Share

Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia
Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia
Author: TJ

Capítulo 1

Author: TJ
Assim que quitei o saldo do meu jazigo, uma foto enviada por Isabella apareceu no meu celular.

Ela estava junto ao jazigo que ficava sob o velho carvalho, o qual eu havia escolhido primeiro, e segurava contra o peito a urna de prata do cachorro. Meus pais estavam com Isabella, posicionados como guarda-costas, um de cada lado. Atrás deles, meu irmão conversava com um escultor ao lado de três placas de mármore importado da Itália.

Logo depois da foto, Isabella mandou um áudio.

— Adriana, o Caesar já morreu. Por favor, eu só queria que você não me obrigasse a disputar com você até o lugar onde eu ia enterrá-lo.

A voz dela tremia com delicadeza, um tanto quanto comovente. Qualquer outra pessoa poderia acreditar que era ela quem estava sendo maltratada.

Apaguei a mensagem e a bloqueei. Depois, saí do Cemitério São Miguel e voltei para o hospital.

O Dr. Bennett me esperava no consultório, com meus exames de imagem mais recentes abertos na tela.

— Quanto tempo os exames me deram?

Ele tirou os óculos.

— No máximo, uma semana. Talvez menos.

Assenti como se ele comentasse a previsão do tempo. O Dr. Bennett deslizou uma pasta pela mesa, na minha direção.

— Sua família não veio? Eles precisavam entender a gravidade do seu estado.

Um sorriso amargo surgiu nos meus lábios. Eu havia contado a eles sobre o diagnóstico inúmeras vezes, mas nunca acreditaram em mim.

Para eles, o câncer terminal não passava de mais uma mentira para disputar com Isabella o amor da família. Minha mãe me acusou de usar um laudo falso para castigá-la. Luca disse que qualquer um podia baixar um laudo de câncer na internet e trocar o nome, enquanto meu pai nem se deu ao trabalho de ler o documento.

Os Moretti confiavam mais nas lágrimas de Isabella do que no diagnóstico de um oncologista.

Uma batida na porta nos interrompeu, e um administrador do hospital entrou com um documento nas mãos.

— Senhorita Moretti, minhas desculpas, mas o escritório da Família Moretti retirou a autorização para seus cuidados paliativos particulares. O cancelamento também atingiu o serviço de enfermagem que começaria hoje à noite.

Ergui os olhos.

— Quem retirou a autorização?

— O escritório da Família Moretti. O nome do Don Moretti constava como responsável financeiro.

Por um instante, fiquei em silêncio. Era bem provável que meu pai estivesse tentando me castigar por tentar tomar o jazigo de Caesar. Ele estava mesmo convencido de que o diagnóstico era uma falsificação minha e não via motivo para desperdiçar o dinheiro da família com mais uma encenação.

— Entendi. — Respondi baixinho.

Voltei para o apartamento de dois quartos em Tribeca, onde eu morava havia um ano. O imóvel pertencia a uma das empresas imobiliárias dos Moretti e contava com porteiro, bancadas de mármore e vista para o rio Hudson.

Tinha tudo, menos a sensação de estar em casa.

Meu pai me mandou para lá após Isabella dizer que já não conseguia respirar debaixo do mesmo teto que eu. Mas nem sempre foi assim, houve uma época em que meus pais morriam de medo de me perder.

Aos doze anos, desmaiei com febre num abrigo infantil mantido pela Fundação Moretti. Por acaso, minha mãe estava visitando o abrigo naquela tarde e viu a marca de nascença em forma de meia-lua atrás da minha orelha.

A marca era idêntica à que aparecia em todos os avisos de desaparecimento que os Moretti fizeram circular discretamente durante doze anos. Um exame de DNA confirmou o que ela já sabia: eu era Adriana Moretti, a filha do Don mais temido de Nova York, a criança que desapareceu do próprio berço.

Minha mãe passou duas noites ao lado da minha cama no hospital. Quando o resultado saiu, ela me abraçou com tanta força que eu mal conseguia respirar. Disse que nunca desistiu de me procurar e prometeu passar o resto da vida compensando cada ano que perdemos.

Por um tempo, ela cumpriu a promessa que fez.

Meu pai incluiu meu nome no fundo fiduciário da Família Moretti e me apresentou como sua filha a todos os capitães da máfia em Nova York. Luca se mudou para o quarto em frente ao meu porque eu tinha medo de dormir sozinha. Minha mãe se sentava ao meu lado sempre que eu tinha um pesadelo, até que parei de acordar convencida de que estava de volta ao abrigo.

