Compartilhar

Capítulo 2

Autor: DANI VENCES
last update Data de publicação: 2026-02-27 00:34:27

RENATA 

Fui para o quarto dela, ainda de pijama, e abri a porta devagar. Lá estava minha menina, dormindo como um anjinho, os cachinhos castanhos espalhados no travesseiro. Ela parecia tão em paz que quase senti pena de acordá-la. Quase.

— Ei, pequena, hora de levantar! A creche te espera — falei, sacudindo-a de leve, tentando soar animada.

Lara abriu um olho, me olhou como se eu fosse o inimigo número um, e soltou um gemido dramático.

— Não vou pra creche hoje — declarou, puxando o cobertor por cima da cabeça.

Pisquei, confusa.

— Como assim "não vou"? Claro que vai, mocinha. Levanta daí antes que eu te arraste pelo pé — retruquei, rindo, mas já sentindo um frio na espinha. Criança tem radar pra jogar bomba na nossa vida na pior hora possível.

Ela enfiou o rosto no travesseiro e murmurou algo que soou como “não tem aula”. Franzi a testa e puxei o cobertor dela.

— Lara, fala direito. Por que não tem aula? — tentei manter o tom leve, mas meu coração já acelerava.

— A tia disse que vão quebrar tudo lá. Não lembro — resmungou, claramente querendo voltar a dormir.

"Quebrar tudo?" Meu estômago deu um nó. Corri para o quarto, peguei meu celular na mesinha e fui direto pra cozinha, onde Helena estava fazendo café. Minha melhor amiga — e salvadora oficial da minha sanidade — parecia calma demais pro meu gosto.

— Helena, que história é essa da creche? A Lara tá dizendo que não tem aula, e eu achando que era só preguiça dela — falei, já abrindo as mensagens no celular.

Helena virou pra mim, soprando o café na caneca com uma tranquilidade irritante.

— Eu te mandei mensagem ontem à noite, Renata. Um cano estourou na creche, alagou tudo. Eles avisaram que hoje e amanhã vai ficar fechado — disse, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Revirei as mensagens, o pânico subindo. Nada.

— Helena, eu não recebi nenhuma mensagem! — reclamei, mostrando a tela pra ela como prova.

Ela deu de ombros, pegando o celular dela pra conferir.

— Olha aqui, mandei às 20h. “Creche fechada amanhã, cano estourou.” Tá enviado. Seu celular que tá de palhaçada — disse, jogando a culpa no meu aparelho velho.

Soltei um gemido, esfregando o rosto.

— Meu Deus, Helena, por que você não me ligou? Cheguei morta ontem, nem olhei o celular direito! — Minha voz saiu meio desesperada, mas tentei rir pra não surtar de vez. — Tá, tudo bem, você pode ficar com ela hoje, né? Salvar uma amiga aqui, como sempre.

Helena fez uma cara de quem queria dizer “não” sem magoar.

— Renata, eu adoraria, mas hoje não dá. Meu trabalho está presencial, tenho reunião o dia todo. O José também tá fora, então tô sozinha na missão — explicou, com aquele tom de desculpa que conheço bem.

Congelei, o cérebro girando em câmera lenta. Sem creche. Sem Helena. Sem opção. Olhei pra ela, rindo de nervoso.

— Beleza, então minha vida acabou. Vou levar a Lara pro trabalho e torcer pra não virar ex-funcionária antes do meio-dia. Marcelo vai me demitir com pompa e circunstância — falei, já imaginando ele gritando “sua vida não existe aqui” enquanto aponta pra porta.

Helena riu, tentando me animar.

— Vai dar certo, Renata. Esconde ela direitinho e reza pra ele nem perceber.

— Rezar? Eu vou precisar de um milagre, isso sim — retruquei, saindo pra arrumar a Lara antes que o pânico me engolisse de vez.

Voltei pro quarto dela, onde minha pequena ainda lutava contra o dia.

— Tá bem, mocinha, você venceu. Nada de creche. Mas você vai comigo pro trabalho, então levanta daí e se arruma rápido — falei, puxando ela da cama com um sorriso forçado.

Lara me olhou, desconfiada.

— Pro seu trabalho? Com o chefe malvado? — disse, os olhos arregalados.

Ri, mesmo com o coração apertado. Havíamos apelidado ele assim porque Lara precisava entender por que a mãe nunca estava. E ela decidiu que meu chefe era o vilão. Entre ela achar que sou uma mãe ruim ou ter um chefe ruim, decidi ficar com a segunda opção.

— Isso mesmo, o chefe malvado. Mas escute aqui, Lara — me abaixei para ficar na altura dela, segurando seus ombrinhos com carinho. — Você tem que se comportar, tá? Fica quietinha, não mexe em nada, não faz barulho. Se o Marcelo descobrir você lá, ele me demite na hora, e aí a gente vai morar debaixo da ponte. Entendeu?

Ela assentiu, meio séria, meio achando graça.

— Tá, mamãe. Eu fico boazinha.

— É o que eu espero, pequena — falei, dando um beijo na testa dela enquanto tentava não surtar. Renata, você é uma sobrevivente. Se sobreviveu cinco anos com o carrasco, sobrevive a um dia com a Lara no escritório. Ou não.

