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Sob Quatro Luas

last update publish date: 2026-10-08 08:38:32

O impacto com o solo veio acompanhado pelo ar rarefeito.

Althea colidiu contra uma superfície de pedra fria e implacável. O som da fenda se fechando ecoou como um trovão cortando o horizonte, seguido por um silêncio absoluto e esmagador.

Ela abriu os olhos.

O céu acima não trazia as estrelas conhecidas de seu mundo. Era um manto denso, azul-escuro, onde quatro luas colossais brilhavam em perfeita geometria — uma prateada, uma azul-pálida, uma cor de âmbar e outra de um branco celestial irreal.

O ar tinha gosto de poeira ancestral, ozônio e magia antiga.

Althea sentou-se bruscamente, o peito subindo e descendo em pânico.

— Onde… onde vocês me trouxeram?!

Kael ainda estava ajoelhado ao lado dela. A mão dele mantinha-se em sua cintura, tendo amortecido a maior parte do impacto contra a pedra para protegê-la. Lentamente, ele recolheu os dedos, antecipando a reação dela.

Ela se levantou de golpe, mas as pernas fraquejaram.

Seth deu um passo rápido, pronto para ampará-la, mas Althea ergueu as mãos em guarda, recuando.

— Não encosta em mim! Nenhum de vocês!

Eles estavam no topo de uma colossal plataforma circular de mármore negro. Ao redor, pilhas de obeliscos e pilares gravados com runas antigas começavam a acender, emitindo um brilho azulado em resposta à presença da Pedra Rubra na mão dela.

Raven caminhou até a borda da estrutura, observando os símbolos arcanos. Liam girava devagar, mapeando o vale abaixo.

Montanhas pontiagudas cortavam a névoa ao longe. E, diretamente abaixo da plataforma, estendia-se uma cidade majestosa. Torres espirais de pedra branca, pontes suspensas e milhares de pontos de luz indicavam uma civilização vibrante e colossal.

— A travessia foi bem-sucedida. A ancoragem ocorreu no altar principal — relatou Raven.

— Bem-sucedida pra você, que não veio sendo xingado o caminho todo — ironizou Liam, embora seus olhos continuassem atentos ao perímetro.

Althea olhava para as próprias mãos, depois para as quatro luas no céu.

— Isso é um delírio… Eu bati a cabeça quando caí…

— Não é uma ilusão — respondeu Kael, levantando-se. A figura dele parecia ainda mais imponente sob a luz das luas.

Althea virou-se para ele, a raiva sobrepondo-se ao pavor.

— Você me sequestrou! Me arrancou do meu mundo à força!

— Sim.

A resposta veio sem rodeios. Sem desculpas. Sem qualquer tentativa de amenizar o ato.

— A minha avó tinha acabado de dar o último suspiro no chão daquela loja! — gritou ela, as lágrimas finalmente transbordando. — Você não me deu o direito de chorar por ela!

O maxilar de Seth travou de novo. Liam desviou o olhar para o vale. Raven fechou os olhos por um segundo.

Kael sustentou o olhar furioso dela. Sua postura parecia inabalável, mas no fundo de suas íris douradas havia uma sombra densa de pesar.

— Se você tivesse ficado — disse Kael, com a voz grave e baixa —, o mesmo poder que matou sua avó teria destruído você em questão de minutos.

Althea deu um passo em direção a ele, a mão fechada em torno do cristal.

— Então me explica! Me fala exatamente o que está acontecendo aqui!

O vento da montanha soprou forte, agitando o sobretudo de Kael. Ele estendeu o braço, apontando para a vastidão do reino abaixo.

— Bem-vinda a Valthera.

O nome ecoou no ar como um eco esquecido na memória de Althea. O brilho da Pedra Rubra respondeu, pulsando em sintonia com os pilares da plataforma.

Raven quebrou o silêncio, a voz séria:

— O Alinhamento das Quatro Luas acontecerá em exatamente três semanas. A contagem regressiva começou.

Antes que Althea pudesse absorver a informação, o som metálico de centenas de passos ecoou pelas escadarias da plataforma.

Soldados. Dezenas deles emergiram da penumbra, vestindo armaduras prateadas reluzentes, decoradas com o selo das quatro luas no peitoral. Lanças e espadas reluziam sob a luz luar.

A guarda do reino avançou em formação, mas, ao avistarem Althea no centro do altar com a Pedra Rubra reluzindo em sua mão, pararam instantaneamente.

Um silêncio absoluto caiu sobre a montanha.

Em um movimento sincronizado, todos os soldados curvaram os joelhos, chocando o metal de suas armaduras contra a pedra do chão.

Althea deu um passo atrás, assustada.

— O que… o que eles estão fazendo?!

— O que o dever exige — respondeu Seth, baixo.

O Capitão da Guarda ergueu o rosto, a voz ecoando com solene reverência por toda a plataforma:

— Vida longa à Vossa Majestade!

O chão pareceu fugir dos pés de Althea.

— Não… Não, vocês estão enganados! — balançou a cabeça, desesperada.

— Eu avisei que a recepção seria complicada — murmurou Liam para si mesmo.

Raven aproximou-se, apontando para os obeliscos arcanos que agora brilhavam com intensidade total.

— Os Selos Reais despertaram com a sua chegada. A magia deste mundo reconhece o seu sangue, Althea.

— Eu não sou rainha de lugar nenhum! Eu sou apenas uma garota comum!

Kael deu o último passo, parando a centímetros dela. Ele não a tocou, mas sua presença cercou Althea como um escudo inquebrável.

— Você era comum lá — disse Kael, olhando no fundo dos olhos dela. — Aqui, você é a única salvação que nos resta.

O vento soprou suave. Lá embaixo, os sinos da cidade de Valthera começaram a badalar, anunciando ao reino o retorno da herdeira. E Althea compreendeu que o seu antigo mundo ficara para trás para sempre.

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