FAZER LOGINRenata
As horas passaram como um milagre disfarçado de rotina. Eu revisava os contratos da obra da Marginal, respondia e-mails, e fingia que minha vida não estava suspensa por um fio chamado Lara. A cada vinte minutos, eu dava uma espiada na sala de arquivos, e lá estava ela: minha ninja silenciosa, desenhando no tablete ou mordiscando um biscoito da mochila. Eu quase comecei a acreditar que ia dar certo — Renata Albuquerque, a rainha do malabarismo, enganando o carrasco Marcelo Almeida com uma criança de cinco anos no bolso.
Por volta das 11h30, o tornado de terno caro saiu do escritório dele com aquele ar de quem está sempre atrasado para dominar o mundo.
— Tenho uma reunião na Paulista. Volto às 13h30. Quero os contratos prontos na minha mesa — ele disse, olhando para mim enquanto jogava o paletó por cima do ombro e marchava para o elevador.
— Sim, senhor — respondi, com meu sorriso de secretária robô, esperando que ele desaparecesse para que minhas costas pudessem relaxar.
Assim que o elevador fechou, soltei um “ufa” baixinho e corri para a sala de arquivos.
— Lara, hora do almoço, pequena! O chefe malvado saiu, a gente ganhou um intervalo — chamei, abrindo a porta com um alívio que quase me fez dançar.
Ela levantou os olhos do tablet, o rosto iluminado.
— Posso sair agora, mamãe? — disse, já pulando da cadeira como se tivesse esperado a vida toda por isso.
— Pode, mas só aqui dentro, tá? Vamos comer na minha mesa — falei, pegando o lanche que eu tinha improvisado de manhã: pão com requeijão, uma maçã e um suco de caixinha. Nada gourmet, mas para Lara era um banquete.
Sentamo-nos juntas na minha cadeira — eu no assento, ela no meu colo —, e por meia hora o escritório virou nosso mundinho. Ela me mostrou os desenhos que fez: uma casa, um sol gigante e um bonequinho careca que ela jurou ser o Marcelo.
— Ele não tem cabelo? — perguntei, rindo enquanto dava uma mordida no pão.
— Não sei, ele é muito bravo pra ter cabelo — respondeu, séria, e eu quase engasguei de tanto rir.
— Você é um gênio, pequena. Mas não conta isso pra ele, hein? — falei, bagunçando os cachinhos dela.
Aquele momento foi um respiro. Tudo parecia estar correndo bem — os contratos estavam quase prontos, o Marcelo estava fora, e a Lara, segura. Eu até me permiti sonhar com o fim do dia, levando ela para casa e caindo na cama com a sensação de missão cumprida. Renata, você é uma lenda, pensei, me dando tapinhas mentais nas costas.
Quando o relógio bateu 13h25, arrumei a Lara de volta na sala de arquivos.
— Tá quase acabando, pequena. O chefe volta logo, então você fica aqui quietinha de novo, tá? — falei, entregando o tablet e um último biscoito para mantê-la ocupada.
— Tá, mamãe. Eu sou ninja — ela disse, fazendo aquele movimento exagerado com os braços de novo.
— Ninja perfeita — respondi, piscando para ela antes de fechar a porta e voltar para minha mesa.
Marcelo chegou às 13h30 em ponto, como um relógio suíço. Não sei se outra pessoa consegue ser tão pontual quanto ele. Passou por mim com o mesmo “contratos prontos?” de sempre, e eu entreguei o maço revisado com meu “sim, senhor” ensaiado. Ele entrou no escritório dele, fechou a porta, e o silêncio voltou a reinar. Eu respirei aLarada. Falta pouco, Renata. Só mais umas horas e você está livre.
Por volta das 13h50, resolvi dar outra espiada na Lara. Levantei da cadeira, abri a porta da sala de arquivos com cuidado, e… nada. O tablet estava jogado na mesinha, os lápis de cor espalhados, mas a Lara? Sumida. Meu coração parou por uns três segundos antes de disparar como se eu tivesse corrido uma maratona.
— Lara? — chamei, baixinho, olhando para trás das estantes como se ela pudesse estar brincando de esconderijo. Nada.
Olhei para o corredor, para o banheiro, até debaixo da minha própria mesa — quem sabe, né? — mas minha ninja silenciosa tinha virado ninja desaparecida. Então meus olhos pararam na porta do escritório do Marcelo. Um calafrio subiu pela minha espinha. Não. Ela não teria... teria?
Renata, sua vida é uma comédia de terror.
