Compartilhar

Capítulo 7

Autor: BNLabaig
last update Data de publicação: 2026-11-01 02:25:49

Helena Gryepe

O vento começou a uivar contra as janelas antes mesmo de Marlon terminar de fechar a pasta.

"Merda! A tempestade começou mais cedo. Não temos tempo. Vamos!"

Meu pai se levantou às pressas. Minha mãe pegou a bolsa, enquanto Mariana verificava o celular. Do lado de fora, a neve atravessava o jardim em rajadas violentas, cobrindo os degraus da entrada.

Marlon se virou para os seguranças.

"Tranquem-na no porão."

Por um instante, achei que tivesse ouvido errado.

"Não! Marlon, você não pode me deixar aqui!"

Tentei escapar, mas os homens me agarraram pelos braços e me arrastaram pelo corredor. Meu corpo estava fraco demais para resistir depois de quase um ano trabalhando até a exaustão, comendo pouco e suportando as agressões daquela casa.

Fui jogada no chão de pedra do porão. Antes que conseguisse me levantar, a porta bateu.

Corri até ela e comecei a esmurrá-la.

"Abre! Por favor!"

Ouvi a chave girar do outro lado.

"Esse é o seu fim, Helena", Mariana respondeu, seguida de uma gargalhada.

Seus passos se afastaram.

Bati na porta até minhas mãos doerem, mas ninguém voltou. Pouco depois, ouvi o barulho dos carros sendo preparados e as vozes apressadas da minha família.

"A estrada vai fechar!", meu pai gritou.

"Então vamos!", Mariana respondeu.

"Não! Esperem! Eu não quero morrer!"

O som dos motores foi ficando distante até desaparecer por completo.

Eles tinham ido embora.

Minha própria família me deixara para morrer.

Por alguns segundos, fiquei imóvel, tentando aceitar o que acabara de acontecer. Então enxuguei as lágrimas e me obriguei a levantar. Não morreria ali. Não depois de tudo o que tinham feito comigo.

Encontrei uma barra de metal entre as ferramentas guardadas num canto e a encaixei na fresta da porta. Meus braços tremiam enquanto eu forçava a madeira, até que a fechadura cedeu.

A casa estava vazia.

Corri até o escritório de Marlon, procurando um telefone, alguma informação, qualquer coisa que pudesse me ajudar. Sobre a mesa, encontrei uma agenda com números. Passei as páginas com os dedos dormentes até encontrar um nome.

Conrado Windsor.

Fiquei encarando o número.

Durante meses, tentei apagar aquele homem da minha memória. Convenci a mim mesma de que traí-lo porque amava Marlon, de que não tinha escolha, de que um dia tudo faria sentido.

Mas agora, enquanto a tempestade ameaçava engolir o mundo lá fora, eu só conseguia pensar no homem que havia me tratado com mais carinho em poucas semanas do que Marlon em sete anos.

Eu precisava me despedir.

"Alô?"

Apertei o telefone contra o ouvido, assim que ouvi a voz dele, e a saudade me inundou.

"Conrado..."

Houve uma pausa.

"Helena?"

Ouvir meu nome na voz dele desfez o pouco de força que ainda me restava.

"Me desculpa." As lágrimas escorreram pelo meu rosto. "Eu não sabia o que Marlon pretendia fazer com seus documentos. Ele me enganou. Minha família também. Eu roubei suas pesquisas e entreguei tudo a ele, mas juro que não sabia para que seriam usadas. Juro que eu achei que eles eram bons. Me desculpa, de verdade, eu sinto muito por tudo que causei a você."

"Onde você está, Helena? Esquece o que aconteceu, não temos tempo agora. Eu te procurei. Sua família disse que não sabia onde você estava!"

"Estou na mansão Fiore."

A voz dele mudou imediatamente.

"Os desgraçados mentiram para mim. Fique onde está. Estou indo buscar você. Estamos prestes a enfrentar um apocalipse climático."

Olhei para a janela, onde a neve já cobria quase todo o jardim.

"Não venha. Salve a sua vida. Eu não valho a pena."

"Helena, não temos tempo para essa conversa. Estou indo. Não saia daí!"

A ligação começou a falhar.

"Conrado..."

"Helena?"

A chamada caiu.

Tentei ligar novamente, mas o telefone não completou a ligação.

Não podia esperar. A temperatura despencava, o aquecimento falhava e o vento fazia as janelas tremerem. Peguei um casaco grosso, luvas, uma lanterna e algumas provisões. Depois, saí pela porta dos fundos.

A neve chegava aos meus joelhos. Mal conseguia enxergar a rua, mas continuei avançando, guiada apenas pela esperança de encontrar abrigo antes que o frio me vencesse.

