Home / Máfia / Rendida Ao Don / Capítulo 03 - Lorenzo Vacchiano

Share

Capítulo 03 - Lorenzo Vacchiano

Author: Karyelle Kuhn
last update Petsa ng paglalathala: 2026-10-12 21:01:16

Lorenzo

Meu pai nunca chamou alguém para conversar quando havia escolha. Quando ele mandava chamar, era porque a decisão já estava tomada muito antes de qualquer palavra ser dita. Conversas, naquele contexto, não serviam para negociar. Serviam apenas para informar.

Naquela noite, o cassino estava em pleno funcionamento. O salão principal pulsava como um organismo vivo, sustentado por promessas vazias e decisões desesperadas. O som das fichas se chocando ecoava constante, misturado às risadas nervosas de quem acreditava estar no controle e ao tilintar de copos sendo reabastecidos sem cessar. O cheiro pesado de charuto impregnava o ar, misturado ao perfume caro e ao medo invisível de quem ainda achava que poderia sair ganhando.

Subi para o andar superior sem pressa. Nunca houve urgência quando se tem poder. Cada degrau parecia reforçar algo que eu aprendera desde cedo: quem sobe correndo já está atrasado.

Entrei no escritório sem bater. Nunca bati naquela porta. Não por desrespeito, mas porque aquele espaço também me pertencia. Sempre pertenceu. Meu pai estava de pé diante da janela ampla, observando o cassino lá embaixo com as mãos cruzadas atrás das costas. A postura era rígida, controlada, como a de um general observando um campo de batalha que já sabia estar vencido. Ele não se virou quando me ouviu entrar.

— Você vai se casar.

A frase foi dita com a mesma naturalidade de quem comenta sobre o clima ou sobre um atraso insignificante. Levantei levemente uma sobrancelha, mas não respondi de imediato. Caminhei até o bar lateral e servi-me de um uísque. O gesto foi lento, deliberado. O gelo tilintou no copo como um metrônomo marcando o ritmo daquela conversa que jamais seria equilibrada.

— Não preciso de um casamento para fechar alianças — respondi por fim. — Temos dinheiro suficiente para comprar silêncio, território e lealdade.

Meu pai se virou então. O sorriso que surgiu em seus lábios não tinha qualquer traço de gentileza. Era o sorriso de alguém que já havia vencido antes mesmo de o outro perceber que estava jogando.

— Dinheiro compra tempo, Lorenzo — disse, com calma. — Mas não compra poder duradouro.

Ele atravessou o escritório sem pressa excessiva, abriu a gaveta da mesa principal e retirou de lá uma pasta preta. Grossa. Pesada. Definitiva. Jogou-a sobre a mesa, empurrando-a na minha direção como se fosse apenas mais um documento entre tantos outros que decidiam destinos.

— Leia.

Abri a pasta sem pressa. Fotos antigas surgiram primeiro, algumas amareladas pelo tempo, outras protegidas por plásticos transparentes. Rostos sérios. Mulheres jovens demais para carregar tanto silêncio nos olhos. Em seguida vieram certidões de nascimento, registros médicos, laudos genéticos, documentos escondidos sob nomes falsos, testamentos nunca reconhecidos oficialmente. Linhagens riscadas com caneta vermelha. Outras preservadas em silêncio por décadas, longe dos olhos do mundo.

Tudo estava organizado com uma precisão quase cirúrgica e no centro de tudo, um nome.

Amélia Caccini.

— Ela não é apenas a filha de um médico falido — meu pai disse. — A mãe dela era filha bastarda de Esteban Bellini.

Levantei os olhos lentamente.

— Bellini nunca teve herdeiros reconhecidos.

— Reconhecidos oficialmente — ele corrigiu. — Mas o sangue não mente. Está tudo aí.

Voltei aos papéis. Datas que se encaixavam com perfeição. Transferências feitas em segredo. Pagamentos silenciosos para manter distâncias seguras. Pessoas compradas para não fazer perguntas. Proteções montadas para garantir que aquela mulher permanecesse invisível ao mundo que um dia tentaria reclamá-la.

— Então ela é herdeira — murmurei.

— Legítima — confirmou. — Nunca apresentada. Nunca reivindicada. Invisível. Exatamente como precisava ser.

Fechei a pasta devagar, sentindo o peso real daquilo tudo não apenas nos papéis, mas no significado.

— E o pai dela? — perguntei. — Caccini não chegaria ao fundo sozinho.

Meu pai serviu dois copos de uísque e empurrou um na minha direção antes de beber o próprio.

— Claro que não. Nós o colocamos lá.

Tudo se encaixou de uma vez. As noites longas no cassino. As apostas improváveis que Caccini vencera no início. A sensação falsa de controle que se instala quando alguém acredita que ainda pode virar o jogo.

