LOGINO silêncio que se seguiu ao rosnado foi pesado, cortante, quase palpável. A criatura colossal de pelagem escura estava a poucos metros de mim, bloqueando o único caminho viável na ravina lamacenta. Meus pulmões queimavam pelo esforço da fuga e pelo ar rarefeito daquela floresta maldita. Eu não tinha para onde correr. Minhas pernas tremiam tanto que pareciam feitas de gelo derretido, e a dor no centro do meu peito, onde a marca da rejeição de Caleb havia sido arrancada à força, latejava como uma ferida aberta.
— Vamos, acaba logo com isso — murmurei para a noite, fechando os olhos por um segundo e esperando o bote inevitável. Mas o golpe fatal não veio. Em vez de garras rasgando minha carne, o que senti foi uma mudança abrupta na pressão do ar. O cheiro de pinho queimado, fumaça e terra molhada intensificou-se a ponto de entupir meus sentidos, sufocando o cheiro de lama e chuva podre. Abri os olhos devagar. O lobo gigantesco já não estava lá. No lugar dele, envolto pelas sombras espessas da vegetação e pela neblina da tempestade, erguia-se um homem. O fôlego sumiu da minha garganta com tanta força que dei um passo instintivo para trás, minhas costas batendo contra o tronco áspero de uma árvore. Ele era avassalador. Devia ter pelo menos 1,93m de altura, com ombros incrivelmente largos que pareciam bloquear o resto do mundo. Os cabelos negros caíam levemente sobre a testa, molhados pela chuva, e seu peito nu exibia músculos definidos, esculpidos como em uma estátua de pedra. O que mais me assustou — e ao mesmo tempo me prendeu no lugar como se eu estivesse enfeitiçada — foram as tatuagens rúnicas escuras que serpenteavam por seus braços e peitoral, brilhando de forma quase imperceptível sob a luz fraca da lua. E os olhos dele. Ah, aqueles olhos. Eram de um dourado tão intenso, tão brilhante na penumbra, que pareciam queimar a minha alma. Ele não disse uma palavra. Apenas caminhou em minha direção com passos firmes, lentos, exalando um perigo primitivo que fazia cada célula do meu corpo gritar alerta. Mas, estranhamente, nenhuma parte de mim quis correr. Havia algo naquele olhar magnético que me desarmava, um contraste bizarro entre a brutalidade da sua presença e uma curiosidade silenciosa. — O que uma loba da Lua Prateada faz sozinha, sangrando e perdida na Floresta das Sombras, bem na noite em que deveria estar comemorando seu casamento? — A voz dele saiu grossa, rouca, raspando no ar como cascalho arrastado. Cada sílaba vibrava diretamente no meu estômago. O som daquela voz abriu a comporta de tudo o que eu vinha tentando segurar desde o altar. A traição de Caleb, a risada cínica de Chloe, a humilhação diante de toda a alcateia, o frio, a dor no peito. O veneno da raiva ferveu nas minhas veias, misturando-se à exaustão. — Não é da sua conta — cuspi as palavras, erguendo o queixo com o pouco de orgulho que me restava, embora minha voz tenha saído trêmula. — E se veio terminar o serviço, não precisa gastar energia. Já estou meio morta de qualquer jeito. O homem parou a poucos centímetros de mim. A proximidade dele era sufocante e quente, irradiando um calor físico que contrastava com a chuva gelada que ainda caía sobre nós. Ele franziu o cenho, os olhos dourados examinando cada centímetro do meu rosto manchado de lama e lágrimas, descendo lentamente pelo vestido de noiva rasgado e ensanguentado, até fixarem-se no centro do meu peito, bem onde a marca rompida pulsava. Um rosnado baixo vibrou na garganta dele, tão profundo que fez o chão tremer sob meus pés. — Rejeitada — ele murmurou para si mesmo, mais como uma constatação fria do que uma pergunta. O maxilar dele travou, e uma fúria repentina e gélida cruzou seu olhar, transformando o dourado dos olhos em algo ainda mais selvagem. — Aquele imbecil da Lua Prateada teve a audácia de