Não sei quanto tempo caminhei. Tropecei no gelo, caí e precisei lutar para me levantar. Meus dedos perderam a sensibilidade, minhas pernas ficaram pesadas e cada respiração parecia rasgar meu peito.

Quando finalmente desabei na neve, já não tinha forças para continuar.

Foi então que ouvi alguém gritar meu nome.

"HELENA!"

Levantei a cabeça com dificuldade.

Uma figura surgiu no meio da tempestade, avançando contra o vento. Quando se ajoelhou diante de mim, reconheci o rosto que eu temia nunca mais ver.

Conrado.

"Meu Deus..." Ele tocou meu rosto, os olhos percorrendo minhas roupas encharcadas e minhas mãos arroxeadas. "Helena, olhe para mim. O que eles fizeram com você?"

Tentei sorrir.

"Você veio."

"Claro que vim."

Ele tirou o próprio casaco e o colocou sobre meus ombros antes de me erguer nos braços.

"Vamos sair daqui. Fique comigo, está me ouvindo? Não feche os olhos."

Apoiei a cabeça contra o peito dele. Mesmo com o vento rugindo ao nosso redor, consegui ouvir seu coração.

Eu queria ter conhecido aquele homem antes. Queria ter enxergado a diferença entre suas atitudes e as promessas vazias de Marlon. Queria ter escolhido confiar nele quando ainda havia tempo.

"Conrado..."

"Estou aqui."

Apertei o tecido do casaco com os poucos movimentos que meus dedos ainda conseguiam fazer.

"Se houver outra vida, eu prometo que nunca mais vou te trair. Eu juro, nunca mais... você é bom, é honesto... Merecia ter uma vida maravilhosa, e eu estraguei tudo."

Ele baixou o rosto para me encarar.

"Não fale assim. Você vai sair dessa."

"Eu devia ter confiado em você."

Por um instante, vi a dor atravessar seus olhos. Ele me apertou contra o peito e continuou caminhando, tentando nos afastar da tempestade.

Então um rugido ensurdecedor atravessou a rua.

Conrado olhou para trás. Uma muralha de neve e vento avançava em nossa direção, arrancando árvores e lançando destroços pelo ar.

"Segure-se em mim!"

Ele tentou me proteger com o próprio corpo, mas a força da tempestade nos atingiu antes que encontrássemos abrigo.

Senti os braços dele se fecharem ao meu redor.

Depois, tudo desapareceu.

***

Não sabia quanto tempo havia se passado quando finalmente abri os olhos.

Por alguns segundos, fiquei imóvel, encarando o teto branco acima de mim. A luz atravessava as cortinas, o perfume das flores se espalhava pelo quarto e os lençóis macios cobriam meu corpo.

Pisquei, confusa.

Eu não estava mais na neve? Conrado e eu havíamos sido resgatados?

Levei as mãos ao rosto. Minha pele estava quente. Meus dedos não estavam feridos, minhas roupas não estavam encharcadas e não havia dor em meu corpo.

Eu estava viva.

Uma batida soou à porta.

"Senhorita Helena? Está acordada? Precisamos nos apressar. Hoje é o seu casamento!"

Meu coração parou por um instante.

Casamento?

O que estava acontecendo?

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 24

    Conrado WindsorOs créditos do filme começaram a subir na televisão, mas Helena já havia adormecido fazia algum tempo.Ela estava encolhida contra meu peito, com uma das mãos agarrada à minha camisa e o rosto parcialmente escondido sob meu queixo. De vez em quando, soltava um suspiro tranquilo, completamente alheia ao fato de que eu estava preso naquela posição havia quase meia hora.Peguei o controle remoto com cuidado e desliguei a televisão.Agora precisava sair dali sem acordá-la.Afastei delicadamente alguns fios de cabelo de seu rosto e tentei soltar sua mão da minha camisa. No instante em que me movi, porém, Helena resmungou alguma coisa e apertou os dedos."Não..."Parei.Ela se acomodou novamente, esfregando o rosto contra meu peito."Helena, preciso levantar."Não houve resposta. Apenas um pequeno movimento de cabeça.Tentei outra vez, mas ela agarrou meu braço."Por favor, não vá embora..."Olhei para baixo.Seus olhos continuavam fechados. Ela estava dormindo."Eu só vou p

