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Capítulo 7. - ECO DAS RACHADURAS

Author: Lyra
last update publish date: 2026-10-22 07:30:20

O som do sino de bronze acima da porta da Páginas de Outono soou quase agressivo para os novos sentidos de Lyra Frostwood. Ela entrou na livraria arrastando os pés, com as mãos afundadas nos bolsos da capa preta velha. Seu peito ainda parecia carregar o peso da aura esmagadora de Kaelen, e o aroma de pinho e ozônio impregnado em suas roupas competia com o cheiro familiar de café e papel velho. Dentro de sua mente, a loba recém-despertada continuava a andar em círculos, inquieta, arranhando suas barreiras psicológicas como se exigisse que Lyra voltasse correndo para os braços do homem da clareira.

— Lyra! Meu Deus, onde você estava? — Clara surgiu de trás de uma das prateleiras de romance, segurando um espanador de pó. Seus olhos castanhos por trás dos óculos redondos estavam cheios de uma preocupação genuína.

— Você está pálida como a neve, querida. Seus olhos... você chorou? O que aconteceu?

Lyra engoliu em seco, tentando forçar uma máscara de normalidade. Mas a audição apurada agora a fazia escutar o bater rítmico e acelerado do coração de Clara, o que a deixava ainda mais atordoada.

— Eu... eu só saí para caminhar mais cedo, Clara. Peguei um pouco de névoa na clareira do parque — Lyra respondeu, a voz saindo um pouco mais baixa e trêmula do que pretendia. Ela tirou a capa preta e a pendurou no cabideiro perto da porta. — Estou bem, de verdade. Só não dormi muito bem esta noite. Tive... pesadelos.

Clara caminhou até ela e colocou uma das mãos em seu ombro. O calor do toque humano foi um choque para o corpo de Lyra, que ainda vibrava com a energia do Alfa Supremo.

— Pesadelos com o seu passado? Aquelas pessoas que te machucaram? — Clara perguntou, a voz mansa, carregada de uma empatia que Lyra nunca soube que existia antes de chegar àquela cidade. — Sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe? Desde o dia em que te encontrei naquela estrada, você tem sido como uma filha para mim. Me parte o coração ver esse olhar assustado voltar para o seu rosto.

A garganta de Lyra se apertou. O drama de carregar um segredo que poderia destruir a vida daquelas pessoas inocentes pesava como chumbo. Ela queria desabar, chorar no colo de Clara e dizer que o mundo dos monstros estava vindo atrás dela, mas a cautela que Kaelen despertara em seu peito a manteve firme.

— Eu sei, Clara. E eu amo você por isso — Lyra disse, forçando um sorriso melancólico enquanto segurava a mão da chefe. — Mas são só memórias velhas. Eu prometo que vou ficar bem. Só preciso focar no trabalho hoje.

— Se você diz... — Clara suspirou, claramente não muito convencida, mas respeitando o espaço da jovem. — Thomas acabou de chegar para deixar os muffins da cafeteria. Ele estava preocupado com você também. Vá falar com ele antes de começarmos a abrir as caixas de estoque.

Lyra assentiu e caminhou até os fundos da livraria, onde a lareira elétrica já estava ligada. Thomas estava de costas, organizando uma bandeja de doces sobre a mesa de centro de veludo. Ao ouvir os passos dela, ele se virou rapidamente, e a expressão descontraída do universitário deu lugar a um cenho franzido.

— Ei, gata de cabelos brancos. Você parece que viu um fantasma — Thomas disse, aproximando-se com passos rápidos. Ele esticou a mão para tocar o rosto dela, mas Lyra recuou instintivamente, o reflexo de defesa de sua loba agindo antes de sua mente humana. Thomas parou a mão no ar, os olhos piscando com uma mistura de surpresa e mágoa. — Desculpe... eu não queria te assustar.

— Não, Thomas, a culpa é minha — Lyra pediu desculpas rapidamente, sentindo um nó de culpa no estômago. Ela abraçou o próprio corpo, desviando o olhar verde esmeralda para as chamas artificiais da lareira. — Meus reflexos estão... um pouco ariscos hoje. Eu tive uma noite muito conturbada.

Thomas abaixou a mão, enfiando-a no bolso da calça jeans. Ele deu um passo para o lado, sentando-se no braço da poltrona de veludo, sem tirar os olhos dela.

— É por causa do que eu disse ontem sobre sair? Sobre ir ao pub? Se eu te pressionei, Lyra, me perdoa. Eu só... eu vejo o quanto você se isola. Você cria essas barreiras enormes ao seu redor, e eu só queria que você soubesse que está segura com a gente. Eu me importo com você. Todo mundo na cafeteria e aqui na livraria adora você.

