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Capítulo 06 - Você ainda não venceu

last update Data de publicação: 2025-08-06 04:20:37

César Monteiro estreitou os olhos, e a pouca cordialidade que ainda havia em sua expressão desapareceu.

— Eu teria cuidado antes de sair fazendo acusações desse tipo.

Paloma sentiu a indignação voltar.

— O senhor acha mesmo que eu sairia de São Paulo, atravessaria o país e viria até aqui se não acreditasse no que minha tia me contou? — abriu a bolsa marrom com movimentos apressados. — Eu sou uma pessoa séria. Não tenho motivo nenhum para inventar uma história dessas.

Procurou entre os documentos até encontrar a carta de Charles. O papel já estava um pouco amassado de tanto ser manuseado. Paloma o estendeu para César.

— Leia. Por favor. Vai perceber que o que estou dizendo não surgiu da minha cabeça.

Quando ele pegou a carta, Paloma se aproximou e apontou para uma parte do texto.

— Só... ignore o começo. É pessoal. Ele estava escrevendo para a mãe. Começa aqui.

César lançou-lhe um olhar breve antes de baixar os olhos para o papel.

Paloma acompanhou cada movimento dele. Primeiro, leu o trecho uma vez. Depois voltou algumas linhas e tornou a ler, dessa vez mais devagar.

Ela sentiu uma pequena esperança surgir.

Talvez agora ele entendesse.

César, porém, dobrou a carta e a devolveu.

— Isso é tudo?

Paloma piscou.

— Como assim, “isso é tudo”?

— Uma carta em que seu primo fala de uma descoberta sem dizer qual é, quanto vale ou sequer em que projeto estava trabalhando.

— Mas ele deixa claro que era importante! — rebateu. — Charles diz que conseguiria ganhar muito dinheiro com aquilo e que finalmente poderia melhorar a vida da mãe. Também diz que o senhor não colocaria a mão em tudo dessa vez. Ele não escreveria uma coisa dessas sem motivo.

César permaneceu em silêncio.

Era justamente aquela postura controlada que mais a irritava. Paloma sentia como se estivesse expondo uma situação dolorosa enquanto ele avaliava cada palavra como se procurasse falhas numa negociação comercial.

Se conhecesse tia Cida, talvez fosse diferente. Se visse a dificuldade que ela enfrentava para andar depois do AVC, a casa simples, o modo como ainda se emocionava ao falar do filho, talvez compreendesse que Paloma não estava ali tentando enriquecer.

Queria apenas respostas.

— Sabe o que pensei quando recebi seu e-mail? — César perguntou de repente.

Paloma franziu a testa.

Ele se levantou.

— Pensei que estivesse diante de mais uma tentativa de arrancar dinheiro da empresa.

— O quê?

— Não seria a primeira vez.

Paloma ficou boquiaberta.

— Está me chamando de golpista?

— Estou dizendo que a história que trouxe até aqui tem muitas lacunas.

— Isso é diferente.

— Para você, talvez.

A maneira como ele falou fez alguma coisa dentro dela se romper.

— Meu primo morreu há dois meses. Minha tia ainda está tentando aprender a viver sem o filho e sem a ajuda que ele dava a ela. E o senhor olha para mim e acha que estou aqui tentando aplicar algum golpe?

César avançou um passo.

— Você chegou à minha empresa acusando-me de explorar um funcionário, insinuou que nossos documentos poderiam ser adulterados e agora ameaça entrar na Justiça baseada numa carta que não prova absolutamente nada.

— Porque o senhor não me dá outra escolha!

Paloma fez menção de passar por ele, mas César segurou seu ombro.

Ela parou imediatamente.

— Não me toque.

— Escute...

— Eu disse para não me tocar.

Paloma tentou se afastar, mas os dedos dele se fecharam com mais força por um instante.

— Está me machucando.

A frase saiu baixa.

César a soltou imediatamente.

Os dois ficaram em silêncio.

Paloma passou a mão pelo ombro, sentindo a região dolorida. Quando olhou para César outra vez, percebeu que ele também encarava o local onde a segurara. Por uma fração de segundo, pareceu desconcertado, como se não tivesse percebido a força que usara.

Mas a expressão fechada voltou quase no mesmo instante.

— Acho que você não tem ideia do tipo de acusação que está fazendo — disse ele.

— E acho que o senhor não tem ideia do quanto está sendo cruel.

César apertou a mandíbula.

— Já tivemos pessoas tentando extorquir dinheiro desta companhia com histórias muito mais elaboradas. Você sequer sabe explicar o que Charles teria inventado.

Paloma sentiu os olhos arderem de indignação, mas se recusou a chorar.

— Não saber os detalhes técnicos não faz de mim uma golpista.

O olhar de César percorreu seu rosto.

— Não. Mas também não transforma essa carta numa prova.

Ela apertou a bolsa contra o corpo.

— Então é isso? O senhor simplesmente vai fingir que Charles nunca descobriu nada?

— Estou dizendo que não existe, até este momento, nada que me permita afirmar o contrário.

— É muito conveniente.

— Senhorita Franco...

— Não. Já entendi.

Paloma colocou a carta de volta na bolsa com mãos trêmulas.

César respirou fundo.

— Sugiro que encerremos essa conversa antes que ela piore ainda mais.

— Não precisa chamar segurança nenhum. Eu sei encontrar a porta.

Deu dois passos, mas se virou novamente.

— E fique tranquilo. Não vou esquecer a maneira como me tratou hoje.

César manteve o rosto impassível.

— Aproveite sua estadia em Cabaceiras. Veio numa das épocas mais frescas do ano.

A ironia da frase foi a gota d'água.

— O senhor é mesmo um brutamontes.

César arqueou uma sobrancelha, mas não respondeu.

Paloma saiu da sala antes que dissesse alguma coisa de que pudesse se arrepender ainda mais.

Atravessou os corredores tentando manter a cabeça erguida, embora sentisse o rosto quente de humilhação. Alguns funcionários olharam em sua direção, provavelmente atraídos pela pressa com que caminhava, mas ela não parou.

Quando atravessou as portas de vidro do prédio, o calor de Cabaceiras a atingiu com força.

Parou por um momento e respirou fundo.

César Monteiro não apenas recusara qualquer possibilidade de conversar sobre uma compensação para tia Cida. Também colocara em dúvida tudo o que Charles escrevera e, pior, tratara Paloma como se ela estivesse tentando aplicar algum golpe.

Talvez aquilo fosse exatamente o que Charles quisera dizer.

Talvez César sempre reagisse daquela forma quando alguém o confrontava.

Atacar primeiro para não precisar se explicar depois.

Paloma apertou a bolsa contra o corpo e caminhou até o Celta.

Antes de entrar, porém, lançou um último olhar para o prédio.

Foi então que o viu.

César estava parado diante de uma das janelas do andar superior, observando-a.

Mesmo de longe, sua figura era inconfundível: alto, imóvel, ainda perfeitamente arrumado dentro daquele terno como se a discussão dos últimos minutos não tivesse provocado nele efeito algum.

Paloma não conseguia distinguir sua expressão.

Ainda assim, teve a impressão irritante de que ele estava satisfeito por vê-la ir embora.

Sentiu a raiva voltar.

Não pense que acabou, Sr. Monteiro.

Abriu a porta do carro.

O senhor ainda não venceu.

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Último capítulo

  • Seduzida pelo CEO que prometi Odiar   Epílogo

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