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Capítulo 2

Author: TJ
Na manhã seguinte, voltei à mansão dos Moretti para buscar meu passaporte e minha certidão de nascimento. Meu advogado precisava deles para concluir meu testamento, a procuração para decisões médicas e a declaração de destinação final dos meus restos mortais.

O novo segurança do portão não me reconheceu. Conferiu meu nome duas vezes e deixou uma das mãos perto da arma escondida sob o casaco.

— Seu nome não consta na lista de acesso, senhora.

Fiquei olhando, por entre as grades de ferro, para a casa onde passei os últimos dez anos. Antes que eu pudesse responder, o Sr. Romano, que administrava a casa dos Moretti havia muitos anos, veio apressado pela alameda de acesso.

O rosto dele tensionou ao me ver.

— Senhorita Adriana, minhas desculpas. A equipe de segurança foi trocada no mês passado, e a lista de acesso foi atualizada recentemente.

"Atualizada recentemente."

Pelo visto, sair daquela família não exigia uma despedida formal. Bastava retirarem meu nome de uma lista.

O Sr. Romano mandou abrir o portão e me conduziu para dentro. O saguão estava tomado por rosas brancas, e fotografias de Caesar cobriam as paredes, registrando toda a vida do cachorro, desde filhote até seus últimos dias.

Minha mãe ajeitava um porta-retrato de prata sobre a lareira. O retrato de família do meu aniversário de dezoito anos não estava mais lá.

Ao ouvir meus passos, ela se virou e ficou imóvel.

— Adriana?

Seu olhar percorreu minha pele pálida e o casaco que pendia, largo demais, dos meus ombros.

— O que faz aqui? A Isabella quase não dormiu ontem à noite. Eu só queria que você não a perturbasse de novo.

— Só vim buscar meu passaporte e minha certidão de nascimento. Meu advogado precisava deles.

— Que advogado?

— Não é nada demais. Vou embora assim que eu pegar os documentos.

Ela demorou o olhar no meu rosto. Pensei que finalmente fosse perceber que algo estava errado, mas ela apenas suspirou.

— Você ficou sem comer até emagrecer desse jeito por causa de um jazigo?

— Eu não fiquei sem comer de propósito.

— Então já passou da hora de parar de destruir a própria saúde para nos castigar. Você sabia o quanto a Isabella amava aquele cachorro.

Não dei mais explicações e segui.

No andar de cima, a porta do meu antigo quarto estava aberta. A cama e a escrivaninha não estavam mais lá. As paredes ganharam uma nova pintura num tom creme aconchegante, e vitrines de vidro agora se alinhavam pelo cômodo.

Isabella arrumava a coleira, os brinquedos e o comedouro de prata de Caesar dentro delas. Quando me viu, apertou contra o corpo a caixa que segurava.

— Eu sabia que esse era o seu quarto, mas o Caesar sempre dormia no sol, perto daquela janela. A mamãe achou que transformar o quarto num memorial para ele poderia me ajudar a sentir que ele ainda está aqui. — Disse com cuidado.

Foi então que notei um saco de lixo preto num canto, com uma orelha desbotada de coelho saindo pela abertura.

Ganhei aquele coelho de pelúcia do diretor do abrigo no meu aniversário de sete anos. Foi o único pertence que trouxe comigo quando voltei a ser uma Moretti.

Me abaixei para pegá-lo, mas minha mãe entrou na minha frente.

— Essas velharias estavam cobertas de poeira. Mandei os funcionários jogarem tudo fora.

— Esse coelho sempre foi meu.

— Você se mudou um ano atrás, Adriana. Não dava para deixar esse quarto intocado para sempre.

A voz dela ficou mais branda, como se tentasse argumentar com uma criança teimosa.

— A Isabella sempre foi sua irmã mais nova. Não custava tentar entender o que ela estava passando.

Entender.

Quando Isabella não conseguiu uma vaga no programa semestral em Roma, abri mão da minha para que ela não ficasse para trás. Quando a Fundação Moretti organizou o baile do centenário, ela ficou com medo de que a imprensa perguntasse por que o Don Moretti, de repente, tinha duas filhas. Fiquei de fora e deixei que Nova York continuasse acreditando que ela era a única princesa da família.

