FAZER LOGINRenata
Saí de casa com a Lara de mãos dadas, a mochilinha dela balançando nas costas como se fosse uma aventura épica. Para ela, talvez fosse. Para mim, era mais um episódio de "Como Sobreviver ao Meu Chefe com Uma Criança a Tiracolo". O trânsito de São Paulo — porque, claro, tinha que ser São Paulo, uma cidade que engole e cospe você só para rir da sua cara — não ajudou. Chegamos à Almeida Construções às 7h50, com exatos dez minutos para transformar minha filha em um ninja silencioso antes que Marcelo Almeida aparecesse.— Lembra do combinado, pequena — sussurrei enquanto subíamos no elevador, segurando firme sua mão. — Você fica quietinha, não mexe em nada e, pelo amor de Deus, não chama o Marcelo de “chefe malvado” na frente dele. Se ele te pega, eu viro ex-secretária, e a gente vai vender brigadeiro na rua para sobreviver.
Lara riu, os olhos brilhando de travessura.
— Tá, mamãe. Eu sou ninja, ó — disse ela, fazendo um movimento exagerado com os braços que quase derrubou a mochila.
— Ninja silencioso, Lara. Silenciosa — corrigi, tentando não rir enquanto o elevador abria no nosso andar.
O escritório ainda estava vazio, graças ao universo que me deu essa pequena trégua. Duda não chega antes das 8h, e Marcelo Almeida é pontual como um relógio suíço — às 8h em ponto, nem um minuto antes ou depois. Corri para minha mesa, arrastando a Lara comigo, e apontei para a sala de arquivos ao lado do escritório dele.
— Tá vendo ali? É o seu esconderijo. Tem uma mesinha no canto. Você vai ficar lá desenhando e brincando com o tablet. Silêncio absoluto, entendeu? — falei, tirando o tablet e uns lápis de cor da mochila.
— E se eu precisar fazer xixi? — perguntou, me olhando com aquela carinha de quem já está arquitetando a próxima traquinagem.
Suspirei, esfregando a testa.
— Você me chama bem baixinho, e eu te levo ao banheiro como se fosse uma missão secreta, tá? Mas segura o máximo que puder, por favor.
Ela assentiu, toda séria, e marchou para a sala de arquivos como se fosse uma agente em missão.
Corri para minha mesa, liguei o computador e comecei a encadernar o relatório da Avenida Paulista. O plano era simples: entregar o relatório às 8h, fingir que estava tudo normal e torcer para Lara não acabar com a minha carreira antes do almoço.
Às 8h em ponto, ouvi o barulho do elevador. Meu coração deu um salto. Era ele. Marcelo Almeida entrou no andar com aquele passo firme, o terno impecável e a cara de quem já acordou decidido a arruinar o dia de alguém. Passou pela minha mesa sem um “bom dia” — padrão dele — e disse apenas:
— O relatório está pronto?
— Sim, senhor — respondi, levantando rápido e entregando o maço de papéis encadernados com um sorriso de funcionária perfeita.
Ele pegou o relatório, folheou rapidamente e assentiu, presumindo que tudo estava certo, como sempre.
— Quero os contratos da obra da Marginal revisados até o meio-dia. E avisa o jurídico que a reunião das 14h está confirmada — disse, entrando em sua sala e fechando a porta.
— Sim, senhor — murmurei, caindo de volta na cadeira com um suspiro. Primeira missão cumprida. Agora era só sobreviver ao resto do dia com uma criança de cinco anos escondida a três metros do carrasco. Moleza.
Fui até a sala de arquivos dar uma espiada. Abri a porta devagar e lá estava ela, desenhando no tablet com os fones de ouvido. Me viu e exibiu o desenho: uma casinha torta com um sol gigante.
— Tá bonito, mamãe? — sussurrou, pelo menos tentando obedecer às regras.
— Lindo, pequena. Continua assim, ninja silenciosa — respondi, piscando antes de fechar a porta.
Voltei para a minha mesa, rindo sozinha. Renata, você é uma gênia do improviso. Se Marcelo Almeida não te demitir hoje, você merece um Oscar. Mas, no fundo, eu sabia: era só uma questão de tempo até minha sorte acabar. Crianças e chefes malvados não combinam. E eu estava apostando alto num milagre.
