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Capítulo 02 - Amélia Caccini

Author: Karyelle Kuhn
last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-12 20:59:35

 

Os portões se fecharam atrás do carro com um som metálico profundo, pesado o bastante para vibrar dentro do meu peito. Não foi um estrondo violento. Foi pior. Foi definitivo. Observei pelo vidro escurecido enquanto as estruturas de ferro se encontravam no centro, selando a passagem como se o mundo tivesse sido dividido em dois: o antes e o depois. Do lado de fora, a estrada sinuosa desaparecia entre colinas silenciosas, oliveiras antigas e muros de pedra que pareciam existir ali há séculos. A Itália continuava a mesma — bela, histórica, indiferente. Do lado de dentro, tudo o que restava era silêncio.

Um silêncio espesso, carregado, quase físico.

— Chegamos.

A voz de Lorenzo soou tranquila demais para aquele momento, como se estivesse apenas anunciando a chegada a um hotel no interior do país. O carro desacelerou pelo caminho de pedras claras que cortava a propriedade, e cada solavanco parecia marcar o ritmo do meu coração descompassado. Tudo ali era perfeitamente alinhado. Árvores podadas com precisão excessiva. Jardins simétricos demais para parecerem naturais. Nenhuma folha fora do lugar. Nenhuma sombra que não tivesse sido calculada.

Aquilo não era beleza.

 Era controle.

A mansão surgiu diante de mim como algo retirado de um pesadelo luxuoso. Antiga. Imensa. Fria. A construção em pedra clara misturava arquitetura clássica italiana com linhas modernas que não suavizavam nada — apenas reforçavam a sensação de poder absoluto. Colunas altas sustentavam a entrada principal, e as janelas arqueadas refletiam a iluminação externa como olhos atentos, vigilantes, atentos demais. Não havia nada acolhedor naquela casa. Nada que lembrasse um lar. Era uma fortaleza disfarçada de residência.

O carro parou.

Por alguns segundos, ninguém se mexeu. Meu coração batia tão forte que eu podia senti-lo na garganta, pulsando de um jeito que tornava difícil até respirar. O ar parecia denso demais, pesado demais para entrar nos pulmões sem esforço consciente.

A porta se abriu.

— Senhorita.

Um dos homens estendeu a mão em um gesto mecânico, ensaiado. Ignorei completamente. Desci sozinha, sentindo as pernas levemente trêmulas, mas mantendo a postura. Não daria a eles o prazer de me ver fraca logo ali. O chão sob meus pés era firme, frio, real demais para aquilo tudo ser apenas um pesadelo do qual eu acordaria a qualquer momento.

Lorenzo saiu logo depois.

Ele parecia absolutamente à vontade naquele cenário. Como se cada centímetro daquela terra existisse porque ele permitia. O terno escuro contrastava com a pedra clara da mansão, os ombros largos ocupando espaço com naturalidade. Não havia tensão em seus movimentos. Nenhuma pressa. Nenhum sinal de conflito interno.

Era o território dele.

 E ele sabia disso.

— Entre.

O gesto em direção à porta principal foi simples, quase indiferente. Não foi um convite. Atravessei a entrada sentindo o peso invisível do lugar cair sobre mim no mesmo instante, como se a própria casa tivesse reconhecido que eu não pertencia ali.

O interior da mansão era ainda mais sufocante. O hall principal tinha um pé-direito duplo, amplo demais para parecer humano. Lustres de cristal pendiam do teto como coroas antigas, lançando reflexos frios sobre o chão de mármore italiano, que espelhava nossos passos e distorcia minha imagem a cada movimento, como se aquela casa estivesse me avisando, silenciosamente, que eu não sairia dali inteira.

As paredes exibiam quadros antigos, retratos de homens com sobrenomes importantes, olhares duros, expressões fechadas, ternos escuros. Todos pareciam carregar histórias que nunca foram contadas em voz alta. Histórias de sangue, acordos, mortes silenciosas. Nenhuma mulher. Nenhuma criança. Nenhuma lembrança de afeto.

— Parece um museu.

