LOGINCAPÍTULO 5
Holly Winter O saco de presentes continuava plantado no meio do corredor. Gigantesco e desajeitado de tantos presentes. Cheio de peso físico e psicológico — mais psicológico, pra ser sincera. Eu ainda estava tentando entender como, em menos de uma hora, virei funcionária contratada à força de um mafioso que cheirava perigosamente bem. Olhei para o soldado que tinha trazido o saco até ali. Ele parecia um armário com pernas. Daqueles que, se caíssem em cima de mim, iam me transformar numa panqueca no chão. — Você vai me ajudar a carregar isso, não vai? — perguntei, apontando para o saco como se fosse óbvio. — Não tenho autorização para entrar no quarto da filha do chefe — ele respondeu, impassível, como se estivesse recitando um salmo da máfia. Eu ri no automático, no desespero. Tentei levantar o saco só por desencargo de consciência. — Você tá de brincadeira, né? Eu não aguento essa merda sozinha. Vou atrás dele. O Falcão. Se você não pode entrar, então ele vai. Virei para ir atrás do Falcão, mas o segurança me segurou pelo braço. — Você quer morrer!? — rosnou. — Ninguém vai até o chefe se não foi chamado. Ele vai te matar se não fizer o que mandou. — Bom, mortinha da Silva vou ficar se precisar carregar isso. Então não muda tanta coisa — rebati num suspiro. — Se ele quer tanto a mamãe Noel, que coopere. E saí andando. Sem pedir autorização. Sem pensar duas vezes. A verdade é que eu não estava sendo corajosa. Eu estava cansada e com medo o suficiente para perder o filtro social que impede pessoas normais de discutirem com chefes da máfia. O soldado veio atrás de mim, praguejando, tentando me impedir como um professor exausto tentando segurar um aluno surtado. Não me segurou como imaginei que tentaria, mas de qualquer forma eu encontrei Falcão antes que ele conseguisse me arrastar de volta. Esbarrei numa mesinha de centro e caí por cima dela. Numa sala enorme que parecia pertencente a algum milionário deprimido. Lareira acesa, estante cheia de garrafas caríssimas, luz baixa. Ele estava servindo bebida no bar. Como se nada no mundo fosse capaz de tirar o eixo dele. — Chefe! — o segurança gritou, quase tropeçando na própria língua. — Eu tentei impedir. Mas ela não me ouve. Falcão me viu no chão e o soldado prestes a me agarrar, e levantou uma mão. Só isso. O homem atrás de mim ficou parado e mudo na hora. Impressionante. Mas eu também calaria. Talvez até desmaiaria. Ele me olhou. Sem pressa. Com aquele jeito de medir quanto problema uma pessoa vale. — O que quer? — perguntou, como se estivesse avaliando se valia a pena me jogar pela janela. Levantei depressa. — Preciso que me ajude a carregar o saco de brinquedos — respondi, cruzando os braços. — E outra… que tipo de pai deixa a filha sozinha assim pra vir beber? A temperatura da sala caiu. O olhar dele se tornou tão mortal que eu quase recuei um passo. Quase. Mas meu orgulho é grande demais pra isso. Ele virou o rosto apenas o suficiente para falar com o soldado: — Leve até o quarto e esperem do lado de fora. Agora estou bebendo. Leve? Eu sou um objeto carregável? — O quê? — exclamei, mas o soldado já me puxava pelo braço, me arrastando corredor afora. “Agora estou bebendo.” Como se fosse um rei dando ordens sobre o reino dos meus futuros ataques de pânico. Não compliquei mais e me deixar ser puxada. De volta ao corredor, o soldado bufou. — Você teve sorte — disse ele, com sinceridade meio nervosa. — O chefe deve ter gostado de você pra agir assim. Caso contrário te daria um tiro e me faria vestir a roupa de natal. Eu arregalei os olhos. — Gostado como? — murmurei. — Tipo… como funcionária? Como mamãe Noel temporária? Como… mulher? Não. Não. Não. Só pode ser coisa da minha cabeça. Ele é um furacão homicida com barba bonita. E eu estou carente. Isso distorce tudo. Antes que eu pudesse decidir se estava pirando, senti a atmosfera mudar. Falcão apareceu do nada. Como se tivesse atravessado a parede direto até nós. Ele fez um movimento curto com a cabeça, e o segurança saiu imediatamente. Correndo quase. Fiquei sozinha com o perigo número um de Chicago. Coloquei a mão na maçaneta, mas ele colocou a mão dele por cima. Meu estômago roncou. Ou não foi o estômago? Talvez tenha sido meu corpo… reagindo ao calor dele tão perto. Ao cheiro. Ao tamanho. Àquela autoridade silenciosa que fazia a realidade tremer. Por um segundo, ninguém falou nada. E eu juro que senti o ar vibrar. Não pode ser. Esse cara não pode me causar essas coisas. Então ele sussurrou: — Você vai continuar trabalhando pra mim. Não vai mais sair dessa casa. É uma ordem. Meu