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Capítulo 6

Autor: BNLabaig
last update Data de publicação: 2026-11-01 02:25:20

Helena Gryepe

Um ano depois

Quase um ano havia se passado desde que Marlon me deixara na mansão Windsor.

Às vezes, quando acordava no escuro do porão, eu precisava de alguns segundos para me lembrar de quem havia sido antes de tudo aquilo acontecer.

A mulher que usava vestidos elegantes, que cuidava dos cabelos e que sonhava com um casamento, havia desaparecido. Em seu lugar, restava alguém magra demais, com o rosto abatido, olheiras profundas e cicatrizes espalhadas pelos braços e pelas pernas.

Meus cabelos, antes longos e bem cuidados, viviam presos de qualquer maneira. Minhas mãos estavam ásperas por causa dos produtos de limpeza, e meus joelhos doíam sempre que precisava me ajoelhar para esfregar o chão.

Eu já não me reconhecia.

Aprendi a andar sem fazer barulho, a baixar os olhos quando Mariana passava e a desaparecer pelos corredores sempre que ouvia a voz de Marlon. Qualquer motivo servia para me punirem. Uma taça fora do lugar, uma refeição servida alguns minutos atrasada, uma resposta que Mariana considerasse atrevida.

Por isso, eu tentava ser invisível.

Não porque tivesse deixado de sentir raiva, mas porque aprendera que demonstrá-la só tornava meus dias piores.

Naquela manhã, terminei de limpar o corredor principal e fui guardar os produtos na área de serviço. A casa estava mais movimentada do que de costume. Funcionários carregavam caixas, malas eram retiradas dos armários, e alguns homens que eu não conhecia conversavam com meu pai no escritório.

Pensei em continuar meu caminho, mas ouvi a voz de Marlon vindo da sala.

"Os últimos relatórios confirmam o que estávamos esperando. A queda de temperatura vai ser muito pior do que as previsões públicas indicam. Todos os ingressos já foram vendidos."

Parei atrás da parede.

Outra voz respondeu:

"Sem aqueles arquivos, não teríamos conseguido antecipar a dimensão do problema. Ainda bem que roubamos o restante das informações do Windsor. Nosso projeto de sobrevivência não estaria nem perto de estar pronto sem eles."

Senti o sangue desaparecer do meu rosto.

As informações.

As fotografias que eu enviara a Marlon. Os documentos que havia copiado do escritório de Conrado, acreditando que seriam a última etapa antes de finalmente ficar com o homem que amava.

Aquelas informações tinham servido para alguma coisa muito maior do que eu imaginara.

Aproximei-me um pouco mais, tomando cuidado para não ser vista.

Meu pai estava sentado em uma poltrona, segurando um copo de bebida. Minha mãe permanecia ao lado dele, enquanto Marlon examinava alguns papéis sobre a mesa. Mariana estava sentada junto à janela, usando um casaco elegante e brincando com a aliança no dedo.

Os quatro pareciam tranquilos.

Como se o mundo não estivesse prestes a mudar.

"Os abrigos estão prontos?", perguntou meu pai.

"Os principais, sim", respondeu Marlon. "Temos geradores, combustível, alimentos e água armazenados. A estrutura foi reforçada para suportar as condições previstas nos relatórios."

Minha mãe soltou uma risada aliviada.

"Pelo menos todo aquele dinheiro serviu para alguma coisa."

Mariana cruzou as pernas.

"E pensar que, sem a nossa querida Helena, talvez ainda estivéssemos tentando descobrir o que estava acontecendo."

Os quatro riram.

Eu apertei a bandeja contra o peito.

Não era possível.

Eu havia passado quase um ano sendo castigada, humilhada e tratada como um animal naquela casa. Enquanto isso, eles usavam as informações que eu roubara para preparar a própria sobrevivência, sem pensar no resto do mundo.

Meu pai ergueu o copo.

"À família Gryepe. Sempre encontramos uma maneira de sair por cima."

Minha mãe brindou com ele.

"Desde que cada um saiba o seu lugar."

Marlon sorriu e colocou os papéis dentro de uma pasta.

"Não precisamos nos preocupar com mais nada. Quando a situação piorar, já estaremos longe daqui."

Senti um nó na garganta. Para onde eles iriam?

Afastei-me devagar, tentando controlar a respiração. Precisava voltar para a área de serviço antes que alguém percebesse minha presença.

Foi quando ouvi Mariana falar novamente.

"Então vamos hoje?"

Marlon respondeu sem hesitar.

"Sim. Não podemos esperar mais."

Olhei para o corredor. Minha primeira reação foi continuar andando, fingir que não tinha ouvido nada e voltar ao trabalho.

Mas então Mariana fez outra pergunta.

"E o que vamos fazer com a Helena?"

Parei.

Por alguns segundos, ninguém respondeu. Depois, ouvi a risada de Marlon.

"Deixe ela continuar zelando da casa." Ouvi uma explosão de risos.

Meu coração parou.

"Se sobrar casa, não é?"

"Não é mais problema nosso. Já vendemos isso aqui. O próximo proprietário que se encarregue de dar um fim a ela. Não temos espaço nem recursos para carregar alguém que não serve para nada."

Minha bandeja começou a tremer nas minhas mãos.

Eu poderia ter continuado escondida. Poderia ter fingido que não ouvira, na esperança de encontrar outra oportunidade para escapar.

Mas, depois de quase um ano suportando tudo aquilo, eu precisava olhar nos olhos deles.

Virei-me para a entrada da sala.

Os quatro se calaram quando me viram.

Meu pai pousou o copo sobre a mesa. Minha mãe franziu a testa. Mariana deixou de sorrir por um instante, enquanto Marlon me encarava com irritação, como se eu tivesse cometido uma ofensa apenas por estar ali.

Eu mal conseguia sentir as pernas.

"Vocês são nojentos. Asquerosos. O pior tipo de gente que eu conheço. Queria nunca ter nascido nessa família."

Ninguém respondeu, então meu pai bateu a mão na mesa.

"Ouvindo atrás da porta, Helena? Você é mesmo uma inútil." Engoli o choro.

"Como podem me usar desse jeito e agora me descartar? Vocês me devem." Então minha mãe se levantou e bateu em meu rosto com toda a força, me fazendo cair.

"Eu não te devo nada, sua maldita. Você foi adotada por um propósito e já o cumpriu; agora volte para sua insignificância."

"Adotada?" Falei, deixando que as palavras se perdessem, enquanto segurava meu rosto latejando.

"Achou mesmo que eu iria parir alguém tão baixa como você? Deveria ter percebido antes." Ela riu e se virou. "Vamos logo, não quero mais ter o desprazer de olhar para a cara dela."

Marlon se aproximou, e me arrastei pelo chão até me encostar na parede. Eu conhecia a crueldade dele. 

"Espero que tenha uma boa vida, Helena." ele riu e se afastou. "Joguem-na no porão e tranquem a porta. Não quero que ela apareça no meio do caminho e atrase tudo."

Eu olhei para os quatro, procurando algum sinal de hesitação, algum vestígio de culpa ou de carinho. Qualquer coisa que me fizesse acreditar que ainda existia uma família ali.

Não encontrei nada.

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