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Capítulo 4

Author: TJ
Na manhã do funeral de Caesar, Isabella publicou um vídeo no Reels do Instagram. O jazigo sob o velho carvalho estava cercado de rosas brancas e girassóis.

Meu pai carregava a urna de prata. Minha mãe estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, enquanto Luca segurava um guarda-chuva sobre Isabella. A medalha de São Bento da minha avó, aquela que deveria me proteger, estava amarrada ao redor da urna de Caesar, bem no meio.

A lápide trazia uma única frase:

PARA SEMPRE UM MEMBRO DA NOSSA FAMÍLIA.

Os comentários elogiavam os Moretti por honrarem até o menor membro da família. Assisti por alguns segundos e desliguei o celular.

Meus analgésicos acabaram, e a dor insuportável no estômago não dava trégua desde a noite anterior. Coloquei o vestido simples cor de marfim que escolhi para minha cremação e deixei o testamento e a declaração de destinação final dos meus restos mortais sobre a mesa de jantar.

Naquele dia, eu precisava aprovar minha lápide.

Carros pretos dos Moretti lotavam a entrada do Cemitério São Miguel. Um funcionário me avisou que o caminho perto do velho carvalho estava fechado para o funeral de Caesar e pediu que eu seguisse pela trilha ao norte.

Os soluços de Isabella vinham do outro lado da colina.

— Eu só queria que você voltasse para mim na próxima vida, Caesar. Você jamais deixará de ser minha família.

Minha mãe a abraçava e sussurrava sem parar que Caesar nunca foi embora de verdade.

Não olhei para trás.

Meu jazigo ficava a cerca de oitocentos metros dali. Caesar tinha flores, convidados e fotógrafos. Eu tinha dois ciprestes e um pedaço de terra onde o sol nunca chegava.

O diretor do cemitério me entregou o formulário de aprovação da lápide.

— Pode conferir tudo com atenção, senhorita Moretti?

Ele hesitou antes de perguntar:

— Não quer mesmo deixar um contato da família?

Assinei meu nome.

— Não. Eles já têm compromissos para hoje.

A dor me atingiu antes que eu pudesse devolver a caneta. Senti alguma coisa se rasgar no fundo do estômago.

Meus joelhos bateram nos degraus de pedra enquanto o sangue inundava minha boca e escorria pela frente do vestido cor de marfim. O diretor me amparou antes que minha cabeça batesse no chão.

Ele ligou para a emergência, no 911, depois pegou meu celular e discou para minha mãe.

— Sua filha passou mal e caiu no Cemitério São Miguel. Ela perdeu muito sangue. Precisamos da senhora aqui imediatamente.

Pelo viva-voz, ouvi Isabella chorando e o padre recitando a oração do sepultamento. Antes que minha mãe pudesse dizer qualquer coisa, a voz chorosa de Isabella veio pelo telefone.

— Ela também usou sangue falso ontem. Tudo o que ela quer é estragar o funeral do Caesar de novo.

— Estamos no meio de um sepultamento, não podemos sair agora. — Minha mãe respondeu por fim.

Então, ela desligou.

O diretor encarou meu celular, incrédulo, depois ligou para meu pai.

— Don Moretti, sua filha passou mal e caiu. Ela pode estar com uma hemorragia interna maciça.

— Agora ela convenceu até um funcionário do cemitério a continuar a encenação? — A voz do meu pai ficou fria.

— Avise a Adriana que atrapalhar o funeral do Caesar não fará ninguém sentir pena dela.

A chamada foi encerrada.

Quando o diretor ligou para Luca, a dor já era tanta que eu não conseguia falar. Ele colocou o celular ao meu lado e ativou o viva-voz.

Luca atendeu impaciente.

— Adriana, ainda não bastou tudo o que você fez? Ela está se despedindo do Caesar. — Continuou.

— Precisa mesmo roubar a atenção de todo mundo até num dia como hoje?

Ouvi alguém gritar que Isabella desmaiou.

— Isabella!

A ligação terminou imediatamente.

Menos de um minuto depois, a ambulância chegou. Os socorristas cortaram minha manga, colocaram um acesso venoso e me ergueram para a maca.

Minha pressão estava tão baixa que o monitor não conseguia registrá-la.

Um deles procurou um documento de identificação na minha bolsa e encontrou o laudo do Dr. Bennett.

— Câncer gástrico em estágio quatro! Hemorragia digestiva alta ativa! — Anunciou, ordenando em seguida que avisassem o pronto-socorro e pedissem sangue.

Um dos socorristas pegou meu celular e ligou de novo para Luca. A chamada foi recusada antes do segundo toque.

Segundos depois, uma mensagem apareceu na tela.

[Já passou da hora de parar de mentir, Adriana.

Se você arruinar o funeral do Caesar, nunca mais poderá se dizer minha irmã nem filha da Família Moretti.]

Naquele instante, ouvi o disparo do canhão da cerimônia vindo do gramado leste.

Os Moretti davam uma despedida grandiosa a um cachorro enquanto eu partia sozinha.

Estranhamente, eu não os odiava. Em vez disso, lembranças passaram pela minha mente.

Meu pai cancelou uma reunião com as famílias de Chicago para passar meu aniversário de treze anos comigo. Minha mãe se sentava ao lado da minha cama depois de cada pesadelo e passava os dedos pelo meu cabelo até eu adormecer. Luca dormia diante da porta do meu quarto, com uma arma apoiada no colo porque eu tinha medo que alguém me levasse de novo.

Um dia, eles me amaram. Em algum momento, as lágrimas de Isabella apagaram tudo o que um dia nos uniu.

Me perguntei se eles se arrependeriam ao descobrir que eu disse a verdade. Mas isso já não importava.

Minhas pálpebras ficaram pesadas. Se outra vida me esperava, eu tinha apenas um desejo.

"Por favor, eu só queria que a gente nunca mais se encontrasse." pensei comigo mesma.

O médico finalmente encerrou as manobras de reanimação e falou em voz baixa:

— Adriana Moretti. Hora do óbito: 11h47.
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