— Vocês o deixaram ganhar — observei.

— Dei esperança — corrigiu. — O suficiente para fazê-lo acreditar que ainda mandava em alguma coisa.

Charles Caccini era inteligente. Orgulhoso. Um homem acostumado a comandar salas cirúrgicas, a tomar decisões irreversíveis com mãos firmes. Mas tinha um defeito fatal: acreditava que sempre conseguiria virar o jogo antes da última ficha cair.

— Ele já não tem mais nada para apostar — continuei.

Meu pai sorriu lentamente.

— Tem, sim.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

— A filha — concluí.

— Exatamente. — Ele se inclinou para frente, apoiando as mãos na mesa.

— Nesta noite, Lorenzo, nós vamos garantir o poder que falta. O casamento com Amélia Caccini nos dá acesso total. Sangue. Nome. Aliança. Tudo o que dinheiro não compra.

— E você decidiu que eu seria parte disso.

— Não — respondeu com calma absoluta. — Você será a garantia.

Não discuti. Nunca discuti quando a lógica era impecável.

Descemos juntos para o salão do cassino. Charles Caccini estava acabado. O suor escorria pela testa, a gravata frouxa denunciava o descontrole, as mãos tremiam enquanto segurava um copo quase vazio. Não havia mais cálculo em seu olhar. Apenas medo. Desespero. A consciência tardia de que já havia perdido tudo.

Meu pai sentou-se à mesa com uma tranquilidade quase cruel.

— Última rodada — disse. — Se ganhar, todas as dívidas são perdoadas. O tratamento está garantido. Você sai daqui livre.

Charles engoliu em seco.

— E se eu perder…?

Meu pai olhou para mim.

— Sua filha se casa com meu filho.

O homem empalideceu.

— Amélia não é ninguém — murmurou, desesperado. — Não há motivo para vocês a quererem…

— Essa é a sua forma de continuar jogando — meu pai o interrompeu, frio. — Você já apostou tudo. Ela é a última coisa que restou.

Houve silêncio. Longo. Cruel. Charles relutou. Chorou. Implorou. Ofereceu a própria vida.

— Levem a mim — disse, quebrado. — Deixem minha filha fora disso.

Meu pai fez um gesto simples.

— Você não vale nada pra mim.

Um dos homens colocou a pasta aberta sobre a mesa. Charles reconheceu os documentos no mesmo instante. Os olhos se arregalaram, o corpo cedeu. Foi ali que ele entendeu por que a mãe de Amélia nunca falara sobre a própria família, por que nunca dissera quem realmente era, por que fugira daquele mundo antes que ele pudesse tocá-la.

Ele assentiu. Jogou. Perdeu.

Naquele momento, Amélia Caccini deixou de ser apenas uma mulher no mundo. Ela se tornou parte do nosso legado.

Charles saiu do cassino atordoado, mal conseguindo se manter de pé. Antes de desaparecer pela porta, ouvi meu pai dizer, sem emoção:

— Avise sua filha. Meu filho vai buscá-la.

Horas depois, eu estava em casa. A mansão respondeu a mim como sempre: silêncio, ordem, controle absoluto. Mas algo estava fora do lugar.

Amélia Caccini.

Eu a encontraria em breve. Não havia dúvida. Não havia conflito. Apenas execução.

Casamento era estratégia. Poder era sobrevivência. E Amélia era o preço necessário para garantir ambos.

Eu apenas ainda não sabia se ela seria apenas uma peça. Ou algo capaz de mudar o jogo.

Patuloy na basahin ang aklat na ito nang libre
I-scan ang code upang i-download ang App

Pinakabagong kabanata

  • Rendida Ao Don   Capítulo 05 - Amélia Caccini

    AméliaAcordei com a luz suave da manhã filtrando pelas enormes cortinas de linho bege. Pisquei algumas vezes, confusa, o corpo ainda pesado pelo sono. Por um segundo, meu cérebro tentou me enganar — me fazer acreditar que eu estava no meu quarto, na minha casa, na minha rotina. Mas então, o cheiro amadeirado do quarto me atingiu. A maciez exagerada dos lençóis. O silêncio. E o som sutil da respiração dele.Lorenzo ainda dormia.Virei o rosto devagar e o vi deitado de lado, de costas pra mim, o lençol baixo sobre os quadris, revelando a extensão de um corpo que parecia esculpido em pedra. Os cabelos estavam bagunçados, e o braço repousava sobre o travesseiro, relaxado, sem as linhas duras de quem mandava no mundo durante o dia. Por um instante, ele parecia... humano.Mas eu não podia me deixar cair nessa ilusão.Me sentei com cuidado, tentando não fazer barulho. O colchão afundou levemente sob meu movimento. Levei as mãos aos cabelos, afastando-os do rosto, e respirei fundo. O piso de

