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CAPÍTULO 2 — SUA PUNIÇÃO

last update Tanggal publikasi: 2026-08-27 04:48:46

Ela ainda não compreendia como uma noite havia sido capaz de apagar toda a sua vida.

Malrik acabara de entregar a Theron o novo pergaminho, ainda fechado pelo selo de Valcrest.

— Nyra Everhart.

A voz de Theron obrigou-a a erguer o rosto.

Ele havia descido um degrau.

Mesmo assim, a proximidade fez a loba dentro dela se mexer, fraca, desesperada, reconhecendo seu companheiro apesar de tudo.

Traiçoeira.

O corpo ainda o queria.

A alma ainda o chamava.

Theron segurava o pergaminho diante do corpo.

— Levante-se.

Elowen endureceu.

— Ela mal consegue respirar.

— O decreto deve ser ouvido de pé.

Garrick avançou novamente.

As correntes o detiveram.

— Não dê ordens a minha filha como se ela fosse uma criminosa qualquer!

Theron olhou para ele.

— Ela foi julgada como traidora do Domínio por se associar aos vampiros, entregar a eles informações estratégicas sobre nossas patrulhas e os pontos vulneráveis das fronteiras, facilitar a entrada de um inimigo em Valcrest e profanar o vínculo sagrado de companheiros ao manter encontros clandestinos com ele dentro da cabana consagrada à nossa união.

Nyra sentiu Elowen estremecer.

A palavra percorreu o salão.

Traidora.

Profana.

Amante de vampiro.

As palavras pareciam brotar da boca de todos.

Nyra afastou-se lentamente dos braços da mãe.

Apoiou uma mão no chão.

Seu corpo protestou.

A visão escureceu nas bordas.

Mesmo assim, ela se levantou.

Primeiro um joelho.

Depois o outro.

Elowen tentou ajudá-la, mas Nyra balançou a cabeça.

Se Theron desejava vê-la de pé enquanto acabava com o que restava de sua vida, ela ficaria de pé.

Não por ele.

Por si mesma.

Por Garrick.

Por Elowen.

Pela Casa Everhart.

Quando finalmente conseguiu se endireitar, estava pálida, com os cabelos caindo sobre o rosto e uma das mãos ainda pressionada contra o peito.

Theron a observou.

Por um instante, algo quase humano atravessou sua expressão.

Desapareceu antes que Nyra pudesse nomear.

Ele rompeu o selo.

— Por decisão do Supremo Alpha e aprovação do Conselho dos Anciãos, a Casa Everhart perde, a partir desta noite, todos os títulos, propriedades, postos militares e direitos concedidos pela Coroa de Valcrest.

Elowen levou a mão à boca.

Garrick ficou imóvel.

Nyra sentiu o salão inclinar.

Todos os títulos.

Todas as terras.

A casa onde crescera.

Os campos.

Os guerreiros que serviam aos Everhart havia gerações.

A história de sua família arrancada por uma frase.

Theron prosseguiu:

— Garrick Everhart deixa de ser reconhecido como chefe de Casa e comandante das forças do norte. Seus juramentos ao Domínio estão anulados. Seus homens serão transferidos para o comando direto da alcateia soberana.

— Meus homens não são propriedade sua — retrucou Garrick.

Theron não respondeu.

— Elowen Everhart perde sua posição no Conselho das Matriarcas.

A mãe de Nyra fechou os olhos.

— Nyra Everhart perde qualquer direito à coroação, à sucessão ou ao título de Suprema Luna.

Theron segurou o pergaminho com mais força.

— A família Everhart está banida das terras centrais de Valcrest. Ao primeiro toque do sino da madrugada, será conduzida para além das fronteiras do leste. A partir do momento em que cruzar o último marco, qualquer retorno será considerado invasão e punido com morte.

Elowen perdeu o equilíbrio.

Nyra a segurou.

Garrick ficou sem voz pela primeira vez.

O exílio.

Não uma prisão.

Não uma chance de defesa.

Exílio.

Além das fronteiras do leste havia terras sem proteção, florestas dominadas por renegados e regiões que nem mesmo os patrulheiros de Valcrest atravessavam sem um exército.

Theron sabia disso.

Conhecia aqueles caminhos.

Tinha ouvido Garrick descrevê-los durante anos.

Ele sabia que expulsá-los era enviá-los para uma morte lenta.

Nyra encarou-o.

— Você está nos condenando.

O pergaminho tremeu entre os dedos dele.

— Estou poupando suas vidas.

A resposta foi baixa.

Quase íntima.

Por um segundo, o salão desapareceu.

Era apenas Theron diante dela.

O homem que a conhecia melhor do que qualquer outro.

— Poupando? — Nyra repetiu.

A voz saiu quebrada.

Theron tornou a fechar o rosto.

