MasukDarek, que tinha ouvido tudo, comentou:— Espero que não tenham guardado o bolo esperando por nós.Evelyn fechou os olhos.— Você tem uma obsessão preocupante com comida.— Passe duas semanas comendo em estrada e depois me julgue.— Eu passei exatamente as mesmas duas semanas.— Você tem cozinheiro real.Tina virou o rosto.— Nós também.Darek ficou quieto.Bjorn, que estava do lado de fora novamente, começou a rir.Evelyn balançou a cabeça.— A misteriosa Bellumati talvez mande você jantar no estábulo.— Viu? Abuso de poder.— Ainda nem comecei.O comentário arrancou outro riso.Depois Ward saiu.A carruagem retomou o caminho.E o sol começou a desaparecer de verdade.A luz mudou primeiro.O dourado tornou-se alaranjado.Depois cinza.As sombras cresceram sobre as terras de Valcrest.Evelyn percebeu que conhecia aquela hora naquele lugar.Era uma memória quase física.As luzes das propriedades começando a aparecer.Cheiro de lenha.Guardas trocando turno nos postos.Comerciantes acel
A ordem correu pela comitiva.A carroça seis saiu lentamente da formação.Quatro soldados foram com ela.Depois mais seis.Um oficial desceu.Evelyn não saiu da carruagem.Queria.Seu primeiro impulso foi abrir a porta, caminhar até a menina e colocar comida nas mãos dela.Não fez.Uma rainha descendo no meio de uma distribuição improvisada criaria outro problema.Pessoas correriam.Guardas teriam de fechar espaço.Talvez alguém caísse.Talvez uma criança fosse esmagada por adultos famintos tentando chegar mais perto.Compaixão sem controle podia matar tão facilmente quanto negligência.Evelyn ficou.Observou.Um dos soldados de Asterion subiu num pequeno barranco.— ATENÇÃO!A voz atravessou a estrada.As pessoas pararam.— Há comida para todos enquanto houver ordem. Formem duas filas! Crianças, idosos e doentes deste lado. Os demais do outro. Não empurrem!Mais pessoas surgiram.Uma mulher saiu correndo de uma casa com um bebê no colo.Dois meninos apareceram descalços.Um homem ido
Evelyn percebeu tarde demais.Darek percebeu no mesmo instante.O sorriso começou num canto da boca dele.— A misteriosa Bellumati ataca novamente.Evelyn revirou os olhos.— Só porque você fala demais não significa que eu tenha que fazer o mesmo.Tina soltou um riso curto.— Ela tem um ponto.Darek levou a mão ao peito.— Eu sou apenas uma pessoa aberta.Bjorn, que se aproximara a cavalo a tempo de ouvir, bufou.— Você é incapaz de guardar uma história por mais de dois dias.— Calúnia.Evelyn apontou para a estrada.— Continue andando, Darek.— Viu? Autoritária até fora do trono.— E você continua vivo, então claramente sou tolerante demais.Bjorn riu.Tina também.Ward olhou de um para o outro como um homem que já havia aprendido a não tentar entender completamente as relações de Recomeço.Depois transmitiu a ordem.— Rota leste.Ninguém perguntou como Evelyn conhecia aquela garganta.Todos tinham passado anos ao lado dela. Conheciam a diferença entre um segredo que podia virar brin
Quinze dias depois de receber o convite de casamento e a solicitação comercial de Valcrest, Evelyn deixou Asterion.Não partiu às pressas.Durante aquelas duas semanas, organizou o reino para continuar funcionando sem ela, revisou contratos, separou a equipe responsável pelas negociações e deixou instruções suficientes para que ninguém tivesse a desculpa de paralisar qualquer assunto importante aguardando seu retorno.Lorian permaneceu no comando.Não simbolicamente.Evelyn lhe entregara autoridade real durante sua ausência, limitada apenas pelas decisões que exigiam assinatura definitiva da Coroa. Magnus havia pedido que ela preparasse o rapaz, e mantê-lo escondido atrás dela seria a pior maneira de fazer isso.Vlaus continuara em Recomeço, onde provavelmente já estava infernizando administradores antes mesmo de a carruagem real deixar a capital. Maura e Orven também ficaram.Dessa vez, Evelyn levara outras pessoas.Darek.Tina.Bjorn.E Ward.Os três primeiros pertenciam àquela part
Quando a reunião começou, ninguém perguntou por que seus olhos estavam levemente vermelhos.Se perceberam, tiveram inteligência suficiente para guardar para si.Lorian foi o primeiro a sentar.O Chanceler abriu os documentos.— Majestade, recebemos confirmação preliminar de que Valcrest está disposto a custear parte da logística de transporte.— Parte não me interessa — Evelyn respondeu. — Quero números.O homem assentiu.— Teremos até amanhã.Evelyn olhou para o responsável pelo Tesouro.— Qual o máximo que podemos fornecer sem comprometer reservas?— Vinte e dois por cento.— Trabalhe com dezoito até segunda análise.Lorian percebeu.Não comentou.— Crédito?— Conseguimos oferecer.— Não sem garantia conjunta das Casas de Valcrest.O Chanceler anotou.Evelyn seguiu:— Quero que qualquer acordo seja vantajoso para Asterion, mas não cobraremos preço de desespero.O tesoureiro ergueu os olhos.— Majestade?— Não vamos enriquecer criando fome em outro reino. Margem justa. Risco coberto.
Uma lágrima caiu sobre o papel.Evelyn ficou olhando.Depois outra.— Droga.Levantou-se abruptamente.Caminhou até a janela.Não queria chorar por Theron.Era essa a primeira reação.Raiva.Não queria.Não depois de tudo.Não depois de sete anos.Não depois de construir Recomeço.Salvar Asterion.Enterrar Magnus.Usar uma Coroa.Mas sentimento não obedecia decreto real.Evelyn apoiou as duas mãos no parapeito.O peito doía.Não como a cicatriz.Mais fundo.— Você está aí?A pergunta saiu antes que pudesse impedir.Silêncio.Evelyn fechou os olhos.Procurou.Como fizera na montanha.Como fizera em noites ruins.Como fizera depois da rejeição, quando ainda acreditava que podia chamar sua loba de volta se tentasse com força suficiente.Nada.Nem presença.Nem calor.Nem resposta.— Ele vai se casar.Sua própria voz soou estranha no quarto.Nenhuma resposta.Evelyn soltou uma risada quebrada.— Você poderia pelo menos rosnar.Nada.A loba continuava atrás daquela porta que Evelyn não con