coração despencou como piano de desenho animado. — O quê? — perguntei, apavorada. — E a minha mãe? E a minha irmã? Como deixo as duas sem dinheiro? Sem ceia? Sem nada!? Você não pode fazer isso. Ele não piscou. — Meus homens já estão trazendo as duas — disse, com uma calma assustadora. — Trazendo? Minha mãe é desesperada. Ela vai ficar com medo. E... — Elas vão comer e beber muito bem. Sua mãe também pode trabalhar na casa. — Trabalhar? Mas ninguém dá emprego pra minha mãe a muito tempo. Ela não tem experiência fora de casa. — Falei, mas no fundo algo brilhou dentro de mim. Minha mãe daria pulos se lhe oferecessem uma oportunidade de emprego. Mas aqui? No submundo do crime? — Não importa. Ela escolhe se quer cozinhar, limpar a casa, limpar as armas ou até o jardim. E a criança você se vira pra esconder da minha filha. Eu pisquei. Uma vez. Duas. — Como assim? — balbuciei. — Por que preciso esconder a Molly? Não vai deixar ela brincar com a Natalie? O maxilar dele travou. Olhou para o lado, passou a mão na barba. Estava pensando. — Não. Isso pode piorar minha filha — respondeu. — Ela vai ver que sua irmã anda e ela não. Eu senti uma indignação subir pela minha garganta. — Ah, por favor! — implorei. — Deixa. Minha irmã vai fazer bem a ela. Não é assim que funciona! Crianças aprendem observando outras crianças! E outra, não pode esconder sua filha do mundo pra sempre. Ele abriu a porta como se eu fosse um zumbido irritante. — Não e... — O olhar dele era uma muralha. — Assunto encerrado. E então ele segurou a porta para eu entrar. Como se fosse cavalheiro. "Que babaca! Dá com uma mão e tira com a outra." Mas mesmo assim… Entrei.CAPÍTULO 17 Holly Winter Uma semana depois do casamento, percebo que a minha respiração mudou. Não é mais curta, nem apressada. Não acordo esperando o pior. Acordo esperando o dia. Estou na cozinha, encostada no balcão, observando Falcão do outro lado do ambiente enquanto ele termina o café. Ele não fala muito pela manhã. Nunca falou. Mas agora existe algo confortável no silêncio entre nós. Não pesa, não ameaça. A companhia dele me acalma de um jeito que eu jamais imaginei ser possível. Olho para ele e penso nisso com uma sinceridade que quase assusta: eu gosto da presença desse homem na minha vida. Não é só segurança. Não é só cuidado. É a forma como ele presta atenção sem parecer, como pergunta pouco, mas escuta tudo. As vozes das meninas cortam meus pensamentos. Natalie e Molly descem as escadas quase correndo, uniformes novos, mochilas nas costas, os cabelos presos com um cuidado que denuncia empolgação. Estão lindas para irem pra escola. Orgulhosas. Eu me aproxi
CAPÍTULO 16 Falcão A estrada até a casa de campo é tranquila. Cercada de árvores altas que engolem o mundo conforme avançamos. Holly observa tudo pela janela, os olhos atentos, curiosos. Quando o portão se abre, os faróis iluminam a fachada de pedra, o telhado inclinado, as luzes quentes acesas por dentro. A casa respira isolamento, segurança. Aqui é meu refúgio. O carro para. Abro a porta pra ela antes mesmo que pense em sair sozinha. — É lindo… — ela murmura, sincera. Vejo o encantamento nos olhos. E isso aperta alguma coisa no meu peito. Os funcionários já esperam. Tudo organizado. Mesa posta. Velas acesas. Um jantar que ninguém vai tocar além de nós. Eles nos cumprimentam em silêncio e saem em fileira assim que entramos. E então ficamos só nós dois. Viro-me devagar. Ela está no meio da sala, ainda com o vestido branco, as mãos unidas à frente do corpo. Parece pequena ali, frágil. E minha. — Agora você é minha. — digo, sem elevar a voz. Ela engole
CAPÍTULO 15 Holly Winter O cartório não parecia um cartório. Era grande demais. Não vi mais casais casando. E controlado demais para ser apenas um prédio público numa tarde comum. Havia homens por todos os lados — ternos escuros, posturas rígidas, olhares atentos, e muitos soldados. Organizavam filas, mantinham distância, falavam baixo entre si enquanto garantiam que ninguém se aproximasse além do permitido. Aquilo tudo existia por causa dele, e agora… por minha causa também. Minhas mãos suavam levemente enquanto eu ajeitava o vestido branco mais lindo que já vi. Sem rendas exageradas. Sem cauda. Um vestido que não gritava riqueza, mas também não pedia permissão para existir. Eu respirava fundo quando ouvi um burburinho diferente. As pessoas olharam e eu também. Natalie e Molly entraram juntas, de mãos dadas. As duas usavam vestidos delicados, cores suaves, cabelos penteados com cuidado. Cada uma carregava uma pequena almofada com uma aliança. Não havia música.