Peguei a mochilinha dela, joguei alguns brinquedos e um lanche dentro, e me preparei para o pior.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Quebrando o coração de gelo do CEO   Capítulo 117

    Leornado Um ano depoisO escritório da loja de luxo no térreo do shopping era pequeno, mas impecável, exatamente como eu gostava. As paredes em tom de cinza-escuro absorviam a luz suave dos spots embutidos, e a mesa de mogno polido refletia o brilho discreto da luminária. A nova secretária, Aline, organizava a agenda da semana com a precisão meticulosa que Anna outrora aplicava ao mesmo trabalho. Eu estava sentado à cadeira de couro, olhando fixamente para a aliança de platina que repousava dentro da caixinha de veludo aberta. A pedra central, um diamante solitário de corte brilhante, capturava a luz em reflexos frios e perfeitos.— O que acha dela? — perguntei, girando a caixa na direção de Aline com um movimento lento.Ela se inclinou sobre a mesa, os olhos se iluminando ao examinar a peça.— Linda, senhor Voss. Elegante, discreta, mas com presença marcante. A pedra principal é perfeita. Sua namorada vai adorar, tenho certeza.Eu s

  • Quebrando o coração de gelo do CEO   Capítulo 116

    Anna O ronco do motor ainda ecoava nos meus ouvidos quando o carro preto surgiu no corredor do estacionamento subterrâneo. Tudo aconteceu em frações de segundo, mas, para mim, o tempo se esticou como borracha; cada detalhe gravado com uma clareza dolorosa. Vi o veículo acelerar em nossa direção, os faróis cortando a penumbra como lâminas. Vi Leornado virar o rosto na direção do perigo, os olhos se arregalando em compreensão instantânea. Senti o empurrão forte que ele me deu, as mãos firmes nas minhas costas me lançando entre dois carros estacionados. Ouvi o impacto seco do metal contra a carne, um som abafado e definitivo que reverberou pelo concreto frio. Depois, o silêncio. Um silêncio horrível, interrompido apenas pelos meus próprios gritos que rasgavam a garganta.— Ambulância! — gritei, com a voz rouca e desesperada. — Chamem uma ambulância, pelo amor de Deus!O carro freou bruscamente a poucos metros dali, os pneus chiando contra o piso.

  • Quebrando o coração de gelo do CEO   Capítulo 115

    Leornado Cheguei ao escritório antes das sete, A mesa de Anna estava vazia, notebook devolvido, gavetas limpas, apenas uma xícara térmica esquecida no canto. Peguei-a. Ainda tinha o cheiro dela. Eu precisava falar com ela, hoje. Antes que fosse tarde.Mas primeiro, Geovana. Liguei para ela às 8h15. Ela atendeu no primeiro toque.— Leornado, não esperava ouvir você tão cedo.— Hoje. 11h. Meu escritório. Venha sozinha.Ela riu baixo.— Você está me convocando?— Estou te dando uma chance de sair dessa com alguma dignidade. Venha.Ela chegou às 11h em ponto. Vestia um conjunto preto elegante, sorriso confiante. Entrei direto ao ponto assim que ela se sentou.— Eu sei tudo, Geovana. A blindagem patrimonial do seu pai. As contas offshore. A movimentação de ativos para empresas de fachada. A investigação que está se aproximando. E agora você usa o pai de Marcelo, como moeda de troca para forçar um

  • Quebrando o coração de gelo do CEO   Capítulo 114

    Leornado Cheguei em casa por volta das 23h40, o corpo exausto, a mente ainda em chamas. O elevador subiu em silêncio absoluto e, quando as portas se abriram, o apartamento me recebeu como um espaço vazio e gelado. As luzes da sala estavam acesas em intensidade baixa. Caminhei até o quarto de Sofia. Ela dormia profundamente, o rostinho sereno, o coelhinho de pelúcia apertado contra o peito. Parei na soleira por longos minutos, observando o movimento ritmado da respiração infantil. Alheia ao caos que a rondava, ela tem sentido falta da Anna. Eu tenho sentido falta dela, esses últimos meses têm sido uma tempestade; perder Elisa foi como reviver tudo de novo. Olhei para Sofia; eu não queria que ela perdesse mais, não queria que ela tivesse que lidar com ausências e perdas, nunca mais. E, mesmo assim, eu afastei a pessoa que ela amava, apenas para proteger um legado que eu mesmo odeio. Apertei o batente da porta com força. Sentei-me na poltro

  • Quebrando o coração de gelo do CEO   Capitulo 113

    AnnaEu não respondi. Não precisava, meu corpo já estava respondendo por mim: o coração disparado, a pele arrepiada, o calor se acumulando entre as coxas. Eu queria odiá-lo por isso. Queria empurrá-lo, gritar que ele não tinha direito. Mas quando ele deu o último passo, eliminando o espaço entre nós, eu não me mexi.Ele segurou meu rosto com as duas mãos, os polegares traçando a linha do meu maxilar com uma lentidão torturante. Seus olhos desceram para meus lábios, depois subiram de novo, como se estivesse pedindo permissão que ele sabia que eu não ia negar.O beijo começou devagar, quase dolorosamente lento. Um toque leve de lábios que testava limites, que perguntava se ainda era permi

  • Quebrando o coração de gelo do CEO   Capítulo 112

    AnnaA noite após a ligação de Leornado foi longa, fiquei acordada até tarde, olhando para o teto do meu apartamento, o celular ao lado do travesseiro. Ele havia dito apenas: “Precisamos conversar. Sobre Geovana. Amanhã, após o expediente. Pode ficar até tarde?”. Eu respondi “Sim” e desliguei antes que ele pudesse dizer mais. Não queria ouvir a voz dele mais do que o necessário., não queria dar espaço para a esperança idiota que ainda insistia em pulsar no meu peito.No dia seguinte, o escritório seguiu o ritual de sempre: café na temperatura certa, agenda atualizada, relatórios impressos, silêncio cortante. Ele tentou falar comigo duas vezes, perguntas banais sobre documentos, mas eu respondi com a precis&at

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status