Eles me amavam, e eu tinha certeza disso. Então, Isabella começou a desmoronar.

Isabella foi adotada um ano depois que eu desapareci. Quando voltei, fazia onze anos que ela chamava meus pais de "mamãe e papai", e tratava meu irmão como se fosse seu irmão biológico.

Quando cheguei em casa, ela parou de comer. Acabou desmaiando e os médicos encontraram um bilhete debaixo do travesseiro dela:

"Desde que a Adriana voltou para casa, nenhum de vocês precisou mais de mim."

Minha mãe chorou por três dias. Luca me pediu que não aparecesse nos jantares em família até que Isabella se sentisse mais segura. Meu pai me lembrou de que ela continuava sendo filha deles e de que minha volta não diminuía seu lugar na família.

Até minha mãe me pediu paciência. Eu devia dar tempo para Isabella entender que não estava ali para tomar o lugar dela.

No começo, aqueles pedidos pareceram temporários, então concordei. Mas, sempre que Isabella chorava, me pediam que eu abrisse mão de mais alguma coisa. Com o tempo, deixaram de pedir e passaram a esperar que eu simplesmente cedesse espaço.

Esperei dez anos para que a família que um dia me amou voltasse a me escolher. Agora, só me restavam sete dias e, mesmo assim, eles continuavam não me escolhendo.

Naquela noite, liguei para uma funerária. Cuidar dos preparativos da minha própria morte foi mais fácil do que imaginei.

Escolhi a cremação direta, sem velório e sem cerimônia na igreja. Uma urna simples cor de marfim e uma única fotografia para os registros do cemitério. Nada de obituário.

Para a lápide, escolhi apenas meu nome, sem "filha amada" ou "irmã querida".

O agente funerário fez uma pausa ao chegar à última parte do formulário.

— Quem deveríamos contatar para a entrega dos seus restos mortais?

Fiquei olhando para a linha em branco. Os Moretti sepultavam cada membro da família com padres, rosas e homens armados de guarda nos portões do cemitério, mas ninguém viria me buscar.

— Eu queria que enviassem diretamente para o Cemitério São Miguel. O sepultamento já foi pago. — Respondi.

— Precisaríamos de uma declaração assinada com suas instruções para a destinação final dos seus restos mortais.

— Poderia me enviar?

O documento chegou poucos minutos depois, ele autorizava a funerária a cremar meu corpo e transferir minhas cinzas diretamente para o cemitério. Não seria necessário esperar a permissão da minha família.

Assinei meu nome no fim da página.

Adriana Moretti.

Pela primeira vez na vida, decidi sozinha onde era o meu lugar.
Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia   Capítulo 8

    Não houve funeral formal. Só a Sra. Evans, diretora do abrigo em que fui criada, teve autorização para acompanhar meu sepultamento.Ela já estava na casa dos setenta anos. Apoiando-se com força na bengala, percorreu a longa trilha ao norte até meu jazigo. Depois, colocou um buquê de margaridas sob meu nome.— Adriana, eu vim te ver. — Sua voz tremia. — Perdão por não conseguir manter você comigo.Minha mãe estava afastada, chorando tanto que mal se mantinha de pé. Só então descobriu que eu fazia doações em segredo para o abrigo todos os anos.Eu vendia as joias e os presentes de grife dos Moretti para pagar os estudos de crianças que não tinham pais. Nunca quis a fortuna dos Moretti nem o lugar de Isabella, só queria um pai e uma mãe, um lar que fosse realmente meu.Depois do meu sepultamento, meu pai cancelou o Jardim Memorial Caesar. Os recursos que restaram foram doados a um programa que custeava o tratamento e os medicamentos de pacientes de baixa renda com câncer gástrico.

  • Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia   Capítulo 7

    Após sair do hospital, minha família foi ao meu apartamento. O silêncio lá dentro os assustou.Sete frascos vazios de remédios prescritos estavam sobre a mesa. Vários analgésicos esmagados ainda permaneciam espalhados pelo chão. Luca se agachou e reconheceu os comprimidos que derrubou da minha mão.Meu pai abriu a geladeira. Não havia comida, apenas meia garrafa de água.Ele me acusou de desperdiçar dinheiro com tratamento médico. Nunca soube que, nos meus últimos dias, eu mal tinha dinheiro para comprar analgésicos.Minha mãe parou ao lado das duas caixas de papelão perto da parede. Ali estava tudo o que os funcionários tiraram do meu quarto. Minhas roupas ainda estavam úmidas da chuva. Meus certificados e prêmios secaram grudados uns nos outros, formando uma pilha arruinada. Por cima, estava o coelho de pelúcia desbotado, com o pelo sujo de lama.Ela pegou o coelho e o apertou contra o peito. Lembrou-se da força com que eu me agarrava a ele quando voltei para casa pela primeira

  • Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia   Capítulo 6

    Minha mãe continuou ao lado da gaveta do necrotério, chamando meu nome sem parar.— Adriana, a mamãe chegou.Ela afastou o cabelo do meu rosto.— Eu só queria que abrisse os olhos e olhasse para mim, meu amor.Seus dedos começaram a tremer quando tocaram o sangue seco no canto da minha boca. Mas os mortos não podiam responder. Por mais que ela me chamasse, eu nunca mais abriria os olhos.Meu pai estava por perto, folheando meu prontuário, uma página de cada vez. O exame mais antigo era de seis meses antes.No dia em que recebi o diagnóstico, mandei mensagem para os três. Minha mãe me mandou parar de tentar fazê-la se sentir culpada. Luca chamou aquilo de mais uma tentativa chata de chamar atenção. Meu pai nem abriu a mensagem.O Dr. Bennett apontou para o histórico de pagamentos.— Adriana aceitou fazer o tratamento depois do diagnóstico. Mas, quando a família cancelou a autorização de uso da conta e pediu o reembolso, ela ficou sem condições de comprar os medicamentos. Insisti

  • Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia   Capítulo 5

    A morte não me fez desaparecer. Minha alma permaneceu suspensa acima da cama do hospital enquanto o médico cobria meu corpo com um lençol branco.Uma enfermeira encontrou meu documento de identificação na bolsa e ligou várias vezes para minha família. O celular da minha mãe estava no modo silencioso por causa do funeral de Caesar. Meu pai recusou duas chamadas e depois bloqueou o número do hospital.Luca respondeu com uma única mensagem:[Resolvemos isso depois do funeral.]Sem nenhum familiar disposto a ir até lá, o hospital se preparou para levar meu corpo ao necrotério.Enquanto isso, no Cemitério São Miguel, o sepultamento de Caesar estava quase no fim. Isabella estava ajoelhada diante da lápide, soluçando tanto que mal conseguia respirar. Minha mãe a abraçava com força.— Eu só queria que você não chorasse, meu amor. Se o Caesar pudesse te ver assim, ficaria de coração partido.Luca retirou a medalha de São Bento da minha avó da urna e a colocou dentro da sepultura.— Essa

  • Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia   Capítulo 4

    Na manhã do funeral de Caesar, Isabella publicou um vídeo no Reels do Instagram. O jazigo sob o velho carvalho estava cercado de rosas brancas e girassóis.Meu pai carregava a urna de prata. Minha mãe estava com os olhos vermelhos de tanto chorar, enquanto Luca segurava um guarda-chuva sobre Isabella. A medalha de São Bento da minha avó, aquela que deveria me proteger, estava amarrada ao redor da urna de Caesar, bem no meio.A lápide trazia uma única frase:PARA SEMPRE UM MEMBRO DA NOSSA FAMÍLIA.Os comentários elogiavam os Moretti por honrarem até o menor membro da família. Assisti por alguns segundos e desliguei o celular.Meus analgésicos acabaram, e a dor insuportável no estômago não dava trégua desde a noite anterior. Coloquei o vestido simples cor de marfim que escolhi para minha cremação e deixei o testamento e a declaração de destinação final dos meus restos mortais sobre a mesa de jantar.Naquele dia, eu precisava aprovar minha lápide.Carros pretos dos Moretti lotavam

  • Sete Dias Antes da Morte da Princesa da Máfia   Capítulo 3

    Três dias após cancelar o pagamento do meu tratamento, meu pai bloqueou meu acesso à conta da Família Moretti destinada a despesas médicas. Descobri isso na farmácia do hospital, quando o cartão foi recusado duas vezes.Depois de pagar pelo meu sepultamento e pela cremação, só restou dinheiro na minha conta pessoal para quatro dias de analgésicos.O farmacêutico examinou a receita.— Quer que eu reserve o restante para você?Balancei a cabeça.— Quatro dias bastam.Depois disso, eu não precisaria mais dos remédios.Uma televisão instalada acima da área de espera exibia uma entrevista com meu pai. A legenda o identificava como Matteo Moretti, magnata do setor imobiliário e presidente da Fundação Moretti.Diante de uma parede de câmeras, ele anunciou uma doação de três milhões de dólares para construir o Jardim Memorial Caesar Moretti no maior hospital veterinário de Manhattan.— Animais sempre foram família. O amor deles merece ser lembrado com dignidade. — Declarou aos repórte

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status