LOGINO recesso de Carnaval finalmente tinha chegado. Sábado pela manhã, Deise despertou às oito da manhã. Sua mãe também estava se levantando. Não eram muito de conversar, então, Deise ficou assistindo televisão na sala enquanto sua mãe providenciava o café da manhã. A garota assistia atenta ao desenho do pica-pau. Não se cansava de ver as mesmas histórias que se repetiam nas manhãs de sábado.
Enquanto isso, Maria colocou a garrafa de café na mesa, pão francês, açúcar e flocos de milho. Deise adorava café desde muito pequena. Maria ofereceu a bebida para sua filha quando ela ainda tinha três anos.
Deise herdou os hábitos da mãe de molhar algum alimento no café. Naquela manhã, a jovem escolheu comer um pão quente com manteiga, que a mãe esquentava em uma frigideira e o café misturado com flocos de milho. Os flocos de milho, ao se misturarem com o café, absorviam a bebida e se tornavam cremosos e açucarados devido ao excesso de açúcar que Deise colocava no café.
Com uma colher, a adolescente saboreou seu desjejum. Em outras ocasiões, Deise também costumava embeber com café, pão francês, biscoitos tipo maizena ou biscoitos água e sal.
O padrasto não estava em casa como sempre. Ele também trabalhava aos sábados e não fazia questão de retornar cedo. Deise praticamente só o via aos domingos. Era como se não vivessem juntos. Era como se fossem completos estranhos. Para a garota, era bom não ver com tanta frequência André, pois a impressão que tinha era de que ele não gostava dela.
Após se alimentar, Deise saiu e foi ficar na área do condomínio em que vivia. Várias crianças já corriam e brincavam pelo gramado do condomínio da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano).
Deise avistou algumas crianças menores e como os conhecia se aproximou.
— O que vocês estão fazendo? — Deise perguntou sorridente.
— Brincando de casinha. Quer brincar com a gente? — Paulinha respondeu, olhando para cima, visto que estava sentada no chão.
Deise sempre foi muito gentil e brincalhona com as crianças pequenas de seu condomínio. Todas a adoravam e frequentemente a chamavam para brincar, seja de bola, de pique-esconde, patins, bonecas, pião, bola de gude, vai-e-vem, bambolê, bicicleta, mola maluca, b**e-b**e, pipa ou qualquer coisa que lhes passasse em sua imaginação.
— Quero sim! — Deise se posicionou ao lado de Paulinha que logo colocou uma boneca no colo da mais velha..
— Essa é minha filha. Você vai ser a babá dela enquanto eu faço a comidinha dela, tá?
— Tá certo! Eu vou ninar ela, porque eu acho que ela vai chorar. — Deise acolheu a boneca em seus braços como se fosse um bebê de verdade.
Paulinha, Felipinho, o irmão de Paulinha, e Deise brincavam juntos tranquilamente até que uma pessoa os surpreendeu.
— Paula! Felipe! Peguem seus brinquedos e subam agora. — A voz grave do homem soou como um trovão para os pequenos assustados.
Os dois irmãos não pestanejaram e obedeceram ao pai que tinha acabado de chegar de mais uma ronda noturna. Edson estava trajando seu típico uniforme cinza de policial militar e encarava Deise, com aparência ranzinza.
Após seus filhos se afastarem, Edson se dirigiu a Deise e esbravejou com a garota.
— Você não tem mais idade para brincar de boneca! Meninas da sua idade arranjam namorado!
Deise ficou assustada com a agressividade de Edson. Não compreendeu por que ele se incomodou tanto com o fato dela estar brincando de bonecas.
O policial cansado logo se retirou para seu apartamento.
Deise suspirou e estava prestes a voltar para casa, quando encontrou sua melhor amiga descendo para o pátio.
As duas se abraçaram. Miriam e Deise estudaram juntas do quinto ao oitavo ano do fundamental e construíram uma amizade sólida e verdadeira.
— Estava com saudades de você. — Miriam estava sorridente.
— Também senti sua falta. É estranho a gente não estudar mais juntas. — Deise ergueu a amiga no colo e girou duas vezes com ela.
— Verdade. Mas me conta: como é sua escola nova e os garotos? — Miriam repousou no chão e ansiava por ouvir as novidades da melhor amiga.
— A escola é estranha, ninguém usa uniforme e tem poucos alunos. Fica num prédio apertado e a gente vai para a rua no recreio.