Agora, meu quarto se transformou num memorial para o cachorro dela.

Uma dor violenta rasgou meu estômago. Agarrei o batente da porta enquanto a náusea subia pela garganta, mas não consegui me segurar e vomitei.

O sangue escuro respingou sobre o álbum de recordações aberto, manchando a última foto de Caesar.

Isabella gritou:

— A foto dele!

Meus joelhos cederam, e minha mãe me segurou pelo braço antes que eu caísse no chão.

— Adriana! — O rosto dela perdeu a cor ao ver o sangue.

— O que aconteceu?

— O tumor... — Eu mal conseguia respirar.

— Começou a sangrar.

Por um segundo, o tempo pareceu parar, e ela ficou apavorada. Então Isabella se jogou nos braços dela, aos prantos.

— Ela está mentindo!

Minha mãe se virou para ela.

— O quê?

— Aquilo é sangue falso! Ela deve estar com uma daquelas cápsulas de sangue cenográfico escondida na boca. — Disse Isabella, com a voz trêmula.

Ela apontou para o álbum arruinado.

— Ela veio direto para o quarto do Caesar e vomitou na última foto que eu tirei dele. Ela planejou tudo.

— Eu não...

— Por que ela faria isso justo aqui se não fosse de propósito? — Perguntou Isabella, chorando.

— Ela já falsificou um laudo de câncer para nos deixar com a consciência pesada. Agora, usou sangue falso porque ninguém acreditou nela.

Minha mãe voltou a me encarar. Por um instante, tive a tola esperança de que ela finalmente acreditasse em mim, mas o medo em seus olhos deu lugar à desconfiança.

Com o peito subindo e descendo de raiva, ela ergueu a mão e me deu um tapa no rosto.

— Já passou dos limites! A Família Moretti nunca teve uma filha que mentisse com a mesma facilidade com que respirava.

Era patético que, depois de tudo, um único olhar assustado dela ainda bastasse para me fazer imaginar que minha mãe talvez me escolhesse.

Meu pai e Luca entraram pouco depois. Meu pai observou o sangue, o álbum arruinado e o rosto de Isabella molhado de lágrimas.

— Essa mentira de novo? Adriana, eu sabia do seu histórico de úlceras no estômago. Mas câncer?

Ele se virou para os funcionários.

— Quero todos os pertences dela que ainda estão aqui empacotados. Se esta casa a deixou tão infeliz, não há motivo para manter um quarto para ela.

Minhas roupas, meus livros, meus prêmios e o coelho foram colocados em duas caixas. Desci com elas nos braços, sem que ninguém me impedisse.

Lá fora, a chuva já caía. O Sr. Romano estendeu a mão para pegar um guarda-chuva, mas a voz do meu pai o deteve.

— Romano, o padre Vitale chegou para a cerimônia em memória de Caesar. A Isabella precisa de você lá dentro.

O Sr. Romano hesitou, murmurou um pedido de desculpas e voltou para dentro.

Eu estava quase chegando ao portão quando minha mãe veio correndo atrás de mim.

— Adriana.

Parei. Ela observou a chuva encharcando o papelão e, em seguida, o sangue na minha manga.

Por um instante, pensei que me pediria para ficar. Em vez disso, ela disse:

— Eu quero a pasta de documentos dos Moretti de volta assim que você terminar. Os documentos pertencem à família.

Assenti.

De volta ao apartamento, abri a pasta de couro. Dentro dela estavam meu passaporte, a nova via da minha certidão de nascimento e a ordem judicial que restabeleceu meu nome dez anos antes.

Adriana Moretti.

Aos doze anos, acreditei que aquele nome significava que eu finalmente tinha um lugar no mundo. Agora, não passava de tinta num documento jurídico.

Tirei o passaporte e a certidão de nascimento e, depois, guardei tudo de volta na pasta. Um entregador a levou de volta à mansão naquela mesma tarde.

O bilhete que acompanhou a entrega continha uma única frase:

"Tudo o que pertencia aos Moretti foi devolvido."

O que eles não sabiam era que a filha que deveria pertencer àquela família só tinha mais sete dias de vida.

Logo, não restaria filha alguma de volta.
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