LOGINLorena azevedoO barulho ambiente do shopping center — um misto de vozes ecoando pelos corredores, passos acelerados no piso espelhado e o suave som instrumental das caixas de som — parecia quase distante para mim. Havia exatamente um mês desde o dia em que o parto da égua Esmeralda agitou a fazenda, um mês desde que a rotina agitada do campo aumentou ainda mais.Eu só estava ali, caminhando pelas vitrines iluminadas em pleno meio de semana, porque a Tati simplesmente não me deu escolha. Ela vinha me cobrando havia semanas, dizendo que eu a tinha abandonado, que agora eu só vivia para o Rafael, para as crianças e para os afazeres da propriedade. E, no fundo, ela tinha uma boa dose de razão. Há quanto tempo a gente não tirava um dia inteiro só para nós duas? Sem correria, sem preocupações com horário, sem o cheiro de feno ou o barulho dos tratores.Aproveitei a oportunidade para fazer o que há muito tempo vinha adiando. Comprei roupas novas para a Vitória — que parecia crescer alguns c
Rafael VenturaAtravessei o pátio de terra a passos largos, com o Seu José tentando acompanhar o meu ritmo. A urgência da situação fazia o meu sangue pulsar diferente. Na roça, a gente aprende desde cedo que a vida da criação não espera por veterinário ruim de braço nem por hora marcada. Quando um parto complica, cada minuto conta entre salvar uma vida ou perder a mãe e o filhote.Entrei na baia da maternidade e deparei-me com uma cena dolorosa. A Esmeralda, uma das nossas melhores éguas de linhagem, estava deitada sobre a maravalha limpa, respirando de forma entrecortada e gemente. O suor cobria os pelos do animal, tornando o couro escuro e brilhante. O ventre dela contraía com força, mas não havia avanço. A égua virava o pescoço para trás, olhando para o próprio flanco com olhos arregalados pelo sofrimento.— Calma, menina... calma, Esmeralda — murmurei em tom baixo e pausado, me ajoelhando ao lado dela.Passei a mão firme pelo pescoço do animal para transmitir confiança. O Seu José
Lorena AzevedoO caminho de volta para a Fazenda Ventura pareceu mais longo do que o normal. As crianças conversavam animadamente no banco de trás da picape, felizes porque as aulas haviam terminado mais cedo devido a uma reunião pedagógica do corpo docente. Mas a minha mente não estava ali. Minha cabeça continuava presa na calçada em frente ao colégio, remoendo cada segundo daquele encontro bizarro e inesperado com o Eduardo Soares.Eu não conseguia entender. O homem que se apresentou diante de mim hoje não parecia em nada aquele monstro frio e arrogante que me sequestrou, que infernizou a nossa vida e que quase destruiu a minha família. Ele estava visivelmente abatido, com uma postura humilde, pedindo perdão com uma voz trêmula que parecia... sincera. "Será que um homem como ele é realmente capaz de mudar?", perguntei a mim mesma, sentindo um nó se formar no meu estômago. Aquela dúvida me incomodava profundamente. Parte de mim queria acreditar que a dor e a terapia pudessem transfor
Eduardo SoaresO motor do meu carro importado roncava baixinho enquanto eu mantinha o veículo estacionado sob a sombra de uma oitizeira, a meia quadra do colégio particular onde os filhos do Rafael Ventura estudavam. O ar-condicionado gélido congelava o meu rosto, mas o meu sangue fervia de expectativa. Ajustei os óculos escuros no nariz e olhei pelo espelho retrovisor. Tudo tinha que ser calculado com a precisão de um cirurgião. O caipira era bruto, mas não era burro; qualquer passo em falso e eu terminaria com uma bala na testa antes mesmo de colher os frutos do meu plano.A porta do colégio abriu exatamente às onze e meia hoje. O movimento de mães, peruas escolares e carros de luxo tomou conta da calçada. E então, no meio daquela confusão de pedestres, eu a vi.A Lorena.Ela trajava um vestido leve, floral, que batia um pouco abaixo dos joelhos, marcando a cintura fina e a curvatura dos quadris que eu conhecia muito bem de fotos e de longe. O cabelo castanho estava preso num rabo d
Eduardo SoaresO vidro frio da janela do novo apartamento de alto padrão da Melissa contrastava com o calor que ainda queimava no meu corpo. Na mão direita, o copo de uísque com duas pedras de gelo já derretidas era o meu único companheiro naquela penumbra. Eu observava as luzes da cidade lá embaixo, mas a minha mente estava a centenas de quilômetros dali, cravada na Fazenda Ventura.Tínhamos acabado de transar. Um sexo rápido, agressivo e sem qualquer pingo de afeto, exatamente como costumava ser entre mim e a Melissa. Ela estava no banheiro agora, e o som da água caindo no box parecia ritmar a tempestade de ódio que fervia dentro da minha cabeça.Dei um gole longo no uísque, sentindo o líquido dourado queimar a minha garganta, mas nada parecia capaz de aliviar a frustração que me corroía por dentro.Como era possível? Como aquele desgraçado do Rafael Ventura continuava de pé?Eu já tinha tentado de tudo. Tudo! Movi as minhas influências para tentar prendê-lo por crimes que ele não c
Rafael VenturaFechei a porta pesada de madeira do nosso quarto, girando a chave na fechadura com um estalo seco e definitivo. O som abafou instantaneamente a barulheira das crianças no corredor e a voz da minha mãe na cozinha. O mundo lá fora podia estar desabando, mas dentro daquele quarto existia apenas o meu santuário. E o meu santuário atendia pelo nome de Lorena.A iluminação suave do fim de tarde entrava pelas frestas da janela, desenhando feixes dourados na penumbra do quarto. Tirei a minha jaqueta pesada e a joguei de qualquer jeito sobre a poltrona de couro. Ajeitei o corpo, me virando devagar para encarar a minha mulher. A Lorena estava de pé ao lado da cama, com o vestido leve desenhando as curvas que me enlouqueciam sempre. O peito dela subia e descia rapidamente, mostrando que a ansiedade e o desejo estavam consumindo a minha boneca na mesma proporção que consumiam a mim.Aproximei-me a passos lentos, como um predador encurralando a sua caça favorita, sentindo a temperat







