LOGINO primeiro sino da madrugada ainda não havia tocado quando a porta se abriu.
Nyra ergueu a cabeça devagar. Não sabia quanto tempo passara sentada no chão de pedra, com as costas apoiadas na parede e a mão pressionada sobre o peito. Podiam ter sido minutos. Podiam ter sido horas. A dor não diminuíra o suficiente para que o tempo voltasse a fazer sentido. O vínculo rompido continuava dentro dela como uma ferida aberta. Às vezes ardia. Às vezes pulsava. Em outros momentos, parecia que alguma coisa enterrava as garras por trás de suas costelas e apertava seu coração até ela não conseguir respirar. Sua loba permanecia encolhida. Nyra tentara chamá-la muitas vezes desde que as portas do salão haviam se fechado. Não recebera resposta. Nenhum rosnado. Nenhum pensamento. Nenhuma sensação além de um vazio tão profundo que lhe dava medo. Elowen estava sentada ao lado dela. Mantinha um braço ao redor dos ombros da filha, embora também tremesse de frio. Não lhes deram mantos. Não permitiram que voltassem à residência Everhart para buscar roupas ou qualquer objeto pessoal. Foram retirados do salão e colocados naquele aposento estreito com as mesmas vestes que usavam durante o julgamento. A antiga elegância do vestido de Elowen estava amarrotada. O de Nyra tinha a barra suja e uma pequena mancha escura onde seus joelhos haviam atingido o mármore. Garrick permanecia de pé junto à porta. As correntes de prata lunar ainda prendiam seus pulsos. A pele ao redor do metal estava vermelha, ferida, marcada por pequenas queimaduras. Mesmo assim, ele não se sentara uma única vez. Ficara diante da porta como se o próprio corpo pudesse impedir que mais alguma coisa alcançasse sua esposa e sua filha. Quando os guardas entraram, Garrick ergueu o queixo. — Abram as correntes. O homem à frente sequer o olhou. — Está na hora. — Minha filha mal consegue ficar de pé. — O decreto determina que deixem Valcrest ao primeiro toque do sino. — Eu conheço o decreto — respondeu Garrick. — Também conheço as fronteiras do leste. Precisaremos de mantimentos, água, cavalos e roupas adequadas. O guarda soltou uma risada curta. — Traidores não recebem provisões do domínio que venderam. Garrick avançou um passo. As correntes tilintaram. Os soldados imediatamente ergueram as lanças. Elowen apertou Nyra contra si. — Garrick. A voz dela foi baixa, mas suficiente para detê-lo. Ele olhou para a esposa. Por um instante, toda a fúria em seu rosto cedeu espaço a algo pior. Impotência. Nyra nunca vira aquela expressão no pai. Garrick fora o homem que chegava das fronteiras coberto de sangue e ainda encontrava força para perguntar como havia sido o dia dela. O homem que resolvia problemas antes que qualquer pessoa percebesse que existiam. Durante toda a infância, Nyra acreditara que nada poderia atravessar as muralhas construídas pelos braços dele. Naquela madrugada, Garrick não podia sequer conseguir um manto para a esposa. — Nós iremos a pé? — perguntou Elowen. O guarda finalmente olhou para ela. — Até o último marco. — Minha filha foi rejeitada há poucas horas. — Isso não altera a sentença. — O rompimento de um vínculo destinado pode matar uma loba. — Então caminhe depressa antes que ela morra dentro das terras de Valcrest. O som que saiu do peito de Garrick fez os outros soldados recuarem instintivamente. Nyra segurou o braço do pai antes que ele se movesse. Foi um gesto fraco. Quase sem força. Mesmo assim, ele parou. — Não — pediu ela. Garrick baixou os olhos. — Nyra... — É isso que eles querem. A voz dela saiu rouca. Cada palavra arranhava sua garganta. — Querem que reaja. Querem uma razão para não precisarem nos levar até a fronteira. O pai a encarou por alguns segundos. Depois respirou fundo e recuou. Nyra apoiou a mão na parede para se levantar. As pernas cederam antes que ela conseguisse firmá-las. Elowen a segurou pela cintura, impedindo que caísse. — Devagar. Nyra fechou os olhos. Uma onda de tontura a atravessou. O cheiro do salão voltou de repente. Cera queimada. Ferro. Sangue. Theron. Ela o viu novamente sobre os degraus, vestido de negro, olhando para ela como se todos os anos que viveram juntos tivessem sido uma mentira. Acredito no que vi. Nyra apertou os dedos contra a pedra. Não cairia. Não diante deles. Já havia se arrastado o suficiente aos pés de Theron. Depois de algumas