rasgar os laços com você? Arregalei os olhos, surpresa por ele adivinhar tão rápido. — Você o conhece? — perguntei, a respiração curta. — Eu conheço a laia dos Alfas fracos daquela região — respondeu ele com um sorriso irônico e sombrio nos lábios finos, dando mais um passo à frente, fechando o espaço entre nós de vez. O peito dele roçou levemente no meu vestido encharcado. Senti um arrepio violento subir pela minha espinha, um calor estranho que me fez prender a respiração. — Eles não sabem o tesouro que jogam fora. Mas aqui, nas minhas terras, as regras são outras. Tentei me afastar, empurrando o peito dele com as duas mãos, mas meus braços fraquejaram contra a muralha de músculos firmes. Ele nem sequer recuou. Apenas ergueu uma das mãos grandes, calejadas, e com uma delicadeza surpreendente para alguém tão bruto, encostou a ponta dos dedos no meu queixo, forçando-me a erguer o rosto para encará-lo. — Qual é o seu nome, loba teimosa? — sussurrou ele, a boca perfeitamente próxima da minha, a ponto de eu sentir o calor da sua respiração misturada ao cheiro de pinho e terra. O estômago deu uma volta completa. O meu corpo, traído pela própria exaustão e por uma atração magnética inexplicável, começou a responder à presença daquele desconhecido perigoso de forma alarmante. — Valerie... — sussurrei, incapaz de desviar o olhar daquelas brasas douradas. Um canto da boca dele se curvou em um sorriso predador, misturado a uma promessa silenciosa que eu ainda não era capaz de entender. — Bem-vinda ao meu domínio, Valerie — ele disse, antes de me erguer facilmente nos braços como se eu não pesasse nada, ignorando meus protestos fracos. — Sou Dante. E você nunca mais vai precisar se arrastar na lama.Eu acordei com vozes. Não na minha cabeça, vozes de verdade, do lado de fora da porta do quarto dele. — Ela não pode ficar aqui, Dante — era a voz de um homem, mais velho, bravo — O conselho já está sabendo, o bando inteiro sentiu o cheiro de cio de despertar hoje de manhã, você sabe o que isso significa, se for uma loba sem marca de matilha... — Ela tem matilha — a voz do Dante cortou, baixa, mas tão fria que eu arrepiei mesmo enrolada nas peles — Ela tem a minha. Eu abri os olhos devagar, o quarto estava escuro de novo, já era fim de tarde, eu dormi o dia inteiro. Dante estava sentado na beira da cama, de costas pra mim, só de calça, sem camisa, conversando com alguém na fresta da porta entreaberta, a luz do corredor entrava e cortava as costas dele. Ele sentiu que eu acordei na hora, sem nem virar. — Já conversamos, Erik — ele disse pro homem lá fora — Ninguém encosta nela, se alguém tentar, eu arranco a garganta. Ele fechou a porta com força e trancou. Quando virou pra mim
Eu ainda estava arqueada na cama dele quando ele tirou a boca da minha marca. O quarto inteiro ficou em silêncio, só com a minha respiração descontrolada e o uivo dos lobos lá embaixo no pátio que já estava sumindo. Dante me olhava como se eu fosse a coisa mais perigosa que ele já tinha visto. — Você sentiu? — ele perguntou baixo, com a voz rouca colada na minha orelha. Eu não consegui responder, só assenti, porque se eu abrisse a boca ia sair outro gemido e eu já estava com vergonha demais. Não foi um beijo, foi só a boca dele encostando na minha marca, mas meu corpo inteiro acendeu como se ele tivesse me marcado de verdade, as minhas pernas tremeram, a camisola preta grudou nas minhas costas de suor e a luz dourada da minha nuca ficou piscando igual uma lâmpada louca. É, filhote, agora ferrou, a Elara falou dentro da minha cabeça rindo — Você está em cio, não é mais febre de despertar, é cio de verdade e é por causa dele, o lobo dele chamou e o seu respondeu. — Cio? — eu suss