— Que da hora! — Miriam nem conseguia imaginar como seria um colégio como Deise descreveu.
— É da hora e estranho ao mesmo tempo. Os meninos são legais, tem um papo diferente dos garotos da nossa antiga escola. Sei lá, é tudo tão diferente, não sei nem como explicar direito.
— Entendo você! Agora estamos no ensino médio, amiga. — Miriam pareceu cabisbaixa, por um instante.
— É! Como estão as coisas lá no Conde? — Deise se referiu ao atual colégio estadual em que Miriam estava estudando.
— É uma loucura! Quatro turmas de cada ano e tem um pessoalzinho meio barra pesada.
— Ninguém merece! — Deise lamentou por Miriam.
— É! Aquele lixo de sempre. Escola pichada, tudo caindo aos pedaços, professores fingindo dar aula e vários tempos livres.
— Que saco! — Deise tinha péssimas lembranças dos tempos livres que tinha na escola.
— É! Sorte a sua ter ido para um lugar melhor. Você parece chateada. Aconteceu alguma coisa? — Miriam conhecia bem as reações de Deise.
— O pai da Paulinha me criticou por eu estar brincando com a filha dele. Disse que sou grande demais para brincar de boneca. Que o certo era eu estar namorando.
— Aquele cara é um canalha! Não liga para ele! Vou te contar uma coisa, promete que não conta para ninguém! Sabe a babá da Catarina e do João que moram no meu andar?
— Sei. — Deise estava atenta aos cochichos de Miriam.
— Então, eu ouvi ela dizer para a Heloísa que ela está ficando com o Edson.
— Jura! Será que é verdade? — Deise custou a acreditar no fato revelado.
— Acredito que sim, pois comecei a prestar mais atenção nela. Quando a Geise sai da casa da Catarina, coincide com o horário que o Edson desce para ir trabalhar.
— Minha nossa! Mas ela deve ter nossa idade, não é? — Deise cochichava em assombro.
— Sim! Ela tem dezessete e estuda no Conde à noite. Eu perguntei como quem não quer nada para a Helô e ela confirmou.
— Que safado! — Deise estava indignada.
— Concordo. Ele é desses caras que correm atrás de adolescentes. E fica lá naquela pose toda de policial bonzinho.
— Menina, a esposa dele é tão legal. Que chato isso. Ela deveria saber. — Deise pensou em todas as vezes que Márcia foi gentil com ela.
— Também acho. — Miriam concordou.
A primeira semana de férias foi tão bem-vinda que passou num piscar de olhos. Num sábado à tarde, Deise foi a um mercadinho próximo de casa para comprar pão doce, mussarela e presunto para o café da tarde. Estava na fila e ficou vendo uma foto que os rapazes do local adoravam exibir e contar a história dela. Diziam que a menina na foto era a loira do tchan e que ela havia estudado junto deles na mesma turma por muitos anos. A tal escola Deise conhecia, tinha feito apenas o oitavo ano nela quando foi transferida devido às agressões físicas e verbais que sofria na escola anterior. Sorriu vendo a foto e gostaria de ter conhecido a menina que certamente se formou antes dela ser transferida. Fez seu pedido, pagou e voltou para casa. No caminho avistou Miriam que provavelmente estava indo no mesmo mercadinho. As duas não se encontraram desde o dia que Miriam ficou com o caderno de Thaizza.— Oi. Eu estava querendo falar com você já faz tempo.— Oi Deise! — Miriam percebeu no semblante da me
Mais uma semana havia terminado e Deise estava aliviada com a chegada do fim de semana. Finalmente lhe ocorreu que ela não se encaixava bem na sua atual escola. Apesar das tentativas de fazer amizades verdadeiras, ela apenas se frustrou. Eram muito diferentes e a garota passou a se sentir uma estranha entre eles. Foi inevitável um distanciamento.Deise já tinha manifestado a sua mãe que queria doar seus brinquedos para Sandra, sua amiguinha e vizinha de andar. Contudo, Maria queria fazer a doação para o Centro Espírita que a sua patroa frequentava.E assim, Maria e Deise foram para um dos encontros do grupo fraternal espírita que ficava no próprio bairro onde elas moravam. Foram recebidas por Marise, mãe de Marcos.— Que bom que vocês vieram!Marise abraçou Maria e Deise.— Então você é a Deise, sua mãe fala muito de você. — Oi. — Deise estava retraída, sem saber o que conversar. — Eu trouxe algumas coisas para doar.— Ah! Que maravilha! Isso é muito bom, Deise. Querida, pode deixar