tentativas, conseguiu ficar de pé. Sua mãe manteve um braço ao redor dela. Garrick aproximou-se pelo outro lado, mas um soldado puxou suas correntes. — Ele segue à frente. — Ele é meu pai — reagiu Nyra. — E é um prisioneiro. Garrick voltou os olhos para ela. — Não discuta. — Pai... — Fique com sua mãe. Havia uma ordem naquela voz, mas também um pedido. Nyra assentiu. Os guardas abriram caminho. Garrick foi colocado à frente da pequena comitiva. Dois soldados seguravam as correntes presas aos seus pulsos. Atrás dele, Nyra e Elowen caminharam cercadas por outros quatro homens. Nenhum deles carregava uma mala. Nenhum objeto da Casa Everhart atravessaria os portões com a família. Nada de joias. Nada de armas. Nada de lembranças. Nyra deixou o aposento sem saber onde estavam sendo mantidos os criados, os soldados e todos aqueles que haviam servido à sua família. Não sabia se estavam presos, se haviam sido obrigados a renegar os Everhart ou se já tinham sido distribuídos entre outras Casas. Quis perguntar. Não perguntou. Tinha medo da resposta. Os corredores estavam vazios. As tochas lançavam sombras longas sobre as paredes, e o ruído das correntes de Garrick ecoava pelo palácio a cada passo. Nyra conhecia aqueles corredores. Havia atravessado cada um deles centenas de vezes. Quando criança, correra ali ao lado de Theron enquanto os dois fugiam dos tutores. Mais tarde, caminhara com ele de mãos dadas quando o vínculo finalmente despertou e tornou público o que todos já sabiam. Ela seria a mulher dele. Ele seria o homem dela. E juntos governariam Valcrest. Agora, Nyra deixava o palácio escoltada como inimiga. Passaram diante de uma galeria onde os retratos dos antigos governantes observavam a marcha silenciosa. No fim do corredor, havia uma pintura recente de Syrus e Thalia Ashborne. Os pais de Theron. Nyra diminuiu o passo. Thalia sempre a recebera com carinho. Syrus colocara a mão sobre sua cabeça quando ela ainda era pequena e dissera a Garrick que um dia aqueles dois dariam trabalho a todo o domínio. Nenhum dos dois estava ali para ver o que o filho fizera. Talvez fosse melhor. Nyra não sabia se suportaria ver decepção nos olhos de Thalia também. — Continue — ordenou um guarda. Ela obedeceu. As grandes portas externas foram abertas. O ar da madrugada atingiu seu rosto com violência. Nyra prendeu a respiração. Esperava encontrar o pátio vazio. Não encontrou. Havia pessoas esperando. Dezenas no início. Centenas mais adiante. As notícias sobre o julgamento haviam atravessado Valcrest antes mesmo de o sino anunciar a madrugada. Famílias inteiras estavam reunidas diante do palácio, carregando tochas e lanternas. Alguns ainda vestiam roupas de dormir cobertas por mantos. Outros pareciam ter se preparado para aquilo. Para vê-los partir. Para assistir à queda dos Everhart.A margem estava alta naquele ponto.Mais de um metro acima do nível atual.Havia marcas escuras no tronco de algumas árvores, como cicatrizes deixadas por água antiga.Nada incomum em um rio que subia durante épocas de chuva.Mas algumas marcas estavam altas demais.E longe demais.Evelyn se afastou.Maura ficou perto das carroças enquanto ela caminhava sozinha para o sul.Primeira varredura.Sempre fazia uma.Mesmo quando Vlaus já mandava batedores.Gostava de conhecer o lugar com os próprios olhos.A loba permanecia silenciosa dentro dela.Há muito tempo.Mas os sentidos não tinham ido embora.Evelyn escutava movimentos pequenos.Sentia mudanças no vento.Percebia cheiros antes que outros humanos perceberiam.Uma parte do animal continuava no corpo, ainda que a criatura se recusasse a acordar.Ela seguiu pela margem.O solo mudou.Mais úmido primeiro.Depois, estranhamente seco.Evelyn parou.Agachou.Tocou a terra.Escura.Fértil.Quebrou um pequeno pedaço entre os dedos.Não era a
A primeira coisa que Evelyn sentiu ao atravessar as terras de Asterion foi alívio.Não alegria.Não esperança.Alívio.Seco, silencioso e tão imediato que quase a irritou.Ela permaneceu ao lado da carroça de Orven e Maura enquanto a longa fileira avançava pela estrada de terra, mas seus olhos se demoraram no horizonte pela primeira vez desde que haviam partido.Nenhuma montanha conhecida.Nenhuma torre de Valcrest.Nenhum símbolo.Nenhum cheiro que trouxesse de volta o domínio que aprendera a odiar.Asterion ficava longe.Muito longe.E aquilo bastava.— Está olhando como se esperasse alguém sair de trás das árvores — comentou Orven.Ele conduzia a carroça, embora Evelyn tivesse passado os últimos três dias dizendo que não confiava plenamente naquela ideia.— Eu sempre espero.— Deve ser cansativo.— É por isso que continuo viva.Orven ficou quieto.Evelyn percebeu tarde demais o peso da frase.Ele também.Nenhum dos dois tentou consertá-la.Maura apareceu entre as cortinas da carroç
