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203. O que éramos para eles

Auteur: P. Rodrigues
last update Date de publication: 2025-04-15 18:00:17

Lucas Park

Vi o sorriso de Jullian se alargar. Era evidente que esse era seu plano desde o início — ele só não quis ter que dizer em voz alta. Nós tínhamos uma sinergia peculiar, fruto de anos de convivência. Jullian passou incontáveis finais de semana comigo em Seul, me ensinando sobre o cotidiano de Gabrielle: suas manias, suas preferências, até mesmo os pequenos detalhes que poderiam parecer insignificantes para outros, mas que revelavam muito so

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  • Segredos entre herdeiros   572

    Gabrielle Goldman E eu reconheci o lugar antes mesmo de entender o que estava vendo. Eu deveria ter fechado a porra no notebook naquele maldito momento. Faria alguma diferença se eu tivesse simplesmente o fehcado? A verdade deixaria de ser verdade se eu me recusasse a ve-la? Será que faria alguma diferença se, pelo menos, eu tivesse permitido que ele me explicasse antes de olhar para aquela tela? Eu nunca iria saber, porque mesmo se ele tivesse me dito, eu não teria acreditado. Leslie estava sentada em uma poltrona da sala. Tudo era diferente do que eu conhecia. Havia flores espalhadas por todos os lados. Havia cor. Havia vida. Ela sorria para a câmera enquanto acenava. Meu pai se aproximou pelo enquadramento. Eu só conseguia ver suas costas. Então ele se virou para minha mãe e sorriu ao colocar, com um cuidado quase reverente, o pequeno embrulho que carregava em seus braços. Era um bebê. No mesmo instante em que o bebê foi colocado no colo de Leslie

  • Segredos entre herdeiros   571

    Gabrielle Goldman Sua mão desceu por meu rosto, percorreu meu pescoço lentamente, acariciando minha pele até que seus dedos encontraram meu colar. Ele parou. Por um instante, não disse nada. Seus dedos se fecharam ao redor do pequeno cilindro metálico e o puxaram delicadamente para fora da roupa. O movimento foi tão cuidadoso que quase parecia que ele temia danificar alguma coisa. Meus olhos acompanharam sua mão sem que eu conseguisse evitar. Meu pequeno cilindro metálico agora repousava entre seus dedos. E, pela primeira vez desde que aquela conversa começara, não olhei para Gadreel. Olhei para o colar. Ele também. Havia alguma coisa diferente na maneira como o encarava. Não era curiosidade. Não era interesse. Era reconhecimento. Meu estômago se contraiu. — O que foi? — perguntei, quase num sussurro. Ele não respondeu. Apenas passou o polegar lentamente sobre o metal, como se aquele pequeno objeto carregasse uma lembrança que eu ainda não

  • Segredos entre herdeiros   570

    Gabrielle Goldman Não era uma posição confortável. Não porque estivesse me machucando, mas porque me obrigava a permanecer perto o suficiente para sentir sua respiração, o movimento do peito sob minhas mãos e a tensão contida em seu corpo. Eu não era estúpida o suficiente para desperdiçar energia tentando me soltar. Já havia aprendido, havia muito tempo, que lutar contra sua força física era completamente inútil. E, naquele momento, eu não precisava vencer uma disputa física. Precisava entender o que havia por trás daquele sorriso. — Olhe para mim — pediu ele, em um tom contido, enquanto pressionava minhas mãos contra o próprio corpo. Olhei. Não para obedecê-lo. Olhei para confrontá-lo. Queria que ele visse exatamente aquilo que havia provocado. Queria que enxergasse a raiva, o medo, a confusão e tudo aquilo que eu ainda não conseguia nomear. Queria que, pelo menos uma vez, ele fosse obrigado a sustentar o peso das consequências que havia criado. Mas

  • Segredos entre herdeiros   569

    Gabrielle Goldman Seu rosto foi lançado para o lado pela violência do meu tapa. Por um segundo, nem eu compreendi o que havia feito. A palma da minha mão ardia intensamente, mas não tanto quanto seu rosto deveria estar queimando. A marca dos meus cinco dedos começava a surgir em sua pele com uma nitidez assustadora, como uma assinatura que eu jamais teria imaginado deixar nele. Meu peito subia e descia depressa, e, enquanto o silêncio se estendia entre nós, percebi que não havia arrependimento imediato. Havia apenas aquela sensação brutal de ter ultrapassado uma linha que eu mesma não sabia que ainda existia. Quando ele voltou o rosto lentamente em minha direção, encontrei aqueles olhos brilhando com uma raiva tão profunda, com uma fome de destruição tão absoluta, que fui capaz de enxergar a minha própria morte refletida naquelas íris heterocrômicas. Por um instante, todo o meu corpo se preparou para o pior. Eu conhecia aquele olhar. Sabia o que costumava vir depois dele. Sa

  • Segredos entre herdeiros   568

    Gabrielle Goldman Afastei-me na mesma velocidade e me coloquei de pé. Eu não entraria naquele assunto. Não quando bastou a simples menção ao meu pai para me fazer perder completamente o controle e esquecer quem, de fato, deveria ser meu alvo. Eu não permitiria que ele usasse John para desviar o foco daquilo que realmente importava. Não permitiria que transformasse meu pai em mais uma peça daquela história quando eu já havia passado uma vida inteira tentando entender por que nunca fui suficiente para ele. — Você não faz ideia de quem foi seu pai, Gabrielle — disse ele, com os olhos surpreendentemente gentis, embora as palavras carregassem um peso quase cruel. — Não tire conclusões antes de conhecer toda a história. Dentre tudo o que ele poderia ter dito, escolheu justamente aquilo que mais seria capaz de me ferir. Eu não precisava — e muito menos queria — ouvir alguém dizer que eu não conhecia o meu próprio pai. Ninguém tinha mais consciência disso do que eu. Eu o conhec

  • Segredos entre herdeiros   568

    Gabrielle Goldman Não dele... do gesto. Daquela delicadeza silenciosa que busquei durante toda a infância e jamais encontrei. Foi isso que me incomodou. Não era Gadreel que meu corpo procurava naquele instante, pelo menos era isso que eu precisava acreditar. Era o cuidado. Era a sensação de ser tratada com uma delicadeza que não vinha acompanhada de uma cobrança, de uma expectativa ou de uma dívida. E, embora não fosse a pessoa, mas o cuidado, que por alguns instantes me fizera esquecer que estávamos em lados opostos, ergui lentamente o olhar e o encontrei ali, a centímetros de mim, com aqueles olhos impossíveis presos aos meus. Ele havia se inclinado sobre mim. Seu rosto estava tão próximo que eu conseguia sentir o calor de sua respiração tocar minha pele e enxergar o sorriso se desenhando lentamente em seus lábios, antes de alcançar seus olhos. Não havia raiva ali. Nem pressa. Apenas aquela certeza irritante de quem sabia exatamente o que eu estava tentando esconder.

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