MasukLarissa
Minha mãe parecia ter envelhecido dez anos em uma tarde. Era uma coisa que eu não sabia que era possível ver acontecer em tempo real, mas aconteceu. Quando a encontrei no meio da sala cheia de gente — sendo amparada pela tia Lúcia, cercada de rostos conhecidos, os olhos completamente ocos daquele jeito específico de quem perdeu a âncora principal — vi que ela já era levemente diferente da mulher que eu tinha deixado na cozinha pela manhã. Não nos traços. Não exatamente. Era mais no jeito que ela sustentava o próprio peso — como se o centro de gravidade tivesse se deslocado, como se ela estivesse precisando reaprender a equilibrar sem a presença que tinha sustentado seu equilíbrio por tantos anos. Corri até ela. Me aninhei nos seus braços. Ela me abraçou com uma força que me surpreendeu — a força desesperada de quem precisa segurar alguma coisa que não vai embora. Ficamos assim por um tempo que não sei calcular, as duas de pé no meio da sala cheia de vozes baixas e movimentos cuidadosos, abraçadas e chorando do jeito que as duas sabíamos fazer — sem escândalo, sem alarido, chorando feito chuva fina que não para mas também não vira temporal. Quando o choro deu uma trégua e eu precisei de ar, soltei minha mãe com delicadeza, certifiquei que a tia Lúcia estava perto dela, e fui pra varanda. Precisava de ar de verdade. O ar da sala estava pesado com a presença de tantas pessoas e com o cheiro de café que alguém tinha feito sem que ninguém pedisse, porque é o que se faz nessas horas — você faz café porque é a única coisa concreta e útil que consegue fazer quando não há nada de concreto e útil que resolva alguma coisa. Na varanda, encontrei Diogo. Estava encostado no batente, olhando pra rua, virou assim que sai pela porta, ele parecia sentir minha presença. — Lari. Veio ao meu encontro antes que eu chegasse até ele. Me abraçou com aquele abraço que era diferente dos outros — não o abraço apertado e urgente da minha mãe, mas o abraço firme e constante de quem está dizendo: aqui estou. Pode se apoiar. Não vou embora. Fiquei ali por um tempo sem dizer nada. Deixando o calor do corpo dele fazer alguma coisa com o frio que ainda havia no meu peito desde o quarto, desde a carta, desde o silêncio que veio depois. — Como está se sentindo? — perguntou ele, a voz baixa, sem tirar o queixo do meu cabelo. — Procurei você antes, mas já estava no quarto. Fiquei aqui. — Sabia que você estava. — Era verdade. De alguma forma, mesmo do quarto, mesmo com o chuveiro e o banheiro e a porta trancada entre nós, eu sabia que ele estava esperando. Ficamos quietos por um momento. — Di. — Comecei sem saber direito onde a frase ia terminar. — Ele me pediu que eu fosse feliz. Que seguisse em frente. Que não deixasse minha felicidade depender de ninguém. — Era um homem muito sábio. — Era. — A voz saiu menor do que eu queria. — É. Era. — Ainda não estava acostumada com o tempo verbal. Ia demorar um tempo. — Como eu vou fazer isso sem ele, Di? Ele era a pessoa que me ajudava a não ter medo das coisas novas. Quando havia algum obstáculo, eu perguntava o que ele faria, e isso já era suficiente. Diogo se afastou levemente pra poder me olhar. Pegou o meu rosto nas duas mãos — o gesto simples e completo de alguém que quer que você saiba que está sendo visto. — Você vai fazer do jeito que você sempre fez as coisas, Lari. Com mais coragem do que a maioria das pessoas que eu conheci na vida. — Disse sem hesitar, sem a falsidade mole de quem quer consolar sem comprometer. — Só que agora vai ser mais difícil por um tempo. E tudo bem que seja mais difícil. Você não precisa fingir que não é. Fiquei olhando pra ele. Três anos mais velho. Segundo ano de medicina. Cabelos cheios de cachos que a mãe dele insistia que ele cortasse e que ele insistia em deixar crescer. Olhos