LOGINCAPÍTULO 4
Holly Winter O silêncio que ficou no quarto depois da pergunta dele — “Como fez isso?” — ainda pairava no ar quando respirei fundo, sorri como se eu fosse a pessoa mais equilibrada do planeta e respondi: — Eu só estou brincando com ela. É isso que crianças fazem… brincam. E antes que ele pudesse abrir a boca de novo para me ameaçar, cortar meu ar ou me transformar em neve compactada no tapete, eu o ignorei completamente e voltei para Natalie. Simples assim. Arrisquei a própria vida por pura birra? Sim. Me arrependo? Ainda não. Peguei a boneca no topo da prateleira, apertei um botão escondido e ela acendeu luzinhas, rodopiou e começou a cantar uma musiquinha animada. — Olha! — eu mostrei para a pequena com brilho nos olhos — A boneca dança e canta sozinha. É um espetáculo! Natalie ficou encantada. A boquinha aberta, as mãozinhas erguidas como se aquilo fosse a coisa mais mágica do mundo. Mas então, com uma voz tão frágil que eu quase desabei, ela disse: — Eu queria ser como ela, mamãe Noel. Queria dançar e cantar. Ai, caramba. Minha alma virou uma geleia quente. Eu me agachei diante dela, segurei suas mãos com carinho e sorri. — Ah, mas você vai. Eu tenho certeza que vai. E a gente ainda vai fazer uma coreografia juntas. Eu estava tão concentrada nela que não vi a sombra enorme se aproximando. A mão grande e quente de Falcão agarrou a minha, puxando com firmeza suficiente para me arrancar do tapete e quase da realidade. — Filha — ele disse, sem tirar os olhos de mim — a mamãe Noel vai buscar o saco de presentes. Ela já volta. Ele fechou a porta antes que eu pudesse protestar. E assim que a porta bateu THUMP, meu corpo foi prensado contra a parede fria do corredor. O impacto tirou meu fôlego. A mão dele já estava na minha garganta outra vez. Não apertando… mas avisando. O rosto dele ficou tão perto do meu que eu senti o calor da respiração e o perigo em cada milímetro. — Uma coisa é fazer ela sorrir — ele rosnou. — Outra bem diferente é criar falsas ilusões na cabeça da minha filha. Eu engoli seco, mas minha língua, essa desgraçada, tinha vida própria: — Quanta negatividade. Ela é uma criança. Tem a vida toda pela frente e você tentando matar as esperanças dela. Deveria se envergonhar. Um homem desse tamanho fazendo algo tão pequeno. Ele me prensou ainda mais. Meu corpo colou no dele de um jeito que eu não tive escolha. Senti seus músculos outra vez. Seu calor. Seu cheiro. E perigo… Deus, muito perigo. — Cala a porra da boca — ele rugiu. — Aqui quem manda sou eu. Você vai entrar e fazer o que eu mandar. Enquanto falava com ela, meu Consigliere já foi até onde você mora. Já tem sua família à vista. O chão sumiu debaixo de mim. — Minha família? — sussurrei. — Não vou te pagar se não obedecer. Vai seguir o que eu disser, do meu jeito. Eu abri a boca, tentando argumentar: — Mas você disse que se ela não levantasse eu não sairia viva daqui. Agora estou tentando e você— Parei, porque o rosto dele mudou. Se fechou de um jeito assustador. Assustador até para o padrão dele. E aí aconteceu uma coisa que eu não esperava. Ele pegou minhas mãos. E eu, óbvio, achei que ia quebrar meus pulsos, deslocar um ombro, arrancar um pedaço de mim pra mostrar quem mandava. Mas não. Ele aproximou o rosto do meu pescoço. A barba áspera roçando na minha pele. O cheiro dele… quente, masculino, forte. Foi passando o nariz bem numa área sensível. Meu estômago deu uma pirueta. Minha respiração falhou. Meu senso de autopreservação gritou: CORREEEEEE! Mas meu corpo? Ah, o traidor… Ele arrepiou todinho. — O que… o que você está fazendo? — sussurrei, completamente desestabilizada. Ele segurou minha cintura. Apertou como se quisesse marcar. Como se eu fosse… dele. — Eu gosto desse cheiro — murmurou, a voz grave vibrando no meu peito. Que merda. Que merda deliciosa. Eu queria xingar, empurrar, bater nele. Mas minha mente virou sopa e meu corpo… meu corpo não ajudava. Finalmente ele se afastou como se nada tivesse acontecido. Como se não tivesse acabado de transformar meus ossos em pudim. — Volte