Leornado Um ano depoisO escritório da loja de luxo no térreo do shopping era pequeno, mas impecável, exatamente como eu gostava. As paredes em tom de cinza-escuro absorviam a luz suave dos spots embutidos, e a mesa de mogno polido refletia o brilho discreto da luminária. A nova secretária, Aline, organizava a agenda da semana com a precisão meticulosa que Anna outrora aplicava ao mesmo trabalho. Eu estava sentado à cadeira de couro, olhando fixamente para a aliança de platina que repousava dentro da caixinha de veludo aberta. A pedra central, um diamante solitário de corte brilhante, capturava a luz em reflexos frios e perfeitos.— O que acha dela? — perguntei, girando a caixa na direção de Aline com um movimento lento.Ela se inclinou sobre a mesa, os olhos se iluminando ao examinar a peça.— Linda, senhor Voss. Elegante, discreta, mas com presença marcante. A pedra principal é perfeita. Sua namorada vai adorar, tenho certeza.Eu s
Anna O ronco do motor ainda ecoava nos meus ouvidos quando o carro preto surgiu no corredor do estacionamento subterrâneo. Tudo aconteceu em frações de segundo, mas, para mim, o tempo se esticou como borracha; cada detalhe gravado com uma clareza dolorosa. Vi o veículo acelerar em nossa direção, os faróis cortando a penumbra como lâminas. Vi Leornado virar o rosto na direção do perigo, os olhos se arregalando em compreensão instantânea. Senti o empurrão forte que ele me deu, as mãos firmes nas minhas costas me lançando entre dois carros estacionados. Ouvi o impacto seco do metal contra a carne, um som abafado e definitivo que reverberou pelo concreto frio. Depois, o silêncio. Um silêncio horrível, interrompido apenas pelos meus próprios gritos que rasgavam a garganta.— Ambulância! — gritei, com a voz rouca e desesperada. — Chamem uma ambulância, pelo amor de Deus!O carro freou bruscamente a poucos metros dali, os pneus chiando contra o piso.
Leornado Cheguei ao escritório antes das sete, A mesa de Anna estava vazia, notebook devolvido, gavetas limpas, apenas uma xícara térmica esquecida no canto. Peguei-a. Ainda tinha o cheiro dela. Eu precisava falar com ela, hoje. Antes que fosse tarde.Mas primeiro, Geovana. Liguei para ela às 8h15. Ela atendeu no primeiro toque.— Leornado, não esperava ouvir você tão cedo.— Hoje. 11h. Meu escritório. Venha sozinha.Ela riu baixo.— Você está me convocando?— Estou te dando uma chance de sair dessa com alguma dignidade. Venha.Ela chegou às 11h em ponto. Vestia um conjunto preto elegante, sorriso confiante. Entrei direto ao ponto assim que ela se sentou.— Eu sei tudo, Geovana. A blindagem patrimonial do seu pai. As contas offshore. A movimentação de ativos para empresas de fachada. A investigação que está se aproximando. E agora você usa o pai de Marcelo, como moeda de troca para forçar um
Leornado Cheguei em casa por volta das 23h40, o corpo exausto, a mente ainda em chamas. O elevador subiu em silêncio absoluto e, quando as portas se abriram, o apartamento me recebeu como um espaço vazio e gelado. As luzes da sala estavam acesas em intensidade baixa. Caminhei até o quarto de Sofia. Ela dormia profundamente, o rostinho sereno, o coelhinho de pelúcia apertado contra o peito. Parei na soleira por longos minutos, observando o movimento ritmado da respiração infantil. Alheia ao caos que a rondava, ela tem sentido falta da Anna. Eu tenho sentido falta dela, esses últimos meses têm sido uma tempestade; perder Elisa foi como reviver tudo de novo. Olhei para Sofia; eu não queria que ela perdesse mais, não queria que ela tivesse que lidar com ausências e perdas, nunca mais. E, mesmo assim, eu afastei a pessoa que ela amava, apenas para proteger um legado que eu mesmo odeio. Apertei o batente da porta com força. Sentei-me na poltro
AnnaEu não respondi. Não precisava, meu corpo já estava respondendo por mim: o coração disparado, a pele arrepiada, o calor se acumulando entre as coxas. Eu queria odiá-lo por isso. Queria empurrá-lo, gritar que ele não tinha direito. Mas quando ele deu o último passo, eliminando o espaço entre nós, eu não me mexi.Ele segurou meu rosto com as duas mãos, os polegares traçando a linha do meu maxilar com uma lentidão torturante. Seus olhos desceram para meus lábios, depois subiram de novo, como se estivesse pedindo permissão que ele sabia que eu não ia negar.O beijo começou devagar, quase dolorosamente lento. Um toque leve de lábios que testava limites, que perguntava se ainda era permi
AnnaA noite após a ligação de Leornado foi longa, fiquei acordada até tarde, olhando para o teto do meu apartamento, o celular ao lado do travesseiro. Ele havia dito apenas: “Precisamos conversar. Sobre Geovana. Amanhã, após o expediente. Pode ficar até tarde?”. Eu respondi “Sim” e desliguei antes que ele pudesse dizer mais. Não queria ouvir a voz dele mais do que o necessário., não queria dar espaço para a esperança idiota que ainda insistia em pulsar no meu peito.No dia seguinte, o escritório seguiu o ritual de sempre: café na temperatura certa, agenda atualizada, relatórios impressos, silêncio cortante. Ele tentou falar comigo duas vezes, perguntas banais sobre documentos, mas eu respondi com a precis&at







