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Capítulo 6. - O PESO DA NÉVOA

Author: Lyra
last update publish date: 2026-10-22 07:30:14

O silêncio que se instalou na clareira era denso, quase sufocante. Lyra Frostwood permaneceu estática, sentindo a umidade da névoa matinal prender-se aos seus longos cabelos brancos e congelar suas bochechas. Diante dela, a poucos metros de distância, o homem que surgira da floresta parecia sugar toda a realidade ao redor para si. Ele era uma muralha de testosterona e poder bruto; a jaqueta de couro escura moldava-se aos ombros largos e a postura ereta exalava uma realeza perigosa, algo que Lyra nunca testemunhara nem mesmo nos guerreiros mais condecorados de seu antigo bando. Mas o que realmente a aterrorizava eram as órbitas douradas dele. Eram brasas vivas, idênticas às que a vigiavam no escuro.

Dentro de seu peito, a loba recém-despertada arranhava os limites de sua mente, soltando um ganido que misturava reverência e uma necessidade primitiva de se aproximar. No entanto, a metade humana de Lyra, moldada por anos de chicotadas psicológicas, servidão e a dor lacerante da rejeição de Philip, ergueu uma barreira de puro gelo.

“Fique quieta!”, Lyra ordenou mentalmente à sua loba, forçando as próprias pernas a recuarem um passo. Suas mãos agarraram as bordas da capa preta velha com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.

— Quem é você? — a pergunta de Lyra saiu cortante, embora um leve tremor na voz entregasse o pavor que tentava sufocá-la. Ela contraiu o maxilar, os olhos verdes esmeralda fixos nas feições esculpidas e severas do desconhecido. — Como sabe o meu nome? Se Philip enviou você... se o meu antigo bando mandou um rastreador para terminar o que começaram, eu juro que não vou facilitar para você.

O homem não se moveu. Ele não avançou um único centímetro, demonstrando uma paciência que contrastava bizarramente com a energia intimidadora e predatória que seu corpo emanava. O ar ao redor dele parecia vibrar, pesado, como a calmaria que antecede um desastre natural. Ele a avaliou de cima a baixo, detendo-se por um segundo no vestido simples que ela usava por baixo do casaco, antes de travar o olhar no rosto angelical de Lyra.

— Philip Vance é um garoto fraco brincando de ser rei, Lyra. E eu não recebo ordens de ratos — a voz dele ecoou pela clareira, um barítono tão profundo, rouco e arranhado que fez a espinha dela tremer. Cada palavra carregava uma autoridade esmagadora, capaz de subjugar qualquer metamorfo comum apenas pelo tom. — Eu não fui enviado por ninguém. E você sabe exatamente quem eu sou, mesmo que sua mente humana esteja tentando negar.

— Eu não conheço você! — ela rebateu imediatamente, a voz subindo um tom, carregada pelo drama de suas defesas que desabava. Lágrimas de pura frustração e cansaço físico começaram a embaçar sua visão, mas ela se recusou a chorá-las na frente daquele predador. — Eu passei um ano construindo uma vida. Um ano sem Alfas, sem ordens, sem ser tratada como um pedaço de lixo sem valor! E agora você aparece... exalando esse... esse poder... e me diz que sabe quem eu sou? O que você quer de mim?

Kaelen manteve a expressão impassível, mas seus olhos dourados brilharam com uma intensidade ligeiramente mais escura. Ele compreendia a cautela dela; a dor e o trauma da rejeição pública de Philip haviam deixado cicatrizes profundas na alma daquela jovem. Ela era como uma criatura ferida na floresta, pronta para morder qualquer mão que se estendesse, mesmo que fosse para salvá-la.

— Eu quero que você respire — ele disse suavemente, embora o tom continuasse firme e intimidador. Ele deu um meio passo à frente, lento, como se estivesse domesticando um animal arisco. O aroma de pinho, ozônio e terra molhada expandiu-se instantaneamente, envolvendo Lyra. — Eu observei você por um ano nesta cidade porque você precisava de tempo para se curar. Mas o tempo acabou, pequena loba. A noite passada mudou tudo. Você sentiu, não sentiu?

O coração de Lyra errou uma batida. As lembranças do pesadelo conturbado com seus pais mandando-a fugir sem explicar o motivo, e o despertar ofegante com a voz mística ecoando em sua mente voltaram em uma onda avassaladora.

— Minha... minha loba — ela sussurrou, a cautela sendo momentaneamente nublada pela confusão e pelo medo do desconhecido. — Eles diziam que eu era muda. Que eu era defeituosa.