para o quarto — ordenou. — Descubra tudo o que ela quer de Natal. Nada além disso. Antes de eu responder, alguém apareceu atrás de mim. Um soldado. — Chefe, aqui está o saco com presentes que havia solicitado. Assim que tiver os novos pedidos, nossos homens que já estão espalhados irão providenciar. O saco estava pesado. Parecia cheio, muito cheio. Falcão virou as costas como se eu fosse irrelevante. Mas meu corpo, provavelmente sem permissão da minha consciência, se moveu. Eu segurei o braço dele. — Espera. Ele olhou para a minha mão tocando nele como se eu fosse uma louca suicida. Soltei na hora e respirei fundo. — Só quero saber se… se você levou a Natalie a um especialista? Um médico? Um fisioterapeuta? Alguém a examinou? Ele me encarou. Aquele olhar de fera presa que considera se deve morder ou não. — Não. — respondeu, frio. — Ninguém encosta na minha filha. Nem mesmo você. Agora faça seu trabalho, porra! — Saiu e me deixou sem saber o que fazer. Eu não ia desistir daquela garotinha. Nem que isso significasse enfrentar o homem mais temido de Chicago. E, inferno… Parecia que significaria exatamente isso.CAPÍTULO 17 Holly Winter Uma semana depois do casamento, percebo que a minha respiração mudou. Não é mais curta, nem apressada. Não acordo esperando o pior. Acordo esperando o dia. Estou na cozinha, encostada no balcão, observando Falcão do outro lado do ambiente enquanto ele termina o café. Ele não fala muito pela manhã. Nunca falou. Mas agora existe algo confortável no silêncio entre nós. Não pesa, não ameaça. A companhia dele me acalma de um jeito que eu jamais imaginei ser possível. Olho para ele e penso nisso com uma sinceridade que quase assusta: eu gosto da presença desse homem na minha vida. Não é só segurança. Não é só cuidado. É a forma como ele presta atenção sem parecer, como pergunta pouco, mas escuta tudo. As vozes das meninas cortam meus pensamentos. Natalie e Molly descem as escadas quase correndo, uniformes novos, mochilas nas costas, os cabelos presos com um cuidado que denuncia empolgação. Estão lindas para irem pra escola. Orgulhosas. Eu me aproxi
CAPÍTULO 16 Falcão A estrada até a casa de campo é tranquila. Cercada de árvores altas que engolem o mundo conforme avançamos. Holly observa tudo pela janela, os olhos atentos, curiosos. Quando o portão se abre, os faróis iluminam a fachada de pedra, o telhado inclinado, as luzes quentes acesas por dentro. A casa respira isolamento, segurança. Aqui é meu refúgio. O carro para. Abro a porta pra ela antes mesmo que pense em sair sozinha. — É lindo… — ela murmura, sincera. Vejo o encantamento nos olhos. E isso aperta alguma coisa no meu peito. Os funcionários já esperam. Tudo organizado. Mesa posta. Velas acesas. Um jantar que ninguém vai tocar além de nós. Eles nos cumprimentam em silêncio e saem em fileira assim que entramos. E então ficamos só nós dois. Viro-me devagar. Ela está no meio da sala, ainda com o vestido branco, as mãos unidas à frente do corpo. Parece pequena ali, frágil. E minha. — Agora você é minha. — digo, sem elevar a voz. Ela engole
CAPÍTULO 15 Holly Winter O cartório não parecia um cartório. Era grande demais. Não vi mais casais casando. E controlado demais para ser apenas um prédio público numa tarde comum. Havia homens por todos os lados — ternos escuros, posturas rígidas, olhares atentos, e muitos soldados. Organizavam filas, mantinham distância, falavam baixo entre si enquanto garantiam que ninguém se aproximasse além do permitido. Aquilo tudo existia por causa dele, e agora… por minha causa também. Minhas mãos suavam levemente enquanto eu ajeitava o vestido branco mais lindo que já vi. Sem rendas exageradas. Sem cauda. Um vestido que não gritava riqueza, mas também não pedia permissão para existir. Eu respirava fundo quando ouvi um burburinho diferente. As pessoas olharam e eu também. Natalie e Molly entraram juntas, de mãos dadas. As duas usavam vestidos delicados, cores suaves, cabelos penteados com cuidado. Cada uma carregava uma pequena almofada com uma aliança. Não havia música.
