LOGINQuando acordei daquela vez, havia vozes por todos os lados.
Muitas. Burburinhos, conversas, passos, murmúrios e uma confusão ensurdecedora que parecia girar ao meu redor. Meu estômago se revirou. Tive a impressão de que iria vomitar. Eu não estava mais naquele porão escuro e silencioso. Mas, depois de tanto tempo sozinha, meu cérebro parecia incapaz de processar tantas pessoas ao mesmo tempo. O som de dezenas de vozes me deixou ainda mais atordoada. Levei uma mão ao estômago. Meus braços estavam pesados, quase dormentes. Foi então que senti. As algemas. Eu ainda estava presa. Tentei movimentar os braços com cuidado. Meus pulsos estavam doloridos, mas havia algo diferente. As algemas pareciam revestidas por um material macio, estranho ao toque. Então uma voz masculina atravessou o tumulto. Em inglês. Sem sotaque. — Este é o lote final. Garota estrangeira, pouco mais de vinte anos, pele clara, cabelos cacheados, olhos azuis. Fala vários idiomas e possui comportamento social de alto nível. Meu coração disparou. Lote. Ele havia acabado de me chamar de lote. Antes que eu pudesse compreender completamente, vozes começaram a gritar números. Valores. Cada vez mais altos. O som vinha de todos os lados. Eu estava tão desnorteada que cometi o erro de abrir os olhos. A luz me atingiu como uma lâmina. Fechei-os imediatamente, encolhendo-me de dor. Não deixei escapar sequer um gemido. Demorei alguns segundos para me acostumar com a claridade. Quando finalmente consegui enxergar através das pálpebras semicerradas, permaneci imóvel. Não queria que percebessem que eu estava acordada. Não queria ser apagada novamente. Eu estava deitada em uma cama. Uma cama macia. O simples toque do colchão parecia estranho depois de tanto tempo dormindo sobre um chão imundo. Olhei discretamente para mim mesma. Vestia um vestido de seda dourado. Meu corpo estava limpo. Meu cabelo havia sido lavado e caía em cachos ao redor do meu rosto. Eu cheirava bem. Por alguns segundos, aquilo pareceu surreal. Eu quase não lembrava como era estar limpa. Penteada. Vestida. Cuidada. Era informação demais. Estímulo demais. Para alguém que acabara de despertar desorientada depois de meses vivendo no escuro, tudo parecia uma alucinação. Criei coragem para olhar rapidamente à minha frente. Homens e mulheres estavam espalhados pelo local. Todos vestidos de preto. Todos usavam máscaras da mesma cor. Eles levantavam as mãos e gritavam números. Demorei alguns segundos para compreender. Não eram números. Eram valores. Meu coração afundou. Fingi fechar os olhos novamente. Permaneci imóvel. Então ouvi: — Vendido! A voz veio do homem parado diante da cama. Ele bateu palmas. — Pode vir pegar seu prêmio. Prêmio. Meu estômago se revirou. Eu estava em um leilão. Sendo leiloada. Como uma pintura. Um vaso de porcelana. Uma joia. Eu havia assinado aquele papel acreditando que estava aceitando um trabalho. Mas aquilo não era trabalho. Era escravidão. Merda. Mantive os olhos baixos. Meu olhar encontrou apenas os sapatos lustrosos do homem parado diante de mim. Ele não disse nada. Apenas ficou me observando. Por um longo tempo. Eu estava sendo vendida como escrava para algum homem rico e pervertido. Alguém que sabe Deus o que faria comigo. Meu coração disparou. Meu Deus... o que poderia ser pior do que aquilo? O homem continuou me observando atentamente. Ao redor, o local começou a esvaziar. Passos. Murmúrios. Vozes. Portas se fechando. Então ele se abaixou. Senti o calor de sua respiração tocar meu rosto. Mantive os olhos fechados. Não me movi. Não respirei mais do que o necessário. Então senti seus dedos