Leornado Um ano depoisO escritório da loja de luxo no térreo do shopping era pequeno, mas impecável, exatamente como eu gostava. As paredes em tom de cinza-escuro absorviam a luz suave dos spots embutidos, e a mesa de mogno polido refletia o brilho discreto da luminária. A nova secretária, Aline, organizava a agenda da semana com a precisão meticulosa que Anna outrora aplicava ao mesmo trabalho. Eu estava sentado à cadeira de couro, olhando fixamente para a aliança de platina que repousava dentro da caixinha de veludo aberta. A pedra central, um diamante solitário de corte brilhante, capturava a luz em reflexos frios e perfeitos.— O que acha dela? — perguntei, girando a caixa na direção de Aline com um movimento lento.Ela se inclinou sobre a mesa, os olhos se iluminando ao examinar a peça.— Linda, senhor Voss. Elegante, discreta, mas com presença marcante. A pedra principal é perfeita. Sua namorada vai adorar, tenho certeza.Eu s
Anna O ronco do motor ainda ecoava nos meus ouvidos quando o carro preto surgiu no corredor do estacionamento subterrâneo. Tudo aconteceu em frações de segundo, mas, para mim, o tempo se esticou como borracha; cada detalhe gravado com uma clareza dolorosa. Vi o veículo acelerar em nossa direção, os faróis cortando a penumbra como lâminas. Vi Leornado virar o rosto na direção do perigo, os olhos se arregalando em compreensão instantânea. Senti o empurrão forte que ele me deu, as mãos firmes nas minhas costas me lançando entre dois carros estacionados. Ouvi o impacto seco do metal contra a carne, um som abafado e definitivo que reverberou pelo concreto frio. Depois, o silêncio. Um silêncio horrível, interrompido apenas pelos meus próprios gritos que rasgavam a garganta.— Ambulância! — gritei, com a voz rouca e desesperada. — Chamem uma ambulância, pelo amor de Deus!O carro freou bruscamente a poucos metros dali, os pneus chiando contra o piso.
Leornado Cheguei ao escritório antes das sete, A mesa de Anna estava vazia, notebook devolvido, gavetas limpas, apenas uma xícara térmica esquecida no canto. Peguei-a. Ainda tinha o cheiro dela. Eu precisava falar com ela, hoje. Antes que fosse tarde.Mas primeiro, Geovana. Liguei para ela às 8h15. Ela atendeu no primeiro toque.— Leornado, não esperava ouvir você tão cedo.— Hoje. 11h. Meu escritório. Venha sozinha.Ela riu baixo.— Você está me convocando?— Estou te dando uma chance de sair dessa com alguma dignidade. Venha.Ela chegou às 11h em ponto. Vestia um conjunto preto elegante, sorriso confiante. Entrei direto ao ponto assim que ela se sentou.— Eu sei tudo, Geovana. A blindagem patrimonial do seu pai. As contas offshore. A movimentação de ativos para empresas de fachada. A investigação que está se aproximando. E agora você usa o pai de Marcelo, como moeda de troca para forçar um
Leornado Cheguei em casa por volta das 23h40, o corpo exausto, a mente ainda em chamas. O elevador subiu em silêncio absoluto e, quando as portas se abriram, o apartamento me recebeu como um espaço vazio e gelado. As luzes da sala estavam acesas em intensidade baixa. Caminhei até o quarto de Sofia. Ela dormia profundamente, o rostinho sereno, o coelhinho de pelúcia apertado contra o peito. Parei na soleira por longos minutos, observando o movimento ritmado da respiração infantil. Alheia ao caos que a rondava, ela tem sentido falta da Anna. Eu tenho sentido falta dela, esses últimos meses têm sido uma tempestade; perder Elisa foi como reviver tudo de novo. Olhei para Sofia; eu não queria que ela perdesse mais, não queria que ela tivesse que lidar com ausências e perdas, nunca mais. E, mesmo assim, eu afastei a pessoa que ela amava, apenas para proteger um legado que eu mesmo odeio. Apertei o batente da porta com força. Sentei-me na poltro
AnnaEu não respondi. Não precisava, meu corpo já estava respondendo por mim: o coração disparado, a pele arrepiada, o calor se acumulando entre as coxas. Eu queria odiá-lo por isso. Queria empurrá-lo, gritar que ele não tinha direito. Mas quando ele deu o último passo, eliminando o espaço entre nós, eu não me mexi.Ele segurou meu rosto com as duas mãos, os polegares traçando a linha do meu maxilar com uma lentidão torturante. Seus olhos desceram para meus lábios, depois subiram de novo, como se estivesse pedindo permissão que ele sabia que eu não ia negar.O beijo começou devagar, quase dolorosamente lento. Um toque leve de lábios que testava limites, que perguntava se ainda era permi
AnnaA noite após a ligação de Leornado foi longa, fiquei acordada até tarde, olhando para o teto do meu apartamento, o celular ao lado do travesseiro. Ele havia dito apenas: “Precisamos conversar. Sobre Geovana. Amanhã, após o expediente. Pode ficar até tarde?”. Eu respondi “Sim” e desliguei antes que ele pudesse dizer mais. Não queria ouvir a voz dele mais do que o necessário., não queria dar espaço para a esperança idiota que ainda insistia em pulsar no meu peito.No dia seguinte, o escritório seguiu o ritual de sempre: café na temperatura certa, agenda atualizada, relatórios impressos, silêncio cortante. Ele tentou falar comigo duas vezes, perguntas banais sobre documentos, mas eu respondi com a precis&at