Eu acordei quente. Não febril. Quente. O tipo de quente que vem de dentro, baixo, na barriga, e que não tem nada a ver com a febre dourada. Era o peso de um braço enorme e pesado em volta da minha cintura, me prendendo contra um peito que já não estava mais gelado. Estava morno. Quente como o meu. A cama do Dante ainda cheirava a tempestade, mas agora cheirava a mim também. A ouro queimado e a erva-mãe. Eu tentei me mexer e senti. A toalha tinha sumido em algum momento da madrugada. Eu estava só com a camisola preta seca que a Leonor tinha deixado, fina demais, levantada até o meio da coxa. E atrás de mim, colado em mim, o Dante dormia de verdade. Pela primeira vez desde que eu cheguei aqui. A respiração dele estava funda, lenta, batendo na minha marca. Os braços dele, que ontem estavam travados me segurando com autocontrole, agora estavam relaxados, possessivos, uma mão espalmada na minha barriga por baixo da camisola, a outra enfiada no meu cabelo. As runas dele não estavam ma
O quarto dele não cheirava a pinho queimado. Cheirava a tempestade. A pedra fria molhada de chuva, e a lenha molhada. Um cheiro tão dele que, quando ele me colocou na cama enorme, a febre que tinha dado uma trégua no banho ameaçou voltar só pelo cheiro. Ele ainda estava sem camisa. Molhado da cintura pra baixo, com as calças pretas encharcadas grudadas no corpo, as runas douradas ainda acesas fracas no peito, e nos ombros. Ele tinha me enrolado numa toalha, mas não tinha se secado. A Leonor entrou logo depois, com uma bacia de água com mais ervas e uma camisola seca preta, simples, de algodão. Ela não olhou pro peitoral dele. Nem pra mim dentro da toalha. Bruxa velha, sabia de tudo. — A febre vai voltar em ondas — ela disse, enquanto torcia um pano na água verde e colocava na minha testa — O banho puxou o grosso, mas o despertar não termina até o sol nascer. Se ela dormir sozinha, o fogo volta e ela pode convulsionar. O corpo dela ainda não aprendeu a guardar o fogo sozinho.
A água já tinha esfriado. Não porque o fogo tinha acabado, mas porque o fogo tinha encontrado onde ficar. Eu ainda estava sentada entre as pernas dele dentro do tonel, com as costas coladas no peito dele, a camisola branca totalmente transparente de tão molhada, colada no meu corpo como uma segunda pele. Eu deveria estar com vergonha. Qualquer outra mulher do bando teria se coberto, teria gritado, teria mandado o Alfa virar o rosto. Eu não consegui. Porque pela primeira vez desde que acordei com essa febre, eu não estava queimando. Eu estava morna. E o único motivo era as duas mãos grandes dele ainda segurando a minha cintura debaixo da água, e a testa dele ainda encostada na minha marca atrás da nuca. O frio dele me ancorava. — Valerie — a voz dele saiu baixa, rouca, perto da minha orelha — A água esfriou. Você vai ficar doente se ficar aqui. — Não vou — eu murmurei, com os olhos fechados, a cabeça tombada no ombro dele — Se eu sair, queima de novo. Ele ficou em silên
O colo dele era o único lugar frio no castelo inteiro. Enquanto o Dante descia a escada em espiral comigo nos braços, eu sentia o resto do mundo queimando. As paredes de pedra suavam. O ar do corredor parecia pesado de fumaça, mas não tinha fumaça nenhuma. Era a minha febre fazendo tudo distorcer. Eu estava com quarenta graus. Depois quarenta e um. Eu sentia o suor escorrer pela minha testa, pelas minhas costas, encharcando a camisola fina que a Leonor tinha me vestido enquanto eu estava apagada. — Você está queimando a minha camisa — ele murmurou, mas a voz dele não era de reclamação. Era de preocupação. Ele me apertou mais contra o peito, e onde a minha bochecha encostava no pescoço dele, a pele dele ficava gelada por dois segundos e depois voltava a ficar quente — Segura só mais um pouco. A sala é logo ali. Ele está se segurando pra não te morder, filhote. A Elara falou dentro de mim, com aquela voz rouca divertida — O l