Evelyn olhou para o céu.Começava a clarear muito longe, quase imperceptível.— Então pare de desperdiçar nosso tempo.Ele se virou.Assobiou.Os homens começaram a sair.Alguns arrastando os feridos.Outros sustentando companheiros.Os cavalos desapareceram entre as árvores.Ninguém do acampamento comemorou.Evelyn esperou até não ouvir mais cascos.Então:— NÃO SIGAM!Um rapaz já estava indo.Parou.— Mas eles—— Querem que a gente corra atrás.— Eles incendiaram nossas coisas!— E se nos puxarem para o campo aberto, voltamos com menos gente.O rapaz fechou a boca.Evelyn apontou.— Ajuda nos feridos.Ele obedeceu.A raiva ainda estava ali.Mas obedeceu.Vlaus aproximou-se.— Dez pontos pela prudência.Evelyn olhou para o sangue na roupa dele.— Quantos pontos perdeu por quase arrancar a cabeça daquele homem?— Nenhum.— Claro.— Sou o líder.— Péssimo argumento.Vlaus olhou para o acampamento.O humor sumiu.Fogo.Fumaça.Gente gritando nomes.Crianças chorando.O dia começava.E p
O líder soltou uma risada.— Vocês não estão em posição de negociar.— Nem você — respondeu Evelyn.Ele virou o rosto para ela.— Tem certeza?Evelyn puxou o ar.Homens à direita.Homens à esquerda.Arqueiros mais atrás.Quase trinta.Talvez mais escondidos.Ela marcou mentalmente posições.Saídas.Distância até as carroças.Até Orven.Até Maura.Até as crianças.— Tenho.O homem ficou alguns segundos encarando-a.Então ergueu uma das mãos.Evelyn viu antes.O arqueiro atrás dele puxou a corda.— ABAIXEM!A flecha passou sobre sua cabeça.Não vinha para ela.Trazia fogo.Atravessou o acampamento.Entrou numa tenda.A lona pegou imediatamente.Um grito explodiu.Depois outro.— FILHO DA PUTA! — alguém rugiu.— Água! — Evelyn gritou.A segunda flecha incendiária veio.Vlaus avançou tão rápido que se tornou um borrão.Atingiu o líder no peito.O homem voou para trás.A guerra começou.— CRIANÇAS NAS CARROÇAS! — Evelyn gritou. — IDOSOS AO NORTE! QUEM NÃO LUTA, NÃO FICA NO CENTRO!Um homem
Evelyn abriu os olhos antes do primeiro grito.Por alguns segundos, ficou imóvel.A escuridão dentro da pequena tenda era quase completa. Do lado de fora, o acampamento dormia. O vento passava baixo pelas árvores, fazendo a lona estremecer de tempos em tempos.Nada parecia errado.Mas alguma coisa estava.Evelyn não se mexeu.Escutou.O estalar distante de uma fogueira quase apagada.Uma criança tossindo em alguma tenda próxima.O resfolegar dos cavalos.Folhas.Vento.Então...Metal.Baixo.Curto.O som de alguma coisa batendo contra uma fivela.Seus olhos se estreitaram.Ela se sentou.Puxou o ar.Fumaça antiga.Terra úmida.Animais.Gente.Muita gente.E um cheiro que não pertencia ao acampamento.Couro tratado.Óleo.Cavalos desconhecidos.Evelyn já estava de pé quando ouviu o segundo ruído.Cascos.Controlados.Homens tentando se aproximar sem fazer barulho.Ela pegou as calças jogadas ao lado do catre, vestiu-as rapidamente e prendeu a adaga na cintura.Quando saiu, encontrou Vl
— Então criamos uma história melhor — respondeu.— Mentiras ruins matam.— As boas compram tempo.Um dos homens assobiou baixinho.Vlaus ignorou.— E se perguntarem por que quer a terra?Evelyn olhou para fora da tenda.A abertura permitia enxergar uma pequena parte do acampamento.Uma mulher carregando baldes.Um menino correndo.Uma carroça sendo reparada.— Porque estou cansada de fugir.A frase saiu antes que pudesse filtrá-la.Ninguém brincou.Evelyn voltou-se para os homens.— Quantas vezes mudamos no último ano?— Sete — respondeu alguém.— Oito — corrigiu outro.— Oito.Ela apontou para o chão.— Oito vezes desmontamos tudo porque alguém decidiu que nossa presença incomodava. Oito vezes crianças acordaram sem saber onde dormiriam na noite seguinte. Oito vezes os idosos tiveram que atravessar estrada porque alguém apareceu com um papel dizendo que a terra pertencia a outro homem.O tom dela não aumentou.Não precisava.— Temos gente suficiente para defender um lugar. Temos caça