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 23

    Helena GryepeEu estava tentando encontrar uma posição confortável entre os travesseiros quando ouvi duas batidas na porta."Entre!"Conrado apareceu carregando a bandeja que Madalena havia preparado. Sobre ela estavam uma tigela enorme de pipoca e duas latas de refrigerante.Meu sorriso surgiu antes mesmo que eu percebesse."E não é que você está mesmo preparado?"Ele fechou a porta com o pé e caminhou até a cama."Esperava que eu aparecesse de mãos vazias?""Não sei. Você não tem cara de quem gosta de uma noite de filmes."Conrado soltou uma risada enquanto colocava a bandeja sobre a mesinha."Posso providenciar alguém melhor, se minha companhia não for suficiente.""Não foi isso que eu quis dizer."Ele pegou o controle remoto."Então, senhora Windsor, qual será nossa programação?"O modo como pronunciou meu novo sobrenome fez meu coração bater um pouco mais rápido. Ainda era estranho ouvi-lo me chamar assim, mas eu gostava. Gostava muito mais do que deveria."Você gosta de filmes d

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 22

    Conrado WindsorDepois de deixar Helena no quarto, segui para o escritório, que ficava no andar superior da casa.Precisava organizar algumas coisas antes de decidir como conduziria aquela situação.A conversa com ela havia me deixado com mais perguntas do que respostas. Ainda assim, suas observações sobre as alterações climáticas faziam sentido. Eu não podia simplesmente ignorá-las só porque não sabia de onde vinha tanto conhecimento.Sentei-me à mesa, abri meu computador e digitalizei o contrato de casamento que Helena havia assinado. Em seguida, peguei o celular e liguei para Amanda.Ela atendeu no segundo toque."Me ligando na hora do expediente? Não está na empresa?""Não começa, Amanda."Ouvi sua risada do outro lado."Está bem. O que precisa?""Estou enviando o contrato de casamento. Anexe ao processo e solicite as informações que os Gryepe prometeram disponibilizar depois da assinatura.""Finalmente! Quero ver o que esses safados estão escondendo.""Não acho que será nada rele

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 21

    Helena GryepeConrado continuava sentado diante de mim, esperando uma resposta.Eu sabia que não poderia contar tudo. Não ainda. Se revelasse que já havia vivido aquela catástrofe, teria que explicar como voltei no tempo, como sabia o que aconteceria e, principalmente, como conhecia tantos detalhes sobre ele.Precisava escolher minhas palavras com cuidado."Antes de tudo, você precisa entender que a catástrofe não vai acontecer de uma hora para outra. Haverá uma sequência de alterações climáticas que, isoladamente, podem parecer eventos naturais sem relação entre si."Conrado apoiou os braços nos joelhos."Que tipo de alterações?""Primeiro, as oscilações de temperatura vão se tornar mais frequentes e intensas. Algumas regiões começarão a registrar mudanças bruscas em períodos muito curtos. Depois, teremos alterações na pressão atmosférica que não seguirão os padrões esperados para determinadas épocas do ano."Ele permaneceu atento."Isso já acontece em algumas regiões.""Sim, mas a f

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 20

    Conrado WindsorContinuei olhando para Helena, tentando organizar tudo o que acabara de ouvir.A ligação confirmava minhas suspeitas. A família Gryepe realmente pretendia usar o casamento para conseguir acesso às minhas pesquisas. Marlon Fiore queria que ela me enganasse, roubasse informações e provasse seu amor obedecendo às ordens dele.Era exatamente o tipo de coisa que eu esperava daquela família.Mas, por algum motivo, não era isso que mais me incomodava.Minha atenção voltou para Helena.Ela havia abaixado os olhos e segurava o celular com a mão boa, como se desejasse desaparecer dentro daquela chaise. Não parecia surpresa com as palavras de Marlon. Não demonstrava indignação, nem mesmo revolta. Apenas vergonha.Como alguém podia se acostumar a ser tratado daquela maneira?Aquele homem acabara de chamá-la de inútil, ameaçara abandoná-la e ainda exigira que ela provasse seu amor roubando informações de outro homem.E Helena havia respondido que faria o melhor.Cerrei a mandíbula.

  • Renascida antes do Apocalipse: O último trunfo do meu Inimigo   Capítulo 19

    Helena GryepeEncontrei um dos meus livros favoritos na terceira estante, quase no mesmo lugar em que costumava deixá-lo na outra vida.Era um exemplar sobre padrões climáticos e alterações atmosféricas, com algumas páginas marcadas e anotações nas margens. Eu e Conrado costumávamos discutir aquele livro por horas. Às vezes, discordávamos tanto que precisávamos consultar outros estudos para descobrir quem estava certo.Sorri ao reconhecer uma pequena marca na lateral da capa.Era dele.Escolhi uma das chaises próximas à janela e me acomodei com cuidado, procurando uma posição que não pressionasse os curativos. Apoiei algumas almofadas nas costas e deixei as pernas estendidas sobre o estofado.Logo estava completamente mergulhada na leitura.As palavras pareciam me transportar para outro lugar. Eu conhecia boa parte daqueles conceitos, mas ainda gostava de revisitar as explicações, principalmente porque algumas das teorias apresentadas haviam sido aperfeiçoadas por Conrado nos anos seg

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status