— Eu sei, Thomas. Eu sei que vocês se importam — Lyra desabafou, e o sentimento de impotência fez uma lágrima solitária finalmente escapar e rolar por sua bochecha. — É só que... existem coisas sobre mim, sobre de onde eu vim, que são complicadas demais. Às vezes eu sinto que, não importa o quão longe eu corra, o escuro sempre vai dar um jeito de me encontrar. E eu não quero que esse escuro encoste em você ou na Clara.

Thomas levantou-se, mantendo uma distância respeitosa desta vez, mas seu olhar era de uma determinação genuína.

— Deixe que o escuro tente, Lyra. Você não está mais sozinha. Se alguém do seu passado aparecer para te fazer mal, nós vamos enfrentar isso juntos. Entendeu?

Lyra olhou para ele, sentindo o peito aquecer pela lealdade pura daquele humano. Mas, no fundo de sua mente, a voz de sua loba soltou um suspiro de aviso. Os humanos não sabiam o que era um Alfa. Eles não sabiam o que era a crueldade de Philip Vance.

*****

Enquanto a calmaria frágil se mantinha na livraria da cidade humana, a centenas de quilômetros dali, nas terras da alcateia Lua de Sangue, o clima era de pura tempestade.

Dentro do grande salão de pedras da Mansão Vance, o som de um copo de cristal se estilhaçando contra a parede ecoou de forma violenta. Philip Vance estava parado perto da lareira de pedra, os punhos cerrados e as feições antes impecáveis agora marcadas por olheiras profundas e uma expressão de pura frustração e fúria.

— Eu não vim para esta alcateia miserável para ser tratada como uma subordinada, Philip! — Fiona Nightshade esbravejou, marchando pelo salão. Ela vestia suas habituais sedas escuras, mas sua postura exalava a arrogância militar da Alcateia das Sombras. — O meu pai enviou três regimentos de guerreiros para reforçar as suas fronteiras fracas, e você ainda não conseguiu me entregar o controle das minas de prata do norte!

— Aquelas minas pertencem ao conselho dos anciãos da Lua de Sangue por direito de herança, Fiona! — Philip rosnou de volta, sua energia de Alfa oscilando, desgastada por um ano de brigas incessantes e humilhações políticas. — Eu sou o Alfa aqui! Eu tomo as decisões!

Fiona soltou uma gargalhada histérica e cruel, aproximando-se dele até que seus olhos escuros fixassem os dele com absoluto desprezo.

— Você só é Alfa porque o meu pai permitiu, seu tolo! Você trocou a sua dignidade pela nossa aliança. Se a Alcateia das Sombras retirar o apoio militar amanhã, os bandos vizinhos engolem a Lua de Sangue em uma semana. Então não grite comigo. Você escolheu a ambição, agora arque com o preço dela.

Philip recuou um passo, o impacto daquelas palavras atingindo seu orgulho como um soco físico. Ele olhou para a mulher que agora dividia sua cama e seu trono, e sentiu uma onda sufocante de arrependimento. Fiona não tinha doçura. Ela não tinha compaixão. Ela o via apenas como uma peça de xadrez para expandir o império de sua família.

Neste momento de silêncio tenso, a porta do salão se abriu e Katherine, a irmã de Philip, entrou correndo. Sua habitual expressão de deboche havia desaparecido, substituída por um pavor visível.

— Philip... os anciãos acabaram de sair da biblioteca ancestral — Katherine disse, a voz trêmula. — Eles... eles terminaram de traduzir os pergaminhos da linhagem da mãe da órfã. Daquela criada que você expulsou no ano passado.

Philip franziu o cenho, o nome de Lyra Frostwood ecoando em seu peito como um fantasma incômodo que ele tentava esquecer todos os dias. Nos seus momentos mais escuros, ele ainda se pegava lembrando das noites nos corredores secretas, da maciez dos cabelos brancos dela e do jeito que os olhos verdes esmeralda olhavam para ele com um amor puro que Fiona jamais seria capaz de sentir.

— O que tem os registros daquela fraca, Katherine? Ela morreu no exílio há um ano, o assunto está encerrado — Philip disse, tentando manter a voz firme diante do olhar atento e desconfiado de Fiona.

— Não, Philip... ela não era uma órfã comum — Katherine engoliu em seco, olhando de relance para Fiona antes de focar no irmão. — A mãe de Lyra pertencia à linhagem perdida dos Guardiões das Cinzas. O sangue real ancestral corria nas veias dela. Se Lyra estiver viva, e se a loba dela tiver acordado... o poder que ela carrega vale mais do que todos os exércitos das Grandes Terras combinados. Nós jogamos fora a herdeira mais poderosa do continente.

Um silêncio mortal caiu sobre o salão. O rosto de Philip perdeu toda a cor instantaneamente, e o copo que ele segurava escorregou de seus dedos, caindo no chão. O erro de sua ambição acabara de cobrar o preço mais alto possível.

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