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Não houve funeral formal. Só a Sra. Evans, diretora do abrigo em que fui criada, teve autorização para acompanhar meu sepultamento.Ela já estava na casa dos setenta anos. Apoiando-se com força na bengala, percorreu a longa trilha ao norte até meu jazigo. Depois, colocou um buquê de margaridas sob meu nome.— Adriana, eu vim te ver. — Sua voz tremia. — Perdão por não conseguir manter você comigo.Minha mãe estava afastada, chorando tanto que mal se mantinha de pé. Só então descobriu que eu fazia doações em segredo para o abrigo todos os anos.Eu vendia as joias e os presentes de grife dos Moretti para pagar os estudos de crianças que não tinham pais. Nunca quis a fortuna dos Moretti nem o lugar de Isabella, só queria um pai e uma mãe, um lar que fosse realmente meu.Depois do meu sepultamento, meu pai cancelou o Jardim Memorial Caesar. Os recursos que restaram foram doados a um programa que custeava o tratamento e os medicamentos de pacientes de baixa renda com câncer gástrico.
Após sair do hospital, minha família foi ao meu apartamento. O silêncio lá dentro os assustou.Sete frascos vazios de remédios prescritos estavam sobre a mesa. Vários analgésicos esmagados ainda permaneciam espalhados pelo chão. Luca se agachou e reconheceu os comprimidos que derrubou da minha mão.Meu pai abriu a geladeira. Não havia comida, apenas meia garrafa de água.Ele me acusou de desperdiçar dinheiro com tratamento médico. Nunca soube que, nos meus últimos dias, eu mal tinha dinheiro para comprar analgésicos.Minha mãe parou ao lado das duas caixas de papelão perto da parede. Ali estava tudo o que os funcionários tiraram do meu quarto. Minhas roupas ainda estavam úmidas da chuva. Meus certificados e prêmios secaram grudados uns nos outros, formando uma pilha arruinada. Por cima, estava o coelho de pelúcia desbotado, com o pelo sujo de lama.Ela pegou o coelho e o apertou contra o peito. Lembrou-se da força com que eu me agarrava a ele quando voltei para casa pela primeira
Minha mãe continuou ao lado da gaveta do necrotério, chamando meu nome sem parar.— Adriana, a mamãe chegou.Ela afastou o cabelo do meu rosto.— Eu só queria que abrisse os olhos e olhasse para mim, meu amor.Seus dedos começaram a tremer quando tocaram o sangue seco no canto da minha boca. Mas os mortos não podiam responder. Por mais que ela me chamasse, eu nunca mais abriria os olhos.Meu pai estava por perto, folheando meu prontuário, uma página de cada vez. O exame mais antigo era de seis meses antes.No dia em que recebi o diagnóstico, mandei mensagem para os três. Minha mãe me mandou parar de tentar fazê-la se sentir culpada. Luca chamou aquilo de mais uma tentativa chata de chamar atenção. Meu pai nem abriu a mensagem.O Dr. Bennett apontou para o histórico de pagamentos.— Adriana aceitou fazer o tratamento depois do diagnóstico. Mas, quando a família cancelou a autorização de uso da conta e pediu o reembolso, ela ficou sem condições de comprar os medicamentos. Insisti
A morte não me fez desaparecer. Minha alma permaneceu suspensa acima da cama do hospital enquanto o médico cobria meu corpo com um lençol branco.Uma enfermeira encontrou meu documento de identificação na bolsa e ligou várias vezes para minha família. O celular da minha mãe estava no modo silencioso por causa do funeral de Caesar. Meu pai recusou duas chamadas e depois bloqueou o número do hospital.Luca respondeu com uma única mensagem:[Resolvemos isso depois do funeral.]Sem nenhum familiar disposto a ir até lá, o hospital se preparou para levar meu corpo ao necrotério.Enquanto isso, no Cemitério São Miguel, o sepultamento de Caesar estava quase no fim. Isabella estava ajoelhada diante da lápide, soluçando tanto que mal conseguia respirar. Minha mãe a abraçava com força.— Eu só queria que você não chorasse, meu amor. Se o Caesar pudesse te ver assim, ficaria de coração partido.Luca retirou a medalha de São Bento da minha avó da urna e a colocou dentro da sepultura.— Essa
Na manhã do funeral de Caesar, Isabella publicou um vídeo no Reels do Instagram. O jazigo sob o velho carvalho estava cercado de rosas brancas e girassóis.Meu pai carregava a urna de prata. Minha mãe estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, enquanto Luca segurava um guarda-chuva sobre Isabella. A medalha de São Bento da minha avó, aquela que deveria me proteger, estava amarrada ao redor da urna de Caesar, bem no meio.A lápide trazia uma única frase:PARA SEMPRE UM MEMBRO DA NOSSA FAMÍLIA.Os comentários elogiavam os Moretti por honrarem até o menor membro da família. Assisti por alguns segundos e desliguei o celular.Meus analgésicos acabaram, e a dor insuportável no estômago não dava trégua desde a noite anterior. Coloquei o vestido simples cor de marfim que escolhi para minha cremação e deixei o testamento e a declaração de destinação final dos meus restos mortais sobre a mesa de jantar.Naquele dia, eu precisava aprovar minha lápide.Carros pretos dos Moretti lotavam
Três dias após cancelar o pagamento do meu tratamento, meu pai bloqueou meu acesso à conta da Família Moretti destinada a despesas médicas. Descobri isso na farmácia do hospital, quando o cartão foi recusado duas vezes.Depois de pagar pelo meu sepultamento e pela cremação, só restou dinheiro na minha conta pessoal para quatro dias de analgésicos.O farmacêutico examinou a receita.— Quer que eu reserve o restante para você?Balancei a cabeça.— Quatro dias bastam.Depois disso, eu não precisaria mais dos remédios.Uma televisão instalada acima da área de espera exibia uma entrevista com meu pai. A legenda o identificava como Matteo Moretti, magnata do setor imobiliário e presidente da Fundação Moretti.Diante de uma parede de câmeras, ele anunciou uma doação de três milhões de dólares para construir o Jardim Memorial Caesar Moretti no maior hospital veterinário de Manhattan.— Animais sempre foram família. O amor deles merece ser lembrado com dignidade. — Declarou aos repórte