— A pena para traição contra o Supremo é a execução de toda a linhagem.

Elowen prendeu a respiração.

Garrick ergueu o queixo.

— Então nos mate olhando em nossos olhos.

— Pai, não — Nyra sussurrou.

— Se ele acredita que somos traidores, que cumpra a própria lei — continuou Garrick. — Mas não finja misericórdia ao nos lançar para fora das fronteiras.

Theron desceu mais um degrau.

O poder de seu lobo encheu o salão.

Não foi um rugido.

Foi pior.

Uma pressão invisível caiu sobre todos, obrigando lobos menos dominantes a baixar a cabeça. Algumas pessoas se ajoelharam. Os guardas apertaram as armas.

Nyra permaneceu ereta.

Não sabia de onde tirava força.

Talvez da dor.

Talvez da raiva.

Talvez do último fragmento de dignidade que Theron ainda não arrancara.

— Minha decisão está tomada — disse ele.

Garrick soltou uma risada sem humor.

— Claro que está.

Theron olhou para Nyra outra vez.

Ela buscou qualquer coisa nele.

Uma dúvida.

Um pedido silencioso.

Um sinal de que aquilo era um pesadelo do qual acordariam na cabana, ainda abraçados.

Não encontrou.

— Diga que acredita nisso — pediu ela.

Um músculo se moveu no rosto dele.

— Nyra...

Foi a primeira vez que pronunciou seu nome sem um título desde que o julgamento começara.

A loba dentro dela ergueu a cabeça.

— Diga — insistiu. — Olhe para mim e diga que acredita que traí você. Que traí Valcrest. Que traí minha família.

Theron ficou em silêncio.

Malrik se moveu, mas Theron ergueu a mão, impedindo-o de falar.

Nyra deu um passo.

Os guardas imediatamente levaram as mãos às espadas.

— Diga que tudo o que vivemos não valeu o bastante para que você me perguntasse o que aconteceu.

A respiração dele ficou pesada.

— As provas—

— Eu não perguntei sobre as provas.

Mais um passo.

A dor do vínculo fazia cada movimento parecer impossível, mas Nyra continuou.

— Perguntei se você acredita. Diga!

Theron a encarou.

Por um momento, ela viu o jovem da cabana.

O rapaz que sorria apenas para ela.

O homem que havia tocado sua testa com a dele e prometido:

Quando chegar a hora, você não ficará ao meu lado porque é minha companheira. Ficará porque é a única mulher em quem confio para governar comigo.

Então a lembrança desapareceu.

Os olhos dele endureceram.

— Acredito no que vi.

Nyra parou.

Não houve grito.

Nenhum novo colapso.

Apenas um silêncio profundo se abriu dentro dela.

Algo terminou naquele instante.

Não o vínculo.

Aquilo já estava rompido.

Terminou a parte de Nyra que ainda esperava que Theron voltasse para buscá-la.

Ela assentiu uma vez.

Devagar.

— Então não há mais nada a dizer.

Theron pareceu querer responder.

Malrik tomou a palavra antes.

— O decreto está concluído. Os Everhart serão mantidos sob guarda até a partida.

Os soldados avançaram.

Elowen segurou a mão de Nyra.

Garrick foi puxado pelas correntes.

O salão se abriu para que passassem.

Ninguém tentou ajudá-los.

Ninguém ergueu a voz.

Os mesmos nobres que haviam enviado presentes para a futura coroação agora recuavam para não tocar nas roupas de uma traidora.

Nyra caminhou entre eles com as pernas trêmulas.

Cada passo afastava-a de Theron.

Ela não olharia para trás.

Prometeu isso a si mesma.

Não daria a ele o último pedaço de sua dignidade.

Não deixaria que a visse procurando por alguém que já havia escolhido abandoná-la.

Chegou às grandes portas do salão.

Os guardas as abriram.

O vento da noite invadiu o ambiente, gelado, trazendo o cheiro das florestas e da chuva distante.

Nyra apertou a mão da mãe.

Garrick caminhava à frente, ainda ereto apesar das correntes.

Ela atravessou a porta.

E então ouviu.

Um som baixo.

Quase sufocado.

O rosnado de um lobo em agonia.

Vinha de trás.

De Theron.

Nyra fechou os olhos por um breve instante.

Seu corpo inteiro quis parar.

Quis voltar.

Quis acreditar que o lobo dele ainda poderia vencer o homem que a condenara.

Os guardas a empurraram.

Nyra abriu os olhos e continuou andando.

As portas se fecharam atrás dos Everhart com um estrondo.

Theron não veio.

Não chamou seu nome.

Não impediu que a levassem.

E, quando o último eco desapareceu, Nyra compreendeu que o homem que prometera protegê-la havia se tornado aquele de quem ela mais precisava sobreviver.

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