— Eles mentiram para você. Eles a maltrataram porque tinham medo do que não podiam compreender — Kaelen declarou, a voz caindo para um sussurro perigoso que parecia direcionado tanto a ela quanto à criatura dentro dela. — O bando Lua de Sangue é medíocre. A sua natureza não estava quebrada, Lyra... ela estava protegida sob chaves que o seu trauma finalmente quebrou.

— De quem meus pais estavam fugindo? — ela exigiu, dando um passo à frente, o desespero quebrando sua postura defensiva por um instante. — Eu os vi no meu sonho. Eles me mandavam correr, me mandavam esconder quem eu era! Se você sabe tanto, se passou um ano me vigiando, me diga a verdade! Quem é você e o que os meus pais esconderam em mim?

Kaelen fechou os punhos dentro dos bolsos da jaqueta. A dor nos olhos verdes esmeralda de Lyra testava os limites de seu autocontrole, mas ele sabia que despejar toda a verdade sobre os Guardiões das Cinzas e sobre sua própria identidade como o Alfa Supremo dos Lobos Ancestrais destruiria a mente dela naquele momento. Ela precisava de força antes de receber o peso de sua herança.

— Há perguntas que o mundo sobrenatural não permite que sejam respondidas com pressa, Lyra — ele respondeu, e o tom gélido e enigmático dele fez com que ela recuasse instantaneamente, a desconfiança retornando com força total. — O que você precisa saber agora é que o sangue que corre nas suas veias atrai caçadores. E a sua loba acabou de acender um farol no escuro.

— Você não vai me dizer nada — ela sibilou, os lábios trêmulos de raiva. — Você é igual a todos os outros Alfas. Mantém os segredos, manipula o que eu sinto e espera que eu simplesmente me curve e siga você porque é mais forte? Eu não sou mais a criada da mansão Vance, Kaelen. Se não vai me dar respostas, saia da minha frente.

Um rosnado baixo, quase imperceptível, vibrou no peito do homem diante da audácia dela. A aura dele expandiu-se de forma tão brutal que os galhos das árvores ao redor pareceram estalar sob a pressão. Ele deu dois passos rápidos, encurtando a distância entre eles até que Lyra pudesse sentir o calor emanando de seu peito rígido. Ela congelou, o queixo erguido, sustentando o olhar dourado que parecia queimar sua pele. Ele era imenso, assustador e completamente letal, mas havia uma contenção ali que a impedia de fugir.

— Eu tenho mais paciência com você do que com qualquer outra criatura que já pisou nesta terra, Lyra Frostwood — ele sussurrou, o rosto a poucos centímetros do dela, a voz rouca vibrando diretamente em seus sentidos. — Eu não quero que você se curve. Eu quero que você aprenda a lutar. Se você voltar para aquela cidade hoje sem saber como esconder a energia que acabou de acordar em você, os rastreadores de Philip encontrarão o seu rastro antes do pôr do sol.

Lyra engoliu em seco, o peito subindo e descendo contra o dele. O contraste entre a ameaça de suas palavras e a proteção magnética de sua presença a deixava em um conflito devastador. Ela queria odiá-lo, queria correr de volta para a segurança da livraria de Clara, mas sua loba interna apoiava cada palavra daquele homem misterioso.

— O que você quer que eu faça? — ela perguntou finalmente, a voz baixa, entregando a contragosto a primeira fagulha de trégua.

Kaelen recuou um passo, quebrando a pressão esmagadora do ar e permitindo que a névoa se interpusesse novamente entre eles. Suas feições retornaram à habitual máscara de severidade gélida.

— Volte para o seu trabalho humano. Finja que o seu mundo continua comum — ele ordenou, virando-se de costas em direção à floresta profunda. — Mas esteja aqui amanhã, exatamente no mesmo horário. Eu vou ensinar você a controlar o que acordou na sua mente. Não se atrase, pequena loba. O mundo antigo está vindo atrás de você, e eu não vou poder esconder você nas sombras para sempre.

Sem esperar por uma resposta, Kaelen caminhou em direção à névoa espessa e, com uma rapidez que desafiava os olhos humanos de Lyra, sumiu entre os troncos cinzentos dos pinheiros.

Lyra permaneceu sozinha na clareira por longos minutos, com as mãos pressionadas contra o peito onde o coração batia enlouquecido. O aroma dele ainda flutuava no ar frio da manhã. Ela olhou para as próprias mãos, sentindo a loba interna anuir silenciosamente em sua mente. O drama de sua rejeição havia ficado para trás, mas um jogo muito mais perigoso, intimidador e cheio de segredos estava prestes a começar.

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