— Não era só um jogo. Eu realmente queria ganhar!Deise falou sozinha quando um funcionário do prédio apareceu para limpar a quadra e a avisou que ela deveria ir embora.Deise foi então para o vestiário a fim de buscar sua mochila. O silêncio era assustador. Todos já haviam ido embora. Ela se apressou e desceu pelo elevador.Ao chegar a rua sentiu frio. Já era fim de tarde e com o corpo suado se tremeu toda com a brisa. Pegou um moletom na mochila e foi para o metrô. Conforme o corpo esfriava, a dor abdominal aumentava. Deise não conseguia tirar da mente a imagem de Jéssica a atingindo. Sentiu raiva. Deise adorava competições e lidar com derrotas sempre foi um desafio desde que perdera um campeonato de handebol no sétimo ano e seu time era o favorito. Contudo, o que ganhou foi apenas um amargo segundo lugar.A menina chegou em casa aos prantos. Maria ficou preocupada e foi logo vê-la.— O que foi, Deise?— Minha barriga dói muito, mãe!— O que houve?— Eu tomei uma bolada na aula.Mar
Na aula de educação física, o professor surpreendeu a todos informando que haveria uma disputa entre primeiro e segundo anos para definir um time que representaria a escola em competições externas. A modalidade seria o futebol e naquele dia competiriam as meninas. Por terem poucas meninas no primeiro ano, os times deveriam ter seis integrantes cada. O primeiro ano foi formado por Deise, Renata, Thaizza, Aline, Viviana e Patrícia. O segundo ano seria formado por Jéssica,Suzana, Helena, Julia, Maria Antônia e Eliza.Thaizza foi escolhida a capitã do primeiro ano e Jéssica a capitã do segundo ano. Ambas não se suportavam e frequentemente se esbarravam nas matinês paulistanas. Tiraram cara ou coroa para escolher o lado da quadra. Jéssica ganhou e deixou Thaizza escolher o lado, ficando então com a posse da bola. O primeiro ano combinou que Patrícia ficaria no gol, por ser mais robusta e mais alta que as demais. Deise estava animada pois já tinha participado de um campeonato de futebol em
Na manhã seguinte, Deise evitou a todo custo sair cedo de seu quarto. Queria evitar encontrar André, pois tinha certeza de que ouviria um sermão. Nunca mais ela ficaria acordada até tarde assistindo televisão na sala.Era um sábado nublado e Deise deveria ir a Santo Amaro acertar as contas de suas vendas de produtos de catálogos. Foi seu pior rendimento até o momento e a menina estava completamente desanimada e sem saber como conseguir novos clientes. Decidiu que desistiria desse empreendimento visto que também não sabia lidar com a inadimplência de suas clientes. Retornando ao seu lar, encontrou algumas crianças brincando no corredor de seu andar. Sandra pediu para brincar com Deise. Ela apenas respondeu que não tinha vontade de brincar. Contudo, Sandra praticamente implorou. Deise não sabia dizer não para as pessoas. Cedeu. Deixou umas três crianças entrarem em sua casa e ligou o rádio para que fizessem um concurso de dança. Ligados na Jovem Pan, dançaram ao som de Livin La Vida Loc
A primeira vez que Deise viu Leonardo após fazer aquele telefonema foi na aula de educação física. A jovem não tinha coragem de encará-lo mesmo sem ter certeza de que era com ele com quem tinha falado. Deise estava completamente aérea e não escutava nada ao seu redor.— Deise! — Thaizza gritou pela terceira vez.— Oi! — Toma conta da minha bolsa que eu vou no banheiro. — Está bem! — A jovem respondeu irritada.Deise observou Thaizza se afastar da área da quadra até que seguisse pelo corredor que levava aos vestiários. Uma preocupação repentina veio à mente da menina. Levantou rapidamente e foi atrás da amiga. No final do corredor ficava o vestiário feminino e um pouco antes o vestiário masculino. Na porta do vestiário masculino, Deise encontrou Arthur saindo de lá. O adolescente estava curvado, com as duas mãos na barriga. Ele nem percebeu a presença de Deise e caiu de joelhos ao chão, vomitando bastante.Deise ficou enojada com a cena, mas ficou sentida pelo menino. Colocou sua mão