castanhos escuros que eu conhecia desde sempre, que tinham me olhado com tantos tipos de expressão ao longo de anos que eu tinha perdido a conta. — mas que naquele momento tinham algo que eu não sabia nomear, alguma coisa funda demais pra caber numa palavra só. — Queria que você soubesse uma coisa. — Ele abaixou as mãos, mas ficou perto, os olhos ainda nos meus. — Aqui dentro — pôs a mão no peito — tem um lugar que é seu. Sempre foi. Pode ser que você nunca queira ocupar esse lugar do jeito que eu quero que você ocupe, e tudo bem. Mas quero que saiba que existe. E não vai a lugar nenhum. — Di. — Levantei a mão num gesto que queria dizer para, mas que saiu mais suave do que isso. — Não estou te cobrando nada. — Me interrompeu antes que eu completasse. — Não é hora e eu sei disso. Só não quero que passe mais tempo sem você saber. Não hoje. Hoje não faz sentido guardar. Olhei pra ele por um tempo. Depois, sem dizer mais nada, voltei pro abraço dele. Enterrei o rosto no peito dele e fiquei ali enquanto a noite caía e mais gente chegava e a varanda recebia o barulho baixo das ruas de Serra e o céu ficou primeiro roxo, depois escuro, e as estrelas apareceram uma a uma sobre as montanhas que cercavam a cidade. Diogo ficou a madrugada toda. Não foi embora. E quando todo mundo tinha ido embora e a sala finalmente ficou quieta, ele ainda estava — numa cadeira na sala, a cabeça encostada na parede, os olhos fechados mas sem dormir de verdade, acordado do jeito de quem está de guarda. Eu não sabia ainda o que fazer com tudo que ele tinha me dito. Mas sabia que havia pessoas que ficavam. E que isso valia mais do que eu conseguia calcular naquela noite.LarissaParte 3 — Café da Manhã e PromessasAcordei com o sol entrando forte pela janela, o som das ondas quebrando lá fora criando a trilha sonora mais gostosa que eu já tinha ouvido em uma manhã.— Bom dia, esposa. — Sussurrou Gustavo, a voz ainda rouca de sono, os lábios beijando meu ombro nu.— Bom dia. — Respondi, virando-me nos braços dele, o sorriso brotando automático ao ver o rosto dele tão perto do meu, o cabelo bagunçado de um jeito que eu achava irresistível. —— Dormiu bem? — Perguntou, afastando uma mecha de cabelo do meu rosto com carinho.— Melhor que nunca. — Confirmei, esticando-me preguiçosa sob os lençóis. — Acho que nunca me senti tão descansada e tão cansada ao mesmo tempo.Ele riu, um som baixo e satisfeito, puxando-me para mais perto até nossos corpos se encaixarem completamente.— Eu te amo, sabia? — Disse, sério de repente, os olhos carregados de uma sinceridade que eu sentia até os ossos. — Cada dia mais.— Eu também te amo. — Respondi, tocando o rosto dele.
LarissaParte 2 - Cuidados e PromessasA água quente batendo na minha pele absurdamente sensível foi como um choque elétrico de vida. Aos poucos, a dormência pesada ia descendo pelo ralo.Eu tava totalmente encostada no peito do Gustavo, sentindo o compasso do coração dele bater forte e constante nas minhas costas nuas.O contraste era uma loucura. O mesmo cara que há pouco me levava ao limite da dor, do choro e do gozo, agora era o meu porto seguro absoluto.Ele pegou o sabonete líquido que tinha trazido do Brasil. O cheiro amadeirado, forte e limpo que eu amava preencheu o vapor do banheiro na hora.As mãos imensas dele, que antes me apertavam com força bruta até deixar marca, começaram a ensaboar os meus ombros com movimentos lentos e circulares.Cada toque carregava um cuidado visceral. Uma devoção calada que contrastava violentamente com a agressividade animalesca de horas atrás.Ele esfregava a espuma grossa nas marcas vermelhas dos meus braços com a ponta dos dedos, limpando
