LOGINDonatella Eu não dormi naquela noite.Como poderia?Toda vez que fechava os olhos, via Raphael segurando Dante pela camisa. Via o ódio nos olhos dos dois. O ciúme. A mágoa. Aquela linha fina que separava irmãos de inimigos ficando cada vez mais frágil.E, no meio deles, estava eu.Deitada naquela cama enorme, mantive uma mão sobre o ventre enquanto observava as sombras no teto.Meu filho ainda era tão pequeno.Tão inocente.E já carregava o peso do sobrenome Moretti antes mesmo de nascer.— Me desculpa — sussurrei.Não sabia exatamente pelo quê.Talvez por ter escolhido um homem como Raphael para amar.Talvez por não conseguir deixar de amá-lo.Ou talvez porque, pela primeira vez, eu estivesse realmente com medo do mundo em que meu filho nasceria.Levantei devagar.A casa estava silenciosa, embora eu soubesse que havia homens armados em cada corredor. A Cosa Nostra tinha um jeito estranho de transformar proteção em prisão.Saí do quarto.Precisava de ar.Mas quando cheguei à cozinha,
Raphael Existem limites que não precisam ser ditos.Entre irmãos, principalmente.Dante conhecia os meus.Naquela noite, escolheu atravessá-los.Depois do ataque ao apartamento, transferimos Donatella para uma propriedade protegida nos arredores do Rio. Muros altos, câmeras, homens armados em cada entrada. Lorenzo havia verificado tudo duas vezes.Ainda assim, eu não conseguia relaxar.Alexandra estava solta.E uma mulher como ela não precisava entrar pela porta para destruir uma família.Bastava encontrar a rachadura certa.A minha tinha nome.Donatella.Passei horas reunido com Lorenzo, analisando os possíveis responsáveis pelos disparos. Quando finalmente saí do escritório, já passava da meia-noite.Eu só queria vê-la.Talvez fosse ridículo.Eu comandava homens capazes de fechar portos, comprar silêncio e transformar uma ordem minha em sentença.Mas naquela noite, depois de ouvir Donatella admitir que ainda me amava, eu precisava simplesmente olhar para ela.Precisava saber que es
Donatella O vidro explodiu antes que eu entendesse o que estava acontecendo.Raphael me puxou para o chão e cobriu meu corpo com o dele. Tudo aconteceu rápido demais: gritos no corredor, passos correndo, homens falando em italiano, o som seco de armas sendo preparadas.Mas eu só conseguia ouvir meu coração.E a respiração de Raphael contra meu ouvido.— Não se mexa.A voz dele não permitia discussão.Uma de suas mãos protegia minha cabeça; a outra segurava a arma.Meu rosto estava contra seu peito.E aquilo era quase cruel.Porque, mesmo cercada pelo perigo, meu corpo reconhecia aquele lugar.O cheiro dele.O calor.A segurança dos braços que haviam sido também responsáveis por uma das maiores dores que eu já senti.— Raphael...— Estou aqui.Fechei os olhos.Era justamente esse o problema.Agora ele estava.Quando eu precisei, não estava.Lorenzo entrou acompanhado por dois homens.— Don Raphael, precisamos tirá-los daqui.Raphael levantou primeiro e me puxou consigo.— Quem disparo
Raphael Na Cosa Nostra, informação valia mais do que munição.Uma bala podia matar um homem.Uma informação colocada no ouvido certo podia destruir uma família inteira.E Alexandra sabia disso.Eu estava no escritório improvisado da casa que havíamos alugado no Rio quando Lorenzo entrou sem bater. Não reclamei. O rosto dele dizia que não havia tempo para formalidades.Do lado de fora, uma tempestade castigava a cidade. A chuva batia contra as janelas, e relâmpagos iluminavam por segundos os documentos espalhados sobre minha mesa.— Encontramos alguma coisa — Lorenzo anunciou.Afastei o copo de uísque.— Sobre Alexandra?Ele fechou a porta antes de responder.Esse gesto foi suficiente para colocar todos os meus sentidos em alerta.— Sobre Donatella.Meu corpo enrijeceu.— Explique.Lorenzo colocou um envelope sobre a mesa.Dentro havia fotografias.Donatella saindo do hospital.Dante ao lado dela.Outra mostrava meu irmão segurando seu braço.Outra, os dois entrando no prédio onde ela
Donatella O peso não é apenas físico. Às vezes, sento-me à beira da cama, observando o reflexo da minha barriga no espelho, e sinto como se estivesse carregando o peso de um mundo que nunca pedi para habitar. Cada mudança no meu corpo, cada pequeno chute que sinto lá dentro, ecoa como um lembrete do que está em jogo. Não estou apenas carregando um bebê; estou carregando um alvo. A gravidez, que deveria ser o momento mais puro da minha vida, tornou-se o epicentro de um terremoto.A luxúria que antes me envolvia no apartamento de Raphael, aquela aura de poder e perigo que eu achava excitante, agora cheira a medo. A porta blindada, os seguranças no corredor, o silêncio excessivo, tudo o que antes era sinônimo de proteção, hoje soa como uma cela dourada.Ouvi Raphael conversando com Dante no escritório mais cedo. Não precisei entender todas as palavras, mas o tom… aquele tom de voz dele, gélido, cortante como uma lâmina, dizia tudo. Eles não estão discutindo negócios comuns. Estão discu
Raphael O escritório estava mergulhado naquela penumbra que sempre me pareceu o espelho da minha própria alma. O relógio na parede tiquetaqueava com uma insistência que irritava, lembrando-me de que o tempo, para homens como eu, nunca era um aliado; era apenas uma corda que se apertava gradualmente ao redor do pescoço. Eu estava sentado na minha cadeira de couro, com um copo de uísque que eu não havia tocado. O líquido âmbar apenas refletia a luz do abajur, um brilho dourado sobre um abismo que eu preferia não encarar.Dante. O nome martelava na minha mente como um disparo solitário no silêncio da noite.Meu irmão. O sangue que corria nas veias dele era o mesmo que corria nas minhas, uma herança de poder, de violência, de um legado que nenhum de nós pediu, mas que fomos obrigados a carregar. Sempre houve uma linha tênue entre a lealdade que devo a ele e a necessidade premente de sobreviver. Mas, nos últimos dias, essa linha tornou-se não apenas tênue, mas perigosamente invisível.Dan







