porque, pela primeira vez, acordar ao lado de alguém não me dava vontade de fugir. Fiquei observando-o por alguns instantes. O cabelo bagunçado. A expressão tranquila. A respiração calma. Era o mesmo Lucas que eu conhecia desde criança. Mas, ao mesmo tempo, parecia completamente diferente. Talvez porque agora eu soubesse o que sentia por ele. Ou talvez porque finalmente tivesse coragem de admitir. Ele se mexeu. Abriu os olhos devagar. — Bom dia. Sorri. — Bom dia. Ele me puxou para mais perto. — Dormiu bem? — Muito. Lucas beijou minha testa. — Eu também. Ficamos alguns minutos abraçados, sem dizer nada. E eu percebi que estava feliz. Muito feliz. Naquela manhã, fizemos café juntos. Lucas ficou resp