tocarem meus cabelos. Um toque leve. Quase uma carícia. Meu corpo inteiro se arrepiou. Era isso. Eu seria entregue a alguém. Talvez como prostituta. Não. Prostitutas eram pagas. Eu seria uma escrava. Talvez sexual. Talvez de qualquer outra coisa que aquele homem decidisse. E o pior de tudo? Eu havia assinado um papel que, de alguma maneira, dava a eles o direito de fazer aquilo. Pelo menos eu não estava morta. Foi o que tentei dizer a mim mesma. Mas, naquele momento, já não tinha tanta certeza se aquela escolha havia sido realmente melhor. Diante de tudo que poderiam fazer comigo e que eu havia, sem saber, autorizado ao assinar aquele maldito documento... O céu parecia ser o limite para a crueldade daquele homem. — Vou prepará-la para o transporte — anunciou o homem responsável pelo leilão. Não ouvi nenhuma resposta do comprador. Talvez ele tivesse apenas assentido. Ou talvez simplesmente não quisesse falar. Não tive tempo de descobrir. Mãos agarraram minha cabeça novamente. Meu corpo inteiro entrou em alerta. Então o tecido foi pressionado contra meu nariz. Reconheci o cheiro imediatamente. O pânico tomou conta de mim. Tentei me afastar. Tentei respirar. Mas minhas forças não eram suficientes. Minha visão começou a desaparecer. Inferno! Mais uma vez, o mundo mergulhou na escuridão.Assim que o avião pousou, percebi a primeira grande falha no meu plano.Caroline queria ir para casa.Para o próprio apartamento.Não podia permitir.Ela ainda estava fraca, fragilizada e emocionalmente devastada. Deixá-la sozinha seria uma péssima ideia.— Você não acha melhor ficar conosco por algum tempo? — sugeri, escolhendo cuidadosamente as palavras.Precisava que ela concordasse.Caroline me encarou sem expressão.— Meu apartamento foi vendido?— Não. Eu o mantive.Fiz uma pausa.— Você pode ir até lá, pegar suas roupas e tudo o que precisar. Mas não acho seguro que fique sozinha.Tentei falar com firmeza, mas sem parecer autoritário.— Meu trabalho...Ela começou a protestar, mas sua voz saiu tão baixa que pareceu apenas um comentário.— Você pode trabalhar de qualquer lugar. Foi uma viagem longa. Você passou por coisas demais.Abaixei um pouco o tom.— Apenas dê a si mesma algum tempo antes de tentar reorganizar tudo.Pedir não era algo que me deixava confortável.Eu não esta
Eu ainda estava tentando assimilar a situação de Caroline.Ela estava ali, diante de mim, completamente fragilizada depois de tudo o que havia vivido.Parecia carregar uma falsa modéstia, um silêncio e uma docilidade que não pertenciam a ela.A Caroline Kass que eu conhecia era audaciosa, vibrante e enérgica. Não tinha o menor problema em dizer exatamente o que pensava ou fazer aquilo que desejava.Agora, porém, estava sentada em silêncio, permitindo que Maya a conduzisse, com os olhos baixos e o corpo estremecendo sempre que a escuridão se aproximava.Era doloroso vê-la daquela maneira.Pensei que encontrá-la tão frágil me faria lembrar de Karyn, que sempre fora doce e gentil.Mas não.Eram tipos completamente diferentes de doçura.A delicadeza de minha falecida esposa vinha de dentro. Da alma tranquila, gentil e pacífica que ela possuía.A de Caroline não era natural.Não combinava com ela.Era uma delicadeza construída pela dor.Antes, eu conseguia sentir a força daquela mulher mes