CAPÍTULO 14 Falcão Holly acordou, e por um segundo, ela não se moveu. Apenas respirou fundo, como quem testa o ar antes de lembrar onde está. Os olhos percorreram o teto alto, as cortinas pesadas, a luz suave que entrava pelas frestas. A lembrança veio inteira. Pude ver nos olhos dela. Natal. Natalie. O pedido. A ceia. Os presentes. O beijo inesperado. Ela sentou devagar na cama, puxando a camisola para baixo por reflexo, como se o gesto ainda fosse necessário ali. Abri a porta no mesmo instante. Entrei com uma bandeja nas mãos. Café, chá, pães e frutas. Nada exagerado. Ela me olhou surpresa. — Bom dia. — eu disse, simples. — Bom dia… — respondeu, a voz ainda rouca de sono. Coloquei a bandeja sobre a mesa próxima à janela. — Você dormiu bastante. Ela desceu da cama com cuidado, como se o chão ainda fosse incerto. Aproximou-se da janela, olhando o jardim iluminado, agora banhado pela luz do dia. — Eu achei que… — começou, mas parou. — Que eu teria t
CAPÍTULO 13 Falcão A água ainda escorria pelo meu corpo quando desliguei o chuveiro. O vapor embaçava o espelho, e por um instante eu quase não me reconheci ali. Não pelo rosto. Pela calma. Aquela calma estranha que não vinha da ausência de problemas, mas da presença de alguém. Vesti apenas a calça, enxugando o cabelo com a toalha enquanto saía do banheiro. E então vi que Holly dormia. De lado, o corpo recolhido, como quem passou a vida aprendendo a ocupar pouco espaço no mundo. A camisola branca estava levemente amassada, o tecido subindo um pouco na coxa, o ombro exposto. O cabelo claro espalhado pelo travesseiro como se tivesse sido largado ali sem cuidado — exatamente como ela. A respiração era lenta. Profunda. Estava exausta.Não só fisicamente, mas emocionalmente. Aproximei-me sem fazer ruído. Meus passos, que sempre ecoaram medo naquela casa, agora buscavam silêncio. Parei ao lado da cama. Observei o movimento sutil do peito subindo e descendo. O leve franzir
CAPÍTULO 12 Falcão — Sirvam o vinho. — ordenei com entusiasmo — E o suco de uva das crianças. Vamos comemorar. Taças foram erguidas, garrafas abertas, o tilintar do cristal misturando-se ao riso contido que ainda parecia proibido naquela casa. Foi então que senti a mão dela no meu braço. Olhei primeiro para os dedos — pequenos, quentes, quase inseguros — antes de erguer os olhos. Holly percebeu no mesmo instante e tentou puxar a mão de volta. — Falcão… — ela começou, mas se calou quando a encarei. Segurei a mão dela antes que fugisse. Ia apenas recolocá-la no meu braço, mostrar que estava tudo bem. Mas não fiz. Era pequena demais. Macia demais. Preferi manter ali, presa à minha. — Não tenha medo, Holly. — murmurei. — Me diga o que quer. Ela hesitou por um segundo. Depois se inclinou, aproximando o rosto do meu, e sussurrou como se estivesse cometendo um crime doce demais pra ser dito em voz alta: — Seus seguranças e funcionários… eles podem participar da ceia? Sent