CAPÍTULO 14 Falcão Holly acordou, e por um segundo, ela não se moveu. Apenas respirou fundo, como quem testa o ar antes de lembrar onde está. Os olhos percorreram o teto alto, as cortinas pesadas, a luz suave que entrava pelas frestas. A lembrança veio inteira. Pude ver nos olhos dela. Natal. Natalie. O pedido. A ceia. Os presentes. O beijo inesperado. Ela sentou devagar na cama, puxando a camisola para baixo por reflexo, como se o gesto ainda fosse necessário ali. Abri a porta no mesmo instante. Entrei com uma bandeja nas mãos. Café, chá, pães e frutas. Nada exagerado. Ela me olhou surpresa. — Bom dia. — eu disse, simples. — Bom dia… — respondeu, a voz ainda rouca de sono. Coloquei a bandeja sobre a mesa próxima à janela. — Você dormiu bastante. Ela desceu da cama com cuidado, como se o chão ainda fosse incerto. Aproximou-se da janela, olhando o jardim iluminado, agora banhado pela luz do dia. — Eu achei que… — começou, mas parou. — Que eu teria t
CAPÍTULO 13 Falcão A água ainda escorria pelo meu corpo quando desliguei o chuveiro. O vapor embaçava o espelho, e por um instante eu quase não me reconheci ali. Não pelo rosto. Pela calma. Aquela calma estranha que não vinha da ausência de problemas, mas da presença de alguém. Vesti apenas a calça, enxugando o cabelo com a toalha enquanto saía do banheiro. E então vi que Holly dormia. De lado, o corpo recolhido, como quem passou a vida aprendendo a ocupar pouco espaço no mundo. A camisola branca estava levemente amassada, o tecido subindo um pouco na coxa, o ombro exposto. O cabelo claro espalhado pelo travesseiro como se tivesse sido largado ali sem cuidado — exatamente como ela. A respiração era lenta. Profunda. Estava exausta.Não só fisicamente, mas emocionalmente. Aproximei-me sem fazer ruído. Meus passos, que sempre ecoaram medo naquela casa, agora buscavam silêncio. Parei ao lado da cama. Observei o movimento sutil do peito subindo e descendo. O leve franzir
CAPÍTULO 12 Falcão — Sirvam o vinho. — ordenei com entusiasmo — E o suco de uva das crianças. Vamos comemorar. Taças foram erguidas, garrafas abertas, o tilintar do cristal misturando-se ao riso contido que ainda parecia proibido naquela casa. Foi então que senti a mão dela no meu braço. Olhei primeiro para os dedos — pequenos, quentes, quase inseguros — antes de erguer os olhos. Holly percebeu no mesmo instante e tentou puxar a mão de volta. — Falcão… — ela começou, mas se calou quando a encarei. Segurei a mão dela antes que fugisse. Ia apenas recolocá-la no meu braço, mostrar que estava tudo bem. Mas não fiz. Era pequena demais. Macia demais. Preferi manter ali, presa à minha. — Não tenha medo, Holly. — murmurei. — Me diga o que quer. Ela hesitou por um segundo. Depois se inclinou, aproximando o rosto do meu, e sussurrou como se estivesse cometendo um crime doce demais pra ser dito em voz alta: — Seus seguranças e funcionários… eles podem participar da ceia? Sent