GustavoParte 1 — Trazendo Você de VoltaO silêncio do quarto gigantesco só era quebrado pelo barulho do mar Egeu chocando contra as pedras lá embaixo.Faz mais de uma hora que a respiração dela estabilizou. Pesada, rítmica e profunda, o peito subindo devagar contra o meu braço dormente.Eu não dormi nem por um segundo. Era impossível apagar o cérebro depois da descarga de adrenalina bruta que a gente dividiu naquela cama.Fiquei só vigiando o sono pesado dela, sentindo o cheiro de suor, de sexo e daquela porra da cera de baunilha que ainda marcava a pele dela.Ver a Larissa assim, completamente desmontada e entregue, era um privilégio que ela não dava pra ninguém nesse mundo.A mulher delicada e mãe zelosa, tava ali. Nua, marcada e pequena no meu abraço.O corpo dela deu um sobressalto pequeno nos lençóis, um espasmo muscular involuntário de quem tava finalmente voltando pra superfície.Os cílios longos tremeram antes dos olhos escuros abrirem devagar, piscando contra a meia-luz d
LarissaParte 5 — O Pouso SeguroO mundo ao meu redor derreteu e virou uma massa cinzenta de som abafado, peso e calor espesso. Eu já não sentia o meu próprio corpo.A dor ardida nas coxas, o calor esquisito da cera no peito, a pressão fria e implacável da faixa que prendia meus pulsos. Tudo isso se fundiu num formigamento anestesiado e absurdamente distante.Era como boiar no meio de um oceano escuro e morno, sem saber onde ficava a superfície. E a melhor parte, a parte mais intensa: eu não queria descobrir onde era a saída.Não tinha mais caos mental. Não existia ali a mãe, não tinha família, não tinha a obrigação a obrigação de ser a mulher perfeita.Só tinha a escuridão confortável, o eco das batidas aceleradas do meu próprio coração, e a sensação de estar completamente vazia. Oca.Eu flutuava no que o Gustavo chamava de subspace. O colapso sensorial absoluto. O lugar pra onde eu fugia quando entregava o controle da minha vida pra ele.O impacto daquele orgasmo duplo ainda rev
GustavoParte 4 - Empurrando Para O LimiteEu tava empurrando a Larissa pro limite. Pro lugar onde a mãe cuidadosa, a mulher atenciosa morria e sobrava só a fêmea entregue, aberta e desesperada por mim.- Gustavo, por favor, eu preciso de você, eu não aguento - ela soluçava, não de tristeza, mas daquele colapso sensorial absoluto.Joguei o flogger no chão de qualquer jeito. O som surdo da madeira batendo na pedra foi a única resposta que eu dei antes de subir nela.- Eu avisei que o tempo era meu - rosnei, me posicionando entre as pernas dela de novo, segurando os quadris dela com uma força que ia deixar marca.Não teve aviso dessa vez. Eu não tava mais testando as águas. Eu entrei de uma vez só, rasgando o caminho pra dentro dela com brutalidade pura.O grito que saiu da garganta da Larissa me arrepiou dos pés à cabeça. Foi agudo, quebrado, o som de alguém que tava sendo partida ao meio e adorando cada segundo.O choque da penetração depois da tortura sensorial foi avassalador. As
Gustavo(Música - "Outta My Head (feat. Rick Jansen & Ordell)" - OMIDO)Parte 3 — A Queda LivreA expressão no rosto da Larissa valia cada segundo daquela espera. O choque, o medo misturado com o tesão absoluto, a respiração presa na garganta seca.Ela tava ali, amarrada na cama da nossa lua de mel, tremendo enquanto me via abrir o zíper daquela maleta preta.Eu não trouxe muita coisa. A gente ia passar a maior parte do tempo turistando pelas pedras de Santorini, e eu conhecia a mulher que tinha.Mas eu sabia que a nossa primeira noite oficial precisava de uma âncora. Algo que puxasse ela da realidade pesada que ela carregava o dia todo nas costas.Puxei a vela de baixa temperatura, a cera negra contrastando com a luz amarela do abajur. O cheiro de baunilha e couro tomou o quarto no segundo que acendi o pavio.O barulho do clique do isqueiro de metal ecoou alto pra caralho no quarto silencioso.— Gustavo... — Ela chamou, a voz falhando, os olhos arregalados acompanhando a chama peq