  • Rendida Ao Don   Capítulo 04 - Amélia Caccini

    Eu não esperava por aquilo, juro que não.Precisava organizar minhas coisas, fingir que aquela era só mais uma noite normal. Foi quando ouvi a água se desligando e... ele apareceu.Lorenzo saiu do banheiro como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sem toalha. Sem roupas. Sem pudor.Totalmente nu.Por um segundo — só um segundo — eu congelei. Meus olhos seguiram o contorno do corpo dele antes que eu pudesse evitar. Ombros largos, peito firme, músculos definidos. Ele parecia esculpido à mão. E o pior… ele sabia disso.Foi só quando nossos olhares se cruzaram no espelho que percebi o que estava fazendo. Eu o estava encarando.Senti meu rosto pegar fogo.Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele se virou lentamente e soltou, com aquele sorriso arrogante:— Tá gostando do que vê, Caccini?Afastei o olhar no mesmo instante, envergonhada, fingindo que a parede atrás dele era fascinante. Virei de costas e murmurei algo ininteligível, como se minha dignidade estivesse tentando se reerguer

  • Rendida Ao Don   Capítulo 03 - Lorenzo Vacchiano

    LorenzoMeu pai nunca chamou alguém para conversar quando havia escolha. Quando ele mandava chamar, era porque a decisão já estava tomada muito antes de qualquer palavra ser dita. Conversas, naquele contexto, não serviam para negociar. Serviam apenas para informar.Naquela noite, o cassino estava em pleno funcionamento. O salão principal pulsava como um organismo vivo, sustentado por promessas vazias e decisões desesperadas. O som das fichas se chocando ecoava constante, misturado às risadas nervosas de quem acreditava estar no controle e ao tilintar de copos sendo reabastecidos sem cessar. O cheiro pesado de charuto impregnava o ar, misturado ao perfume caro e ao medo invisível de quem ainda achava que poderia sair ganhando.Subi para o andar superior sem pressa. Nunca houve urgência quando se tem poder. Cada degrau parecia reforçar algo que eu aprendera desde cedo: quem sobe correndo já está atrasado.Entrei no escritório sem bater. Nunca bati naquela porta. Não por desrespeito, mas

  • Rendida Ao Don   Capítulo 02 - Amélia Caccini

    Os portões se fecharam atrás do carro com um som metálico profundo, pesado o bastante para vibrar dentro do meu peito. Não foi um estrondo violento. Foi pior. Foi definitivo. Observei pelo vidro escurecido enquanto as estruturas de ferro se encontravam no centro, selando a passagem como se o mundo tivesse sido dividido em dois: o antes e o depois. Do lado de fora, a estrada sinuosa desaparecia entre colinas silenciosas, oliveiras antigas e muros de pedra que pareciam existir ali há séculos. A Itália continuava a mesma — bela, histórica, indiferente. Do lado de dentro, tudo o que restava era silêncio.Um silêncio espesso, carregado, quase físico.— Chegamos.A voz de Lorenzo soou tranquila demais para aquele momento, como se estivesse apenas anunciando a chegada a um hotel no interior do país. O carro desacelerou pelo caminho de pedras claras que cortava a propriedade, e cada solavanco parecia marcar o ritmo do meu coração descompassado. Tudo ali era perfeitamente alinhado. Árvores pod

  • Rendida Ao Don   Capítulo 01 - Amélia Caccini

    O cheiro do papel ainda estava impregnado no ar quando fechei o caderno. Tinta fresca, páginas marcadas por esquemas apressados, setas, palavras sublinhadas com força demais. Neuroanatomia sempre foi meu refúgio. Quando eu mergulhava nos mapas do sistema límbico, o mundo lá fora deixava de existir: dívidas, preocupações, o cansaço constante do meu pai.Tudo ficava em silêncio. Ou deveria ter ficado. O barulho da porta da frente batendo com violência cortou o ar como um tiro.Meu corpo reagiu antes da mente. Endireitei na hora, o coração acelerando num aviso instintivo. Meu pai nunca batia portas. Nunca. Não daquele jeito.— Pai? — chamei, já me levantando do sofá, os livros ainda apertados contra o peito.Os passos vieram pesados pelo corredor. Lentos. Arrastados. Quando ele surgiu na sala, algo em mim gelou.Charles Caccini não era aquele homem.O grande neurocirurgião respeitado em toda a Itália estava curvado, a gravata torta, o paletó aberto como se tivesse sido arrancado às press

Higit pang Kabanata
Galugarin at basahin ang magagandang nobela
Libreng basahin ang magagandang nobela sa GoodNovel app. I-download ang mga librong gusto mo at basahin kahit saan at anumang oras.
Libreng basahin ang mga aklat sa app
I-scan ang code para mabasa sa App
DMCA.com Protection Status