Acordei assustada no meio da noite.Meu corpo tremia involuntariamente, como se estivesse sofrendo uma convulsão.Eu não conseguia parar.Não conseguia controlar meus músculos, nem respirar direito.Onde eu estava?Tudo estava escuro.A escuridão.Meu maior pesadelo agora.Ela parecia diferente daquela vez. Mais ameaçadora. Mais sufocante.Enquanto minha mente tentava compreender onde eu estava e meu corpo lutava para recuperar o controle, braços quentes envolveram meu corpo.Um peito firme amparou minha cabeça.— Shhh... está tudo bem — sussurrou uma voz grave junto ao meu ouvido.Meu corpo ficou ainda mais rígido.— É... mentira... vai me... machucar...Minha voz saiu trêmula.— Não. Você está segura. Eu não vou machucar você.Aquela voz voltou a falar comigo com uma calma quase cuidadosa, como se tentasse tranquilizar uma criança assustada.Mas eu não acreditava.— Sei... que vai...Eu havia sido vendida em um leilão de escravos.Como poderia acreditar que alguém ali não queria me
Quando cheguei ao local, na data indicada no convite que Dion havia conseguido, descobri que tudo era ainda mais sórdido do que eu havia imaginado.Eu esperava encontrar mafiosos, criminosos e marginais.Estava enganado.As pessoas ali eram como eu.Homens e mulheres com dinheiro, influência e poder aquisitivo suficiente para comprar praticamente qualquer coisa que desejassem.A diferença era que aquelas pessoas eram tão arrogantes e egocêntricas que acreditavam que o dinheiro lhes dava o direito de transformar seres humanos em objetos, submetendo outras pessoas aos próprios caprichos como se estivessem comprando animais.Era repugnante.Ali, chamavam aquelas pessoas de peças.Mas não havia nome sofisticado que pudesse esconder a verdade.Aquilo era tráfico humano.Pessoas livres eram arrancadas de suas casas e vendidas para uma vida de servidão, sofrimento, dor e degradação.Assim que tirasse Caroline dali, eu denunciaria aquele lugar.Mas sabia que aquilo provavelmente era apenas a
Quando acordei daquela vez, havia vozes por todos os lados.Muitas.Burburinhos, conversas, passos, murmúrios e uma confusão ensurdecedora que parecia girar ao meu redor.Meu estômago se revirou.Tive a impressão de que iria vomitar.Eu não estava mais naquele porão escuro e silencioso.Mas, depois de tanto tempo sozinha, meu cérebro parecia incapaz de processar tantas pessoas ao mesmo tempo.O som de dezenas de vozes me deixou ainda mais atordoada.Levei uma mão ao estômago.Meus braços estavam pesados, quase dormentes.Foi então que senti.As algemas.Eu ainda estava presa.Tentei movimentar os braços com cuidado. Meus pulsos estavam doloridos, mas havia algo diferente.As algemas pareciam revestidas por um material macio, estranho ao toque.Então uma voz masculina atravessou o tumulto.Em inglês.Sem sotaque.— Este é o lote final. Garota estrangeira, pouco mais de vinte anos, pele clara, cabelos cacheados, olhos azuis. Fala vários idiomas e possui comportamento social de alto níve
Seis meses haviam se passado.Era estranho perceber como o mundo conseguia continuar girando como se nada tivesse acontecido.As pessoas continuavam comendo, dormindo, trabalhando, se apaixonando.Crianças nasciam.Casamentos eram celebrados.Negócios eram fechados.Eventos aconteciam.A vida seguia.O tempo não esperava por ninguém.E eu também precisei seguir.Não porque estivesse pronto, mas porque não tinha escolha.Precisava trabalhar.Precisava administrar meus negócios.Precisava criar meu filho.Precisava ser forte por Árion.Depois do que aconteceu, tomei medidas extremas de segurança. Reforcei a proteção da casa, mudei rotinas, aumentei a equipe e eliminei qualquer brecha que pudesse colocar meu filho em risco novamente.Eu não podia mudar o passado.Só podia tornar nosso presente e nosso futuro mais seguros.Mas havia uma coisa que eu não conseguia abandonar.Depois que minhas lágrimas finalmente secaram e eu me despedi de verdade da minha esposa, encontrar Caroline havia s