Minha voz saiu baixa, quase involuntária. Lorenzo ouviu.

— Museus guardam coisas mortas. Aqui guardamos legado.

Engoli em seco, sentindo o estômago se revirar.

Um dos seguranças surgiu carregando minha mochila. Pequena demais naquele espaço imponente. Ridícula. Era quase irônico pensar que aquilo representava tudo o que eu tinha conseguido salvar da minha vida antiga. Três cadernos. Alguns livros. Roupas dobradas às pressas. O resto havia ficado para trás — minha casa, minha rotina, minha liberdade.

— Você vai dormir no meu quarto.

Lorenzo já se afastava em direção às escadas quando disse isso. As palavras demoraram alguns segundos para serem processadas.

Parei imediatamente.

— Não.

Ele parou no meio do caminho e virou lentamente, com uma atenção calculada que me fez sentir como se estivesse sendo analisada peça por peça.

— O quê?

— Eu não vou dormir no seu quarto. Nós não estamos casados. Isso não faz sentido.

Ele me observou por alguns segundos em silêncio. Nenhuma reação impulsiva. Nenhum sinal de irritação. Apenas avaliação.

— Aparências importam. Especialmente aqui.

— Eu mereço respeito.

Lorenzo desceu um degrau. Depois outro. Parou a poucos centímetros de mim, alto demais, próximo demais.

— Isso é o respeito aqui. Você tem um quarto comigo. Outras mulheres… não teriam nem isso.

A frieza daquelas palavras me atingiu em cheio, como um tapa que não deixa marcas visíveis, mas quebra algo por dentro.

— Não vamos consumar nada antes do casamento — acrescentou. — Eu sigo regras… quando convém.

Meu rosto esquentou, mas não abaixei a cabeça.

— Onde está a minha cama?

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Onde eu disser.

Não havia escolha. Nunca houve.

Lorenzo virou-se e voltou a subir as escadas. Respirei fundo e o segui, sentindo cada degrau me afastar mais da Amélia que eu conhecia. A estudante. A filha. A garota que acreditava que o mundo funcionava de forma justa se você fizesse tudo certo.

A porta do quarto estava aberta quando chegamos.

Era enorme. Luxuoso. Tons escuros dominavam o ambiente, criando uma sensação constante de sombra. Madeira italiana, tecidos pesados, móveis sóbrios. A cama king ocupava o centro do espaço, impecável demais para parecer usada, como se ninguém realmente dormisse ali — apenas ocupasse.

Havia uma segunda cama, menor, colocada de lado.

— Aquela é minha. — As palavras saíram antes que eu pudesse pensar melhor.

Lorenzo me observou por um instante.

— Por enquanto.

O segurança colocou minha mochila sobre a cama menor e saiu. A porta se fechou atrás dele com um clique seco que ecoou alto demais.

Estávamos sozinhos.

— Amanhã você vai à faculdade — Lorenzo disse, afrouxando a gravata. — Com segurança.

— Isso é uma prisão.

— É proteção. A Itália não é gentil com quem carrega meu nome sem estar preparada.

— Nem você foi.

Por um segundo, algo diferente cruzou o olhar dele. Rápido. Contido. Logo desapareceu.

— Você vai se acostumar.

Ele entrou no banheiro sem esperar resposta. O som da água do chuveiro ligando ecoou pelo quarto, preenchendo o espaço com um ruído constante que não trazia conforto algum. Sentei-me na cama menor, segurando a mochila contra o peito como se aquilo pudesse me ancorar em quem eu ainda era.

A casa parecia viva ao meu redor. Antiga. Silenciosa. Observando.

Pensei no meu pai. Na minha casa. Na minha vida antes disso. Levantei-me e fui até a janela. Do lado de fora, as colinas italianas se estendiam sob a luz baixa da noite. Lindas. Enganosamente pacíficas.

— Eu vou sobreviver. — O sussurro soou frágil até para mim.

Porque aquela não era apenas a casa de Lorenzo Vacchiano :, era o coração do território dele.

E eu acabara de ser trancada dentro.

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